feijões dentro de um pote branco

adoraria ser mais gente
e menos poeta

começaria o dia acordando
e não me deitando
sobre assuntos que nem
para serem assuntos servem
mexeria ovos sem calcular
verdades de galinhas

caminharia na areia
como os que caminham, apenas
e não refletiria sobre quantos grãos
ainda terei que engolir
se não fosse o que eu disse, o que eu fiz
como eu disse, como eu fiz
para quem eu disse, para que fiz

(mas por que teria dito e feito?)

tomaria um café
bem preto e bem forte
que não passaria de um café
bem preto e bem forte
e nele colocaria açúcar se eu quisesse
caso isso não tivesse consequências
de amplitude colossal

talvez eu tivesse uma dor de cabeça
como as que as gentes têm
mas tudo bem
isso não passaria de uma dor de cabeça
a humanidade não teria nada a ver
com a minha cabeça

ser gente é ter problemas que se resolvem
ser poeta é inventar problemas
sem solução

ou então, que lindo seria,
ver uma flor sem questioná-la
sobre quantos segundos faltam
para a morte me lamber da cabeça aos pés
que nem água de cachoeira, que chega forte
como mulher, e afoga
como o primeiro encontro

coitada da flor,
que azar teve ela de tombar com um poeta

porque poeta que é poeta
é insuportável
questiona mas não quer resposta
pergunta com a certeza
de que ninguém vai responder
aos seus questionamentos idiotas

ô, individuozinho mais indeglutível

adoraria ser mais gente
e menos poeta

ser gente é amar alguém
ser poeta é inventar alguém
para não amar
na tentativa de não pensar em quem ele ama
porque o amor para o poeta
é só uma estratégia para mais uma poesia
e quando quem ele ama, ama o poeta de volta
pode até ser amor, mas
poesia não é

e as gentices que as gentes fazem:
elas tragam um bom cigarro
compram cenouras e detergentes
matam baratas, se preciso
varrem um pouco a calçada, quando dá
bebem uma cachaça, quando deu
infringem umas regras, sempre dá
viram noites e saciam desejos, nunca meus
e até alugam uma bicicleta
para rolarem, tão engentalhados,
sobre meus medos paralíticos

e nada disso os faz questionar
nem por um segundo
sobre o que faríamos
se fôssemos feijões dentro de um pote branco
e uma mão gigante descesse do céu
enfiasse seus dedos em nós
escolhendo aqueles que são meio
poetas
tacando-nos, depois, bem longe
para onde ninguém iria

ou, ainda mais catastrófico,
para a próxima
poesia

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Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

