jamais deux sans trois

acordei e o domingo me deu febre

queimei minhas roupas
com uma carne quase viva
e as cinzas que voaram
me desfazendo em pequenas
peças de um quebra-cabeça
estilhaçado como vidro
cegaram todas as pessoas
que ainda acreditavam no meu
futuro

Você quer que eu te faça uma visita?

todas as festas que não fui
ainda estão com cheiro
de caixa de Marlboro cheia
assim que é aberta, e os doze dedos
de crianças que, excitadas
correm para acender e tragar
o primeiro cigarro e provar
pro mundo sua genialidade
mesmo que isso custe achar
que descobriu-se a beira
da Morte

o menino segurando firme
a perna da menina
que para um pouco
para pegar ar
e não pensar na conversa que teve com a
dona Lúcia da orientação educacional
e as luzes rosas verdes azuis
ainda se cruzam numa adolescência
que eu não tive
porque estava
tentando aprender a dançar
Sozinha

a cada beijo mais urgente que
eles dão
seus pais
que agora dormem
ao som de um filme ruim
respiram mais profundamente
embalados por uma certeza
própria
de pais que fazem o
possível

não sei nada sobre o
Amor
a não ser que na semana passada
eu achei que tinha entendido
quando vi um homem abraçando
a sua bengala
e negando ajuda para não
ofendê-la
amanhã eu vou achar que vou saber
quando receber um sinal seu
e há três dias eu terei medo de
descobrir

suspeito que um dia te direi
eu te amo, e depois você
também
e, então, nos
chamarão de mentirosos

e seremos

Você não acha que as coisas estão estranhas?

alguns amigos meus não existem
e nem sabem que eu os considero Amigos
mas eu lembro deles quando o dia
engatinhando
alcança meu
lençol perfumado de um corpo
Só,
que mesmo enrolado em ideias futuras
é capaz de voar

e me pergunto se eles ainda estão na
festa

eu poderia ir à casa deles
agora mesmo
caso estejam de ressaca
aos cinquenta e poucos anos,
de tanto que imaginam
um futuro que está difícil de alcançar
porque foi ontem
e a cada ano fica mais difícil
porque era no ano passado
e naquela festa era tão longe
e agora é tão hoje

eu cuidaria de todos com
as palavras
que eu colhi como flores quando saí
em companhia do meu avô
que nunca conheci,
mas que nunca me abandonou
ao me pegar pela mão
e me mostrar o caminho
das flores

mas, isso é só desculpa,
pra dizer
que eu cuidaria
é de você

se você quiser, levaria algo pra gente tomar
e queijos que vou
comprar na fromagerie
podíamos falar sobre qual é a hora do dia que
lembra mais das nossas peles
que já não são mais tão plásticas
e se movem querendo
entrar e sair da gente
ficando a cada ano mais parecidas
com papel crepom

ou falaríamos sobre qual é o momento
exato em que
tememos a perda da vaidade
para uma
Paixão
que vai nos tornar
miseráveis
e nos fazer gostar
da cor opaca de domingo

mas no caminho para a sua casa
já com os queijos na mão
estava anoitecendo e luminárias
de rua
dessas ruas que não muita gente conhece
estavam pifando
acendendo e apagando
no compasso de uma canção
nunca escrita
e aí eu me vi sentada na aula de música
tentando tocar flauta, pensando que seria
muito bonito
apresentar aos meus pais
e deixá-los orgulhosos

mas passou

e não fui ginasta, não fui atriz de dar
autógrafo, não fui ao Jô
e a flauta foi tocada só no chão de tacos
em quebra-cabeça do meu quarto
quando eu imaginava o palco e treinava
Aquarela do Brasil
o mais escondida possível
para fazer surpresa

nem sei porque estou te contando,
mas

é que há dois dias eu percebi que o domingo
anda me seduzindo a cada semana
não importa quantos
pássaros de domingo
roçando as unhas no tijolo,
e batendo asas pra tentar me lembrar
que é domingo

da cama eu imagino nós dois
no sofá da sua sala

eu colocaria meus pés embaixo das suas pernas
fingindo uma intimidade que não temos
você ficaria sem graça
mas aparentaria estar em paz
e talvez falássemos de algo mais
pessoal
dependendo do que bebêssemos
brincaríamos dizendo
jamais deux
sans trois

ou então eu podia até ouvir você contar
daquela mulher pela qual você está
apaixonado

e tudo bem

porque depois eu ligaria o som
e perguntaria mais e mais
e te daria mais e mais
vírgulas espaços reticências
e minha alça que está caindo
sem querer

até você se embebedar
no seu próprio desejo
e aceitar levantar

pegar na minha cintura

e dançar comigo
na luz opaca de
domingo

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Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.

