Mudar dói, mas pode ser muito bom

Mudar dói. Li artigos, livros, falei com gente especializada, pedi conselhos de amigos, de não tão amigos, de desconhecidos, busquei ajuda espiritual. É geral, internacional, universal: todo mundo tem medo. A zona de conforto em que a gente vive, após algum período de adaptação, vai sugando, cada dia mais, a nossa disposição, disponibilidade e coragem de mudar. E aí começam as razões que a gente encontra pra não sair do lugar: o salário que eu não posso largar, o(a) namorado(a) que precisa aceitar – assim como a família e os amigos -, e o que os outros vão dizer, mas e meu cachorro, tem a academia, meu peso que preciso manter, minha imagem que preciso zelar, e os likes? E minha terapia? E o cinema de domingo? E o caminho que eu sei fazer? E o meu plano de saúde?

Me perguntaram há algumas semanas de onde eu tirei coragem para sair sozinha do país e vir pra cá sem ninguém ao meu lado, ao que eu respondi: coragem seria continuar vivendo uma vida que já não fazia mais sentido pra mim.

Talvez eu não precisasse ter esperado tanto.
Tomei a decisão porque cheguei no meu limite.
Eu não conseguia mais acordar e fazer o mesmo caminho todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos prédios, e até arrisco dizer que as sinalizações no asfalto meia-boca do Brooklin, tudo começou a me dar ânsia. Chegou uma hora que deu.
Eu não suportava mais olhar os mesmos edifícios envidraçados da Berrini, Faria Lima, Paulista.
Eu não tinha mais condições de passar o dia na frente do computador fazendo coisas que não me supriam mais.
Eu não tinha mais estômago para o trânsito.
A Estaiada começou a me torturar, não podia mais ver aqueles canos amarelos às 8h da manhã que tinha vontade de me jogar lá de cima da ponte.

Eu estava ficando acostumada.
Eu estava adoecendo cada vez mais.

Antes de comprar a minha passagem, eu achava que eu nunca ia dar conta de mudar a minha rotina, simplesmente porque crises de ansiedade e depressão tiram de você a sua autoestima e a confiança em si mesmo(a). E eu tive muitas delas. Levava uma, levantava, levava outra, tentava levantar de novo, ficava de pé e, sem mais nem menos, levava outra… E foi assim por um bom tempo, até que com muita terapia e muita leitura e muita conversa e muita palestra e muito chá de camomila e muita yoga e muito esforço, entendi: era hora de mudar.

Pior não ficava.

Um dia – nunca esqueço daquela quarta-feira -, eu abri o computador, pesquisei preços de passagens, encontrei a mais barata, fechei o olho na hora de clicar em “comprar”… e cliquei. Era uma passagem só de ida pra Paris, e pra mim aquilo significou tanto, foi tão enorme, que depois de comprar me deu diarreia o resto dia e da semana.

Tem horas em que a solução é fechar o olho e fazer de uma vez, sabendo que isso pode sim dar muito certo.

Há seis meses, no Brasil, eu não dormiria fora de casa nem se você me oferecesse milhões de reais pra isso. Eu precisava ter controle de tudo, nada podia sair da ordem, do previsível, do que eu estava costumada. Minha rotina tinha que ser certinha, retinha, sem nada fora do lugar. O diferente me causava muita ansiedade, e os meus sintomas estavam em ebulição constante dentro de mim. Era um quadro muito próprio de alguém que não estava no seu lugar certo, de alguém que precisava mudar.

Neste momento, estou aqui no meu sexto lar em Paris, na Bastille, onde dou três passos e o apartamento acabou. No banheiro tem um buraco que dá pra não sei onde, mas também não procurei saber. O buraco é escuro e cheio de teias de aranha. Mas aqui tem a minha caminha com a qual aprendi a me entender, bem como a minha escrivaninha, a minha varandinha e o Oliver, bichinho de pelúcia que ganhei de um amigo francês muito querido. Sempre gostei do nome Oliver. Talvez um dia terei um filho cujo nome será Oliver.

E, agora, mesmo estando alojada neste lugar tão diferente, tão simples e tão não habitável há algum tempo atrás, estou bem.

Aqui em Paris já passei por dois Airbnbs, duas casas de amigas, um hotel (para o qual tive que ir correndo no meio da noite assim que deu um perrengue monumental em um dos Airbnbs – história digna de um só texto), e agora estou na casa do amigo de um amigo que me alugou o seu apartamento por dois meses. Vou me mudar de novo em um mês. Para quem não dormia fora de casa, evolução.