Esperava-se mais de mim

Tenho 29 anos.
Eu sei que insisto nisso.
É que não me conformo.
E escrever essa frase me dá, não sei, um consolo.
Quero que alguém dentro de mim leia o que eu mesma estou escrevendo, e me diga: amor, 29 não é nada. Você tem a vida pela frente.
Mas aí, o meu lado ansioso acha essa afirmação questionável, porque 29 é a trave dos 30, e aos 30 normalmente casa-se e tem-se filhos, e depois disso dizem que tudo passa tão rápido que você nem vê – de repente sou avó, bisa (com saúde e sorte e se Deus quiser, por favor, Deuzinho), e aí começo a jantar às 17h e acordar às 4h, e um dia, voilà boom paf, fim.
Tenho mesmo a vida pela frente?
Daí entro em pânico, e ligo pra minha mãe.
Bom.
Tenho 29 anos.
Ganho como salário o que dá pra ganhar, pago as coisas do jeito que consigo, e passo muita vontade de comprar. Nem sei o quê, especificamente, mas comprar. Olhar um negócio que preciso, ou que eu tô afim, e falar: ah, legal, vou comprar. Olhar os preços de passagens para um país vizinho, achar aquilo muito inspirador, e falar: ah, pô, tô merecendo, já me ferrei tanto, mesmo, vou comprar.
Moro na Europa e mal consigo sair de Paris, enquanto muitos rodam o mundo em 24 horas. O “mal” na última frase é porque eu saio, sim, mas pra voltar pra casa, que é no subúrbio.
Em 24 horas, pra mim, dá tempo de dormir, comer, pensar em como ganhar dinheiro, e escrever sobre isso.
E muitos conhecidos, por outro lado, fazem no mesmo tempo em que eu completo essa minha humilde rotininha diária, Mykonos – Cancún – Sydney, e emendam na Tailândia pra tirar uma selfie em Bangkok. Fico sabendo não porque somos necessariamente amigos, mas porque sou meio invejosa e gosto de ver as fotos dos outros e me sentir mal. Adoro, faço com frequência, e depois ligo, choramingando, pro meu pai – falo mal de mim mesma para que ele me diga que eu enlouqueci: você é inteligente, competente, bonita, imagina, filha, não chora, minha linda. Vai dar tudo certo, tenha paciência. Precisa de dinheiro?
Tenho 29 anos.
Estudei num colégio ótimo, fiz uma ótima faculdade.
Esperava-se mais de mim.
Uma multinacional, por exemplo.
Um cargo alto na área de marketing, porra, você não escolheu marketing, agora quer fazer o quê, minha filha? Ser bombeira? Carteira? Ganhar dinheiro com blógy? Para com esse drama de ter crise de ansiedade em corporação, e dá um jeito de aguentar, se entope de remédio, vai ganhar dinheiro.
Vai ser alguém na vida.
Vai publicar foto da sua próxima viagem, dar check-in em aeroporto, jantar num rooftop, criar uma hashtag constrangedora pro seu casamento roots na praia, que custou não menos que a construção de uma escola numa área nobre de São Paulo.
Esperava-se alguns bons zeros antes da vírgula na minha folha de pagamento, e meus pais tendo a possibilidade de falar para os seus amigos: essa é a Drica, aquela filha que trabalha naquela empresa que ninguém consegue falar o nome – e por isso é ainda mais importante –; que mora em Paris e paga o nosso almoço de domingo no restaurante que a gente quiser por transferência bancária (pois é uma filha tão amada e rica, e sabe que o que já gastamos com ela até hoje não é brincadeira). Aliás, a Drica só não é casada e não tem filhos porque não quer, já que condições, meu bem, ela tem de sobra.
Esperava-se, também, que eu fosse convidada pra dar palestras na escola onde eu estudei (costumam chamar ex-alunos para dar palestras, mas nunca me chamaram, pois só chamam quem deu certo na vida), e era esperado que eu já tivesse o meu próprio gato (não estou falando de homem, mas do bicho, que eu não tenho condições de sustentar). O homem também não tenho, aliás.
Esperava-se mais de mim.
E o que não me consola nada, é que muitos amigos meus estão tão bem de vida (ou parecem estar, porque se estão no vermelho sangue pisado na conta do banco, ninguém poderia dizer), que me rendem sessões inteiras de terapia, onde eu me comparo a cada um deles, me perguntando porque raios eu não dei certo também.
Por que eu não aguento o tranco?
Eu não sou todo mundo, diz, pacientemente, a minha terapeuta.
Tá, mas, então, eu quero ser todo mundo – respondo daquele jeito bem insuportavelzinho que irrita até a mim mesma e me dá vontade de correr de mim.
