Esperava-se mais de mim

Tenho 29 anos.
Eu sei que insisto nisso.
É que não me conformo.
E escrever essa frase me dá, não sei, um consolo.
Quero que alguém dentro de mim leia o que eu mesma estou escrevendo, e me diga: amor, 29 não é nada. Você tem a vida pela frente.
Mas aí, o meu lado ansioso acha essa afirmação questionável, porque 29 é a trave dos 30, e aos 30 normalmente casa-se e tem-se filhos, e depois disso dizem que tudo passa tão rápido que você nem vê – de repente sou avó, bisa (com saúde e sorte e se Deus quiser, por favor, Deuzinho), e aí começo a jantar às 17h e acordar às 4h, e um dia, voilà boom paf, fim.
Tenho mesmo a vida pela frente?
Daí entro em pânico, e ligo pra minha mãe.
Bom.
Tenho 29 anos.
Ganho como salário o que dá pra ganhar, pago as coisas do jeito que consigo, e passo muita vontade de comprar. Nem sei o quê, especificamente, mas comprar. Olhar um negócio que preciso, ou que eu tô afim, e falar: ah, legal, vou comprar. Olhar os preços de passagens para um país vizinho, achar aquilo muito inspirador, e falar: ah, pô, tô merecendo, já me ferrei tanto, mesmo, vou comprar.
Moro na Europa e mal consigo sair de Paris, enquanto muitos rodam o mundo em 24 horas. O “mal” na última frase é porque eu saio, sim, mas pra voltar pra casa, que é no subúrbio.
Em 24 horas, pra mim, dá tempo de dormir, comer, pensar em como ganhar dinheiro, e escrever sobre isso.
E muitos conhecidos, por outro lado, fazem no mesmo tempo em que eu completo essa minha humilde rotininha diária, Mykonos – Cancún – Sydney, e emendam na Tailândia pra tirar uma selfie em Bangkok. Fico sabendo não porque somos necessariamente amigos, mas porque sou meio invejosa e gosto de ver as fotos dos outros e me sentir mal. Adoro, faço com frequência, e depois ligo, choramingando, pro meu pai – falo mal de mim mesma para que ele me diga que eu enlouqueci: você é inteligente, competente, bonita, imagina, filha, não chora, minha linda. Vai dar tudo certo, tenha paciência. Precisa de dinheiro?
Tenho 29 anos.
Estudei num colégio ótimo, fiz uma ótima faculdade.
Esperava-se mais de mim.
Uma multinacional, por exemplo.
Um cargo alto na área de marketing, porra, você não escolheu marketing, agora quer fazer o quê, minha filha? Ser bombeira? Carteira? Ganhar dinheiro com blógy? Para com esse drama de ter crise de ansiedade em corporação, e dá um jeito de aguentar, se entope de remédio, vai ganhar dinheiro.
Vai ser alguém na vida.
Vai publicar foto da sua próxima viagem, dar check-in em aeroporto, jantar num rooftop, criar uma hashtag constrangedora pro seu casamento roots na praia, que custou não menos que a construção de uma escola numa área nobre de São Paulo.
Esperava-se alguns bons zeros antes da vírgula na minha folha de pagamento, e meus pais tendo a possibilidade de falar para os seus amigos: essa é a Drica, aquela filha que trabalha naquela empresa que ninguém consegue falar o nome – e por isso é ainda mais importante –; que mora em Paris e paga o nosso almoço de domingo no restaurante que a gente quiser por transferência bancária (pois é uma filha tão amada e rica, e sabe que o que já gastamos com ela até hoje não é brincadeira). Aliás, a Drica só não é casada e não tem filhos porque não quer, já que condições, meu bem, ela tem de sobra.
Esperava-se, também, que eu fosse convidada pra dar palestras na escola onde eu estudei (costumam chamar ex-alunos para dar palestras, mas nunca me chamaram, pois só chamam quem deu certo na vida), e era esperado que eu já tivesse o meu próprio gato (não estou falando de homem, mas do bicho, que eu não tenho condições de sustentar). O homem também não tenho, aliás.
Esperava-se mais de mim.
E o que não me consola nada, é que muitos amigos meus estão tão bem de vida (ou parecem estar, porque se estão no vermelho sangue pisado na conta do banco, ninguém poderia dizer), que me rendem sessões inteiras de terapia, onde eu me comparo a cada um deles, me perguntando porque raios eu não dei certo também.
Por que eu não aguento o tranco?
Eu não sou todo mundo, diz, pacientemente, a minha terapeuta.
Tá, mas, então, eu quero ser todo mundo – respondo daquele jeito bem insuportavelzinho que irrita até a mim mesma e me dá vontade de correr de mim.
