a gente não apaga

o que acontece
a gente não apaga

está lá
é a parte mais minha de mim

às vezes me chama
me olha de frente sem cerimônia
me oferece um café
pede cinco minutos
esse vento é de chuva, senta
acende um cigarro, tem vinho bom

é pra testar meu poder
de não me importar
em ser e estar

às vezes se camufla nas minhas distrações
é só mais um poro
um pedaço, um pouco
não demais

uma bic jogada em cima da mesa
inofensiva
mas esperando, estrategicamente,
ser útil: ela sabe que um dia será

e quando quer utilidade, machuca
me tira do rumo onde eu sei
como pisar
é pedra, me atira
alfineta meu caminho, me lembra
quem eu sou
que estou
quem eu fui
que ainda vou

areia deserta
pela qual andei um dia
esperando por deus e todos os santos
poder voar

quando vai embora
tenho asas, é possível
presença calma e paciente
de um amuleto
já tão sofrido
mas que agora
é sorte permanente

grades que me fazem lutar
pra escrever
sobre terras, sobre águas, sobre ares
sobre os sóis
que nunca me queimaram

memória que quer esquecer
sem deixar de me cuidar
dizendo, maternalmente,
que isso é a vida
e que quando eu for
mãe
eu ainda vou entender

ô, se vou

rugas que ainda são
plásticas, articuladas, férteis
um dia serão mais
hoje são luta

na tentativa de organizar
o que eu devo e o que eu posso
me jogo, leve,
em cima de um sonho
que ainda não há

quero ver se ele cai
ou me segura
quero ver se me cala
ou me permite
quero ver se me prende
ou me deixa,
como amor de verdade,
escrever uma história
que nem poesia
pudesse inventar

se não for pra ser assim
que nem comece
essa paisagem
que nem exista
e você
que não me insista

porque o que acontece
a gente não apaga

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À Paris (continuação)

Eu não vou conseguir ficar nem uma semana neste lugar se eu não souber como falar “carregador” e “socorro”, pensei, enquanto seguia as orientações passadas por algum pedestre parisiense para chegar perto do Panthéon.
A única palavra que eu sabia em francês naquele momento parecia ser “perdue”, porque esta não posso esquecer. Nem sabia como eu tinha elaborado a frase completa explicando eu estava “perdue” e perguntando sobre a localização do Panthéon. Nem sei como lembrei do Panthéon. Na realidade, eu não sei se falei com alguém ou foi um delírio, mas nessas horas fica claro que Deus existe, pois parecia, pela paisagem, que eu estava me aproximando de lá.
Os franceses sabem muito de história, política, economia. Eu sei comer pain au chocolat, e escrevo quando posso. Eles são magros. Eu era até pisar aqui, tenho certeza que vou engordar. Eu não sei viver sem os meus pais por perto, franceses são independentes. Minhas irmãs fazem muita falta, não era pra eu estar tão sozinha, eu não sei morar sozinha, ninguém me ensinou a fazer isso, será que eu entro neste bar para tentar carregar o celular, tomar algum álcool e fazer amigos?
Mas naquela hora, eu tinha horror de bar, de álcool e de amigos.
Franceses não pensariam assim.
Como é que raios eu vim parar aqui?
Precisava ficar sozinha.
Como é que dá pra ser tão louca?
Tudo isso metralhava o meu pobre cérebro cansado e confuso, enquanto eu seguia as orientações que me passaram na rua para eu tentar chegar em casa.
Mas tudo estava muito difícil, o caminho era muito tortuoso, principalmente porque se tem algo que eu nunca decorei foi “direita” e “esquerda”. Não dá, tentamos de tudo (eu, minha família, professores, guardas de rua, médicos, colegas, bombeiros, desconhecidos, frentistas, CETs, policiais) todos já tentaram me ajudar com isso e nunca foi possível encontrar um método de memorização. Portanto, se em português não consigo, você pode imaginar em francês.
“Gauche” me lembra um poema de Drummond, não me lembra “esquerda”, que por sua vez é o lado do coração, ou o lado com o qual eu não escrevo, ou o lado que não é a “direita”. Gauche é o Carlos, gauche, para meus neurônios, não vira pra lugar nenhum.
Porém, em algum momento em que virei “à gauche”, passei por um Carrefour e aquilo me pareceu tão Brasil, tão meu bairro, tão mamãe, que quis entrar e comprar coisas para a minha casa. Não sei qual foi a lógica na hora da compra, mas saí de lá com produtos de limpeza, pão, leite, cereais, queijo, papel higiênico e bananas. Eu nem sabia o que estava faltando na casa, eu nem sabia do que eu precisava. Decidi que tudo aquilo era bastante necessário. Eu só me esqueci de que eu não tinha noção se estava perto ou longe do apartamento, e de que agora, além da bolsa, tinha que carregar aqueles produtos todos na mão – o rapaz do caixa me disse que eu teria que pagar a mais pela sacola, e eu achei que não valia a pena, precisava economizar, então coloquei tudo o que dava na bolsa e o resto – incluindo o papel higiênico – levei na mão.
Imagina.
Quis economizar na sacola.
E levei o papel higiênico na mão.
De qualquer forma, fui virando à esquerda, depois direita, depois eu vi uma Boulangerie e meus olhos brilharam ao avistar éclairs.
Era como se ursinhos carinhosos vestidos de cores pastel voassem ao meu lado e nada mais pudesse ser uma ameaça na minha vida.
Éclairs.
Entrei e perguntei quanto custava, como se naquele momento eu me importasse, e como se eu não tivesse economizado em uma sacolinha de plástico. Eu tinha necessidade de uma éclair, eu tinha todo o direito, eu estava perdida em outro país, eu podia comer mil éclairs se eu quisesse, era totalmente justo, e nada me engordaria naquele momento.
E, no fim, elas nem eram tão caras como estava acostumada. E eram brilhantes. E sortidas.
Comprei.
A atendente era tão gentil que me perguntei se ela não queria ser minha amiga. Adoraria perguntar se ela queria que fôssemos melhores amigas, para podermos passear juntas e ela me levar pra casa na volta. Talvez pudéssemos combinar alguma coisa para o final de semana, ela me ensinaria francês, e eu a ensinaria samba, aquele clichê de filme, mas que soava tão adorável naquele momento. Quando a gente come doce tudo é tão possível e bonito, e estar perdida nunca é um problema.
Acabei não perguntando se ela queria aprender a sambar, mas porque Deus existe, no momento do auge da éclair na minha boca, lembrei do nome da minha rua. Lembrei. Assim, como a água é molhada, lembrei.
Expliquei a minha história para ela, que rapidamente se convalesceu, e abriu o Google Maps no computador da Boulangerie. Vamos procurar onde fica, e você vai pra casa segura. Não me lembro como ela chamava, mas gosto muito de Julie, então vou chamá-la de Julie. Talvez terei uma filha cujo nome será Julie.
Julie, portanto, encontrou a minha rua no Google, saiu da Boulangerie comigo e foi me explicando o caminho para chegar lá (à gauche, à droite…). Na hora pareceu muito fácil, e eu disse que ela era muito querida e que eu voltaria lá para visitá-la com certeza e comprar mais éclairs e talvez pain au chocolat, e que havia sido muito adorável receber aquela ajuda e conhecê-la.
Nunca mais voltei para ver a Julie porque não soube encontrar o caminho até lá.
Fui virando pra lá e pra cá, e em algum momento cheguei em uma rua lotada de jovens que não seguravam papel higiênico e bananas nas mãos, mas sim cigarros e taças de vinho. Procurei por alguém com uma cara amigável, e quando achei uma moça que parecia muito legal, perguntei sobre a minha rua. Ela abriu o Google Maps, pois tinha bateria no celular, parecia ser muito mais razoável e sensata que eu, e me levou até lá.
Era perto.
Nem acreditei.
Agradeci muito, e agora era a hora de achar o prédio. Qual seria? Eu subi e desci a rua (que, ok vai, nem é tão grande assim) tantas vezes que seria impossível contar. Acho que nunca passei tanta vergonha e tampouco passei tantas vezes pelas mesmas pessoas carregando compras estranhas de supermercado enquanto elas aproveitavam a sexta feira à noite. Foi ridículo, triste, exaustivo e hilário (para quem viu, não para mim).
Mas uma hora, eu avistei.
Aquele prediozinho, com uma gradezinha na frente, calma, eu lembrava daquela gradezinha, era lá. Era a minha casinha. Tinha chegado.
Sinal da cruz. Mais do que um, porque naquele dia Deus e todos os anjos estavam comigo.
Porém, havia mais uma barreira antes de entrar em casa, que era: qual seria o código para abrir a porta principal que levava ao pátio, que por sua vez me levaria ao meu apartamento? 132A? 891B? 67A9B? Tudo era possível, fiz algumas tentativas e só se ouvia um “PÉÉÉ” de uma campainha gritando que a garota das bananas e papel higiênico havia sido barrada. Mais vergonha, e o bar da frente devia estar se deliciando com a cena aos goles de um Bordeaux e uns bons tragos de sei lá o quê.
Me afastei, e fui para perto da esquina, com um pouco mais de luz, para pensar no que fazer. Será que alguém tinha um carregador nesses bares? Eu já começava a fazer careta para chorar, minhas sombrancelhas começaram a se contrair e se aproximar uma da outra, e meus olhos foram fechando para eu poder permitir que as primeiras lágrimas escorressem: onde eu estava? O que eu vim fazer aqui? Como sobreviver sem meu pai e minha mãe e meus amigos que falam a minha língua, e sem alguém pra me abraçar quando eu chegar em casa, se é que eu entraria em casa? Por que eu nunca fui organizada e não escrevi num papel todas as informações de Paris? Por que eu não fiquei em São Paulo?
Quando comecei a lacrimejar e cogitar a voltar para o Brasil dentro de uma hora, uma francesa saiu de um carro, e andou em direção ao meu prédio.
Não.
Será?
Ela parou na frente dele, e começou a digitar o código na porta. Eu, que nesta hora ainda estava na esquina dando uma olhada em tudo, e vendo se algum estabelecimento tinha cara de ter carregador pra celular, saí gritando “ME ESPERA” em todas as línguas que eu podia falar. Mas naquela hora eu não podia falar nenhuma, então não sei o que chegou aos ouvidos dela.
Mas ela ouviu.
Ela virou, me viu, me encarou um pouquinho, e me esperou. Eu me aproximei completamente sem ar, e, transbordando de alívio, expliquei que era nova ali, e toda a história (ela talvez não estivesse nada afim de escutar, mas teve que ouvir tudo sobre eu ser do Brasil, e a minha trajetória até aqui, e o parque, o café, o cachorro, a Boulangerie, minha família, o Carrefour e a gauche).
E entramos.
Subi as escadas.
Abri a porta do meu apartamento.
Cheguei.
Joguei tudo o que tinha nas nas mãos no chão, assim que pisei dentro de casa.
Comecei a lacrimejar ao respirar fundo e relembrar o filme da minha história até lá.
E depois passei a chorar.
A soluçar.
A berrar.
Até não aguentar mais.
Até perder o ar.
Até uma hora em que, com os olhos borrados de rímel e a vista bem embaçada depois de tanto choro, parei um pouco para olhar o meu novo apartamento com mais calma e cuidado.
Lá fora, alguém tocava sanfona e os jovens falavam alto aquela língua desconhecida, mas tão charmosa.
Em um papel eu li “Bienvenue”.
E então, uma onda começou a ser sentida em meus pés. Começou como uma cócega, um formigamentozinho engraçado, e foi aumentando.
Era um calor que passou pelos pés, pernas, pâncreas, e foi subindo por todos os órgãos que eu chamo de “estômago” quando me dou conta da existência, ou de “coração” se doem. Chegou até minha boca, e, sem mais nem menos, explodi.
Comecei a rir, e depois gargalhar.
Eu ri, mas eu ri tanto, que perdi a força, e sentei no chão, entre minha bolsa cheia de compras estranhas, o papel higiênico e as bananas.
E aí o riso foi virando choro, e chorei de novo.
E ri mais um pouco.
E comi uma banana.
Céus, o que foi isso?
E, assim, algo veio à minha mente, do jeito mais lindo que pode acontecer, quando a gente menos espera.
Uma constatação que demorou meses, anos, séculos, mas chegou:

