no meio dessa confusão

mas isso é tudo um grande
engano

ontem eu era só um pequeno
abajour tentando
ganhar a atenção de alguém
iluminando um pouquinho
suas opiniões e falando
o que eu sei que você gosta
de ouvir
de quem você
acha que não te
conhece
 
hoje sou uma criança
amanhã talvez eu seja a minha mãe
ou a Maëlle,
que eu conheci numa praça
e tive desejo de ter como
filha

mas passou

o que você faz quando
acha que os únicos que te
entendem nunca lerão
sequer uma palavra
sua?

como você lida com a falta de horas
e as horas que não passam com
receio de morrer num abismo
de números estraçalhados como
os nossos brinquedos que um dia
foram jogados fora
sem

querer?

você reza pra Deus, ou pra sua Tia
que morreu de tanto

sorrir?

você alivia sua própria
presença com bicicleta mato
queimado pinot
noir ou uma receita
azul?

você se interessa por
partidos e outras barbaridades?
coloca a mão embaixo da torneira

fechada

pra ter
certeza?

morde a boca
sem

saber

quando ouve o
nome de alguém, querendo
na verdade
morder a
boca desse
Alguém? 

podíamos ir ao Sena
juntas
caminhar, mesmo,
como duas coreaninhas
encantadas com flores
mas sem muito objetivo, porque
os melhores dias da minha vida
não tinham pretensão nenhuma, queria
tentar de novo

eu curaria suas dores
de mentirinha
só por pouquinho
tempo, e você ficaria
feliz, achando que eu era
tudo
o que você
precisava
 
eu falaria das diferenças
entre São Paulo e Paris
talvez possamos
passar por ruas de pedras onde
moças
andam de vestidos que já nasceram
costurados nelas
com seios que não se importam
em ser
ou contar uma
vida

nos perguntaremos se os sapatos pendurados
nos fios elétricos
pertencem à pessoas
que ainda acreditam
em democracia;
se seus pés cresceram e os sapatos
passaram a ser
inúteis
demais
até para irem pro
lixo;
ou se as pessoas jogaram os sapatos pro alto
para oferecer a um orixá que nunca
lhes deu presente de natal,
um sinal de existência
 
é difícil te dizer depois de tudo,

mas

eu não sou
eu

mesma

é por isso que tento
me expressar de alguma
forma que possa
me tornar
menos

outra ou menos
você

eu nunca fui menina, mulher nem
nada dessas coisas que eu deveria ter sido
eu serei, um dia, disso não há dúvidas,
se quiser, também podemos falar disso e de
outras invenções minhas
mas o que eu sou hoje é água clara
em busca de sal
pra virar
mar
e te abraçar quando
você vier nadar
em mim depois de um acontecimento
que te deixará
sem

chão

e enquanto não consigo subir
no último andar
de Sacre Cœur
e gritar pro mundo que eu não sou
nenhum dos meus
personagens
e não serei o que me premiarão
por ter
sido com sucesso

e enquanto
eu não puder
jogar fogo pra todos os lados
dançando que nem águas de março
pra ver todas as noites de dor
queimando afogadas
e um início de amor molhado
à luz de velas,
eu me apaixono pelos meus

medos

que, ao menos
me mantêm bem

viva

e atenta às mudanças da
Lua

ela sim, ouvi dizer
é responsavel por
grandes
Revoluções Naturais

– até lá,
posso te contar
algumas
histórias

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os últimos a saber

encontrei em crianças que
nunca nasceram
berço e permanência
nos entendemos muito bem
desde o dia em que nos foi
apresentada a vida:
tivemos preguiça

é que as crianças
que nunca nasceram
não querem achar aos 16
terem entendido
e descobrirem, aos 43
estarem devendo

elas não querem abrir a geladeira
esperando encontrar dentro dela
algo novo
sem que precisemos dizer
o que elas hão de
descobrir:
solidão não
faz as compras
e o vazio não
sente pena

as crianças que nunca
nasceram
não querem se ver
imbecis
quando apaixonadas
oferecendo a quem se ama
dicas honestas
sobre alguém
que elas fingirão ser
com muito cuidado e
dedicação
até acreditarem
na sua própria
invenção

elas têm horror
de pensar em falar
sobre sexo
com os próprios filhos
ou pior
com os próprios pais
ou, ainda pior
sobre a falta dele
com alguém que um dia
amaram

as crianças que
nunca
nasceram
não querem fazer
café de filtro num sábado
bege
se questionando por que
não responderam
a Natasha naquele recreio
ou quais são as razões
de não acompanharem
séries, política, convenções
ou mentiras
de semelhantes
proporções

elas tentarão
com muito empenho
agradar

forçarão risada
e pagarão em muitas vezes
uma roupa que nem
as favorece
engolindo a opinião de que
nada disso
é interessante

porque o
mundo
gira

mas palavras não ditas
enchendo as estantes
de vozes em luto;
sonhos bons acabados
tão rápido
como uma segunda de verão
em que não se sabe se
é segunda ou meio-dia;
e antigas dores de amor
que ressurgem
assim que foram
esquecidas

continuam os mesmos

e, se algo ainda muda,
eu e minhas crianças
que
nunca
nasceram
sempre fomos
os últimos
a saber

Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.