todos os meus erros

decidi errar mais
e um pouco mais segura
de não ser mulher madura
arranjar uma saída
de voltar pra sua
vida

decidi errar mais
me despindo
dos meus medos
e sem calma pra
falhar
olhar seus olhos
pra falar

me desculpa a honestidade
mas quem erra
de verdade
tem direito
de te amar

pra bater na sua porta
te obrigando
a me ouvir
pois agora
sem desculpa
não permito você
ir

decidi errar mais
evitando
a linha reta
indo atrás
da linha torta
que me leva até sua porta
implorando pra eu
errar

descobrindo as consequências
de assumir para mim mesma
que o perfeito
é tedioso
e que nada
nesse mundo
pode ser mais prazeroso
que o direito de
errar

(inclusive o pior erro,
que é o erro
de te amar)

O que é o amor?

O que é o amor?

Eu me pergunto quando deixo o metrô, doída pelo zumbido que restou de ontem; pela poeira levantada depois de passos tão medrosos, mas esgotados da mesmice; pelo transbordamento daquilo que eu não sei nomear, mas que tenho provas da veracidade.

O cinza daquele cimento que piso, cor tão acostumada a não fazer rir, me lembra do passado, que corre alucinado em busca do amanhã, e me faz querer viver procurando cor. Será que o amanhã será hoje, ou o hoje é o amanhã que espera não ser cinza?

O que é o amor?

Eu procuro no barco ancorado, tão cansado de dizer sim sem nenhum poder de decisão; eu busco nas rugas de gente que não faz questão de agradar; em cigarros devorados por bocas desacreditadas; em garrafas largadas pela metade por alguém exausto de cumprir regras.

Procuro no meu pão sem manteiga, que mesmo seco é familiar; no café que me pega no colo com paciência, e me acalenta por mais algumas horas; nos olhos da moça negra que me dizem tudo sem que eu saiba de nada; no cachorro deitado no chão gelado abraçando forte o seu dono, pois sabe que mais que cão, é casa.

O que é o amor?

Eu me desespero com tanto barulho que anuncia a vida sem falar a minha língua, e me espalho pelas ruas de dia, de tarde e de noite pedindo respostas; engulo o sal de lágrimas tão necessárias; eu imploro por explicação. Paredes descascadas, arranhadas e inacabadas como tudo aquilo que deixei de falar, secam meu rosto e me dizem que eu não estou só.

Busco no riso de uma criança que mesmo tão nova é tão mais honesta, e assim me pergunto se o amor é ainda é possível depois de tantos acordos, contratos, delações, duplos-sentidos. Tanta amizade acabada por medo da perda de espaço. Tanta família desmantelada por não saber se ama ou se garante. Tantos sonhos que não amanheceram com a gente.

O que é o amor?

Me enxergo tão pequena perto do que eu posso imaginar; tão confusa na minha existência que teme não dar tempo; tão certa da minha incoerência que não sabe se escreve, ou se espera, resignada, o amor curar.

Depois de todas as aceitações forçadas; depois de tantos fins que invejaram começos; perfumes que senti sem poder reagir; beijos que deixamos para aquele encontro por acaso, que ambos sabemos não existir. Vejo você se afastando, cada dia mais, e eu na dúvida sem saber se te amo ou se continuo procurando respostas para me ver livre de te amar;

mas afinal,

O que é o amor?

