Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.

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Désolée

Demitida.

Primeira vez.

Como toda a primeira vez, não tem descrição.

Tem que viver pra saber.

Dá pra descrever o primeiro porre? A primeira decepção? O primeiro beijo na boca? A primeira transa? O primeiro cigarro? O primeiro amor? A primeira crise de pânico? O primeiro Rivotril?

Tem que beber, sofrer, beijar, transar, fumar, amar, desesperar, aliviar deliciosamente todos os músculos, e, como mágica, achar que existir não é castigo.

Não dá pra explicar.

Estou num Starbucks qualquer, mas não lembro como cheguei até aqui. Vim andando. As pernas dormentes, a cabeça tão pesada como se um avião tivesse pousado em cima do meu couro cabeludo, e quisesse me empurrar pra baixo do cimento, das catacumbas, das placas tectônicas. As mãos sem jeito, uma segurando a bolsa, a outra dentro do bolso do casaco peludo.

Muito frio.

Pessoas frias.

Tô na merda.

Désolée.

Talvez eu quisesse ver gente, comer um negócio barato cujo gosto e calorias eu já conhecesse, tomar um chai latte, usufruir gratuitamente de um wifi, ter uma tomada por perto.

Gosto de ter tomada por perto. Chato é quando a gente chega no lugar, e tem tanta gente que não sobra nem mesa, nem cadeira, nem tomada.

Désolée.

Mas, assim, depois de tudo? E agora, eu faço o quê?

Desconhecidos se aproximam, são tão desajeitados para oferecer ajuda… Tá na cara deles a dificuldade.

É cultural, não tem jeito.

Madame, você vai superar. Madame, é grave? Faço que sim e que não com a cabeça, não dá pra falar, só passando por isso pra saber.

Lágrimas escorrem sem nenhum esforço, como as águas dançantes do Sena. A pele esquenta, o peito se encolhe num espaço minúsculo entre o que eu desejo e o que eu não controlo.

O que mais eu poderia ter feito?

Désolée.

Eu não tinha o perfil. Pouco agressiva, pouco dinâmica, cuidadosa num nível pouco lucrativo.

Désolée.

Você vai achar um jeito, vai encontrar outro trabalho, vai dar certo, tá? Quem sabe no futuro você não volta? Assina aqui, ó. Seu nome. O seu nome, Adriana. Coloca a data. Tanto faz, pode ser em número, mesmo. Não, estamos em novembro de 2017. Agora? Agora, bom, agora é isso, ué. Quer terminar o dia de trabalho ou ir pra casa? Então pega esse produto, leva com você, é seu. Pra usar oras, é ótimo, espalha nas pernas depois do banho, aproveita que está frio, faço questão. Bom final de dia pra você. Você é ótima, viu?

Quis vomitar, mas lembrei que não vomito desde 1994.

Quis comer, mas quando peguei o cookie do Starbucks na mão, pensei que desempregada e gorda, não. Ou um, ou outro.

Ofereci o doce para uma criança, fiquei só com o chai.

Quis ligar para algum ex, quis dormir na casa do Papai Noel, quis viajar pra Plutão, quis que a caixa do Starbucks me ninasse cantando Sandy & Júnior, quis ser um rato.

Sento em uma mesa e viro minha bolsa de cabeça para baixo, pois não tenho condições de procurar por nada. Cai batom, carteira, elástico de cabelo, sachês de sal e açúcar, uma garrafa de água inacabada, um folder com o endereço de um cabeleireiro que promete milagre a troco do rim, nécessaire de remédios, canetas, algodões, e, finalmente, o meu caderno.

Pego o meu chai latte com uma mão – no qual está escrito o meu nome na sua versão masculina (e, ainda assim, errada, deixando tudo um pouco mais lamentável), e com a outra seguro um lenço de papel em estado de pós-guerra. Estou inchada entupida corcunda, não passa ar pelas narinas, respiro pela boca.