Partes Pessoais

Joana viu aquela pomba esmagada com suas tripas, penas e poucas cores expostas ao mundo, no asfalto da rua de cima. A infeliz da ave nem teve tempo de virar de costas e esconder a cara e o peito, partes tão pessoais. Era tão nojento e verdadeiro que não dava pra não olhar. Era como passar por um acidente na rua, que quanto mais trágico, mais todo mundo para por mais tempo pra contemplar a sorte que é não estar no lugar dos que se ferraram naquele dia. Daí o papai começava a chamar por uma tal de Cacilda, que não se sabia quem era, Joana já tinha perguntado, e ele não respondia: “Cacilda! Vagabundos que não trabalham. Não têm que chegar no trabalho, não, inúteis? Ê, bando de esquerdistas vagais! Cacilda!”.

Os olhos da ave azarada pulavam pra fora, tentando entender se tinham morrido ou se era só mais um pesadelo. Joana sabia bem como era ter os olhos assim no meio da noite. Já tinha acontecido no dia em que sonhou que estava pelada na frente da classe e menstruava pelo chão de madeira, enquanto todos, inclusive o Felipe, riam e apontavam.

As asas da falecida não tinham mais nenhuma utilidade. Estavam cortadas, que nem as vontades de Joana, quando era proibida, por exemplo, de sair na chuva pra dançar e sentir a roupa toda grudando e escorrendo por suas formas cada dia mais evidentes. O bico da ave que havia aceitado tanta migalha até hoje, estava boquiaberto com a novidade.

Morrer saciava.

Que nem a boca do vô José aos domingos, quando tirava soneca depois da feijoada e de uns copos de água benta que fazia ele ficar vermelho e falar enrolado. Ele também parecia morto dormindo. Joana não queria que o avô morresse, mas o tio Carlos queria – ouviu a avó dizendo outro dia, parece que assim tio Carlos raparia tudo. O que era “rapar”, Joana não sabia. Tio Carlos era o homem mais feio que Joana já tinha visto. Mas ao contar esse segredo pra Clarinha, sua melhor amiga, Clarinha disse que achava que todo mundo tem um tio feio que só pensa em rapar tudo. Clarinha era sempre muito sábia, mesmo sem saber de tudo.

Acabou para a pomba.

Para Joana também acabaria. Para o avô também, e para a mãe também. Para a Clarinha e para o Felipe, com quem Joana casaria, também. Para o pai também. E até para o tio Carlos, que parecia não saber. Para a sua árvore preferida, cheia de limões pequenos e bondosos, e para a tia Teca, que não entendia ser possível sobreviver sem um homem ao lado, também. Para o Seu João da pipoca, Valdemira da limpeza, para o cachorro pulguento e cheio de sarna da praia da areia boa, também. Para a gata Caramelo e para as mulheres peladas que o irmão via na televisão à noite, acabaria. Para o primo débil que não largava o vídeo game, e só sabia falar disso, também acabaria. Acabaria para a professora Georgina e para o garçom magrelo da pizzaria, que sempre convencia Joana a comer também os legumes, e não só o queijo da pizza. Acabaria até para o mar e para o céu e para o sorveteiro Bebeto. Para Gigi, a sua prima mais linda do mundo que dava raiva e vontade mesmo que ela morresse, assim paravam um pouco de elogiá-la, também. E acabaria para a chuva, para as tardes de chuva, para as manhãs ardidas antes das tardes de chuva. Para o asfalto que exalava um cheiro de chuva antes mesmo da chuva.

Daria saudades do ódio da chuva naqueles dias de verão. Joana entendia daquele ódio. Era o ódio daqueles que querem expor suas razões e não são ouvidos pois não têm idade suficiente – de repente, eles ficam tão bravos de serem impedidos, que não se seguram e descem destruindo tudo o que veem pela frente.

Chover era vingança, e um dia Joana choveria.