Para tudo dá-se um jeito

Tentei engolir aquela batata cozida que parece isopor salpicado de plástico com aroma artificial de alecrim, já de olho no brownie de espuma de travesseiro ruim com gosto de Zero Cal vencido, e fiquei na dúvida se virava um vidro de remédio pra dormir, ou puxava assunto com a moça ao lado (que, felizmente, descobri que era médica, e por isso logo me apaixonei – fóbicos entenderão).

O paralelepípedo foi sendo abraçado por gordos primeiros pingos de chuva, e começava a refletir cada um de todos aqueles anos: o de 2004, minha primeira noite insone ao lado da minha mãe na cama me dizendo que a noite era apenas “o claro sem luz”; o de 2006, primeira consulta terapêutica; 2008, primeiro porre; 2009, primeira crise de pânico; 2012, primeira vez morando longe dos pais em outro país; 2013, o ano em que tive medo até de mim mesma e mal podia sair da casa dos pais; 2015, o ano em que recusei todo e qualquer passeio em que não tivesse a segurança de estar de volta em casa antes do anoitecer; 2016, o ano em que me joguei num amor louco e em dois novos trabalhos, começando a, de pouquinho em pouquinho, enfrentar alguns dos meus infinitos medos. 2017, o ano em que me disponibilizei a viver a vida de outra forma, em outro lugar.

Me tranquei no banheiro e olhei pra minha cara pálida e minha boca trêmula, que tinha cor de filme antigo que meu avô botava pra eu ver quando eu era pequenininha. Que merda eu estava fazendo? Quantas gotas, mesmo? Escovava o dente agora, ou deixava pra mais tarde, quando eu não conseguisse dormir, pra ter uma desculpa pra levantar? As pessoas lá fora iam achar que eu estava demorando muito? Meus pais estariam na estrada, na padaria ou em casa? Como será que aquela amiga, que eu sempre quis ser, agiria no meu lugar? Ela estaria vendo filme agora? Mas o que eu deveria ver? O que pessoas assistem no avião? Elas entendem os filmes, elas prestam atenção, elas relaxam, elas pegam no sono naturalmente, tomam vinho com Dramin, misturam o quê com o quê? Como eu faço? Eu tenho pavor de série, nunca assisto série, deveria começar, mas começaria por onde? Friends é série?

Era uma rua estreita, eu gosto muito de ruas estreitas. Depois de tudo até aquele dia, minha terapeuta cansou de ouvir que eu não sabia mais se eu gostava realmente de algo, ou achava que gostava porque o certo era gostar. Eu me senti, naquela ruazinha, uma plantinha que luta com toda a força que sobrou pra se recuperar e crescer de novo depois de ser trucidada por um caminhão-pipa de antidepressivos. E depois de ser esmagada por um ônibus turístico cheio de gente irritantemente alegre dentro, ou um trailer carregando um grupo enorme de amigos que esfregam na cara o quanto são bons vivants. E depois de uma vaca gorda que além de passar em cima de mim, insistiu em me convencer da nossa semelhança.
Olhando os paralelepípedos agora completamente aliviados daquele calor de antes da chuva, tive certeza: de ruas estreitas eu gosto. Fui me aproximando da janela de algum lugar, da qual saía uma fumaça de filme que, misturada com a chuva e a quase noite que chegava, me deu um nó no peito. Mas dessa vez o nó não me esfaqueava toda a esperança de sobreviver a mais um dia, só dava vontade de chorar, e de deixar ser assim.

Fazia quantos minutos que eu olhava pra minha própria cara naquele banheiro cubículo onde sinto nojo de encostar em qualquer coisa, sinto nojo da minha roupa que encostou em alguma coisa, sinto nojo de lavar a mão que foi obrigada a encostar em qualquer coisa? Minhas sobrancelhas são, definitivamente, diferentes uma da outra. Tenho um olho maior que o outro. Eu pareço um quadro do Picasso. Eu analisava todos os meus defeitos do rosto cautelosamente, quando a tosse de um H1N1 recentemente recuperado foi agulhando minhas amígdalas e deixou na minha garganta um formigueiro de presente depois da primeira tosse: não. Vai começar. Tossi tossi tossi. A vontade de chorar veio, e, com ela, mais vontade de tossir. Chorei, e como o choro dá tosse, fiquei mais bons minutos no cubículo porque era o único lugar com o mínimo de privacidade dentro do avião pra sofrer em paz. Decidi escovar o dentes pra não voltar nunca mais naquele banheiro, porque além da privacidade não há nada de bom lá dentro, e saí do mesmo tossindo e chorando. Passageiros me olharam com dó.

