no meio dessa confusão

mas isso é tudo um grande
engano

ontem eu era só um pequeno
abajour tentando
ganhar a atenção de alguém
iluminando um pouquinho
suas opiniões e falando
o que eu sei que você gosta
de ouvir
de quem você
acha que não te
conhece
 
hoje sou uma criança
amanhã talvez eu seja a minha mãe
ou a Maëlle,
que eu conheci numa praça
e tive desejo de ter como
filha

mas passou

o que você faz quando
acha que os únicos que te
entendem nunca lerão
sequer uma palavra
sua?

como você lida com a falta de horas
e as horas que não passam com
receio de morrer num abismo
de números estraçalhados como
os nossos brinquedos que um dia
foram jogados fora
sem

querer?

você reza pra Deus, ou pra sua Tia
que morreu de tanto

sorrir?

você alivia sua própria
presença com bicicleta mato
queimado pinot
noir ou uma receita
azul?

você se interessa por
partidos e outras barbaridades?
coloca a mão embaixo da torneira

fechada

pra ter
certeza?

morde a boca
sem

saber

quando ouve o
nome de alguém, querendo
na verdade
morder a
boca desse
Alguém? 

podíamos ir ao Sena
juntas
caminhar, mesmo,
como duas coreaninhas
encantadas com flores
mas sem muito objetivo, porque
os melhores dias da minha vida
não tinham pretensão nenhuma, queria
tentar de novo

eu curaria suas dores
de mentirinha
só por pouquinho
tempo, e você ficaria
feliz, achando que eu era
tudo
o que você
precisava
 
eu falaria das diferenças
entre São Paulo e Paris
talvez possamos
passar por ruas de pedras onde
moças
andam de vestidos que já nasceram
costurados nelas
com seios que não se importam
em ser
ou contar uma
vida

nos perguntaremos se os sapatos pendurados
nos fios elétricos
pertencem à pessoas
que ainda acreditam
em democracia;
se seus pés cresceram e os sapatos
passaram a ser
inúteis
demais
até para irem pro
lixo;
ou se as pessoas jogaram os sapatos pro alto
para oferecer a um orixá que nunca
lhes deu presente de natal,
um sinal de existência
 
é difícil te dizer depois de tudo,

mas

eu não sou
eu

mesma

é por isso que tento
me expressar de alguma
forma que possa
me tornar
menos

outra ou menos
você

eu nunca fui menina, mulher nem
nada dessas coisas que eu deveria ter sido
eu serei, um dia, disso não há dúvidas,
se quiser, também podemos falar disso e de
outras invenções minhas
mas o que eu sou hoje é água clara
em busca de sal
pra virar
mar
e te abraçar quando
você vier nadar
em mim depois de um acontecimento
que te deixará
sem

chão

e enquanto não consigo subir
no último andar
de Sacre Cœur
e gritar pro mundo que eu não sou
nenhum dos meus
personagens
e não serei o que me premiarão
por ter
sido com sucesso

e enquanto
eu não puder
jogar fogo pra todos os lados
dançando que nem águas de março
pra ver todas as noites de dor
queimando afogadas
e um início de amor molhado
à luz de velas,
eu me apaixono pelos meus

medos

que, ao menos
me mantêm bem

viva

e atenta às mudanças da
Lua

ela sim, ouvi dizer
é responsavel por
grandes
Revoluções Naturais

– até lá,
posso te contar
algumas
histórias

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Amélie

Amélie
te cantaria
tudo o que tivesse no bolso
ela afinaria o ukulele
e tocaria sem parar
de Bobigny
à Place d’Italie

ela não pararia por palmas, notas
cartões de visita, troca
de turbantes e dentes pretos
por terno e gravata
de sobrevivência e jantar na mesa
por alguns outros
investimentos mais rentáveis

e nem mesmo de Bobigny
por Place d’Italie
ou 20 cigarros
já enrolados
que viessem com
isqueiro e promessa
de 20 outros
mais

Amélie te cantaria
todas as canções
até em chinês
até de gente que ela não sabe
de onde é
e nem sabe cantar
o dedo até sangraria
e as unhas se lascariam
ao meio de lado na diagonal
em seu ukulele

ela aguentaria
a tendinite e o acúmulo de água
e outras substanciazinhas
nos pés de pão
seguindo um repertório
inocentemente estratégico

Amélie botaria
seu melhor vestido
seu melhor sutiã
emprestaria o colar de prata
da Annabel e até
depilaria a perna inteira
pensando na sua
mão tão
curiosa

mas você não viria

e Amélie
na segunda
canção
perdeu a voz, o compasso
e, com gosto de rímel
na língua
desceu na próxima
estação

Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.

Entre conhecimentos e fumaças

Vasinhos floridos e bem instalados em janelas de casas que nunca deixaram de existir; portinhas de madeira simples, meio descascadas mas bem acabadas, escondendo por trás delas restaurantes não muito conhecidos por pura injustiça; cachorros grisalhos e órfãos, muito mais empáticos do que grande parte daqueles que se julgavam analistas; e alguns cafés e comércios necessários para dar charme e vontade de gastar um pouco. A largura da rua era do mesmo tamanho do que era possível aguentar naquele momento, e daí a conexão. Era tudo bem minimalista, bem detalhado, bem desenhado. Não mais. E a cidade moldava, a cada passo, uma cena que coubesse nas costas. As formas se confundiam com risos de crianças de todas as cores, e com a harpa de uma estudante que precisava pagar o aluguel e algumas dívidas a mais, que acabou fazendo com aquele tal de Bernard. Os espaços entre cada um dos paralelepípedos entregavam muita história. Ricos e pobres se trombavam por graça da rua, que ria escondida. O melhor da solidão era observar o barulho do banal em um silêncio raro. No terraço estreito de um daqueles cafés sem pretensão de ser nada mais do que um lugar de encontros – contanto que fossem consumíveis, claro –, uma velha magricela e uma adolescente gorda conversavam por trás de uma boa garrafa vinho e de um prato de queijos, cujo cheiro quase saciava a fome do mendigo sentado do outro lado da rua.

Vó, ouviu-se a adolescente perguntar, hesitante, incerta das suas palavras e do corpo que as proferiam: será que um dia meu pai vai querer me ver? A avó, tão grande em sua miudeza de gente que sabe mas não se exibe, respondeu com a propriedade de todos os seus anos de perdas dolorosas, mas igualmente determinantes: querida – começou a argumentar, e deu uma pausa para tragar o seu cigarro, voltando ao raciocínio logo depois, entre conhecimentos e fumaças – na vida existem dois tipos de pessoas: as que tomam vinho, e as que não prestam. E seu pai, nós sabemos bem, sempre foi de beber Coca-Cola.

Um ar leve lambeu a ruazinha, onde quase ouviu-se barulho de palmeira no verão da Bahia. Mas não deu tempo, Notre Dame observava tudo lá de trás.

Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

Esperava-se mais de mim

Tenho 29 anos.
Eu sei que insisto nisso.
É que não me conformo.
E escrever essa frase me dá, não sei, um consolo.
Quero que alguém dentro de mim leia o que eu mesma estou escrevendo, e me diga: amor, 29 não é nada. Você tem a vida pela frente.
Mas aí, o meu lado ansioso acha essa afirmação questionável, porque 29 é a trave dos 30, e aos 30 normalmente casa-se e tem-se filhos, e depois disso dizem que tudo passa tão rápido que você nem vê – de repente sou avó, bisa (com saúde e sorte e se Deus quiser, por favor, Deuzinho), e aí começo a jantar às 17h e acordar às 4h, e um dia, voilà boom paf, fim.
Tenho mesmo a vida pela frente?
Daí entro em pânico, e ligo pra minha mãe.
Bom.
Tenho 29 anos.
Ganho como salário o que dá pra ganhar, pago as coisas do jeito que consigo, e passo muita vontade de comprar. Nem sei o quê, especificamente, mas comprar. Olhar um negócio que preciso, ou que eu tô afim, e falar: ah, legal, vou comprar. Olhar os preços de passagens para um país vizinho, achar aquilo muito inspirador, e falar: ah, pô, tô merecendo, já me ferrei tanto, mesmo, vou comprar.
Moro na Europa e mal consigo sair de Paris, enquanto muitos rodam o mundo em 24 horas. O “mal” na última frase é porque eu saio, sim, mas pra voltar pra casa, que é no subúrbio.
Em 24 horas, pra mim, dá tempo de dormir, comer, pensar em como ganhar dinheiro, e escrever sobre isso.
E muitos conhecidos, por outro lado, fazem no mesmo tempo em que eu completo essa minha humilde rotininha diária, Mykonos – Cancún – Sydney, e emendam na Tailândia pra tirar uma selfie em Bangkok. Fico sabendo não porque somos necessariamente amigos, mas porque sou meio invejosa e gosto de ver as fotos dos outros e me sentir mal. Adoro, faço com frequência, e depois ligo, choramingando, pro meu pai – falo mal de mim mesma para que ele me diga que eu enlouqueci: você é inteligente, competente, bonita, imagina, filha, não chora, minha linda. Vai dar tudo certo, tenha paciência. Precisa de dinheiro?
Tenho 29 anos.
Estudei num colégio ótimo, fiz uma ótima faculdade.
Esperava-se mais de mim.
Uma multinacional, por exemplo.
Um cargo alto na área de marketing, porra, você não escolheu marketing, agora quer fazer o quê, minha filha? Ser bombeira? Carteira? Ganhar dinheiro com blógy? Para com esse drama de ter crise de ansiedade em corporação, e dá um jeito de aguentar, se entope de remédio, vai ganhar dinheiro.
Vai ser alguém na vida.
Vai publicar foto da sua próxima viagem, dar check-in em aeroporto, jantar num rooftop, criar uma hashtag constrangedora pro seu casamento roots na praia, que custou não menos que a construção de uma escola numa área nobre de São Paulo.
Esperava-se alguns bons zeros antes da vírgula na minha folha de pagamento, e meus pais tendo a possibilidade de falar para os seus amigos: essa é a Drica, aquela filha que trabalha naquela empresa que ninguém consegue falar o nome – e por isso é ainda mais importante –; que mora em Paris e paga o nosso almoço de domingo no restaurante que a gente quiser por transferência bancária (pois é uma filha tão amada e rica, e sabe que o que já gastamos com ela até hoje não é brincadeira). Aliás, a Drica só não é casada e não tem filhos porque não quer, já que condições, meu bem, ela tem de sobra.
Esperava-se, também, que eu fosse convidada pra dar palestras na escola onde eu estudei (costumam chamar ex-alunos para dar palestras, mas nunca me chamaram, pois só chamam quem deu certo na vida), e era esperado que eu já tivesse o meu próprio gato (não estou falando de homem, mas do bicho, que eu não tenho condições de sustentar). O homem também não tenho, aliás.
Esperava-se mais de mim.
E o que não me consola nada, é que muitos amigos meus estão tão bem de vida (ou parecem estar, porque se estão no vermelho sangue pisado na conta do banco, ninguém poderia dizer), que me rendem sessões inteiras de terapia, onde eu me comparo a cada um deles, me perguntando porque raios eu não dei certo também.
Por que eu não aguento o tranco?
Eu não sou todo mundo, diz, pacientemente, a minha terapeuta.
Tá, mas, então, eu quero ser todo mundo – respondo daquele jeito bem insuportavelzinho que irrita até a mim mesma e me dá vontade de correr de mim.
Tenho 29 anos.
Durante toda a minha adolescência eu dizia que me casaria aos 23 anos e teria filhos aos 25. Estou anos-luz atrasada, pois além de ter que achar alguém que eu goste e que me suporte (só aí meus peitos já terão dado uma boa caída), ainda tenho que ter bastante certeza se aguento mesmo aquela pessoa pra casar (não sei se até lá estaremos vivos), e aí, então, preciso me certificar de que eu sou madura o suficiente para ter filho sem ter crise de ansiedade caso o bebê não arrote na hora certa (talvez a Terra já tenha explodido neste momento).
E, enfim, tenho 29 anos.
Isso tudo me deixa bastante angustiada, pois, como dito anteriormente, pago o meu aluguel como posso, guardo um dinheiro pra sair um pouquinho durante o mês porque ninguém é de ferro, e conto euros pra saber o quanto ainda tenho pra jantar fora no final de semana. Se é que tenho. Se não tiver, eu espero, ansiosamente, um dos meus paqueras me chamar pra jantar e rezo pra eles oferecerem pagar a conta.
Brincadeira, não faço isso não, Alex.
Na semana passada eu fiz os cálculos de todos os anos que ainda preciso para estar pronta pra ser adulta, e cheguei ao resultado de: só casarei aos 98 anos, terei filhos aos 125 e pagarei almoço no Fasano para os meus pais aos 238. Fiquei muito nervosa com a minha matemática, e achei que eu precisava comer mingau para me acalmar.
Amo mingau.
Aqui em Paris eles chamam de porridge, mas pra mim é mingau.
Fui, então, em busca do meu mingau, mas no mercado só tinha um tal de um pó esquisito pra misturar com leite quente em casa, e eu não quis, pois não sabia se daria certo (boas chances de virar algo semelhante à gelatina de salmão defumado), e também porque o princípio do mingau é alguém fazê-lo pra você.
Daí resolvi ir no Le Pain Quotidien porque o porridge (mingau) deles é o melhor. Recomendo muito. E não, não estão me pagando pra falar isso, quem me dera. Com o pagamento comeria mais 200 mingaus.
Não sei usar dinheiro, como você pode notar.
E tenho 29 anos.
Aquele momento em que comi o meu tão desejado mingauzinho foi ótimo, maravilhoso, e eu dei uma viajada. Pra uma boa fóbica que se preze, a sensação mais próxima que chego de fumar um baseado é comendo mingau (ou deve ser, não sei). Completamente virada no mingau, delirei que tinha asas roxas e um chifre de unicórnio mágico, e que voava sem nenhuma preocupação de casar ou ter filhos, pois não é o objetivo de vida de um unicórnio mágico, mesmo que ele tenha 29 anos.
Até que o efeito passou.
Me vi sentadinha numa cadeira de madeira, dividindo a mesa comunitária do café com mais 10 casais normais, enrolada no meu echarpezinho cinza da Zara de 15 euros, que abraçava o meu pescoço com carinho e dó.
De ressaca, me dei conta de que não sobrou muito dinheiro para o final de semana.
Por que você é tão irresponsável, garota?
Mas eu tenho 29 anos! Não posso comer a merda do meu mingau, caramba?
Eu não tô gastanto em balada, cigarro, drogas, roupas, sapatos, bolsas, créditos no Tinder.
É MINGAU!
E isso porque eu sou formada em marketing, numa faculdade que custava por mês o que eu nunca sonhei em ganhar como salário.
Tenho uma ótima formação.
Sou uma mulher do bem.
Meus pais me acham inteligente.
Rezo. Acredito em Deus. Doo minhas coisas pelas ruas de Paris, simplesmente porque doar faz bem pra mim e pra quem recebe. Faria qualquer coisa pela minha família. Aprendi a cortar abobrinha. Me desprendi do álcool-gel. Não odeio quase ninguém. Sou gentil. Não falo mal de quase ninguém. Faço trabalho voluntário. Não tenho ciúmes de quase ninguém. Limpo o ralo do banheiro feminino na república em que moro. Não tenho inveja de quase ninguém. Elogio pessoas que eu gostaria de ser, mesmo ficando triste porque queria ser elas. Engulo raiva pra não brigar com ninguém. Faço favores que me prejudicam, só por colocar os outros sempre na minha frente. Não nego trabalho. Me exponho falando dos meus defeitos, e passo mal com frequência, para ajudar quem passa pelo mesmo que eu.
Mas minha conta bancária não é diretamente proporcional ao meu esforço para ser um ser humano do bem, e, exatamente por isso, aos 29 anos, esperava-se bem mais de mim.
E isso porque ainda tenho 29.
Não quero nem ver aos 30.
Tá vendo, já quero outro mingau.

Désolée

Demitida.

Primeira vez.

Como toda a primeira vez, não tem descrição.

Tem que viver pra saber.

Dá pra descrever o primeiro porre? A primeira decepção? O primeiro beijo na boca? A primeira transa? O primeiro cigarro? O primeiro amor? A primeira crise de pânico? O primeiro Rivotril?

Tem que beber, sofrer, beijar, transar, fumar, amar, desesperar, aliviar deliciosamente todos os músculos, e, como mágica, achar que existir não é castigo.

Não dá pra explicar.

Estou num Starbucks qualquer, mas não lembro como cheguei até aqui. Vim andando. As pernas dormentes, a cabeça tão pesada como se um avião tivesse pousado em cima do meu couro cabeludo, e quisesse me empurrar pra baixo do cimento, das catacumbas, das placas tectônicas. As mãos sem jeito, uma segurando a bolsa, a outra dentro do bolso do casaco peludo.

Muito frio.

Pessoas frias.

Tô na merda.

Désolée.

Talvez eu quisesse ver gente, comer um negócio barato cujo gosto e calorias eu já conhecesse, tomar um chai latte, usufruir gratuitamente de um wifi, ter uma tomada por perto.

Gosto de ter tomada por perto. Chato é quando a gente chega no lugar, e tem tanta gente que não sobra nem mesa, nem cadeira, nem tomada.

Désolée.

Mas, assim, depois de tudo? E agora, eu faço o quê?

Desconhecidos se aproximam, são tão desajeitados para oferecer ajuda… Tá na cara deles a dificuldade.

É cultural, não tem jeito.

Madame, você vai superar. Madame, é grave? Faço que sim e que não com a cabeça, não dá pra falar, só passando por isso pra saber.

Lágrimas escorrem sem nenhum esforço, como as águas dançantes do Sena. A pele esquenta, o peito se encolhe num espaço minúsculo entre o que eu desejo e o que eu não controlo.

O que mais eu poderia ter feito?

Désolée.

Eu não tinha o perfil. Pouco agressiva, pouco dinâmica, cuidadosa num nível pouco lucrativo.

Désolée.

Você vai achar um jeito, vai encontrar outro trabalho, vai dar certo, tá? Quem sabe no futuro você não volta? Assina aqui, ó. Seu nome. O seu nome, Adriana. Coloca a data. Tanto faz, pode ser em número, mesmo. Não, estamos em novembro de 2017. Agora? Agora, bom, agora é isso, ué. Quer terminar o dia de trabalho ou ir pra casa? Então pega esse produto, leva com você, é seu. Pra usar oras, é ótimo, espalha nas pernas depois do banho, aproveita que está frio, faço questão. Bom final de dia pra você. Você é ótima, viu?

Quis vomitar, mas lembrei que não vomito desde 1994.

Quis comer, mas quando peguei o cookie do Starbucks na mão, pensei que desempregada e gorda, não. Ou um, ou outro.

Ofereci o doce para uma criança, fiquei só com o chai.

Quis ligar para algum ex, quis dormir na casa do Papai Noel, quis viajar pra Plutão, quis que a caixa do Starbucks me ninasse cantando Sandy & Júnior, quis ser um rato.

Sento em uma mesa e viro minha bolsa de cabeça para baixo, pois não tenho condições de procurar por nada. Cai batom, carteira, elástico de cabelo, sachês de sal e açúcar, uma garrafa de água inacabada, um folder com o endereço de um cabeleireiro que promete milagre a troco do rim, nécessaire de remédios, canetas, algodões, e, finalmente, o meu caderno.

Pego o meu chai latte com uma mão – no qual está escrito o meu nome na sua versão masculina (e, ainda assim, errada, deixando tudo um pouco mais lamentável), e com a outra seguro um lenço de papel em estado de pós-guerra. Estou inchada entupida corcunda, não passa ar pelas narinas, respiro pela boca.

Uma moça chega perto de mim e ajoelha na frente da minha mesa. Presto atenção na sua burca – rendada, de flores. Ela fala e eu não ouço. Queria pegar uma daquelas flores. Queria cheirar aquelas flores. Queria ser um bambi e pular entre aquelas flores, celebrando o fato de que não preciso pagar aluguel, pois sou um bambi.

Ela tem os olhos escuros, covinhas que eu sempre desejei, e a sua boca carnuda pode fechar, pois ela respira pelo nariz. Só não consigo distinguir a cor de fundo daquela burca: é azul-marinho ou preta?

Madame? Ça va?

É trabalho – digo logo pra ela não ter que perguntar o motivo e nenhuma outra questão, e para eu também não precisar articular mais nada com minha boca semiaberta: perdi o trabalho.

Ah, mas é só o trabalho?

Penso nos últimos 8 meses e soluço.

O lenço não está mais dando conta, escorre tudo o que é possível de todos os orifícios da minha cara.

Você vai achar outro, ma chérie. Vai na Zara, vai na H&M, imagina, uma moça assim encontra logo. É natal, todo mundo precisa de gente.

Puxo o ar pela boca e não me mexo, não demonstro nada. Minhas bochechas formigam e meus olhos já conseguem enxergá-las de tão inchadas que estão.

Acho que é azul-marinho.

Não deixo você ficar assim por trabalho, ela dá um sorriso.

Tento sorrir de volta, mas minha boca não me respeita, e deixa-se morder pelos meus dentes. Meus lábios resolvem se esconder do mundo, e vão, aos poucos, se enrolando em direção à minha gengiva e para cima dos meus dentes, que agora ficam completamente aparentes, como os dentes de um coelho. Não satisfeita, inclino meu corpo, sem poder de decisão, para perto dela como se fosse beijá-la (ou roê-la).

Não controlo meus movimentos, e isso me constrange um pouco.

Ela contrai as sobrancelhas, como quem tenta solucionar uma questão, e seus olhos percorrem a mesa. Eu nem me importo com o fato de que todas as minhas coisas estão jogadas e expostas sem nenhuma vergonha. Ela olha o batom, nécessaire, folder… o olhar para sobre o caderno aberto.

Você tá escrevendo o quê?

Empurro o caderno pra perto dela. Ela que leia, não consigo falar.

Interessante, ela diz. Que língua é?

Rio de Janeiro, respondo. Pardon, portugais.

Fico preocupada com meu estado psicológico, e cogito um calmante.

Isso, escreve. Chora, e depois sai daqui ciente de que isso vai passar, tá? Tudo passa, ma chérie, você é forte.

Aham. D’accord. Merci.

Désolée.

É outono, e às 17h já é noite. Saio do Starbucks sem saber o que jantar, me perguntando se jantar é obrigatório.

Venta muito, as folhas são amarelas, cabelos voam, famílias, amigos, crianças, decoração de fim de ano.

Vou ao supermercado que conheço, onde sou amiga do segurança que sempre deixa eu entrar, ainda que eu chegue na hora de fechar as portas. Ele pisca pra mim, eu finjo que sorrio, torcendo pra minha boca não me envergonhar de novo.

Escolho uma salada pronta, pego uma banana pra comer no trem. Não tenho fome, mas preciso me alimentar.

Pago e saio.

Lágrimas continuam a cair, pernas ainda dormem, a língua gruda no céu da boca. Não há saliva, e isso me deixa um pouco incomodada. Preocupada também.

Désolée.

Passo por uma vitrine decorada para o natal. Paro na frente embriagada de tanta realidade que fui obrigada a engolir durante o dia, e não me movo, como uma criança hipnotizada. Tenho frio, mas as minhas pernas estão paralisadas.

Madame? Madame, s’il vous plaît?

Um mendigo me chama a atenção. Ele está sentado ao lado dos meus pés, e estende o braço.

Não respondo. Fico olhando pra ele, ainda anestesiada, formigando por completo, respirando pela boca.

Madame? Tenho fome.

Normalmente, eu diria “Désolée”.

Hoje não.

Hoje eu também estico o braço, dou o meu jantar pra ele, e caminho em direção ao metrô.

Pode até ser difícil. Muito difícil. Mas mais difícil vai ser me tirarem daqui, agora que eu decidi ficar.

Désolée.