Décimo quarto dia

Eu tanto não sabia o que fazer que o que fiz foi levantar do sofá com a tela do computador ainda brilhante, refletindo o resultado, e esquentar um leite no micro-ondas, sem café.

Nunca havia tomado leite puro e quente, e nem gostava de leite sem café, mas a partir daquele dia as coisas não seriam as mesmas.

Era uma comemoração triste.

Eu tinha pegado. Portanto, agora tanto fazia. Eu podia lamber o carpete embaixo dos sapatos sujos que pisaram por todos os chãos do meu dia a dia. Eu era positiva. Dane-se. Leite quente, sem café.

Sentei vestindo um pijama largo na cama, minha roupa permanente dos dias que viriam, a caneca de leite quente em uma mão, e com a outra fui avisando, pelo celular, com muita culpa, as pessoas com quem eu havia tido algum contato nos últimos dias: sinto muito, peguei o Covid.

Em alguns momentos, escrever isso me apavorava, eu estava afrontando um dos meus maiores medos sozinha, sem o meu companheiro, que naquele momento estava viajando a trabalho por três meses em outro país. Em outros momentos, eu me aliviava: se peguei, hoje, pelo menos hoje, não tem mais como pegar. Nesse vaivém de sensações, alguma tosse e um pouquinho de febre, as pessoas, preocupadas, começaram a me enviar respostas. E aí, no meio do turbilhão de pensamentos, notificações, páginas com informações sobre o vírus, parei um pouquinho, respirei fundo, e me perguntei, com o nada de amor próprio e gentileza que me restavam naquele momento:

Será que naquela noite eu morreria?

Pegou Covid, e morreu com o celular na mão. Pegou Covid, e morreu com leite quente na boca. Pegou Covid, e relutou para não morrer, mas morreu de tanto relutar.

Eu tinha as manchetes todas prontas na minha mente. E o pior de tudo era o silêncio. Não tinha saída. Ninguém poderia fazer sopinha pra mim. Me dar um abraço, muito menos. Era eu, meu gato recém-recuperado de inúmeros problemas de saúde e o leite. Ninguém mais.

Dormi mal, pensando ter decorado o número do Samu caso tivesse dificuldade de respirar. Não consigo decorar números. Não sei até hoje qual é o número do Samu. Não contei nada para os meus pais, e decidi não contar até estar curada. Não contei para quase ninguém, pois falar sobre isso doía.

Acordei no dia seguinte, sábado, me sentindo positiva por inteiro. Depois me estressei, e só queria ser negativa, não ter contraído o vírus, poder estar ao lado de alguém que eu amasse para essa pessoa me consolar me fazendo um cafuné.

Vaivém.

Quando me estresso, tenho tendência à obsessão. Portanto, com os produtos de limpeza trazidos por uma amiga que foi a responsável por fazer as minhas compras no supermercado e deixá-las na minha porta, tive a ideia genial de fazer uma boa faxina em casa.

Um dia ela descobre que está com Covid. No dia seguinte, faz faxina.

Eu me sentia fraca, já tinha perdido o apetite, mas limpar a casa era como me limpar por dentro, o impulso foi mais forte que eu. Joguei o líquido matador daquilo que eu já tinha contraído no chão, cujo cheiro é relativamente forte, e com o qual estou mais do que acostumada, e naquele momento eu me dei conta de que estava mesmo com Covid: eu havia perdido o olfato. Não sentia nada. Limpei a casa inteira sem sentir nenhum cheiro, e na hora do almoço percebi que o gosto das coisas estava quase que imperceptível. Fiz muito esforço para conseguir identificar a lentilha e os ovos, mas já sabia o que estava por vir. No domingo, vinte e quatro horas depois, eu não sentiria mais o cheiro ou o gosto de coisa alguma. Não saberia diferenciar doce de salgado. E essa foi a pior parte de todas.

Com os sintomas físicos alterando a cada dia, os sintomas psicológicos não deixaram de acompanhar a onda, e assim como uma hora eu estava muito ansiosa, logo depois ficava muito deprimida, depois muito obsessiva, depois muito apática. Depois quase feliz. Depois até que corajosa. Depois animada. Depois tossia. Depois comecei a ver séries que eu nunca teria visto em outras circunstâncias, pois perdi a concentração, e ler era impossível. Escrever ainda mais. Pensar nem se cogitava. Não juntava lé com cré. A febre eu verificava a cada 5 minutos, com aquele aparelho em formato de pistola que mandam apontar pra sua testa.

Um tiro, um número, um sintoma.

E se não desse tempo de viver da minha escrita? Eu não estava mais ligando pra diploma, eu não estava mais ligando pra dinheiro, ticket de metrô, hora de dormir, blusa meio rasgada. Eu não ligava pra mais nada: eu queria que tudo fosse pro inferno, mas naquele momento eu percebi que a literatura era algo que eu queria que vivesse comigo. Foi a primeira lição que o Covid me ensinou: me tira tudo, mas não me tira a escrita. A preocupação com o corpo e aparência se esvaiceu, o que eu queria era ter fome e sentir o gosto das coisas. Perdi 4kg em 10 dias, os 4kg que eu sempre quis perder, e, mesmo assim, nunca havia estado tão triste. Pra quê? O que importa é ter apetite. Segunda lição. O Brasil nunca me fez tanta falta. Calçadas e sóis de lugares onde nunca estive, mas onde o diminutivo era usado para descrever qualquer coisa: chazinho, dormidinha, beijinho. Canja, brincar de qualquer coisa com as minhas irmãs, mesmo que terminasse em pancadaria ‘amorosa’, o cheiro do cabelo da minha mãe, e as mãos do papai, com as unhas largas e curtas, cutículas comidas, fazendo carinho no meu rosto antes de uma prova. As paredes da minha casa de infância. As rugosidades dessas paredes. As panelas grossas meio descascadas, as mais eficientes. O chão gelado onde eu sentava no verão pra aliviar o calor. A padaria na Padre Antônio. Eu precisava do costume, de paralelepípedos, de pitangas na calçada, ô moça, num diga, menina, tá boa, nossa, senta aqui, vai com Deus. Brasil é carinho, e essa foi a terceira lição.

Depois da descoberta do Covid, eu vivi as semanas mais difíceis já vividas até hoje. Perguntas sem respostas, insônia, melancolia, solidão. Repensei sobre a vida inteira, do fio de cabelo aos pés. Risquei todos os dias no calendário, desde o dia da aparição dos primeiros sintomas, até chegar ao décimo quarto dia, em que fui liberada para ver gente de perto.

Durante a espera, parecia que esse dia não chegaria nunca. Fui inventando nadas pra fazer, rezando, me forçando a cozinhar e comer, mesmo sem ter a menor vontade de fazer qualquer coisa. Fui emagrecendo e perdendo a força. Entendi o quanto é necessário ter gente na vida da gente. Entendi o quanto a saúde física e mental precisam ser sempre a nossa prioridade. O quão vulneráveis nós somos. Entendi que precisamos cuidar mais do planeta. Muito mais. E uns dos outros também. E que o Bolsonaro é um merda, mas disso eu já sabia.

O tempo passou, os dias começaram, acabaram, o sofrimento veio, foi, veio de novo, e foi de novo. A lua rodopiou, o sol nem sempre apareceu, a chuva escorregou pelo chão que eu queria tanto pisar.

O décimo quarto dia chegou.

Fiz o sinal da cruz. Agradeci meus médicos. Pedi ajuda para as pessoas mais próximas, eu já não conseguia mais ficar sozinha. Contei para os meus pais, agora não precisava mais tentar esconder para protegê-los. E descobri, a partir desse dia, o que vale a pena.

O que vale a pena é ter amigos que abrem as portas das suas casas sem pensar duas vezes, te dando um espacinho, da forma que podem, pra você se sentir protegida. O que vale a pena é a família, quem quer que seja a sua, aqueles que moram no ninho que sempre estará lá para acolher as suas lembranças boas, e seus planos mais malucos. O que vale a pena é abocanhar e sentir o gosto. O que vale a pena é saber que aquela vela é de lavanda sem ninguém ter te contado. O que vale a pena é alguém te dizer:

– Isso passa

Sem contar quantas vezes ela vai ter que dizer isso, porque, naquele momento, ela sabe que você não consegue ver o fim. O que vale a pena é continuar lutando, e ter coragem. Porque é difícil, é muito difícil, mas viver vale a pena, e nunca disseram que seria fácil.

Eu não morri, diferente do que eu imaginei no dia em que descobri que havia pegado o Covid. E hoje, ao contrário do que eu previ nos dias mais sombrios que vivenciei, estou bem. Meu gatinho melhorou. O Arnaud voltou pra casa. Voltei a comer, a sentir o gosto e o cheiro das coisas que amo. Nunca estive tão próxima dos meus amigos e família, de forma que todos passaram a ser um. E voltei colocar café no leite. Porque tem coisas que mudaram para sempre. Mas tem outras que voltaram a ser como eram.

Vaivém.

Porque a vida é assim. E porque, no fim,

Passa.

Texto publicado na Revista Rubem – https://rubem.wordpress.com/

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