Aqui na França não tem essa de casa limpinha, restaurante limpinho, carro limpinho, roupa limpinha. Uma grande amiga daqui me ensinou outro dia a pensar que “sujeira é vitamina”, e tentei comprar a ideia (ou roubar, porque aqui conto cada euro que eu gasto, e não acho que teria dinheiro pra comprar mais nada, na real). Aprendi a lavar a roupa quando dá, a casa limpo quando não há mais possibilidade de habitá-la caso eu não o faça, e me acostumei a ver ratinhos nos parques pelos quais eu passo e, inclusive, nomeá-los. A maioria chama Sarah, não sei dizer o motivo. Mas nada disso é fácil, e a primeira vez que um ratatouille ficou ao meu lado enquanto eu almoçava uma baguete e não conseguia me mover de tanto pânico, liguei para o meu médico no Brasil perguntando qual era a chance de leptospirose. Foi um dia muito sofrido. Fiz ele jurar que eu estava imune. Outra história para um só texto, porque o medo foi tanto que mobilizei em 24h, além do médico, mais uns 5 amigos, fazendo todos me prometerem que já tinham passado por ratos em parques, e continuavam vivos e saudáveis. Um casal brigou por causa do tema.

Isso sem contar o dia em que liguei para o mesmo santo médico e perguntei se depois de três anos sem álcool, tendo tomado uma sangria há quatro horas e ainda estar bêbada, existia chance de eu não suportar e ter um troço. Eu havia perdido completamente a segurança em mim e no meu corpo, e agora estou tentando reconquistá-la. Hoje, inclusive, sou atendente da tarde/noite de um hotel. Meu trabalho, é, entre outros, fazer drinks, e para isso tenho que experimentá-los. Ficam horríveis mesmo experimentando, mas isso outro dia eu conto. O importante é que o medo do álcool e de sair à noite de casa e de pessoas e de tudo, por fim, melhorou. Não passou, melhorou. Tô na luta.

Outro dia um senhor que tocava música no metrô era tão cativante que me fez chorar. Ele veio até mim e eu deixei ele dar um beijo na minha bochecha (pessoas aplaudiram, foi bem ridículo). Antes, isso não seria possível. Ou talvez fosse, e eu me encharcaria de álcool-gel depois. Ele era um senhor de rua. Vai saber por onde tinha passado. Mas dessa vez, deixei. Ele era muito querido.

Teve ainda uma outra vez em que me veio uma daquelas ideias fracas antes de dormir me dizendo que ou eu limpava a “cozinha” – trinta centímetros de pia onde está toda a louça e duas plaquinhas de forno – ou não ia rolar de pegar no sono. Deitei e esperei o desespero passar, mas sempre dialogando comigo mesma, e dizendo quantas vezes fossem necessárias, que “estava tudo bem, pensa naquela francesa que você conheceu que só lava tudo uma vez por semana. Ela está viva, você também vai sobreviver se não lavar tudo um só dia”.

O que eu faço para conseguir viver sozinha mais tranquilamente em um país cuja a cultura é sim bem diferente da nossa, e ainda tendo que enfrentar meus medos e minha ansiedade, é negociar comigo. A gente entra num acordo. A gente = eu e eu. As frases “calma, tenta só mais um pouquinho, se não der, não tem problema”, ou “você já veio até aqui, segura mais alguns minutinhos que isso vai passar” estão sempre na ponta da língua. O pensamento: “Eles não te odeiam, os franceses só são mais fechados e secos, lembra que você tem fulano, ciclano… (e aqui nomeio cada um dos meus bons amigos, que são poucos)” é frequente.

Não sou uma deusa que venceu a ansiedade, pânico e fobias de uma hora pra outra e está curtindo à beça em Paris. Eu já passei por mais perrengue do que momentos maravilhosos aqui, e talvez seja isso que faça a experiência tão enriquecedora.

Eu conto cada euro que eu gasto, enquanto muitos amigos compram apartamentos e casam. Tem dias em que eu só como sanduíche para economizar, e tenho inveja de pessoas que comem saladas top em lugares top. Aqui, isso é muito caro. Tem dias em que parece que eu não consigo falar nada em francês e fico muito triste. Tem dias em que eu falo muito bem, e, assim, ganho meu dia. Tem dias em que me dou de presente tomar uma taça de vinho. Tem dias em que depois de tomá-la ligo para o meu médico pois me surge, criativamente, alguma doença que eu preciso que ele me prove que eu não tenho. Tem dias em que me sinto sozinha. Tem dias em que visitar um museu sozinha é a coisa mais prazerosa que existe no mundo. Tem dias em que aceito sair com algum grupo de amigos, e me permito aproveitar. Em outros dias me dou a liberdade de dizer não, e ficar bem com isso. Tem dias em que fico carente. Um dia resolvi tomar a iniciativa e paquerei um cara gato no trem. Um dia baixei o Tinder. Semanas depois, deletei. Num outro dia me perguntei se chia grudava no estômago e em seguida sufocava o esôfago. Há alguns dias, num parque, uma criancinha pegou na minha mão e pediu para eu cuidar dela, sem saber que eu, no auge dos quase 30, ainda estou aprendendo a cuidar de mim.

Por fim, o que as pessoas veem é, no máximo, 1% do que eu passo. Os outros 99%, pra falar a verdade, são bem mais inspiradores.

Outro dia eu conto mais.

