Amélie

Amélie
te cantaria
tudo o que tivesse no bolso
ela afinaria o ukulele
e tocaria sem parar
de Bobigny
à Place d’Italie

ela não pararia por palmas, notas
cartões de visita, troca
de turbantes e dentes pretos
por terno e gravata
de sobrevivência e jantar na mesa
por alguns outros
investimentos mais rentáveis

e nem mesmo de Bobigny
por Place d’Italie
ou 20 cigarros
já enrolados
que viessem com
isqueiro e promessa
de 20 outros
mais

Amélie te cantaria
todas as canções
até em chinês
até de gente que ela não sabe
de onde é
e nem sabe cantar
o dedo até sangraria
e as unhas se lascariam
ao meio de lado na diagonal
em seu ukulele

ela aguentaria
a tendinite e o acúmulo de água
e outras substanciazinhas
nos pés de pão
seguindo um repertório
inocentemente estratégico

Amélie botaria
seu melhor vestido
seu melhor sutiã
emprestaria o colar de prata
da Annabel e até
depilaria a perna inteira
pensando na sua
mão tão
curiosa

mas você não viria

e Amélie
na segunda
canção
perdeu a voz, o compasso
e, com gosto de rímel
na língua
desceu na próxima
estação

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Entre conhecimentos e fumaças

Vasinhos floridos e bem instalados em janelas de casas que nunca deixaram de existir; portinhas de madeira simples, meio descascadas mas bem acabadas, escondendo por trás delas restaurantes não muito conhecidos por pura injustiça; cachorros grisalhos e órfãos, muito mais empáticos do que grande parte daqueles que se julgavam analistas; e alguns cafés e comércios necessários para dar charme e vontade de gastar um pouco. A largura da rua era do mesmo tamanho do que era possível aguentar naquele momento, e daí a conexão. Era tudo bem minimalista, bem detalhado, bem desenhado. Não mais. E a cidade moldava, a cada passo, uma cena que coubesse nas costas. As formas se confundiam com risos de crianças de todas as cores, e com a harpa de uma estudante que precisava pagar o aluguel e algumas dívidas a mais, que acabou fazendo com aquele tal de Bernard. Os espaços entre cada um dos paralelepípedos entregavam muita história. Ricos e pobres se trombavam por graça da rua, que ria escondida. O melhor da solidão era observar o barulho do banal em um silêncio raro. No terraço estreito de um daqueles cafés sem pretensão de ser nada mais do que um lugar de encontros – contanto que fossem consumíveis, claro –, uma velha magricela e uma adolescente gorda conversavam por trás de uma boa garrafa vinho e de um prato de queijos, cujo cheiro quase saciava a fome do mendigo sentado do outro lado da rua.

Vó, ouviu-se a adolescente perguntar, hesitante, incerta das suas palavras e do corpo que as proferiam: será que um dia meu pai vai querer me ver? A avó, tão grande em sua miudeza de gente que sabe mas não se exibe, respondeu com a propriedade de todos os seus anos de perdas dolorosas, mas igualmente determinantes: querida – começou a argumentar, e deu uma pausa para tragar o seu cigarro, voltando ao raciocínio logo depois, entre conhecimentos e fumaças – na vida existem dois tipos de pessoas: as que tomam vinho, e as que não prestam. E seu pai, nós sabemos bem, sempre foi de beber Coca-Cola.

Um ar leve lambeu a ruazinha, onde quase ouviu-se barulho de palmeira no verão da Bahia. Mas não deu tempo, Notre Dame observava tudo lá de trás.

nunca ninguém

nunca ninguém me perguntou
se eu gostava de ser gente

quando eu era pequena
coisa que ainda sou
achava muito chato me chamarem
de nomes que não eram meus
me jogarem areia no cabelo
sem eu pedir
fazerem
eu me sentir
um cachorro sem patas pra correr
coisa que só gente
é capaz de fazer

quando eu era pequena
coisa que não deixei de ser
eu queria ser um cachorro
mesmo que sem patas
pra ser cuidada de verdade
por alguém que chorasse
minha irracionalidade

até hoje ninguém me perguntou
se eu gosto de ser gente

quando eu era pequena
coisa que vou morrer sem saber
ser
queria ter berrado no ouvido deles
bem alto
estourado tímpanos
ao dizer:

sou cachorro e valho mais do que vocês

em vez de me encorujar
no corpo que restava
encaretar a boca pra chorar
por todos os anos que viriam
por todas as respostas que eu deixei
pra falar depois em poesia

e, sem nem titubear
queria olhar bem fundo
nos olhos deles
mostrando meus caninos,
tão amada,
ao prever:

ainda bem
que eu não nasci vocês

noite que segue

A noite era clara.

O cheiro queria ser de carro novo, não fosse o bafo das milhares de histórias que sentaram dentro daquele automóvel em um curto espaço de tempo. Eu segurava um chocolate quente nas mãos, porque o dia era frio e porque me presenteio quando a visão acinzenta e os órgãos trocam de lugar – podia sentir meu cérebro se contorcendo no estômago, o coração nas pontas dos dedos e o fígado explodindo na cabeça.

O motorista queria conversar, e eu respirar. Então eu concordava até com o que eu era contra para não gerar polêmica e mais assunto. Não imaginava que a palavra “aham” podia ser tão útil e ansiolítica, descobri naquela noite.

Eu estava no meu inferno astral, o pai dele tinha morrido. Eu não sabia tomar decisões, ele era Uber, mas prestaria concurso público. Eu cogitei tomar metade do remédio, ele questionou sobre a publicidade. Tive certeza de que tomaria o remédio inteiro, ele perguntou se choveria.

Eu não sabia.

Tem horas em que tudo o que a gente sabe, é que a gente não quer saber de nada. Éramos só nós dois dentro daquele carro, tentando aliviar o peso de saber que éramos só mais dois em meio a tantos outros. Só não pesava tanto quanto ver o rapaz oferecendo amendoim crocante, apenas um real, enquanto estávamos parados no trânsito. Porque não andávamos de ônibus como ele provavelmente fazia? Quem a gente achava que a gente era?

Aham, à direta aqui. Aham, faz seu caminho, pior não fica. Aham, posso abrir o vidro? Aham, concordo. Ah, foi uma pergunta? Eu não sei, realmente.

Aham.

É que quando o meu estômago está cheio de cérebro e meu fígado fica atacado dentro da minha cabeça, fazendo meu coração bater nas pontas dos dedos, eu só sei que isso tudo não orna, não casa, não faz sentido, essa bola cheia de gente em cima, 70% água, e a água que não cai, e a terra que engole o que é meu, o que é seu, o trabalho, as pessoas, e o outro, o outro, o outro, opiniões e julgamentos orquestrando palavras e gestos e batimentos, e o ônibus que eu não peguei enquanto respondia tudo ao contrário do que eu queria.

Aquilo era a vida que eu não vivia.

À direita, aqui, moço. Final do quarteirão à esquerda, tá? Aham. Ah, sobre isso não sei. É, sei lá, pode ser. Realmente não sei de nada hoje, moço, desculpa, só sei que a noite está clara, né?

Bati a porta do carro me perguntando porque eu não peguei um ônibus, mas não soube responder. Dormi pensando na resposta, me culpando por isso e pelo chocolate quente, enquanto meus órgãos buscavam seus devidos lugares dentro de mim.

A noite seguia clara.