Cheguei pertinho, e era um restaurante. A fumaça que eu tinha visto estava saindo da janela da cozinha. A chuva caía, e eu não gastaria nem um centavo num guarda-chuva. Quem passou por um H1N1, recém solteira, fazendo as malas com 38 de febre pra morar nem eu sabia direito onde e completamente sozinha, estava imune, não ficaria doente, estava protegida. O chef gritava, os cozinheiros correspondiam, gargalhavam, brincavam, e faziam arte em pratos branquinhos e quentinhos que seriam devorados por casais que confortável e secamente – diferente de mim – observavam Notre Dame recebendo os primeiros sinais de uma noite linda.

A aeromoça veio me perguntar se eu estava bem, e resolvi ali que afrancesaria meu jeito de sempre fingir discretamente que não havia nada errado: não estava nada bem, estava tudo péssimo, eu estava ferrada, mas ia passar. Não sabia o que me esperava em Paris, mas quando está tudo enlameado, não há outra opção a não ser pensar assim. Não, obrigada, não bebo álcool. Não, obrigada, a espuma de travesseiro ruim estava ótima, mas estou satisfeita. Aliás, não, mudei de ideia, tem mais brownie? Procurei por “Frozen” naquela televisãozinha. Eu não sei que aditivo botaram neste filme, que aparentemente é a única coisa que acalma crianças histéricas e a mim dentro do avião. Ouvir aquele “Let it go” me lembra que a vida pode ser ok e aviões podem ser amáveis passarinhos que fazem seu trabalho direitinho e não caem.

Fiquei ali parada, de frente pra janela da cozinha, da mesma forma em que há alguns meses eu estava na frente do espelho daquele banheiro cubículo. Eu ficava cada vez mais encharcada, gotas geladas caíam do meu cabelo nas costas, meu rímel foi derretendo, se misturou com a chuva, com o meu batom de morango da Nívea, com as lágrimas, com todos aqueles anos, comigo ali de pé. Depois de tudo, ainda de pé.

Dormi, e quando acordei, sem saber se o meu pescoço era meu ou da cadeira da classe econômica que quis roubá-lo de mim, a tosse tinha passado, a médica já estava acordada lendo ao meu lado, aeromoças pediam licença para passar com aquele carrinho cheio de coisas que chamamos de comida para transformar a viagem em algo aceitável. Faltava uma hora pra eu descer e enxergar a mim mesma chutando a porta do aeroporto enquanto equilibrava três malas pra pegar o meu primeiro táxi aqui em Paris. Primeiro de poucos, diga-se de passagem, porque se há um negócio caro nesta vida não é uma bolsa da Chanel, é o táxi em Paris. Só pego se estiver bêbada. Por isso não bebo.

Sorri para um dos cozinheiros que acenou com a cabeça pra mim. Fiquei imaginando o que ele pensava ao ver aquela mulher molhada na janela, com a maquiagem toda destruída, o cabelo que fica puto da vida quando chove, o vestido da Farm todo grudado na pele seca ainda não acostumada com os novos ares, mas igualmente satisfeita por ter passado por tanto, em tão pouco tempo de vida, e ainda ser pele.

Bonsoir, eu disse. Bonsoir, ele respondeu. Ele me mostrou o prato, como quem oferece a comida, eu sorri, agradeci, e disse que “um dia”.
A comida daquele restaurante custa quase o preço do meu aluguel, mas um dia eu vou lá jantar, sim.

Assim como um dia, bem que a Márcia prometeu, aquela crise passou. Assim como um dia eu consegui dormir sem medo. Assim como um dia eu conheci um grande amor. Assim como um dia eu tive coragem de terminar com alguém que eu amava, porque me virar sozinha seria o melhor caminho. Assim como um dia eu comi camarão sem temer a morte. Assim como um dia eu cansei de pedir desculpas. Assim como um dia eu pedi ajuda. Assim como um dia eu fiz as malas, me dizendo que se desse tudo errado, e eu fosse parar no inferno do fundo do poço, pelo menos que fosse um poço de Paris. E, no fim das contas, essa foi a melhor decisão que eu já tomei até hoje.