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17 respostas

  1. Que texto inspirador! No momento não consigo achar o meu propósito, tento mudar, mas o medo é grande.
    Como posso fugir de todos os compromissos que tenho? a insegurança… será que vou conseguir outro emprego logo? será que tenho tudo o que é necessário para dar esse passo? não vou me arrepender?
    Mas lendo o seu texto percebi que nunca irei saber as respostas dessas perguntas se não der o primeiro passo.. …
    Drica torça por mim !!!

  2. Nossa! Sua história é muito inspiradora. Estou com quase 20 anos e não sei exatamente pra onde vou, nem o que quero.. Estou sem nenhum pingo de vontade de enfrentar exatamente nada.. eu era apaixonada pelo meu emprego , mas hoje tento fugir dele. Na maior parte dos meus dias eu só quero dormir e esquecer que o mundo lá fora existe. Tô precisando tomar alguma iniciativa como essa.. Mas o medo e a falta de vontade predomina! Sei lá, nem eu me entendo..

  3. Acabei de te conhecer e fazer like na tua página através de uma grande amiga do Brasil. Sabe, segue em frente. Chora, fica deprê, se joga na cama toda enroscada em posição fetal, mas acredita em ti e continua em frente. Eu sei que passa. Infelizmente o Brasil não dá mais. Sou brasileira de São Paulo e já estou há 25 anos em Portugal. Nem deu pra ter frio na barriga, nem medo, nem nada. Vim de férias e fiquei. Era só até o Natal, dizia eu… E no Natal fui para o Brasil só para dizer que voltava pra cá. Eu tinha nesta época 30 anos. Era muito bem casada. Ganhava muito bem, mas nada daquilo fazia sentido para mim. Tudo se resolveu. Te entendo quando invejas as pessoas que comem bem. Eu mal tinha para pagar o aluguel. Ou morava, ou comia. Mas tudo deu certo. Deu tão certo que fui há um mês atrás de férias para o Brasil e passadas 2 semanas já queria voltar. Aqui agora é a minha casa. Aqui eu tive os meus 2 filhos maravilhosos. Aqui eu tenho os meus amigos portugueses que não largaria por nada. Aqui eu sou feliz. Aqui eu ando na rua de madrugada e não tenho medo. Aqui eu dou 2 beijinhos nos portugueses (que estão sempre tristes, na sua maioria). Aqui eu trabalho. Aqui eu amo. Aqui está a minha vida. Um dia vais te sentir assim. Vais estar em casa. Porque a nossa casa é onde está o nosso coração e onde habita a nossa alma. Felicidades e dois beijinhos 🙂

    • Sandra, eu me vejo em cada palavra sua. Eu choro, eu berro, eu me abraço na cama, mas nada paga a sensação de ter feito o que eu vinha ensaiando há tanto tempo, e de ter realizado um sonho tão antigo meu. Que boa essa sensação!
      Quem sabe um dia eu não estarei escrevendo a mesma coisa que você, depois de ter, de fato, entendido qual é o meu lugar nesse mundo? ❤
      E quatro beijinhos. Dois pelo seu texto, e mais dois pelo sorriso que você tirou de mim.

  4. Drica, mais uma vez me emociono com um texto seu. O que mais me comove é saber que você morre de medo de muitas coisas mas não se deixa paralisar por eles. Essa sua experiência está sendo muito legal e acrescentará algo positivo em você. Tenha essa certeza e, por favor, continue a compartilhar conosco. Beijos

  5. Sabe quando vc lê e fala: eita, sou eu!!
    Mas aí eu lembro dos nossos papos e lembro que estes sentimentos e sensações são tão comuns pra quem sofre desse mal, e percebo o quanto ler tudo que escreve me ajuda a entender que esses medos não são reais, ou melhor, não oferecem perigo real.
    Ler sobre as suas superações é como deixar a luz entrar pela janela… ❤
    Amo muito vc e estou torcendo para que tire todas as novidades de letra!

    • Re, você sempre tão amada comigo. Lembro muito das nossas conversas, das nossas confissões e risadas. Rir é uma forma ótima de superar tudo isso. Tamo junto amiga. Seu recado me emocionou. Um beijo enorme e muito carinhoso ❤️

  6. Drica, não é o primeiro texto seu que leio. Lembro-me de um que me tocou profundamente há uns anos, uma carta que você escrevia para a atual namorada de um ex, acho. Chego até eles através da Caxu, minha bixete da Poli e amiga querida. Esse texto foi igualmente impactante. Me reconheço em você na hipocondria, na ansiedade, na fixação por limpeza, nos diálogos internos e na luta diária. Parabéns pela superação constante, pela coragem e pelo talento em se expressar tão lindamente. Agora só me vem um sentimento de “quero ser sua amiga!”. Beijo, querida.

    • Lia, que recado mais carinhoso. Que engraçado isso, estes dois textos que você mencionou foram igualmente tocantes para mim. Fiz os dois com muito amor. Que bom saber que eu não estou sozinha na luta. Já somos amigas. Quando passar por Paris, não esquece de me avisar! A Caxu te dá meu número ❤️ Beijos, querida!

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