Tenho 29 anos.
Durante toda a minha adolescência eu dizia que me casaria aos 23 anos e teria filhos aos 25. Estou anos-luz atrasada, pois além de ter que achar alguém que eu goste e que me suporte (só aí meus peitos já terão dado uma boa caída), ainda tenho que ter bastante certeza se aguento mesmo aquela pessoa pra casar (não sei se até lá estaremos vivos), e aí, então, preciso me certificar de que eu sou madura o suficiente para ter filho sem ter crise de ansiedade caso o bebê não arrote na hora certa (talvez a Terra já tenha explodido neste momento).
E, enfim, tenho 29 anos.
Isso tudo me deixa bastante angustiada, pois, como dito anteriormente, pago o meu aluguel como posso, guardo um dinheiro pra sair um pouquinho durante o mês porque ninguém é de ferro, e conto euros pra saber o quanto ainda tenho pra jantar fora no final de semana. Se é que tenho. Se não tiver, eu espero, ansiosamente, um dos meus paqueras me chamar pra jantar e rezo pra eles oferecerem pagar a conta.
Brincadeira, não faço isso não, Alex.
Na semana passada eu fiz os cálculos de todos os anos que ainda preciso para estar pronta pra ser adulta, e cheguei ao resultado de: só casarei aos 98 anos, terei filhos aos 125 e pagarei almoço no Fasano para os meus pais aos 238. Fiquei muito nervosa com a minha matemática, e achei que eu precisava comer mingau para me acalmar.
Amo mingau.
Aqui em Paris eles chamam de porridge, mas pra mim é mingau.
Fui, então, em busca do meu mingau, mas no mercado só tinha um tal de um pó esquisito pra misturar com leite quente em casa, e eu não quis, pois não sabia se daria certo (boas chances de virar algo semelhante à gelatina de salmão defumado), e também porque o princípio do mingau é alguém fazê-lo pra você.
Daí resolvi ir no Le Pain Quotidien porque o porridge (mingau) deles é o melhor. Recomendo muito. E não, não estão me pagando pra falar isso, quem me dera. Com o pagamento comeria mais 200 mingaus.
Não sei usar dinheiro, como você pode notar.
E tenho 29 anos.
Aquele momento em que comi o meu tão desejado mingauzinho foi ótimo, maravilhoso, e eu dei uma viajada. Pra uma boa fóbica que se preze, a sensação mais próxima que chego de fumar um baseado é comendo mingau (ou deve ser, não sei). Completamente virada no mingau, delirei que tinha asas roxas e um chifre de unicórnio mágico, e que voava sem nenhuma preocupação de casar ou ter filhos, pois não é o objetivo de vida de um unicórnio mágico, mesmo que ele tenha 29 anos.
Até que o efeito passou.
Me vi sentadinha numa cadeira de madeira, dividindo a mesa comunitária do café com mais 10 casais normais, enrolada no meu echarpezinho cinza da Zara de 15 euros, que abraçava o meu pescoço com carinho e dó.
De ressaca, me dei conta de que não sobrou muito dinheiro para o final de semana.
Por que você é tão irresponsável, garota?
Mas eu tenho 29 anos! Não posso comer a merda do meu mingau, caramba?
Eu não tô gastanto em balada, cigarro, drogas, roupas, sapatos, bolsas, créditos no Tinder.
É MINGAU!
E isso porque eu sou formada em marketing, numa faculdade que custava por mês o que eu nunca sonhei em ganhar como salário.
Tenho uma ótima formação.
Sou uma mulher do bem.
Meus pais me acham inteligente.
Rezo. Acredito em Deus. Doo minhas coisas pelas ruas de Paris, simplesmente porque doar faz bem pra mim e pra quem recebe. Faria qualquer coisa pela minha família. Aprendi a cortar abobrinha. Me desprendi do álcool-gel. Não odeio quase ninguém. Sou gentil. Não falo mal de quase ninguém. Faço trabalho voluntário. Não tenho ciúmes de quase ninguém. Limpo o ralo do banheiro feminino na república em que moro. Não tenho inveja de quase ninguém. Elogio pessoas que eu gostaria de ser, mesmo ficando triste porque queria ser elas. Engulo raiva pra não brigar com ninguém. Faço favores que me prejudicam, só por colocar os outros sempre na minha frente. Não nego trabalho. Me exponho falando dos meus defeitos, e passo mal com frequência, para ajudar quem passa pelo mesmo que eu.
Mas minha conta bancária não é diretamente proporcional ao meu esforço para ser um ser humano do bem, e, exatamente por isso, aos 29 anos, esperava-se bem mais de mim.
E isso porque ainda tenho 29.
Não quero nem ver aos 30.
Tá vendo, já quero outro mingau.

