Brasil

A antena parabólica continua em cima do telhado de tijolinhos. No quintal, o chão de pedras cinzas ainda tem as mesmas marquinhas deixadas quando saí de casa há alguns anos, fruto de brincadeiras inventadas em dias longos, quando a criatividade era a nossa aliada contra um tédio que hoje, adulta, é tão precioso e raro, mas na época era punição. O jardim onde tomei mais sol do que deveria ter tomado, e no qual rolei muitas vezes com minhas irmãs e barbies sem braços de cabelos cortados com tesourinha sem ponta está lá, não reclama do tempo, aceita com resiliência todas as mudanças dos últimos anos. As cortinas da sala ainda caem em cascata do teto, e protegem a gente da realidade dura lá de fora, nas noites em que queremos nos transformar em bicho dentro da toca. As louças continuam exibindo suas formas e desenhos delicados, e dando mais vontade de comer o que quer que seja diante do seu lindo convite. Os ladrilhos da cozinha ainda contam a história de quando eu fiz o meu primeiro bolo de fubá, e a minha escrivaninha ainda tem cheiro de lição de casa e conjugação de verbos para a prova do dia seguinte. Os relógios continuam tocando um som que lembra horas boas e horas difíceis – hora de acordar, de comer, de estudar, trabalhar, descansar, errar, aprender e errar de novo. Horas de uma vida inteira e mais algumas outras. A família reunida ainda rende lágrimas de risadas que chegam a nos tirar o ar, quando a gente lembra de situações que nunca serão esquecidas, e também leva a alguns desentendimentos necessários, porque senão não seria amor. O silêncio de quando todos vão para os seus respectivos quartos antes de dormir ainda é acolhedor, e continua dizendo que nada pode nos acontecer enquanto tivermos uns aos outros. E o Brasil, apesar de tudo, ainda tem uma brisa que não se sente em parte alguma do mundo: ela passa por diferentes poros sem discriminação, levanta a terra do chão de ruazinhas que guardam histórias e segredos de muitas gerações, rodeia parques, avenidas, fios elétricos, tênis enroscados em fios elétricos, alivia dores e brinca com os cabelos de um casal que se beija já em clima de Carnaval. Daqui a pouco é dia, a bagunça recomeça, o café de filtro estará na mesa rodeada por todos nós, e as horas vão sorrir satisfeitas: demorou, mas a família se reuniu de novo, como se nunca antes tivesse se separado. E, olhando pela janela, a antena parabólica continua no mesmo lugar: firme e forte, em cima do telhado de tijolinhos, observando um tempo que nunca deixou de existir.

Texto publicado na Revista Rubem – https://rubem.wordpress.com/

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