Uma moça chega perto de mim e ajoelha na frente da minha mesa. Presto atenção na sua burca – rendada, de flores. Ela fala e eu não ouço. Queria pegar uma daquelas flores. Queria cheirar aquelas flores. Queria ser um bambi e pular entre aquelas flores, celebrando o fato de que não preciso pagar aluguel, pois sou um bambi.

Ela tem os olhos escuros, covinhas que eu sempre desejei, e a sua boca carnuda pode fechar, pois ela respira pelo nariz. Só não consigo distinguir a cor de fundo daquela burca: é azul-marinho ou preta?

Madame? Ça va?

É trabalho – digo logo pra ela não ter que perguntar o motivo e nenhuma outra questão, e para eu também não precisar articular mais nada com minha boca semiaberta: perdi o trabalho.

Ah, mas é só o trabalho?

Penso nos últimos 8 meses e soluço.

O lenço não está mais dando conta, escorre tudo o que é possível de todos os orifícios da minha cara.

Você vai achar outro, ma chérie. Vai na Zara, vai na H&M, imagina, uma moça assim encontra logo. É natal, todo mundo precisa de gente.

Puxo o ar pela boca e não me mexo, não demonstro nada. Minhas bochechas formigam e meus olhos já conseguem enxergá-las de tão inchadas que estão.

Acho que é azul-marinho.

Não deixo você ficar assim por trabalho, ela dá um sorriso.

Tento sorrir de volta, mas minha boca não me respeita, e deixa-se morder pelos meus dentes. Meus lábios resolvem se esconder do mundo, e vão, aos poucos, se enrolando em direção à minha gengiva e para cima dos meus dentes, que agora ficam completamente aparentes, como os dentes de um coelho. Não satisfeita, inclino meu corpo, sem poder de decisão, para perto dela como se fosse beijá-la (ou roê-la).

Não controlo meus movimentos, e isso me constrange um pouco.

Ela contrai as sobrancelhas, como quem tenta solucionar uma questão, e seus olhos percorrem a mesa. Eu nem me importo com o fato de que todas as minhas coisas estão jogadas e expostas sem nenhuma vergonha. Ela olha o batom, nécessaire, folder… o olhar para sobre o caderno aberto.

Você tá escrevendo o quê?

Empurro o caderno pra perto dela. Ela que leia, não consigo falar.

Interessante, ela diz. Que língua é?

Rio de Janeiro, respondo. Pardon, portugais.

Fico preocupada com meu estado psicológico, e cogito um calmante.

Isso, escreve. Chora, e depois sai daqui ciente de que isso vai passar, tá? Tudo passa, ma chérie, você é forte.

Aham. D’accord. Merci.

Désolée.

É outono, e às 17h já é noite. Saio do Starbucks sem saber o que jantar, me perguntando se jantar é obrigatório.

Venta muito, as folhas são amarelas, cabelos voam, famílias, amigos, crianças, decoração de fim de ano.

Vou ao supermercado que conheço, onde sou amiga do segurança que sempre deixa eu entrar, ainda que eu chegue na hora de fechar as portas. Ele pisca pra mim, eu finjo que sorrio, torcendo pra minha boca não me envergonhar de novo.

Escolho uma salada pronta, pego uma banana pra comer no trem. Não tenho fome, mas preciso me alimentar.

Pago e saio.

Lágrimas continuam a cair, pernas ainda dormem, a língua gruda no céu da boca. Não há saliva, e isso me deixa um pouco incomodada. Preocupada também.

Désolée.

Passo por uma vitrine decorada para o natal. Paro na frente embriagada de tanta realidade que fui obrigada a engolir durante o dia, e não me movo, como uma criança hipnotizada. Tenho frio, mas as minhas pernas estão paralisadas.

Madame? Madame, s’il vous plaît?

Um mendigo me chama a atenção. Ele está sentado ao lado dos meus pés, e estende o braço.

Não respondo. Fico olhando pra ele, ainda anestesiada, formigando por completo, respirando pela boca.

Madame? Tenho fome.

Normalmente, eu diria “Désolée”.

Hoje não.

Hoje eu também estico o braço, dou o meu jantar pra ele, e caminho em direção ao metrô.