Tenho 29 anos.
Durante toda a minha adolescência eu dizia que me casaria aos 23 anos e teria filhos aos 25. Estou anos-luz atrasada, pois além de ter que achar alguém que eu goste e que me suporte (só aí meus peitos já terão dado uma boa caída), ainda tenho que ter bastante certeza se aguento mesmo aquela pessoa pra casar (não sei se até lá estaremos vivos), e aí, então, preciso me certificar de que eu sou madura o suficiente para ter filho sem ter crise de ansiedade caso o bebê não arrote na hora certa (talvez a Terra já tenha explodido neste momento).
E, enfim, tenho 29 anos.
Isso tudo me deixa bastante angustiada, pois, como dito anteriormente, pago o meu aluguel como posso, guardo um dinheiro pra sair um pouquinho durante o mês porque ninguém é de ferro, e conto euros pra saber o quanto ainda tenho pra jantar fora no final de semana. Se é que tenho. Se não tiver, eu espero, ansiosamente, um dos meus paqueras me chamar pra jantar e rezo pra eles oferecerem pagar a conta.
Brincadeira, não faço isso não, Alex.
Na semana passada eu fiz os cálculos de todos os anos que ainda preciso para estar pronta pra ser adulta, e cheguei ao resultado de: só casarei aos 98 anos, terei filhos aos 125 e pagarei almoço no Fasano para os meus pais aos 238. Fiquei muito nervosa com a minha matemática, e achei que eu precisava comer mingau para me acalmar.
Amo mingau.
Aqui em Paris eles chamam de porridge, mas pra mim é mingau.
Fui, então, em busca do meu mingau, mas no mercado só tinha um tal de um pó esquisito pra misturar com leite quente em casa, e eu não quis, pois não sabia se daria certo (boas chances de virar algo semelhante à gelatina de salmão defumado), e também porque o princípio do mingau é alguém fazê-lo pra você.
Daí resolvi ir no Le Pain Quotidien porque o porridge (mingau) deles é o melhor. Recomendo muito. E não, não estão me pagando pra falar isso, quem me dera. Com o pagamento comeria mais 200 mingaus.
Não sei usar dinheiro, como você pode notar.
E tenho 29 anos.
Aquele momento em que comi o meu tão desejado mingauzinho foi ótimo, maravilhoso, e eu dei uma viajada. Pra uma boa fóbica que se preze, a sensação mais próxima que chego de fumar um baseado é comendo mingau (ou deve ser, não sei). Completamente virada no mingau, delirei que tinha asas roxas e um chifre de unicórnio mágico, e que voava sem nenhuma preocupação de casar ou ter filhos, pois não é o objetivo de vida de um unicórnio mágico, mesmo que ele tenha 29 anos.
Até que o efeito passou.
Me vi sentadinha numa cadeira de madeira, dividindo a mesa comunitária do café com mais 10 casais normais, enrolada no meu echarpezinho cinza da Zara de 15 euros, que abraçava o meu pescoço com carinho e dó.
De ressaca, me dei conta de que não sobrou muito dinheiro para o final de semana.
Por que você é tão irresponsável, garota?
Mas eu tenho 29 anos! Não posso comer a merda do meu mingau, caramba?
Eu não tô gastanto em balada, cigarro, drogas, roupas, sapatos, bolsas, créditos no Tinder.
É MINGAU!
E isso porque eu sou formada em marketing, numa faculdade que custava por mês o que eu nunca sonhei em ganhar como salário.
Tenho uma ótima formação.
Sou uma mulher do bem.
Meus pais me acham inteligente.
Rezo. Acredito em Deus. Doo minhas coisas pelas ruas de Paris, simplesmente porque doar faz bem pra mim e pra quem recebe. Faria qualquer coisa pela minha família. Aprendi a cortar abobrinha. Me desprendi do álcool-gel. Não odeio quase ninguém. Sou gentil. Não falo mal de quase ninguém. Faço trabalho voluntário. Não tenho ciúmes de quase ninguém. Limpo o ralo do banheiro feminino na república em que moro. Não tenho inveja de quase ninguém. Elogio pessoas que eu gostaria de ser, mesmo ficando triste porque queria ser elas. Engulo raiva pra não brigar com ninguém. Faço favores que me prejudicam, só por colocar os outros sempre na minha frente. Não nego trabalho. Me exponho falando dos meus defeitos, e passo mal com frequência, para ajudar quem passa pelo mesmo que eu.
Mas minha conta bancária não é diretamente proporcional ao meu esforço para ser um ser humano do bem, e, exatamente por isso, aos 29 anos, esperava-se bem mais de mim.
E isso porque ainda tenho 29.
Não quero nem ver aos 30.
Tá vendo, já quero outro mingau.