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abstrato

as ideias que a mente
cria
são fantasmas que
assombram
o tempo

não

vivido

escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

Uma noite, uma vida

Queria dar um descanso pra minha loucura, emprestar um tempo um mínimo eterno para ela dormir em paz, reconsiderar tudo o que pensa, e talvez mudar de ideia sobre suas inquietações.
Enquanto todo mundo espera uma vida melhor, ela só espera uma vida de verdade. Ela me pergunta se é pedir demais, e eu não sei responder, nem sei se um dia eu vou saber. Ninguém sabe o que é a verdade.
As pessoas fingem que sabem pra doer menos o levantar da cama pela manhã.
Costumamos falar sobre o futuro, e toda a vez nos arrependemos alguns minutos depois por termos perdido o presente. Nos culpamos por isso, e mudamos de assunto, tentando achar respostas eficazes para o fato de nos questionarmos tanto sobre tudo. Pensamos nas horas, na solidão, nos julgamentos, nas dores que nunca chegamos a sentir. Buscamos respostas, mas como a verdade não existe, continuamos nas perguntas.
Será que a vida é uma mentira?
Dorme, dorme em paz, eu digo. Ela não consegue, tem medo de perder o controle. Eu compreendo penalizada, e compreendo bem até demais. Resolvemos, então, jogar palavras na noite à dentro. Quando a madrugada te observa rolar na cama, sem rumo nem proteção, o melhor é conversar sobre isso com quem te ouve sem te julgar.
Freud dizia que a fala cura.
Assim, conversando com a minha loucura, é possível que as horas se percam nas palavras, e, cansadas de tentar entender, vão embora deixando minhas pálpebras pesadas.
Falamos sobre o sol, sobre as coisas que giram, sobre o universo, sobre cartomantes, sobre a Verdade e a Mentira. Vi cenas coloridas e presenciei diálogos que foram cortados por impulsos de razão e lucidez.
Ou mentiras.
Tenho interesse pelos opostos, então o assunto caiu sobre a chuva, sobre o tempo, sobre o peso da mesmice e da falta de luz em vidas que gastaram toda a sua energia com aquilo que não faz sentido. Aqueles homens dentro do elevador, cada um olhando o seu relógio, checando e-mails nos respectivos celulares, talvez pensando em uma forma de fugir do trânsito, do país, ou da vida.
Ou da verdade.
Ou da mentira.
Pude ver um deles chorando escondido, gente grande não chora, mas a dor não respeita esta verdade. Ele estaria acordado agora? Que horas eram?
Contei pra loucura que não me sentia bem de não me sentir bem, já que eu tenho tudo o que muitos não têm. A culpa aumenta, e junto com ela, as batidas do coração e o tamanho das horas.
Eu sou uma farsa?
Eu deveria ajoelhar e agradecer a Deus toda a hora por eu ser eu – digo à loucura, já pedindo desculpas pra quem quer que seja, e deixando claro que me importo, pra não ser castigada. Mas isso tudo dói ainda mais – o fato de ser injusto sofrer pela minha vida, e não pela dos outros, que agora passam frio ou calor na rua – já perdi a noção da temperatura também, assim como das horas.
Choramos juntas, eu e a loucura, até darmos risada. Sempre fomos assim: diante do desespero e dos pensamentos que soltam quilômetros de cordas à nossa criatividade e angústia, rimos.
Pensamos nas pessoas que conhecemos, e nos comparamos a cada um deles – um por um. Todos felizes? Aparentemente, sim. Sabemos que não é verdade? Sabemos. Mas eles podem mostrar? Não. E nós, podemos? Claro que não.
Ou isso é tudo mentira?
Estão todos doentes, ou as doentes somos nós?
O que é ser doente?
Estou inventando tudo isso?
Essa noite vai acabar, eu digo à minha loucura. Não somos onipotentes a ponto de acabarmos com o mundo por causa da nossa insônia. Ainda não alcançamos esse status.
Será que um dia eu vou ser tão poderosa sobre alguma coisa? Não importa. Se eu tiver poder sobre a minha mente, já estou muito satisfeita.
Estávamos falando há umas duas horas sem parar, resolvemos calcular. Chegamos a, inclusive, questionar sobre a felicidade e a estratégia da indústria farmacêutica para conseguirmos alcançá-la. Nos culpamos novamente. Fomos até Vênus e voltamos.
Mas a vista não dava pro mar.
Combinamos que amanhã passaríamos menos tempo na internet. Ligaríamos para o Dr. Rubens e finalmente marcaríamos a consulta – nossa saúde deveria vir em primeiro lugar (é o que dizem, mas no fundo no fundo, o capitalismo nos ensinou que isso é o que vem por último, na verdade. Ou na mentira). Pagaríamos a conta do banco, e contamos quantas horas teríamos para descansar se pegássemos no sono em cinco minutos. Tudo calculado, como a vida tem que ser.
Como o sistema injusto nos ensinou.
Ou injusta sou eu?
Esquece tudo isso, respeita as regras, foca na respiração, e dorme.
A loucura sabe que vai passar, como todas as outras noites, mas ela sempre precisa ouvir de novo. E tem que ser de mim, mesmo que eu esteja querendo dormir – o que é querer? É desejar, ou seguir as regras?
Ela me sacode para eu poder consolá-la, e, como quem não quer nada, deita de bruços ao meu lado na cama, apoia o rosto nos braços e me pergunta de um jeito travesso sobre quem eu sou e o que quero de tudo isso.
Acho essa pergunta muito impertinente para às 3 da manhã – chequei o horário no celular – mas não posso deixar ninguém sem resposta (e ela sabe disso), senão minhas entranhas começam a engolir umas às outras, o coração bate tão forte quanto a chuva na janela (esse barulho é de chuva, eu penso, ou já comecei a delirar, preciso ligar pro Dr. Rubens), o suor escorre nas costas como depois de uma maratona trás do tempo perdido, e penso que o mundo vai desmoronar por minha causa se eu não fizer algo que tenho condições de fazer naquele momento.
Falamos sobre ansiedade também. Precisamos levar a sério a nossa ideia de ajudar pessoas como nós.
Será que existe alguém como eu?
Eu não sei quem eu sou, e eu não sei o que eu quero, respondo.
Brigo com o choro, ele não pode vir de novo, por favor, vai prejudicar a respiração, o sono, minha vida inteira.
A noite é sempre dramática.
Olhamos uma para a outra com certa autopiedade, mas também com cumplicidade, sempre presente entre nós. Porque apesar de nada fazer sentido, ainda assim existe uma empatia grande que nos permeia, e isso não é a solução da questão Verdade X Mentira, mas nos basta naquela hora.
É bom saber que mesmo embaixo de horas muito sofridas ainda temos uma à outra e o nosso repertório para qualquer 3 da manhã que forem precisos – até pegarmos no sono juntas, quando as horas perderem o interesse na conversa, as pálpebras pesarem como disseram que deveria ser depois de um dia de trabalho, e acordarmos abraçadas uma à outra –
torcendo para o mundo ter amanhecido um pouco menos louco, ou, pelo menos, não tão injusto.