Caramba. Isso pra mim é viver.

nunca ninguém

nunca ninguém me perguntou
se eu gostava de ser gente

quando eu era pequena
coisa que ainda sou
achava muito chato me chamarem
de nomes que não eram meus
me jogarem areia no cabelo
sem eu pedir
fazerem
eu me sentir
um cachorro sem patas pra correr
coisa que só gente
é capaz de fazer

quando eu era pequena
coisa que não deixei de ser
eu queria ser um cachorro
mesmo que sem patas
pra ser cuidada de verdade
por alguém que chorasse
minha irracionalidade

até hoje ninguém me perguntou
se eu gosto de ser gente

quando eu era pequena
coisa que vou morrer sem saber
ser
queria ter berrado no ouvido deles
bem alto
estourado tímpanos
ao dizer:

sou cachorro e valho mais do que vocês

em vez de me encorujar
no corpo que restava
encaretar a boca pra chorar
por todos os anos que viriam
por todas as respostas que eu deixei
pra falar depois em poesia

e, sem nem titubear
queria olhar bem fundo
nos olhos deles
mostrando meus caninos,
tão amada,
ao prever:

ainda bem
que eu não nasci vocês

O meu melhor

o meu pior é aquilo

que desperta e mobiliza

o que há do meu melhor

.

o meu pior

é a melhor parte de mim