Esperava-se mais de mim

Tenho 29 anos.
Eu sei que insisto nisso.
É que não me conformo.
E escrever essa frase me dá, não sei, um consolo.
Quero que alguém dentro de mim leia o que eu mesma estou escrevendo, e me diga: amor, 29 não é nada. Você tem a vida pela frente.
Mas aí, o meu lado ansioso acha essa afirmação questionável, porque 29 é a trave dos 30, e aos 30 normalmente casa-se e tem-se filhos, e depois disso dizem que tudo passa tão rápido que você nem vê – de repente sou avó, bisa (com saúde e sorte e se Deus quiser, por favor, Deuzinho), e aí começo a jantar às 17h e acordar às 4h, e um dia, voilà boom paf, fim.
Tenho mesmo a vida pela frente?
Daí entro em pânico, e ligo pra minha mãe.
Bom.
Tenho 29 anos.
Ganho como salário o que dá pra ganhar, pago as coisas do jeito que consigo, e passo muita vontade de comprar. Nem sei o quê, especificamente, mas comprar. Olhar um negócio que preciso, ou que eu tô afim, e falar: ah, legal, vou comprar. Olhar os preços de passagens para um país vizinho, achar aquilo muito inspirador, e falar: ah, pô, tô merecendo, já me ferrei tanto, mesmo, vou comprar.
Moro na Europa e mal consigo sair de Paris, enquanto muitos rodam o mundo em 24 horas. O “mal” na última frase é porque eu saio, sim, mas pra voltar pra casa, que é no subúrbio.
Em 24 horas, pra mim, dá tempo de dormir, comer, pensar em como ganhar dinheiro, e escrever sobre isso.
E muitos conhecidos, por outro lado, fazem no mesmo tempo em que eu completo essa minha humilde rotininha diária, Mykonos – Cancún – Sydney, e emendam na Tailândia pra tirar uma selfie em Bangkok. Fico sabendo não porque somos necessariamente amigos, mas porque sou meio invejosa e gosto de ver as fotos dos outros e me sentir mal. Adoro, faço com frequência, e depois ligo, choramingando, pro meu pai – falo mal de mim mesma para que ele me diga que eu enlouqueci: você é inteligente, competente, bonita, imagina, filha, não chora, minha linda. Vai dar tudo certo, tenha paciência. Precisa de dinheiro?
Tenho 29 anos.
Estudei num colégio ótimo, fiz uma ótima faculdade.
Esperava-se mais de mim.
Uma multinacional, por exemplo.
Um cargo alto na área de marketing, porra, você não escolheu marketing, agora quer fazer o quê, minha filha? Ser bombeira? Carteira? Ganhar dinheiro com blógy? Para com esse drama de ter crise de ansiedade em corporação, e dá um jeito de aguentar, se entope de remédio, vai ganhar dinheiro.
Vai ser alguém na vida.
Vai publicar foto da sua próxima viagem, dar check-in em aeroporto, jantar num rooftop, criar uma hashtag constrangedora pro seu casamento roots na praia, que custou não menos que a construção de uma escola numa área nobre de São Paulo.
Esperava-se alguns bons zeros antes da vírgula na minha folha de pagamento, e meus pais tendo a possibilidade de falar para os seus amigos: essa é a Drica, aquela filha que trabalha naquela empresa que ninguém consegue falar o nome – e por isso é ainda mais importante –; que mora em Paris e paga o nosso almoço de domingo no restaurante que a gente quiser por transferência bancária (pois é uma filha tão amada e rica, e sabe que o que já gastamos com ela até hoje não é brincadeira). Aliás, a Drica só não é casada e não tem filhos porque não quer, já que condições, meu bem, ela tem de sobra.
Esperava-se, também, que eu fosse convidada pra dar palestras na escola onde eu estudei (costumam chamar ex-alunos para dar palestras, mas nunca me chamaram, pois só chamam quem deu certo na vida), e era esperado que eu já tivesse o meu próprio gato (não estou falando de homem, mas do bicho, que eu não tenho condições de sustentar). O homem também não tenho, aliás.
Esperava-se mais de mim.
E o que não me consola nada, é que muitos amigos meus estão tão bem de vida (ou parecem estar, porque se estão no vermelho sangue pisado na conta do banco, ninguém poderia dizer), que me rendem sessões inteiras de terapia, onde eu me comparo a cada um deles, me perguntando porque raios eu não dei certo também.
Por que eu não aguento o tranco?
Eu não sou todo mundo, diz, pacientemente, a minha terapeuta.
Tá, mas, então, eu quero ser todo mundo – respondo daquele jeito bem insuportavelzinho que irrita até a mim mesma e me dá vontade de correr de mim.
Tenho 29 anos.
Durante toda a minha adolescência eu dizia que me casaria aos 23 anos e teria filhos aos 25. Estou anos-luz atrasada, pois além de ter que achar alguém que eu goste e que me suporte (só aí meus peitos já terão dado uma boa caída), ainda tenho que ter bastante certeza se aguento mesmo aquela pessoa pra casar (não sei se até lá estaremos vivos), e aí, então, preciso me certificar de que eu sou madura o suficiente para ter filho sem ter crise de ansiedade caso o bebê não arrote na hora certa (talvez a Terra já tenha explodido neste momento).
E, enfim, tenho 29 anos.
Isso tudo me deixa bastante angustiada, pois, como dito anteriormente, pago o meu aluguel como posso, guardo um dinheiro pra sair um pouquinho durante o mês porque ninguém é de ferro, e conto euros pra saber o quanto ainda tenho pra jantar fora no final de semana. Se é que tenho. Se não tiver, eu espero, ansiosamente, um dos meus paqueras me chamar pra jantar e rezo pra eles oferecerem pagar a conta.
Brincadeira, não faço isso não, Alex.
Na semana passada eu fiz os cálculos de todos os anos que ainda preciso para estar pronta pra ser adulta, e cheguei ao resultado de: só casarei aos 98 anos, terei filhos aos 125 e pagarei almoço no Fasano para os meus pais aos 238. Fiquei muito nervosa com a minha matemática, e achei que eu precisava comer mingau para me acalmar.
Amo mingau.
Aqui em Paris eles chamam de porridge, mas pra mim é mingau.
Fui, então, em busca do meu mingau, mas no mercado só tinha um tal de um pó esquisito pra misturar com leite quente em casa, e eu não quis, pois não sabia se daria certo (boas chances de virar algo semelhante à gelatina de salmão defumado), e também porque o princípio do mingau é alguém fazê-lo pra você.
Daí resolvi ir no Le Pain Quotidien porque o porridge (mingau) deles é o melhor. Recomendo muito. E não, não estão me pagando pra falar isso, quem me dera. Com o pagamento comeria mais 200 mingaus.
Não sei usar dinheiro, como você pode notar.
E tenho 29 anos.
Aquele momento em que comi o meu tão desejado mingauzinho foi ótimo, maravilhoso, e eu dei uma viajada. Pra uma boa fóbica que se preze, a sensação mais próxima que chego de fumar um baseado é comendo mingau (ou deve ser, não sei). Completamente virada no mingau, delirei que tinha asas roxas e um chifre de unicórnio mágico, e que voava sem nenhuma preocupação de casar ou ter filhos, pois não é o objetivo de vida de um unicórnio mágico, mesmo que ele tenha 29 anos.
Até que o efeito passou.
Me vi sentadinha numa cadeira de madeira, dividindo a mesa comunitária do café com mais 10 casais normais, enrolada no meu echarpezinho cinza da Zara de 15 euros, que abraçava o meu pescoço com carinho e dó.
De ressaca, me dei conta de que não sobrou muito dinheiro para o final de semana.
Por que você é tão irresponsável, garota?
Mas eu tenho 29 anos! Não posso comer a merda do meu mingau, caramba?
Eu não tô gastanto em balada, cigarro, drogas, roupas, sapatos, bolsas, créditos no Tinder.
É MINGAU!
E isso porque eu sou formada em marketing, numa faculdade que custava por mês o que eu nunca sonhei em ganhar como salário.
Tenho uma ótima formação.
Sou uma mulher do bem.
Meus pais me acham inteligente.
Rezo. Acredito em Deus. Doo minhas coisas pelas ruas de Paris, simplesmente porque doar faz bem pra mim e pra quem recebe. Faria qualquer coisa pela minha família. Aprendi a cortar abobrinha. Me desprendi do álcool-gel. Não odeio quase ninguém. Sou gentil. Não falo mal de quase ninguém. Faço trabalho voluntário. Não tenho ciúmes de quase ninguém. Limpo o ralo do banheiro feminino na república em que moro. Não tenho inveja de quase ninguém. Elogio pessoas que eu gostaria de ser, mesmo ficando triste porque queria ser elas. Engulo raiva pra não brigar com ninguém. Faço favores que me prejudicam, só por colocar os outros sempre na minha frente. Não nego trabalho. Me exponho falando dos meus defeitos, e passo mal com frequência, para ajudar quem passa pelo mesmo que eu.
Mas minha conta bancária não é diretamente proporcional ao meu esforço para ser um ser humano do bem, e, exatamente por isso, aos 29 anos, esperava-se bem mais de mim.
E isso porque ainda tenho 29.
Não quero nem ver aos 30.
Tá vendo, já quero outro mingau.