Alma

o corpo pede calma
quando a pele arrepia
de parar o tempo
mas quem disse que tenho tempo
a perder
com todo esse nada de tempo
pra viver?

enquanto a Terra dança
feito bailarina dolorida
que pisou no terreno errado,
eu chamo Deus de Vida
e peço pra ela não desistir de mim
quando eu pisar nos erros
tão enlameados, humanos e necessários
mas cheios de tempo
que eu não tenho a perder

será que um dia o mundo
vai me olhar e me botar pra viver
sem medo do coração que bate
quase tão rápido como o tempo
que ninguém tem pra saber?
será que ele me acalma
me coloca pra dormir
num terreno tão certo
de me levar pro lado exato
sem perder nenhum tempo
que eu nem tenho pra dizer?

é toda essa alma, sem nada de calma
é toda essa carne viva
exposta ao nascer ao pôr ao morrer do sol
é toda essa eu
que, Minha Vida, só você sabe
que não tem tempo a perder
e que por isso chora
a felicidade
da angústia
da raridade
da pressa

de viver

Cidade grande

Não tinha o que fazer, não tinha pra onde ir.

Um mar de carros desesperados por seus objetivos perdidos com o tempo, e buzinas que berravam por calma que remédio algum era capaz de trazer.

Talvez se ele estivesse em outro lugar, com outras pessoas, uma outra hora.

Hábitos que voaram com as folhas do outono.

Ela, definitivamente, havia sido um grande amor. Mas passou, assim como o pedinte que percebe quando não há mais nada dentro daquele carro que estejam dispostos a lhe dar – ele sabe a hora de recolher a mão para si mesmo, e seguir seu caminho rumo ao próximo automóvel.