Désolée

Demitida.

Primeira vez.

Como toda a primeira vez, não tem descrição.

Tem que viver pra saber.

Dá pra descrever o primeiro porre? A primeira decepção? O primeiro beijo na boca? A primeira transa? O primeiro cigarro? O primeiro amor? A primeira crise de pânico? O primeiro Rivotril?

Tem que beber, sofrer, beijar, transar, fumar, amar, desesperar, aliviar deliciosamente todos os músculos, e, como mágica, achar que existir não é castigo.

Não dá pra explicar.

Estou num Starbucks qualquer, mas não lembro como cheguei até aqui. Vim andando. As pernas dormentes, a cabeça tão pesada como se um avião tivesse pousado em cima do meu couro cabeludo, e quisesse me empurrar pra baixo do cimento, das catacumbas, das placas tectônicas. As mãos sem jeito, uma segurando a bolsa, a outra dentro do bolso do casaco peludo.

Muito frio.

Pessoas frias.

Tô na merda.

Désolée.

Talvez eu quisesse ver gente, comer um negócio barato cujo gosto e calorias eu já conhecesse, tomar um chai latte, usufruir gratuitamente de um wifi, ter uma tomada por perto.

Gosto de ter tomada por perto. Chato é quando a gente chega no lugar, e tem tanta gente que não sobra nem mesa, nem cadeira, nem tomada.

Désolée.

Mas, assim, depois de tudo? E agora, eu faço o quê?

Desconhecidos se aproximam, são tão desajeitados para oferecer ajuda… Tá na cara deles a dificuldade.

É cultural, não tem jeito.

Madame, você vai superar. Madame, é grave? Faço que sim e que não com a cabeça, não dá pra falar, só passando por isso pra saber.

Lágrimas escorrem sem nenhum esforço, como as águas dançantes do Sena. A pele esquenta, o peito se encolhe num espaço minúsculo entre o que eu desejo e o que eu não controlo.

O que mais eu poderia ter feito?

Désolée.

Eu não tinha o perfil. Pouco agressiva, pouco dinâmica, cuidadosa num nível pouco lucrativo.

Désolée.

Você vai achar um jeito, vai encontrar outro trabalho, vai dar certo, tá? Quem sabe no futuro você não volta? Assina aqui, ó. Seu nome. O seu nome, Adriana. Coloca a data. Tanto faz, pode ser em número, mesmo. Não, estamos em novembro de 2017. Agora? Agora, bom, agora é isso, ué. Quer terminar o dia de trabalho ou ir pra casa? Então pega esse produto, leva com você, é seu. Pra usar oras, é ótimo, espalha nas pernas depois do banho, aproveita que está frio, faço questão. Bom final de dia pra você. Você é ótima, viu?

Quis vomitar, mas lembrei que não vomito desde 1994.

Quis comer, mas quando peguei o cookie do Starbucks na mão, pensei que desempregada e gorda, não. Ou um, ou outro.

Ofereci o doce para uma criança, fiquei só com o chai.

Quis ligar para algum ex, quis dormir na casa do Papai Noel, quis viajar pra Plutão, quis que a caixa do Starbucks me ninasse cantando Sandy & Júnior, quis ser um rato.

Sento em uma mesa e viro minha bolsa de cabeça para baixo, pois não tenho condições de procurar por nada. Cai batom, carteira, elástico de cabelo, sachês de sal e açúcar, uma garrafa de água inacabada, um folder com o endereço de um cabeleireiro que promete milagre a troco do rim, nécessaire de remédios, canetas, algodões, e, finalmente, o meu caderno.

Pego o meu chai latte com uma mão – no qual está escrito o meu nome na sua versão masculina (e, ainda assim, errada, deixando tudo um pouco mais lamentável), e com a outra seguro um lenço de papel em estado de pós-guerra. Estou inchada entupida corcunda, não passa ar pelas narinas, respiro pela boca.

Uma moça chega perto de mim e ajoelha na frente da minha mesa. Presto atenção na sua burca – rendada, de flores. Ela fala e eu não ouço. Queria pegar uma daquelas flores. Queria cheirar aquelas flores. Queria ser um bambi e pular entre aquelas flores, celebrando o fato de que não preciso pagar aluguel, pois sou um bambi.

Ela tem os olhos escuros, covinhas que eu sempre desejei, e a sua boca carnuda pode fechar, pois ela respira pelo nariz. Só não consigo distinguir a cor de fundo daquela burca: é azul-marinho ou preta?

Madame? Ça va?

É trabalho – digo logo pra ela não ter que perguntar o motivo e nenhuma outra questão, e para eu também não precisar articular mais nada com minha boca semiaberta: perdi o trabalho.

Ah, mas é só o trabalho?

Penso nos últimos 8 meses e soluço.

O lenço não está mais dando conta, escorre tudo o que é possível de todos os orifícios da minha cara.

Você vai achar outro, ma chérie. Vai na Zara, vai na H&M, imagina, uma moça assim encontra logo. É natal, todo mundo precisa de gente.

Puxo o ar pela boca e não me mexo, não demonstro nada. Minhas bochechas formigam e meus olhos já conseguem enxergá-las de tão inchadas que estão.

Acho que é azul-marinho.

Não deixo você ficar assim por trabalho, ela dá um sorriso.

Tento sorrir de volta, mas minha boca não me respeita, e deixa-se morder pelos meus dentes. Meus lábios resolvem se esconder do mundo, e vão, aos poucos, se enrolando em direção à minha gengiva e para cima dos meus dentes, que agora ficam completamente aparentes, como os dentes de um coelho. Não satisfeita, inclino meu corpo, sem poder de decisão, para perto dela como se fosse beijá-la (ou roê-la).

Não controlo meus movimentos, e isso me constrange um pouco.

Ela contrai as sobrancelhas, como quem tenta solucionar uma questão, e seus olhos percorrem a mesa. Eu nem me importo com o fato de que todas as minhas coisas estão jogadas e expostas sem nenhuma vergonha. Ela olha o batom, nécessaire, folder… o olhar para sobre o caderno aberto.

Você tá escrevendo o quê?

Empurro o caderno pra perto dela. Ela que leia, não consigo falar.

Interessante, ela diz. Que língua é?

Rio de Janeiro, respondo. Pardon, portugais.

Fico preocupada com meu estado psicológico, e cogito um calmante.

Isso, escreve. Chora, e depois sai daqui ciente de que isso vai passar, tá? Tudo passa, ma chérie, você é forte.

Aham. D’accord. Merci.

Désolée.

É outono, e às 17h já é noite. Saio do Starbucks sem saber o que jantar, me perguntando se jantar é obrigatório.

Venta muito, as folhas são amarelas, cabelos voam, famílias, amigos, crianças, decoração de fim de ano.

Vou ao supermercado que conheço, onde sou amiga do segurança que sempre deixa eu entrar, ainda que eu chegue na hora de fechar as portas. Ele pisca pra mim, eu finjo que sorrio, torcendo pra minha boca não me envergonhar de novo.

Escolho uma salada pronta, pego uma banana pra comer no trem. Não tenho fome, mas preciso me alimentar.

Pago e saio.

Lágrimas continuam a cair, pernas ainda dormem, a língua gruda no céu da boca. Não há saliva, e isso me deixa um pouco incomodada. Preocupada também.

Désolée.

Passo por uma vitrine decorada para o natal. Paro na frente embriagada de tanta realidade que fui obrigada a engolir durante o dia, e não me movo, como uma criança hipnotizada. Tenho frio, mas as minhas pernas estão paralisadas.

Madame? Madame, s’il vous plaît?

Um mendigo me chama a atenção. Ele está sentado ao lado dos meus pés, e estende o braço.

Não respondo. Fico olhando pra ele, ainda anestesiada, formigando por completo, respirando pela boca.

Madame? Tenho fome.

Normalmente, eu diria “Désolée”.

Hoje não.

Hoje eu também estico o braço, dou o meu jantar pra ele, e caminho em direção ao metrô.

Pode até ser difícil. Muito difícil. Mas mais difícil vai ser me tirarem daqui, agora que eu decidi ficar.

Désolée.

 