Força a gente não tem, a gente arranja. Um dia, a gente sempre dá um jeito.

Eu aceito

Entro em um restaurante e pego um prato para me servir. Acho a textura dele estranha, e me pergunto se a louça daquele lugar é bem lavada.
Ouço um burburinho de alguns executivos ao meu lado na fila, mas nada me interessa, então lembro da anemia, e decido pagar caro por gordas de lascas de beterraba. Carne vermelha contém em si a dor do animal quando é abatido para virar comida, e isso é transmitido para aqueles que a comem – o resultado disso é raiva, depressão, ansiedade, desespero. Melhor evitar. E isso, claro, sem contar o processo de produção horrendo deste alimento.
O mundo é muito cruel.
Sento em uma mesa ao lado de duas moças que conversam sobre colesterol, uma ingerindo 03 ovos fritos, e a outra mergulhando num mar de bacon, e não lembro a última vez que senti o gosto de um ou outro – parei por medo da balança, do espelho, do LDL, pressão, Fleury, diagnóstico, doença.
As moças começam a falar sobre trabalho, e resolvo ceder ao celular que apita descontroladamente por atenção.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu aceito.
Eu digito o texto com as mãos trêmulas e as bochechas pegando fogo, como se estivesse falando “sim” a um jantar com meu amor platônico. Ou a uma vida de massagens gratuitas a qualquer momento em que o coração acelerasse. Ou ao fim do trânsito em São Paulo. Ou a um Kit Kat sem calorias. Eu digo ao editor que aceito a proposta, eu não posso mais sabotar esse desejo incontrolável de ser o que sempre quis, de fazer o que me faz bem, de publicar, finalmente, o que eu venho tentando desde a minha última encarnação: vou ser, oficialmente, uma escritora.
Não apenas quando der. Não somente quando o trabalho der uma aliviadinha. Não exclusivamente quando escrever for a única alternativa para eu achar a vida vivível (momentos únicos em que consigo jogar o resto pro alto, e não me culpar por isso).
Vou, apenas, somente, exclusivamente, escrever.
Eu aceito.
Termino de comer a lasanha, as batatas fritas e o ovo com bacon, peço um cheesecake com um café, e pago tudo sem remorso. Saio pra andar.
Acho as pessoas interessantes e amigáveis, brinco com um cachorro, dou a mão para um mendigo.
Paro na Augusta, corto o meu cabelo, me acho linda, e como mais um doce.
Lambo os dedos sem encharcá-los de álcool-gel.
Vou caminhando e sorrindo, o tempo não me assombra, as horas param, as cores de fim de ano iluminam o meu bem-estar.
Entro em um boteco, peço uma cerveja, e ligo para o plano de saúde: agora só Dr. Consulta, não vou mais deixar meu salário na conta da Amil. Não vou. Sou forte e saudável, e vou usar esse dinheiro para aproveitar mais os meus dias, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo.
Saio do bar e entro em uma agência de turismo: com o dinheiro dos livros, vou viajar. Dane-se tudo, nada mais me impede, vou desfrutar da minha juventude onde quer que seja que não aqui, vou parar com essa mania de prorrogar tudo, agora eu vou mesmo, não tenho medo.
Planejo tudo em 30 segundos, estou muito satisfeita, e saindo de lá decido avisar o meu médico que não preciso mais de remédio algum: estou ótima, doutor, estou em paz, estou livre de tudo aquilo, nem lembro mais como era, podemos parar por aqui. Obrigada, valeu, foi bom, mas agora vou me dedicar ao meu gatinho de estimação. À yoga. Ao trabalho voluntário. Ao sucesso do meu livro.
A mim mesma.
.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu já estou indo.
As duas moças ao meu lado continuam falando sobre trabalho, e eu preciso levantar pra continuar o meu.

escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha