Amélie

Amélie
te cantaria
tudo o que tivesse no bolso
ela afinaria o ukulele
e tocaria sem parar
de Bobigny
à Place d’Italie

ela não pararia por palmas, notas
cartões de visita, troca
de turbantes e dentes pretos
por terno e gravata
de sobrevivência e jantar na mesa
por alguns outros
investimentos mais rentáveis

e nem mesmo de Bobigny
por Place d’Italie
ou 20 cigarros
já enrolados
que viessem com
isqueiro e promessa
de 20 outros
mais

Amélie te cantaria
todas as canções
até em chinês
até de gente que ela não sabe
de onde é
e nem sabe cantar
o dedo até sangraria
e as unhas se lascariam
ao meio de lado na diagonal
em seu ukulele

ela aguentaria
a tendinite e o acúmulo de água
e outras substanciazinhas
nos pés de pão
seguindo um repertório
inocentemente estratégico

Amélie botaria
seu melhor vestido
seu melhor sutiã
emprestaria o colar de prata
da Annabel e até
depilaria a perna inteira
pensando na sua
mão tão
curiosa

mas você não viria

e Amélie
na segunda
canção
perdeu a voz, o compasso
e, com gosto de rímel
na língua
desceu na próxima
estação

Anúncios

o seu aniversário e o meu ventilador

Margarida
você sempre foi minha
única amiga
pena que está
morta
agora não tenho com quem
conversar

eu teria uma montanha
de nadas pra contar, mas
nada
é um termo já tão batido
todo o poeta usa como
última moda, é um
desalento para mim
pois é a única palavra que
diz
o que eu tenho
pra falar

minha filha já vai fazer
trinta anos
e acha que sabe de
coisas
coitada, outro dia me disse
mãe, acho que estou entendendo
de alguns assuntos
pobre ignorante, Margarida,
deixei ela achar
nem teria recursos
para curar sua
frustração

o Arnélio é um grande
Idiota
sabe que eu o amo e sabe
me azedar os
sentidos
daquele jeito que eu quero
desistir de mim
mas não
dele
tem gente que nasceu
pra assombrar, minha amiga
fico feliz que você
mesmo Mortinha
não me faça dessas
coisas

a minha companhia,
se te interessa saber,
é meu ventilador
eu saio de casa e só penso
na hora de voltar pra
comer algo fácil
tomar banho e pôr minha
camisola de quem ainda não
é avó mas
será
olhando o ventilador
girar
da minha cama de casal
pela metade

ouvi dizer um dia
que o barulho que o ventilador
faz quando gira
assim como das ondas do mar
quando batem
é algo semelhante ao barulho
de dentro do ventre da mãe
quando ainda não temos contato
com o que nos faz hipócritas
por isso
acalma e
é Bom

não sei se acredito
nisso e não
conheço nenhum médico
pra
perguntar

mas quando o ventilador
gira
venta minhas saudades
e eu até imagino
novidades
que só você era capaz
de me contar

tentei fazer amizade com a cleide
mas eu a detesto, Margarida
acho ela burra
não tem assunto que
Preste
entre nós
acredite você, outro dia
ela me disse “mas a Margarida também
não era flor que se cheirasse”
levantei da Mesa de Chá naquele
instante
e disse que ela que fosse
usar o Tempo dela pra
outras coisas que não
falar dos Mortos

sou muito
contraditória
porque tudo o que eu faço é
pensar na sua falta
e falar sozinha com
Você através de recursos
incompreendidos
por quem nunca passou
tardes laranjas
no nosso banco de ferro
comentando sobre
gentes que
fazem a gente pensar

lembrei, aliás, como todos
os santos anos
que hoje é seu
aniversário

nós nos perfumaríamos
caminharíamos na rua
de terra até
o bar de azulejos finos
e toalhas de
linho
com vista pra
coisa nenhuma
e falaríamos mal do mundo
inteiro
com uma bondade
que só melhores amigas
têm

você pediria pelo amor
de jesus Cristinho
para eu não cantar parabéns,

e eu cantaria

pena que está Morta,
margarida

mas saiba que fiz um
bolo mesmo assim
e apaguei a vela por você
comi um pedaço
e o resto
eu vou dar para a cleide amanhã
na Casa de Chá depois da
chuva

me perdoe
é que me sinto

muito

Olhos meus

Os olhos da criança
que me pede um centavo
ou coisa que o valha
que eu tenha no bolso
refletem os meus olhos
famintos de vida
que eu não enxergo nas telas
e mendigo nas ruas.
Espero um consolo
um abraço apertado
um semelhante
ou centavo que seja
no cimento lotado
de passos perdidos
braços sem alma
e prato vazio.
Gente que arrasta
gente sem rumo
gente com olhos
que refletem os meus.
Gente que conta
o dia todo
mentiras verdades horários
seis e meia, quanto falta
e gira o ponteiro
mas dói assim mesmo
ou dói até mais
porque quando chega,
finalmente,
o que se queria,
não preenche o vazio
que acompanha o corpo
exausto de não sentir.
Falta tudo e não falta nada:
um balde transborda falta
que escorre nas ruas
nos postes
em toda a fiação.
Nos flashes
espelhos
necessidade de admiração.
Que escorre dos rios
represas vazias e cheias de falta
café da manhã
que nunca dá tempo
gritos no carro
de quem está só
telefone que toca
e não é aquele alguém –
refletindo a falta,
a vontade de tudo,
de virar qualquer coisa
de quebrar morder chorar
que na verdade é nada
a não ser falta.
Sopa fria
dia insosso
conversa vazia
salário baixo
esmalte roído
e tudo isso não é nada
nada além
a não ser
a falta:
falta vida
falta alguém
algum
alguma
coisa
qualquer que seja
que as pessoas buscam
famintas de vida,
assim como eu.
As pessoas querem
um consolo
um abraço apertado
um semelhante
ou centavo que seja
que eu procurei no meu bolso
e não achei
franzindo a testa
olhos lotados de lágrimas
e falta
me desculpando para a criança
que não tem nada
mas que tem tudo
quando me sorri
e diz:
não tem problema, moça,
não fica assim,
e vai com Deus.

Assim me sinto menos só

há dias em que as palavras engasgam na garganta

correm soltas com o vento

escorregam pelos dedos

não se deixam ser desenhadas…

nessas horas,

eu só torço para alguém agarrá-las por mim

e me contar

o que eu sinto.