Não deu tempo

Eu corro na estação para trocar de trem, saio da linha 5 em direção à linha 7, preciso chegar logo.
Esbarro em uma família de quatro americanos que seguram um mapa da cidade e o comparam com os nomes das estações na parede do metrô. Eles falam alto, discutem feio entre si, os pais não vão se falar até a hora da sobremesa do jantar, a única hora em que tudo, até milagre, é possível. Estão todos os quatro ansiosos, precisam chegar logo ao destino, as férias não esperam. Peço desculpas em português depois de quase derrubar o caçula em cima do seu patinete com seu tênis de luzinha vermelha. Estou apressada, não consigo raciocinar, não dá pra parar, eu sinto muito por quase matar o mais novo esmagado nas suas férias tão esperadas. A irmã mais velha e adolescente que não larga o celular nem perceberia. Tadinho do menino.
Um rapaz se coloca na minha frente, me pede dinheiro, ticket restaurante, qualquer coisa semelhante, ele tem fome. Eu não posso, eu não tenho, preciso correr, não consigo ajudar. Ele tem pressa pra comer, eu tenho pressa pra chegar.
Um casal ri apressado ao esperar o metrô, a graça vai passar, assim como as horas, o trem, o tempo que eles têm juntos, a paixão que tem um prazo.
Entro no vagão, arranjo um lugar pra sentar e olho para minhas mãos: minhas unhas não estão decentes, não arranjei hora pra ajeitar, devia ter colocado outra bota, essa está velha, está feia, uma moça impecável se coloca na minha frente, e me olha, orgulhosa. Sinto inveja do tempo que ela teve pra se arrumar, e ela se sente feliz do tempo que teve para poder exibir, agora, a sua beleza, seu cabelo escovado, o seu tempo. O telefone dela toca, e, como um raio, ela responde: “J’arrive” (já estou chegando). Sinto menos inveja, ela sente menos orgulho.
Descemos na mesma estação, e cada uma corre para um lado.
Subo as escadas, chego na rua abarrotada de gente apressada, e no bairro 9 há tantos asiáticos que me pergunto se na pressa não peguei algum trem em direção à Xangai. Peles de pêssego, cabelos que não fazem questão alguma de sair do lugar, olhares surpresos com a grandiosidade das Galeries Lafayette, e ansiosos pelas compras que virão. Celulares, ipads, moderninades, tudo sem limites.
Sem tempo.
Mãozinhas na boca para rir, demonstrar medo, surpresa, felicidade, raiva, fome, sono. Passo por uma asiática que, particularmente, chama a minha atenção: a sua filha berra, apressada para dormir, o marido reclama, apressado para sumir, ela não muda a feição, a precisão dos passos, a altura da voz, a pele que eu pedi a Deus. Ela empurra o carrinho da filha, sorri um meio sorriso de alguém que mesmo desesperado engole todas as palavras, fixa o olhar em um horizonte que só ela vê, e segue.
Atrasada, pode ser, mas socialmente adaptada, com certeza.
Ela, diferente de nós, sabe que vai chegar.
Não importa a cor, a religião a cultura: nos apressamos, todos.
Como aquela pessoa teve tempo para um rastafári, como aquele rapaz fez o nó da gravata, como aquele cantor compôs aquela letra, demora pra enrolar aquele turbante? Alguém ainda reza antes de dormir?
Com que tempo, com que hora, de que jeito?
Chego na porta do trabalho, e me lembro que não era hoje.
Me apressei demais, esqueci de olhar a agenda, hoje não trabalho, é domingo.
Não tenho tempo para xingar ninguém, então corro para pegar a linha 4. No domingo preciso escrever, eu tinha feito uma promessa, com que tempo não sei, acho que a fiz dentro do metrô, numa hora de culpa por não escrever o suficiente.
Escreverei todo o domingo, prometi.
E eu lá tenho hora pra cumprir promessa?
A última promessa que fiz, de nunca mais comer pão, croissant e pain au chocolat (ou pelo menos até voltar aos meus 55kg) quebrei porque cheguei aos 56,7kg e fiquei angustiada por ainda não estar nos 55kg. Me dei de presente comer o que eu quisesse para passar a ansiedade.
Chego no café que frequento aos domingos, peço o meu latte, abro meu caderno, procuro, desesperada, minha caneta.
Escrevo, faminta, sobre não ter tempo.
Minhas mãos tentam correr mais rápido do que o tempo, e doem para eu parar. Um ralador de queijo se coloca entre meu pulmão e meu estômago, na garganta tem um gosto de gengibre que me lembra das saudades, mas não dá tempo de sofrer, preciso escrever.
Fico assustada com a minha bochecha que treme de tanta pressa, pego o celular e escrevo pra minha mãe, pergunto para um amigo se ele quer fazer algo à tarde, será que aquela amiga está livre hoje, vou falar com aquele cara, dane-se, hoje vou ser a primeira a enviar mensagem.