Acabaria para aquele porteiro novo que procurava algo nas suas pernas de criança, algo que ela não sabia o que era, e fazia ela se envergonhar. Acabaria para a velha do terceiro andar que apertava a sua bochecha forte, de tanta inveja por ser velha e baforenta, enquanto Joana era nova e escovava os dentes. Acabaria para o elevador, seria o fim do apartamento onde morava, e do peixe betta que ganhou de lembrancinha numa festa, e que matou todos os outros peixes do aquário, achando ser possível, assim, evitar a própria morte. Ele que se enganava. Acabaria para ele também.

– Ué, Joana, cadê o pão?

– Não trouxe ainda. Vim buscar uma capa antes de ir à padaria.

– Capa? Mas já está chovendo, filha?

– Não. Mas quero esconder as minhas partes pessoais.

O que é o amor?

O que é o amor?

Eu me pergunto quando deixo o metrô, doída pelo zumbido que restou de ontem; pela poeira levantada depois de passos tão medrosos, mas esgotados da mesmice; pelo transbordamento daquilo que eu não sei nomear, mas que tenho provas da veracidade.

O cinza daquele cimento que piso, cor tão acostumada a não fazer rir, me lembra do passado, que corre alucinado em busca do amanhã, e me faz querer viver procurando cor. Será que o amanhã será hoje, ou o hoje é o amanhã que espera não ser cinza?

O que é o amor?

Eu procuro no barco ancorado, tão cansado de dizer sim sem nenhum poder de decisão; eu busco nas rugas de gente que não faz questão de agradar; em cigarros devorados por bocas desacreditadas; em garrafas largadas pela metade por alguém exausto de cumprir regras.

Procuro no meu pão sem manteiga, que mesmo seco é familiar; no café que me pega no colo com paciência, e me acalenta por mais algumas horas; nos olhos da moça negra que me dizem tudo sem que eu saiba de nada; no cachorro deitado no chão gelado abraçando forte o seu dono, pois sabe que mais que cão, é casa.

O que é o amor?

Eu me desespero com tanto barulho que anuncia a vida sem falar a minha língua, e me espalho pelas ruas de dia, de tarde e de noite pedindo respostas; engulo o sal de lágrimas tão necessárias; eu imploro por explicação. Paredes descascadas, arranhadas e inacabadas como tudo aquilo que deixei de falar, secam meu rosto e me dizem que eu não estou só.

Busco no riso de uma criança que mesmo tão nova é tão mais honesta, e assim me pergunto se o amor é ainda é possível depois de tantos acordos, contratos, delações, duplos-sentidos. Tanta amizade acabada por medo da perda de espaço. Tanta família desmantelada por não saber se ama ou se garante. Tantos sonhos que não amanheceram com a gente.

O que é o amor?

Me enxergo tão pequena perto do que eu posso imaginar; tão confusa na minha existência que teme não dar tempo; tão certa da minha incoerência que não sabe se escreve, ou se espera, resignada, o amor curar.

Depois de todas as aceitações forçadas; depois de tantos fins que invejaram começos; perfumes que senti sem poder reagir; beijos que deixamos para aquele encontro por acaso, que ambos sabemos não existir. Vejo você se afastando, cada dia mais, e eu na dúvida sem saber se te amo ou se continuo procurando respostas para me ver livre de te amar;

mas afinal,

O que é o amor?

Para tudo dá-se um jeito

Tentei engolir aquela batata cozida que parece isopor salpicado de plástico com aroma artificial de alecrim, já de olho no brownie de espuma de travesseiro ruim com gosto de Zero Cal vencido, e fiquei na dúvida se virava um vidro de remédio pra dormir, ou puxava assunto com a moça ao lado (que, felizmente, descobri que era médica, e por isso logo me apaixonei – fóbicos entenderão).

O paralelepípedo foi sendo abraçado por gordos primeiros pingos de chuva, e começava a refletir cada um de todos aqueles anos: o de 2004, minha primeira noite insone ao lado da minha mãe na cama me dizendo que a noite era apenas “o claro sem luz”; o de 2006, primeira consulta terapêutica; 2008, primeiro porre; 2009, primeira crise de pânico; 2012, primeira vez morando longe dos pais em outro país; 2013, o ano em que tive medo até de mim mesma e mal podia sair da casa dos pais; 2015, o ano em que recusei todo e qualquer passeio em que não tivesse a segurança de estar de volta em casa antes do anoitecer; 2016, o ano em que me joguei num amor louco e em dois novos trabalhos, começando a, de pouquinho em pouquinho, enfrentar alguns dos meus infinitos medos. 2017, o ano em que me disponibilizei a viver a vida de outra forma, em outro lugar.