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Désolée

Demitida.

Primeira vez.

Como toda a primeira vez, não tem descrição.

Tem que viver pra saber.

Dá pra descrever o primeiro porre? A primeira decepção? O primeiro beijo na boca? A primeira transa? O primeiro cigarro? O primeiro amor? A primeira crise de pânico? O primeiro Rivotril?

Tem que beber, sofrer, beijar, transar, fumar, amar, desesperar, aliviar deliciosamente todos os músculos, e, como mágica, achar que existir não é castigo.

Não dá pra explicar.

Estou num Starbucks qualquer, mas não lembro como cheguei até aqui. Vim andando. As pernas dormentes, a cabeça tão pesada como se um avião tivesse pousado em cima do meu couro cabeludo, e quisesse me empurrar pra baixo do cimento, das catacumbas, das placas tectônicas. As mãos sem jeito, uma segurando a bolsa, a outra dentro do bolso do casaco peludo.

Muito frio.

Pessoas frias.

Tô na merda.

Désolée.

Talvez eu quisesse ver gente, comer um negócio barato cujo gosto e calorias eu já conhecesse, tomar um chai latte, usufruir gratuitamente de um wifi, ter uma tomada por perto.

Gosto de ter tomada por perto. Chato é quando a gente chega no lugar, e tem tanta gente que não sobra nem mesa, nem cadeira, nem tomada.

Désolée.

Mas, assim, depois de tudo? E agora, eu faço o quê?

Desconhecidos se aproximam, são tão desajeitados para oferecer ajuda… Tá na cara deles a dificuldade.

É cultural, não tem jeito.

Madame, você vai superar. Madame, é grave? Faço que sim e que não com a cabeça, não dá pra falar, só passando por isso pra saber.

Lágrimas escorrem sem nenhum esforço, como as águas dançantes do Sena. A pele esquenta, o peito se encolhe num espaço minúsculo entre o que eu desejo e o que eu não controlo.

O que mais eu poderia ter feito?

Désolée.

Eu não tinha o perfil. Pouco agressiva, pouco dinâmica, cuidadosa num nível pouco lucrativo.

Désolée.

Você vai achar um jeito, vai encontrar outro trabalho, vai dar certo, tá? Quem sabe no futuro você não volta? Assina aqui, ó. Seu nome. O seu nome, Adriana. Coloca a data. Tanto faz, pode ser em número, mesmo. Não, estamos em novembro de 2017. Agora? Agora, bom, agora é isso, ué. Quer terminar o dia de trabalho ou ir pra casa? Então pega esse produto, leva com você, é seu. Pra usar oras, é ótimo, espalha nas pernas depois do banho, aproveita que está frio, faço questão. Bom final de dia pra você. Você é ótima, viu?

Quis vomitar, mas lembrei que não vomito desde 1994.

Quis comer, mas quando peguei o cookie do Starbucks na mão, pensei que desempregada e gorda, não. Ou um, ou outro.

Ofereci o doce para uma criança, fiquei só com o chai.

Quis ligar para algum ex, quis dormir na casa do Papai Noel, quis viajar pra Plutão, quis que a caixa do Starbucks me ninasse cantando Sandy & Júnior, quis ser um rato.

Sento em uma mesa e viro minha bolsa de cabeça para baixo, pois não tenho condições de procurar por nada. Cai batom, carteira, elástico de cabelo, sachês de sal e açúcar, uma garrafa de água inacabada, um folder com o endereço de um cabeleireiro que promete milagre a troco do rim, nécessaire de remédios, canetas, algodões, e, finalmente, o meu caderno.

Pego o meu chai latte com uma mão – no qual está escrito o meu nome na sua versão masculina (e, ainda assim, errada, deixando tudo um pouco mais lamentável), e com a outra seguro um lenço de papel em estado de pós-guerra. Estou inchada entupida corcunda, não passa ar pelas narinas, respiro pela boca.

Uma moça chega perto de mim e ajoelha na frente da minha mesa. Presto atenção na sua burca – rendada, de flores. Ela fala e eu não ouço. Queria pegar uma daquelas flores. Queria cheirar aquelas flores. Queria ser um bambi e pular entre aquelas flores, celebrando o fato de que não preciso pagar aluguel, pois sou um bambi.

Ela tem os olhos escuros, covinhas que eu sempre desejei, e a sua boca carnuda pode fechar, pois ela respira pelo nariz. Só não consigo distinguir a cor de fundo daquela burca: é azul-marinho ou preta?

Madame? Ça va?

É trabalho – digo logo pra ela não ter que perguntar o motivo e nenhuma outra questão, e para eu também não precisar articular mais nada com minha boca semiaberta: perdi o trabalho.

Ah, mas é só o trabalho?

Penso nos últimos 8 meses e soluço.

O lenço não está mais dando conta, escorre tudo o que é possível de todos os orifícios da minha cara.

Você vai achar outro, ma chérie. Vai na Zara, vai na H&M, imagina, uma moça assim encontra logo. É natal, todo mundo precisa de gente.

Puxo o ar pela boca e não me mexo, não demonstro nada. Minhas bochechas formigam e meus olhos já conseguem enxergá-las de tão inchadas que estão.

Acho que é azul-marinho.

Não deixo você ficar assim por trabalho, ela dá um sorriso.

Tento sorrir de volta, mas minha boca não me respeita, e deixa-se morder pelos meus dentes. Meus lábios resolvem se esconder do mundo, e vão, aos poucos, se enrolando em direção à minha gengiva e para cima dos meus dentes, que agora ficam completamente aparentes, como os dentes de um coelho. Não satisfeita, inclino meu corpo, sem poder de decisão, para perto dela como se fosse beijá-la (ou roê-la).

Não controlo meus movimentos, e isso me constrange um pouco.

Ela contrai as sobrancelhas, como quem tenta solucionar uma questão, e seus olhos percorrem a mesa. Eu nem me importo com o fato de que todas as minhas coisas estão jogadas e expostas sem nenhuma vergonha. Ela olha o batom, nécessaire, folder… o olhar para sobre o caderno aberto.

Você tá escrevendo o quê?

Empurro o caderno pra perto dela. Ela que leia, não consigo falar.

Interessante, ela diz. Que língua é?

Rio de Janeiro, respondo. Pardon, portugais.

Fico preocupada com meu estado psicológico, e cogito um calmante.

Isso, escreve. Chora, e depois sai daqui ciente de que isso vai passar, tá? Tudo passa, ma chérie, você é forte.

Aham. D’accord. Merci.

Désolée.

É outono, e às 17h já é noite. Saio do Starbucks sem saber o que jantar, me perguntando se jantar é obrigatório.

Venta muito, as folhas são amarelas, cabelos voam, famílias, amigos, crianças, decoração de fim de ano.

Vou ao supermercado que conheço, onde sou amiga do segurança que sempre deixa eu entrar, ainda que eu chegue na hora de fechar as portas. Ele pisca pra mim, eu finjo que sorrio, torcendo pra minha boca não me envergonhar de novo.

Escolho uma salada pronta, pego uma banana pra comer no trem. Não tenho fome, mas preciso me alimentar.

Pago e saio.

Lágrimas continuam a cair, pernas ainda dormem, a língua gruda no céu da boca. Não há saliva, e isso me deixa um pouco incomodada. Preocupada também.

Désolée.

Passo por uma vitrine decorada para o natal. Paro na frente embriagada de tanta realidade que fui obrigada a engolir durante o dia, e não me movo, como uma criança hipnotizada. Tenho frio, mas as minhas pernas estão paralisadas.

Madame? Madame, s’il vous plaît?

Um mendigo me chama a atenção. Ele está sentado ao lado dos meus pés, e estende o braço.

Não respondo. Fico olhando pra ele, ainda anestesiada, formigando por completo, respirando pela boca.

Madame? Tenho fome.

Normalmente, eu diria “Désolée”.

Hoje não.

Hoje eu também estico o braço, dou o meu jantar pra ele, e caminho em direção ao metrô.

Pode até ser difícil. Muito difícil. Mas mais difícil vai ser me tirarem daqui, agora que eu decidi ficar.

Désolée.

 

Sobre-viver sozinha em Paris

Eu não fazia ideia de como eu tinha chegado até o meio daquela ponte. Que caminho eu tinha feito? Eu peguei o metrô? Aquela mulher estava sendo pedida em casamento? Aquela velhinha tinha quantos anos? Por que eu estava em Paris? Quantos currículos eu tinha que mandar amanhã para poder conseguir um trabalho? Se eu mandasse um milhão de currículos e a chance de conseguir um trabalho fosse uma a cada mil e-mails enviados, quantos trabalhos eu conseguiria enviando um milhão de e-mails? Se eu tivesse estudado qualquer coisa na área de exatas eu estaria fazendo essa conta tranquilamente? Que dor era aquela perto do apêndice? O que eu faria se eu fosse o Silvio Santos? Eu não queria casar nunca na minha vida. Filhos, queria.

Era um hotel. Eu, a atendente da noite. A que fazia mojitos que deveriam ter gosto de limão com rum, mas pareciam suco de uva batido com pizza margherita. Era a pessoa que “sabia” sugerir champagne e vinho para quem estava sofrendo um jetlag e queria relaxar; quem tinha acabado de chegar de uma reunião de trabalho e desejava esquecer um pouco do dia; quem queria afogar as mágoas; ou talvez pessoas que estavam afim, simplesmente, sem um porquê, de beber. Mas, na realidade, eu era a barmaid que não sabia qual a diferença entre todas as milhares de bebidas do restaurante, e procurava no Google agachada atrás do balcão o que aquele nome do rótulo significava. Um dia servi prosecco falando que aquele champagne era maravilhoso. Outro dia respondi de bate-pronto a um cliente que me perguntou o que havia em determinado drink, que o mesmo era feito com “gin”. Falei com propriedade. Depois fui checar, e o drink era feito com tequila. Ainda bem que ele desistiu do “gin” e preferiu uma Coca-Cola. Era eu quem oferecia potinhos de amendoim para quem eu ia com a cara ou achava bonito. Era eu quem ajeitava as mesas pro café da manhã do dia seguinte.

Eu estava ferrada. Tinha perdido o meu trabalho, e agora como eu ia pagar o aluguel, a comida, o meu latte de todos os dias? Resolvi mandar Whatsapp pra minha lista inteira de amigos em Paris pedindo emprego. Depois que mandei vinte e sete Whatsapps me arrependi, porque agora todo mundo responderia, e eu teria que explicar toda a história vinte e sete vezes de formas diferentes dependendo da resposta de cada um. Minha ansiedade deu uma turbinada, e pensei em deletar o meu Whatsapp. Achei que ler me acalmaria, e ali mesmo, no meio da ponte, sentei, li duas linhas da página trinta e seis de um livro recomendado por uma professora, não entendi nada, decidi que era analfabeta em francês, e fechei o livro.

Durante duas semanas naquele mesmo hotel, eu fui convocada para trabalhar no café da manhã em vez do período noturno (função para a qual eu tinha que acordar às 5h da manhã e chegar no trabalho ainda de noite). Em uma daquelas manhãs, depois de servir milhares de mesas sem poder comer um único croissant; passar aspirador em todos os lugares que podem existir sob um chão (nunca soube que chão era tão cheio de lugares, descobri com aquela chefe que me dava muita bronca se encontrava qualquer migalha de qualquer coisa naquele chão); cansada; com fome, e com vontade de sair correndo pra fazer xixi, entrei na cozinha e achei que ou estava faltando alguma medicação, ou eu estava tomando qualquer coisa em um nível não recomendado.

Não podia ser.
Não. Non. No. Nicht. 不要.
Merda, e todos os outros palavrões que eu conheço, em todas as línguas possíveis.
Era um rato.
Ratinho, ratatouille, Drica, olha que gracinha, respira, calma: inspira em cinco, prende em cinco, solta em cinco.
Quero meu médico.
Pera, se controla, em Paris é mais normal do que em São Paulo, e ela é pequenininha, ela é bonitinha, tem duas cores, não há de haver doença…
Interfonei para o Sebastian porque não conseguia mais me consolar. Sebastian cuidava da limpeza pesada do hotel, e achei que somente ele poderia me salvar: tira esse mostro da cozinha, pelo amor de todos os santos.
Sebastian morreu de rir.
Olhamos uma para a outra (eu e Sarah – a ratinha que nomeei desta forma), e percebi que ela sentiu uma certa pena de mim. Ela, aquele serzinho que mesmo tão repugnante era até que amável se comparada à alguns colegas de trabalho, sabia que me assustava, mas não queria me fazer mal. A bichinha só queria um queijinho de graça.
Assim como Sarah, também senti dó de mim mesma naquela situação, e aos poucos a dó foi se transformando em desespero, que começou a subir pelos pés, passou pelas minhas veias, endométrio, intestino, fígado, e um enjoo avassalador tomou conta do meu pobre e vazio estômago. Uma nuvem negra de pavor com cheiro de camembert quis tampar a minha vista, e então a única reação possível com tanta incoerência, pavor, compaixão e nojo dentro de mim, foi gritar.

Quando a gente tem medo de alguma coisa, mas muito medo mesmo, perde totalmente o bom senso e a capacidade de lembrar que existem outros seres humanos no mundo. Na hora do medo tanto faz, dane-se tudo, só queremos a salvação.
Clientes ouviram o grito, colegas se deram conta de que era eu, e levei uma bronca.
Bronca feia: “Adapte-se e aceite. Em Paris tem rato.”
Decidi aceitar. Precisava do trabalho.
Mas, antes, falei com meu médico. Só pra garantir que a lesptospirose estava descartada.

Enquanto um barco passava cheio de turistas ricos que não se importavam em pagar o meu budget mensal num passeio pelo Sena, me lembrei do dia em que levei uma surra verbal daquela chefe por eu ter servido duas taças de um champagne mais caro a um casal, quando eu deveria ter servido de um mais barato. Minha chefe me perguntou num francês bem duro qual era o motivo de eu ter cometido tamanho erro grotesco e sem lógica, e eu tentando explicar com meu francês meia-boca que eu só tinha tentado ser rápida e me confundi, acabei abrindo a garrafa mais cara. Mas nada adiantava, ela gritava cada vez mais alto comigo na frente de todo mundo, chacoalhando a garrafa aberta, me envergonhando cada vez mais, dizendo que aquilo custava mais de cem euros, e pensei que daria tudo pra ser a Sarah e me enfiar no primeiro buraco que eu visse. Com um queijinho. Mas engoli em seco e me mantive firme, precisava do salário.

Lembrei também do primeiro dia em que tive que limpar o banheiro do hotel. Enfiei as luvas nas mãos, arregacei as mangas, peguei aqueles paninhos de limpeza, e comecei o trabalho pensando que era bom que um dia eu escrevesse um best-seller que fosse bem seller, porque limpar banheiro era uma tarefa tão deprimente, que deveria ser proibida por lei. Espirrava produto de limpeza pra todos os lados, e na hora de encostar na pia, na privada, e no chão respingados para esfregá-los e limpá-los, torcia para que alguém no céu estivesse vendo aquilo. Imaginava bactérias, vírus, febre amarela, tuberculose, candidíase. Chorei ao ver que o lixo do banheiro masculino estava lotado, e quando um cliente se aproximou para entrar dentro da cabine, fingi que estava espirrando para que ele não soubesse que, na realidade, eu estava me desfazendo em lágrimas de horror.
Tomei dois banhos quando cheguei em casa.

No hotel aprendi a fazer mojito, daiquiri, lindas tábuas de queijo e de presunto, e croque-monsieur. Aprendi a não falar com clientes que não queriam falar, e a falar bastante com quem estava afim de conversar. Passei a entrar na cozinha batendo palma e implorando: “Sai, Sarah, vaza”, só pra garantir que não trombaria com a ratinha (que insistia em ressuscitar em cores e tamanhos diferentes, era impressionante, caso a ser estudado). Sambava com as moças portuguesas da limpeza, e cantava “Aquarela do Brasil” passando aspirador. Fiz amigos que hoje considero de infância. Fui embora definitivamente daquele hotel já limpando privada com a mesma naturalidade com que tomo água, e sabendo diferenciar produtos pra vidro, madeira, parede e prateleiras com a mesma facilidade que tenho pra tomar trinta banhos no mesmo dia se acho necessário.

E foi assim: naquele dia, horas antes de parar no meio da ponte sem ter razão, larguei tudo e disse que tinha dado. Falei para a minha chefe – logo depois dela me metralhar com palavras horríveis em alto e bom som – que ela não tinha o direito de me humilhar daquele jeito, que ela nunca mais gritaria comigo, e que ela não era, absolutamente, nada. Quando a mesma arregalou o olho e me perguntou “O quê você disse?”, eu comecei a tremer de pavor, juntei o pouquinho de coragem que eu ainda tinha, me comprometi a não chorar, e repeti, por aquela e por todas as outras experiências abusivas de trabalho que eu já tive na minha vida: é exatamente isso que você escutou: Você. Não. É. Nada. Não grite comigo, não trate a mim e nem a ninguém desse jeito, e pra mim chega. Tô indo embora. C’est fini. C’est parti.

Saí da cozinha com as pernas bambas, fraca de tanta energia que eu tinha deixado pra trás, pairando no ar junto com a ex-chefe abusiva, mas igualmente orgulhosa. Passei por clientes sem me importar com o fato de que acabava de decretar demissão praticamente na frente de todo mundo, e me direcionei ao vestiário. Troquei de roupa, e bati o ponto. Dane-se, nunca mais voltaria. Nunca mais seria humilhada, e nunca mais ninguém falaria assim comigo.

E de cima da ponte, onde eu nem sei como fui chegar, com o Sena correndo embaixo de mim e o tempo passando sem nenhum esforço, decidi que se o preço de continuar seguindo o meu caminho era sobreviver a esses perrengues, eu aceitaria. Eu superaria o que fosse: ratos no meu caminho, casa-moquifo caindo aos pedaços (que acabou virando o meu ninho protetor, me acolhendo docemente todos os dias), falta de grana, vontade de chorar, adaptação a uma cultura nova, dificuldade de falar o que realmente penso, gente grossa, e todos os outros. Porque morar em Paris tem sim o seu lado muito bom, e aqui gosto mais de quem eu sou – só isso, na realidade, já é o suficiente para eu decidir ficar por enquanto.

Por fim, disse a mim mesma que pessoa alguma, fosse ela chefe, colega de trabalho, conhecido(a), ex-amigo, ex-familiar, ou qualquer um outro(a) teria direito de maltratar, ou, ainda pior, querer me convencer de que eu não era capaz de alguma coisa.
Eles que se enganavam.
Eu era sim.

E eu ia dar um jeito.

Eu aceito

Entro em um restaurante e pego um prato para me servir. Acho a textura dele estranha, e me pergunto se a louça daquele lugar é bem lavada.
Ouço um burburinho de alguns executivos ao meu lado na fila, mas nada me interessa, então lembro da anemia, e decido pagar caro por gordas de lascas de beterraba. Carne vermelha contém em si a dor do animal quando é abatido para virar comida, e isso é transmitido para aqueles que a comem – o resultado disso é raiva, depressão, ansiedade, desespero. Melhor evitar. E isso, claro, sem contar o processo de produção horrendo deste alimento.
O mundo é muito cruel.
Sento em uma mesa ao lado de duas moças que conversam sobre colesterol, uma ingerindo 03 ovos fritos, e a outra mergulhando num mar de bacon, e não lembro a última vez que senti o gosto de um ou outro – parei por medo da balança, do espelho, do LDL, pressão, Fleury, diagnóstico, doença.
As moças começam a falar sobre trabalho, e resolvo ceder ao celular que apita descontroladamente por atenção.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu aceito.
Eu digito o texto com as mãos trêmulas e as bochechas pegando fogo, como se estivesse falando “sim” a um jantar com meu amor platônico. Ou a uma vida de massagens gratuitas a qualquer momento em que o coração acelerasse. Ou ao fim do trânsito em São Paulo. Ou a um Kit Kat sem calorias. Eu digo ao editor que aceito a proposta, eu não posso mais sabotar esse desejo incontrolável de ser o que sempre quis, de fazer o que me faz bem, de publicar, finalmente, o que eu venho tentando desde a minha última encarnação: vou ser, oficialmente, uma escritora.
Não apenas quando der. Não somente quando o trabalho der uma aliviadinha. Não exclusivamente quando escrever for a única alternativa para eu achar a vida vivível (momentos únicos em que consigo jogar o resto pro alto, e não me culpar por isso).
Vou, apenas, somente, exclusivamente, escrever.
Eu aceito.
Termino de comer a lasanha, as batatas fritas e o ovo com bacon, peço um cheesecake com um café, e pago tudo sem remorso. Saio pra andar.
Acho as pessoas interessantes e amigáveis, brinco com um cachorro, dou a mão para um mendigo.
Paro na Augusta, corto o meu cabelo, me acho linda, e como mais um doce.
Lambo os dedos sem encharcá-los de álcool-gel.
Vou caminhando e sorrindo, o tempo não me assombra, as horas param, as cores de fim de ano iluminam o meu bem-estar.
Entro em um boteco, peço uma cerveja, e ligo para o plano de saúde: agora só Dr. Consulta, não vou mais deixar meu salário na conta da Amil. Não vou. Sou forte e saudável, e vou usar esse dinheiro para aproveitar mais os meus dias, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo.
Saio do bar e entro em uma agência de turismo: com o dinheiro dos livros, vou viajar. Dane-se tudo, nada mais me impede, vou desfrutar da minha juventude onde quer que seja que não aqui, vou parar com essa mania de prorrogar tudo, agora eu vou mesmo, não tenho medo.
Planejo tudo em 30 segundos, estou muito satisfeita, e saindo de lá decido avisar o meu médico que não preciso mais de remédio algum: estou ótima, doutor, estou em paz, estou livre de tudo aquilo, nem lembro mais como era, podemos parar por aqui. Obrigada, valeu, foi bom, mas agora vou me dedicar ao meu gatinho de estimação. À yoga. Ao trabalho voluntário. Ao sucesso do meu livro.
A mim mesma.
.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu já estou indo.
As duas moças ao meu lado continuam falando sobre trabalho, e eu preciso levantar pra continuar o meu.

Cidade grande

Não tinha o que fazer, não tinha pra onde ir.

Um mar de carros desesperados por seus objetivos perdidos com o tempo, e buzinas que berravam por calma que remédio algum era capaz de trazer.

Talvez se ele estivesse em outro lugar, com outras pessoas, uma outra hora.

Hábitos que voaram com as folhas do outono.

Ela, definitivamente, havia sido um grande amor. Mas passou, assim como o pedinte que percebe quando não há mais nada dentro daquele carro que estejam dispostos a lhe dar – ele sabe a hora de recolher a mão para si mesmo, e seguir seu caminho rumo ao próximo automóvel.

Por que pensava nisso?

Mudar de emprego, viajar para longe, mandar uma mensagem para aquela garota bonita, pedir um salário melhor – será que adiantaria?

Gritos de trabalhadores que perderam o ônibus e a hora de dar um beijo de boa noite.

Aumentar o rádio foi uma tentativa, mas era como potencializar a dor de cabeça de não viver. Não abafava o caos lá de fora, só lembrava às suas mãos suadas da morte que era acordar todos os dias sabendo exatamente o que aconteceria nos momentos seguintes. A vida não era pra ser lógica, mas a dele havia perdido toda a poesia e as cores da realidade.

Talvez se ele ligasse pra ela mais tarde, no final de semana seria legal ir ao cinema, a conta do banco estava atrasada? Ele deveria se permitir enlouquecer de vez.

Os outros que cuidassem da vida deles.

Quando ele era jovem, deveria ter fugido com aquela delinquente, assim como sua mãe a chamava, e tentado um caminho de aventuras ao lado dela. E que o resto fosse pro inferno. Será que ouviram, na quinta série, quando ele chorou no banheiro?

Mas isso tanto fazia agora.

Se ele pudesse, resgataria sonhos perdidos, que agora afundavam num mar onde pescador algum gostaria de estar. Quando ainda havia vontade, brilho, inocência. Quando tudo era amanhã. Quando o amanhã não era o eterno hoje.

Checou o celular, nenhuma notificação, de nada, de ninguém.

O que será que ela fazia agora?

Deixa pra lá, era resquício de um tempo perdido.

Quando o fim não existia.

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Acendeu um cigarro, deu três longos tragos tentando suprir a bolha de nada que havia nos pulmões, e, soltando a fumaça vagarosamente pela boca, com o braço para fora da janela, deixou com que a sua válvula de escape escorregasse pelos dedos cansados, tremidos e sem força, até cair no cimento exausto de tanta mesmice que carregava todos os dias.

As faíscas explodiam e brilhavam em câmera lenta, enquanto o cigarro abandonado tentava uma posição para ficar pra sempre, e morrer confortável.

Ele não viu, mas sentiu.

Precisava acelerar.