Por que pensava nisso?

Mudar de emprego, viajar para longe, mandar uma mensagem para aquela garota bonita, pedir um salário melhor – será que adiantaria?

Gritos de trabalhadores que perderam o ônibus e a hora de dar um beijo de boa noite.

Aumentar o rádio foi uma tentativa, mas era como potencializar a dor de cabeça de não viver. Não abafava o caos lá de fora, só lembrava às suas mãos suadas da morte que era acordar todos os dias sabendo exatamente o que aconteceria nos momentos seguintes. A vida não era pra ser lógica, mas a dele havia perdido toda a poesia e as cores da realidade.

Talvez se ele ligasse pra ela mais tarde, no final de semana seria legal ir ao cinema, a conta do banco estava atrasada? Ele deveria se permitir enlouquecer de vez.

Os outros que cuidassem da vida deles.

Quando ele era jovem, deveria ter fugido com aquela delinquente, assim como sua mãe a chamava, e tentado um caminho de aventuras ao lado dela. E que o resto fosse pro inferno. Será que ouviram, na quinta série, quando ele chorou no banheiro?

Mas isso tanto fazia agora.

Se ele pudesse, resgataria sonhos perdidos, que agora afundavam num mar onde pescador algum gostaria de estar. Quando ainda havia vontade, brilho, inocência. Quando tudo era amanhã. Quando o amanhã não era o eterno hoje.

Checou o celular, nenhuma notificação, de nada, de ninguém.

O que será que ela fazia agora?

Deixa pra lá, era resquício de um tempo perdido.

Quando o fim não existia.

.

Acendeu um cigarro, deu três longos tragos tentando suprir a bolha de nada que havia nos pulmões, e, soltando a fumaça vagarosamente pela boca, com o braço para fora da janela, deixou com que a sua válvula de escape escorregasse pelos dedos cansados, tremidos e sem força, até cair no cimento exausto de tanta mesmice que carregava todos os dias.

As faíscas explodiam e brilhavam em câmera lenta, enquanto o cigarro abandonado tentava uma posição para ficar pra sempre, e morrer confortável.

Ele não viu, mas sentiu.

Precisava acelerar.

 

Inconsistência

“Você é consistente na sua inconsistência”.
.
Quando eu cheguei na ala de Picasso, senti um calor estranho e muito forte. Era como uma onda que toma conta da gente segundos antes de encontrar aquela pessoa. Você quer e não quer. Quer que passe rápido, que não acabe nunca mais. Imagens perfeitas na sua desconstrução. Não era sede. Uma vida linearmente organizada em todas as suas curvas e desvios de percurso. Não era fome. Olhar para dentro dói e faz bem. Não era angústia. Era eu. Era a minha inconsistência através da arte.
.
Sinto que quanto mais o tempo passa, menos as horas correm. Porque aceitei que envelhecer é o melhor processo pelo qual eu já passei desde que nasci, e porque me enxergar com carinho só foi possível através das pazes que eu fiz com o meu sofrimento. Ele machuca, mas é um ótimo conselheiro. Dá tapas na cara sem dó, e me faz enxergar coisas que sozinha eu não conseguiria. Às vezes demora para acharmos alguém bonito, e quando nos damos conta, já perdemos o controle, e estamos apaixonados – esse alguém sempre foi lindo, mas as regras não nos permitiam enxergar.
.
Fiquei encarando o pôr do sol como quem pede para ele dar mais explicações sobre o que é capaz de me fazer sentir. Brincamos de quem piscava primeiro, e quando a noite chegou, entendi que ele é um bom amigo, e me deixou ganhar. Olhei para o céu escuro e fui tomada por tanta coisa dentro de mim, que um velho sábio demoraria anos para conseguir descrever. Um vento muito forte quis me atravessar por dentro, quase chorei, mas parei para pensar, e lembrei que tudo bem. Se eu quiser chorar, o problema é meu.
.
Estou neste lugar sem nome, cercada pelas minhas dúvidas, medos, insônias, e coberta pela minha sempre companheira inconsistência. Um lugar sem códigos de conduta, doce de tão amargo, branco em toda a sua escuridão. Leve de tão denso. Amável de tão assustador. Com gosto de eterna pausa para o café. Onde eu sempre precisei estar.
.
Me senti abraçada pela mulher que estou me tornando. Não há ninguém tão inconsistentemente única como ela, em todos os seus defeitos e graças. A vida é uma questão de empatia com quem a gente é. O resto e os outros… Estes não nos cabem.