Me tranquei no banheiro e olhei pra minha cara pálida e minha boca trêmula, que tinha cor de filme antigo que meu avô botava pra eu ver quando eu era pequenininha. Que merda eu estava fazendo? Quantas gotas, mesmo? Escovava o dente agora, ou deixava pra mais tarde, quando eu não conseguisse dormir, pra ter uma desculpa pra levantar? As pessoas lá fora iam achar que eu estava demorando muito? Meus pais estariam na estrada, na padaria ou em casa? Como será que aquela amiga, que eu sempre quis ser, agiria no meu lugar? Ela estaria vendo filme agora? Mas o que eu deveria ver? O que pessoas assistem no avião? Elas entendem os filmes, elas prestam atenção, elas relaxam, elas pegam no sono naturalmente, tomam vinho com Dramin, misturam o quê com o quê? Como eu faço? Eu tenho pavor de série, nunca assisto série, deveria começar, mas começaria por onde? Friends é série?

Era uma rua estreita, eu gosto muito de ruas estreitas. Depois de tudo até aquele dia, minha terapeuta cansou de ouvir que eu não sabia mais se eu gostava realmente de algo, ou achava que gostava porque o certo era gostar. Eu me senti, naquela ruazinha, uma plantinha que luta com toda a força que sobrou pra se recuperar e crescer de novo depois de ser trucidada por um caminhão-pipa de antidepressivos. E depois de ser esmagada por um ônibus turístico cheio de gente irritantemente alegre dentro, ou um trailer carregando um grupo enorme de amigos que esfregam na cara o quanto são bons vivants. E depois de uma vaca gorda que além de passar em cima de mim, insistiu em me convencer da nossa semelhança.
Olhando os paralelepípedos agora completamente aliviados daquele calor de antes da chuva, tive certeza: de ruas estreitas eu gosto. Fui me aproximando da janela de algum lugar, da qual saía uma fumaça de filme que, misturada com a chuva e a quase noite que chegava, me deu um nó no peito. Mas dessa vez o nó não me esfaqueava toda a esperança de sobreviver a mais um dia, só dava vontade de chorar, e de deixar ser assim.

Fazia quantos minutos que eu olhava pra minha própria cara naquele banheiro cubículo onde sinto nojo de encostar em qualquer coisa, sinto nojo da minha roupa que encostou em alguma coisa, sinto nojo de lavar a mão que foi obrigada a encostar em qualquer coisa? Minhas sobrancelhas são, definitivamente, diferentes uma da outra. Tenho um olho maior que o outro. Eu pareço um quadro do Picasso. Eu analisava todos os meus defeitos do rosto cautelosamente, quando a tosse de um H1N1 recentemente recuperado foi agulhando minhas amígdalas e deixou na minha garganta um formigueiro de presente depois da primeira tosse: não. Vai começar. Tossi tossi tossi. A vontade de chorar veio, e, com ela, mais vontade de tossir. Chorei, e como o choro dá tosse, fiquei mais bons minutos no cubículo porque era o único lugar com o mínimo de privacidade dentro do avião pra sofrer em paz. Decidi escovar o dentes pra não voltar nunca mais naquele banheiro, porque além da privacidade não há nada de bom lá dentro, e saí do mesmo tossindo e chorando. Passageiros me olharam com dó.

Cheguei pertinho, e era um restaurante. A fumaça que eu tinha visto estava saindo da janela da cozinha. A chuva caía, e eu não gastaria nem um centavo num guarda-chuva. Quem passou por um H1N1, recém solteira, fazendo as malas com 38 de febre pra morar nem eu sabia direito onde e completamente sozinha, estava imune, não ficaria doente, estava protegida. O chef gritava, os cozinheiros correspondiam, gargalhavam, brincavam, e faziam arte em pratos branquinhos e quentinhos que seriam devorados por casais que confortável e secamente – diferente de mim – observavam Notre Dame recebendo os primeiros sinais de uma noite linda.

A aeromoça veio me perguntar se eu estava bem, e resolvi ali que afrancesaria meu jeito de sempre fingir discretamente que não havia nada errado: não estava nada bem, estava tudo péssimo, eu estava ferrada, mas ia passar. Não sabia o que me esperava em Paris, mas quando está tudo enlameado, não há outra opção a não ser pensar assim. Não, obrigada, não bebo álcool. Não, obrigada, a espuma de travesseiro ruim estava ótima, mas estou satisfeita. Aliás, não, mudei de ideia, tem mais brownie? Procurei por “Frozen” naquela televisãozinha. Eu não sei que aditivo botaram neste filme, que aparentemente é a única coisa que acalma crianças histéricas e a mim dentro do avião. Ouvir aquele “Let it go” me lembra que a vida pode ser ok e aviões podem ser amáveis passarinhos que fazem seu trabalho direitinho e não caem.

Fiquei ali parada, de frente pra janela da cozinha, da mesma forma em que há alguns meses eu estava na frente do espelho daquele banheiro cubículo. Eu ficava cada vez mais encharcada, gotas geladas caíam do meu cabelo nas costas, meu rímel foi derretendo, se misturou com a chuva, com o meu batom de morango da Nívea, com as lágrimas, com todos aqueles anos, comigo ali de pé. Depois de tudo, ainda de pé.

Dormi, e quando acordei, sem saber se o meu pescoço era meu ou da cadeira da classe econômica que quis roubá-lo de mim, a tosse tinha passado, a médica já estava acordada lendo ao meu lado, aeromoças pediam licença para passar com aquele carrinho cheio de coisas que chamamos de comida para transformar a viagem em algo aceitável. Faltava uma hora pra eu descer e enxergar a mim mesma chutando a porta do aeroporto enquanto equilibrava três malas pra pegar o meu primeiro táxi aqui em Paris. Primeiro de poucos, diga-se de passagem, porque se há um negócio caro nesta vida não é uma bolsa da Chanel, é o táxi em Paris. Só pego se estiver bêbada. Por isso não bebo.

Sorri para um dos cozinheiros que acenou com a cabeça pra mim. Fiquei imaginando o que ele pensava ao ver aquela mulher molhada na janela, com a maquiagem toda destruída, o cabelo que fica puto da vida quando chove, o vestido da Farm todo grudado na pele seca ainda não acostumada com os novos ares, mas igualmente satisfeita por ter passado por tanto, em tão pouco tempo de vida, e ainda ser pele.

Bonsoir, eu disse. Bonsoir, ele respondeu. Ele me mostrou o prato, como quem oferece a comida, eu sorri, agradeci, e disse que “um dia”.
A comida daquele restaurante custa quase o preço do meu aluguel, mas um dia eu vou lá jantar, sim.

Assim como um dia, bem que a Márcia prometeu, aquela crise passou. Assim como um dia eu consegui dormir sem medo. Assim como um dia eu conheci um grande amor. Assim como um dia eu tive coragem de terminar com alguém que eu amava, porque me virar sozinha seria o melhor caminho. Assim como um dia eu comi camarão sem temer a morte. Assim como um dia eu cansei de pedir desculpas. Assim como um dia eu pedi ajuda. Assim como um dia eu fiz as malas, me dizendo que se desse tudo errado, e eu fosse parar no inferno do fundo do poço, pelo menos que fosse um poço de Paris. E, no fim das contas, essa foi a melhor decisão que eu já tomei até hoje.

Força a gente não tem, a gente arranja. Um dia, a gente sempre dá um jeito.

Bicicleta

Mais do que duas rodas, a bicicleta tinha um tempo bom. Um tempo ruim. Um tempo passado, onde o tempo ainda era hoje, e ainda havia tempo.

O presente foi você quem me deu, com peças tiradas de lugares onde nunca estivemos juntos.

E aquela bicicleta tinha a vida dela. Ela dividia alguns momentos comigo, me levava nas costas pra mostrar uns segredos da vida, e sempre me convencia de que eu não sabia de nada. Era tudo como o tempo queria.

Eu esperava chuva, a mesma que você sempre previa, e lá de trás das cinzas vinha um sol constrangido dizendo que não. E quando minhas ideias me levavam pelas mãos para uma esquina por acaso, onde eu via seu rosto num dia quente, o dia chovia o choro frio de quem entende que a vida não é lógica.

Fizemos planos enquanto a magrela descansava e nos observava encostada num muro pichado com nomes de gente que se amou um dia, e falávamos em tudo, menos em carros, que agora você tem porque os jovens crescem.

Roubaram a minha bicicleta, mas deixaram meu olhar. Aquele olhar jovem sobre as coisas.

Ainda lembro do seu sorriso torto no dia em que me presenteou, e ainda espero te encontrar sozinho e por acaso numa esquina qualquer quando eu estiver à pé usando o vestido que você mais gosta, para você me perguntar o que aconteceu com a bicicleta, e eu dizer que me roubaram – assim como o tempo me roubou você – mas que eu estou bem:

Continuo jovem, apesar de agora andar com as minhas próprias pernas, entendi que a vida não é logica, mas, ainda assim, se há uma coisa na qual não penso, é em ter um carro.