Pode até ser difícil. Muito difícil. Mas mais difícil vai ser me tirarem daqui, agora que eu decidi ficar.

Désolée.

 

Cansou de ser santa

Segundo Eugênio, o psiquiatra de Cecília, havia dois grupos de pessoas no mundo: o grupo dos que nascem com os genes normais, e o grupo dos que nascem com os genes meio podres.
Cecília era paciente assídua de Dr. Eugênio há 8 anos, portanto não precisa nem dizer a que grupo ela pertencia.

Era falta de ar que chegava sem avisar fazendo o coração bater feito britadeira de investidor milionário, e gotas de suor que escorriam pelo corpo todo dando inveja às peruas que passavam o dia tentando eliminar impurezas dentro da sauna. Tremedeira por fora, por dentro, toc, tic, e todas as outras abreviações, traziam sempre com elas a certeza de que a morte estava seduzindo o seu quase cadáver de 30 anos.
Era lavar a mão repetidas vinte vezes ao pegar no dinheiro, encostar no chão ou cumprimentar qualquer pessoa para não ser devorada por alguma bactéria sem dó que a levasse a pular na cova de vez.

Era o marido que a largou por outra.
Era a depressão.
Era o pânico.
Era paranoia, neurose, insônia, tudo pra ontem, Whatsapp, Facebook, Instagram, vida louca, vida alheia, é assim mesmo, já tentou yoga, meditação? Vou te levar na minha igreja, sua vida vai mudar. Modernidades, minha filha, todo mundo sofre disso, não é só você, precisa saber lidar.

Não, nananinanão, são genes meio podres, Cecília, não reclama, que eu te conheço bem, e toma mais 10 gotinhas de Rivotril antes de dormir, questão de aceitação. Quantas receitas você quer? Pode ser duas, sim. Coloco duas caixas em cada receita, tá bom? É caro mesmo, mas é sua saúde, é isso que vale, pra aguentar São Paulo e o trânsito e toda essa vida artificial é o jeito, não tem como.

A irmã não tinha nenhuma pista, a não ser a última mensagem que Cecília mandou pelo Whatsapp três dias antes do sumiço: “Como você suporta essa vida?”. Tendo em vista que era uma reclamação constante de Ciça, assim como a chamavam, a irmã nem respondeu, estava tentando enfiar a colher de sopa de espinafre na boca do filho mais velho de 04 anos que se recusava a comer caso não ganhasse um ipad.

A mãe e o pai de Ciça não podiam imaginar do paradeiro da filha mais nova, ela nunca se abriu muito com eles, e a última notícia que tiveram da desnaturada foi na semana anterior, quando ligaram perguntando como ela estava em relação ao divórcio, ao que ela respondeu: “Ainda não morri”. Pareceu uma boa notícia.

As amigas alegaram que ela estava afastada de todos há um tempo, e acharam que seria prudente respeitar a vontade da amiga por alguns dias. “Se afundar na fossa por um tempo faz bem. Achamos que estava tudo normal, dentro do prazo aceitável de sofrência”.

Colegas de trabalho foram acionados, e deram a noticia de que Ciça havia pedido demissão. Sexta-feira havia sido último dia dela na empresa, teve até um almoço de despedida. Já era domingo, e ninguém sabia de nada. Dois longos dias de falta de informação e apenas um tracinho nas mensagens de Whatsapp.

A casa dela estava trancada, nenhum ruído chegava ao corredor, onde mãe, pai, irmã, cunhado, dois sobrinhos e duas amigas faziam barulho e gritavam o nome de Cecília na ingenuidade de serem atendidos.

“Vou arrombar a porta”, decidiu o pai.

As amigas sacaram os celulares da bolsa: Snapchat.

A mãe estava um tanto dopada de Lexotan, a irmã dizia para o filho mais velho esquecer do ipad, que a tia estava “desaparecida, pelo amor de todos os santos”, enquanto o marido dela ensinava o filho mais novo (02 anos) a desbloquear a tela do celular para que ele pudesse jogar joguinhos estúpidos quando começasse a encher o saco.