Verifico a previsão do tempo para pensar no que podemos fazer mais tarde (ou eu e meus amigos, ou eu e o cara, ou eu e eu na pior das hipóteses), abro o meu Facebook, olho fotos de gente que eu não cumprimentaria se passassem por mim na rua, e as notícias do dia. Cleo Pires fala de sexo e chama todos de hipócritas, a política mais decadente impossível, os gays sem direito algum, não se pode mais falar sobre nudez, Bruna Marquezine manda indireta pra Neymar, eu deveria estar lendo em francês, vou ter insônia.
Decido parar de escrever porque o tempo está correndo muito rápido, é domingo, minha folga, se eu não descansar não vou servir pra nada na semana que vem, entro na primeira livraria que vejo, e peço um livro estúpido para a atendente, que se chama Julie. Talvez um dia terei uma filha cujo nome será Julie. Julie estranha o meu pedido, e eu explico: meu francês precisa melhorar, eu não aguento mais ler livro pra criança, e preciso de uma história em que a protagonista está no fundo do poço, e então acontece um milagre e ela arranja um trabalho muito bom e fica rica e conhece um grande amor e tem filhos e tempo. Se ela conseguir emagrecer neste meio–tempo ainda melhor. Tudo isso, se possível, num francês fácil, e gostaria também de um livro que seja curto, de preferência, pois não tenho muito tempo.
Não saio nem com meu amigo e nem com minha amiga, decido que não vou tomar iniciativa nenhuma, o cara que fale comigo primeiro que eu tô cansada dessa história de joguinho (mas continuo jogando), volto pra casa porque o dia vai acabar, e em breve e eu preciso descansar para amanhã. Não trabalhei, não escrevi nada, não consigo começar o livro novo se eu já sei o final.
Não tenho nem paciência e nem tempo.
Volto num metrô abarrotado de gente atrasada pro jantar, pra dormir, pra semana que vem, pra ter mais tempo.
Chego em casa, tem fila pra tomar banho. Todos impacientes, todos trabalham cedo amanhã. Todos nós, moradores do mesmo lar, nos cumprimentamos educadamente, desejando, no fundo, que não tivesse ninguém mais naquela casa. Sento na escada impaciente segurando meu pijama na mão, e aguardo a minha vez de entrar no banheiro. Titi, a gata preta e branca, vem no meu colo ronronando, pedindo um pouco do meu tempo.
Lembro do ralador de queijo entre o pulmão e o estômago, e do gengibre na garganta: não tenho muito pra dar, meu amor. Nem escrevi hoje, e hoje é domingo.
Tomo o meu banho o mais rápido que consigo, tem gente me esperando na fila, não posso nem olhar com mais cuidado a parte de trás da minha perna e analisar se há alguma nova celulite, então desço pro quarto, porque agora é hora de dormir, descansar, respirar, e precisa ser agora, senão não terei muito tempo.
Se eu não responder as pessoas que me procuraram durante o dia não vou dormir, então decido enviar mensagem a todos dizendo que estou ótima, que o dia foi ótimo, que fez um tempo muito ótimo. Não quero dar pano pra manga, criar burburinho, conversa à toa.
Não tenho tempo.
Abro o Youtube contra a minha vontade, e vejo uma entrevista estúpida de uma famosa A perguntando à famosa B se ela já tomou um fora de alguém, e se sim, a famosa B precisa beber álcool (?). Desta forma, fazendo algo mais do que absolutamente inútil, minha culpa só aumenta, por isso checo doze vezes se coloquei o horário certo no despertador para não perder a hora amanhã. Amanhã é segunda? Sim. Checo de novo? Sim. E aí se vão mais 20 vezes.
Desligo todas as redes sociais, coloco o celular no modo “pelo amor à minha vida, não me mande mais nada hoje”, abro o caderno decidindo não dormir agora e começar a escrever, pois amanhã não terei tempo.

Por trás do que se vê

Deus sabe o que eu escondo atrás dos meus olhos meio-mel que choram ao ver uma cena de amor ou de morte. Deus sabe o que corre nas minhas veias nos momentos mais difíceis e insuportáveis, e o quanto as fantasias tomam conta da minha mente, fazendo com que eu me pergunte se alguém no mundo, além das estrelas, pode compreender o que é isso. Deus sabe que a criança que chorou no parquinho nunca teve a intenção de machucar ninguém, e nunca quis que acontecesse como aconteceu. Aos 25 eu ainda não sei quem eu sou, e nem sei se um dia vou saber. Eu tenho tanto sentimento que transbordaria a galáxia e afogaria tanta gente… Mas a criança ainda existe, e ela não quer ferir ninguém – ela perdoou o passado, mas aquilo ainda dói. Muita coisa dói. Por isso eu guardo tanto, e converso comigo mesma me perguntando se alguém no mundo sabe o que isso significa. Deus sabe. A gente anda conversando através das palavras e daquilo que não tem nome. Um papel e uma caneta, que eles me trazem ar sem sufocar mais ninguém.

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E mais alguns minutos se passaram: eu ainda estou viva.