O pai de Cecília deu um impulso pra trás, correu desajeitadamente em direção à porta do apartamento da filha, e, chegando bem próximo da mesma, levantou a perna para a tentativa de um chute heróico. Enquanto a porta nem ameaçou se mexer, ele caiu no chão urrando de dor, e pronunciando a palavra “cazzo” quantas vezes conseguiu. Era o único palavrão que falava. Família italiana, aquela coisa.

Mesmo virada no Lexotan, e tentando levantar o marido do chão, a mãe, desajeitamente, lembrou: e a chave reserva do apartamento? Não estaria na portaria?

O pai pronunciou mais alguns mil cazzos por não ter lembrado.

Nesta hora, os Snapchats já bombavam com o vídeo do seu Roberto voando em cima da porta, e caindo como uma jaca no chão.

A irmã de Ciça foi atrás da chave na portaria, e voltou ao décimo andar orgulhosa, girando o chaveiro no dedo indicador. Ela tinha a atenção de todos, e os olhares voltados unicamente para ela, pela primeira vez. Dava até dó de usar aquela chave pra abrir a porta e acabar com o momento de celebridade.

Todos se aproximaram da fechadura do apartamento, e era possível notar o pavor, a curiosidade, o medo, e a excitação na cara de cara um. Não exatamente nesta ordem.

.

E, finalmente, a porta foi aberta.

.

Nada.

Nada de móveis, nada de pistas, nada de nada.
Vasculharam tudo, e nem o telefone com fio e velho estava mais lá. Celulares tirando fotos para todos os lados. Todo mundo tinha que saber. Alguém tinha que ajudar, aquilo era um filme de terror, será que nem uma carta ela deixou?

A Globo filmaria?
Dá pra perceber que tomei Lexotan?
Minha cunhada era louca mesmo, melhor assim.
Será que a maquiagem estava em ordem pro velório?
Eu precisava mandar aquele orçamento pro cliente, 20 mil reais dá pra muita coisa.
A tia Ciça morreu?
Tem herança envolvida?

“Mamãe, o que é isso?”
O sobrinho mais velho de Ciça estava pendurado em uma prateleira embutida na parede, em cima do terceiro degrau, segurando um papelzinho azul nas mãos.
A mãe arrancou o papel da mão do filho – mais um sucesso nas mãos, aquele dia estava sendo milagroso, a cartomante sabia bem o que dizia, 300 reais bem pagos – leu tudo cautelosamente, esticou o braço, apalpou a mesma prateleira na ponta dos pés, e encontrou mais um papelzinho igual.

“Aqui tem duas receitas de Rivotril. Com duas caixas em cada uma”.

escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

O meu melhor

o meu pior é aquilo

que desperta e mobiliza

o que há do meu melhor

.

o meu pior

é a melhor parte de mim

Poema bom

poema bom
se encarrega do tempo
e da mente longa
desenvolve suas rimas
soltando cordas às mãos famintas
e concretiza o que nunca aconteceria
na cabeça dos que não podem
com o agora
 
poema bom
sopra ar fresco no suor da solidão
transforma a madrugada em um sonho doce
beija a pele queimada de elucubrar
e puxa o indivíduo do fundo
de onde quer que seja
para ele respirar
na beira de onde tenha nome
 
poema que presta
arranca a casca e deixa sangrar
até o corpo decidir estancar a dor
por si só;
ele abre a janela
para o presente entrar
e espera acordado
a dor condensar, os olhos cansarem,
e o passado, confortavelmente, dormir
 
poema que é poema
é gente do bem
ombro amigo
colo de alguém
desejo que surge
em meio à repressão:
o poeta se orgulha
e aceita, nem que só enquanto o poema,
que a tristeza vale a pena
 
poema bom
escreve com ele
toda a história do tal momento
e escreve aquilo tão bem escrito
que as horas o reverenciam
e correm rápido, o mais rápido possível
para contar às outras
a notícia que vem:
calma, que o futuro vai bem