Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

Anúncios

Sobre-viver sozinha em Paris

Eu não fazia ideia de como eu tinha chegado até o meio daquela ponte. Que caminho eu tinha feito? Eu peguei o metrô? Aquela mulher estava sendo pedida em casamento? Aquela velhinha tinha quantos anos? Por que eu estava em Paris? Quantos currículos eu tinha que mandar amanhã para poder conseguir um trabalho? Se eu mandasse um milhão de currículos e a chance de conseguir um trabalho fosse uma a cada mil e-mails enviados, quantos trabalhos eu conseguiria enviando um milhão de e-mails? Se eu tivesse estudado qualquer coisa na área de exatas eu estaria fazendo essa conta tranquilamente? Que dor era aquela perto do apêndice? O que eu faria se eu fosse o Silvio Santos? Eu não queria casar nunca na minha vida. Filhos, queria.

Era um hotel. Eu, a atendente da noite. A que fazia mojitos que deveriam ter gosto de limão com rum, mas pareciam suco de uva batido com pizza margherita. Era a pessoa que “sabia” sugerir champagne e vinho para quem estava sofrendo um jetlag e queria relaxar; quem tinha acabado de chegar de uma reunião de trabalho e desejava esquecer um pouco do dia; quem queria afogar as mágoas; ou talvez pessoas que estavam afim, simplesmente, sem um porquê, de beber. Mas, na realidade, eu era a barmaid que não sabia qual a diferença entre todas as milhares de bebidas do restaurante, e procurava no Google agachada atrás do balcão o que aquele nome do rótulo significava. Um dia servi prosecco falando que aquele champagne era maravilhoso. Outro dia respondi de bate-pronto a um cliente que me perguntou o que havia em determinado drink, que o mesmo era feito com “gin”. Falei com propriedade. Depois fui checar, e o drink era feito com tequila. Ainda bem que ele desistiu do “gin” e preferiu uma Coca-Cola. Era eu quem oferecia potinhos de amendoim para quem eu ia com a cara ou achava bonito. Era eu quem ajeitava as mesas pro café da manhã do dia seguinte.

Eu estava ferrada. Tinha perdido o meu trabalho, e agora como eu ia pagar o aluguel, a comida, o meu latte de todos os dias? Resolvi mandar Whatsapp pra minha lista inteira de amigos em Paris pedindo emprego. Depois que mandei vinte e sete Whatsapps me arrependi, porque agora todo mundo responderia, e eu teria que explicar toda a história vinte e sete vezes de formas diferentes dependendo da resposta de cada um. Minha ansiedade deu uma turbinada, e pensei em deletar o meu Whatsapp. Achei que ler me acalmaria, e ali mesmo, no meio da ponte, sentei, li duas linhas da página trinta e seis de um livro recomendado por uma professora, não entendi nada, decidi que era analfabeta em francês, e fechei o livro.

Durante duas semanas naquele mesmo hotel, eu fui convocada para trabalhar no café da manhã em vez do período noturno (função para a qual eu tinha que acordar às 5h da manhã e chegar no trabalho ainda de noite). Em uma daquelas manhãs, depois de servir milhares de mesas sem poder comer um único croissant; passar aspirador em todos os lugares que podem existir sob um chão (nunca soube que chão era tão cheio de lugares, descobri com aquela chefe que me dava muita bronca se encontrava qualquer migalha de qualquer coisa naquele chão); cansada; com fome, e com vontade de sair correndo pra fazer xixi, entrei na cozinha e achei que ou estava faltando alguma medicação, ou eu estava tomando qualquer coisa em um nível não recomendado.

Não podia ser.
Não. Non. No. Nicht. 不要.
Merda, e todos os outros palavrões que eu conheço, em todas as línguas possíveis.
Era um rato.
Ratinho, ratatouille, Drica, olha que gracinha, respira, calma: inspira em cinco, prende em cinco, solta em cinco.
Quero meu médico.
Pera, se controla, em Paris é mais normal do que em São Paulo, e ela é pequenininha, ela é bonitinha, tem duas cores, não há de haver doença…
Interfonei para o Sebastian porque não conseguia mais me consolar. Sebastian cuidava da limpeza pesada do hotel, e achei que somente ele poderia me salvar: tira esse mostro da cozinha, pelo amor de todos os santos.
Sebastian morreu de rir.
Olhamos uma para a outra (eu e Sarah – a ratinha que nomeei desta forma), e percebi que ela sentiu uma certa pena de mim. Ela, aquele serzinho que mesmo tão repugnante era até que amável se comparada à alguns colegas de trabalho, sabia que me assustava, mas não queria me fazer mal. A bichinha só queria um queijinho de graça.
Assim como Sarah, também senti dó de mim mesma naquela situação, e aos poucos a dó foi se transformando em desespero, que começou a subir pelos pés, passou pelas minhas veias, endométrio, intestino, fígado, e um enjoo avassalador tomou conta do meu pobre e vazio estômago. Uma nuvem negra de pavor com cheiro de camembert quis tampar a minha vista, e então a única reação possível com tanta incoerência, pavor, compaixão e nojo dentro de mim, foi gritar.

Quando a gente tem medo de alguma coisa, mas muito medo mesmo, perde totalmente o bom senso e a capacidade de lembrar que existem outros seres humanos no mundo. Na hora do medo tanto faz, dane-se tudo, só queremos a salvação.
Clientes ouviram o grito, colegas se deram conta de que era eu, e levei uma bronca.
Bronca feia: “Adapte-se e aceite. Em Paris tem rato.”
Decidi aceitar. Precisava do trabalho.
Mas, antes, falei com meu médico. Só pra garantir que a lesptospirose estava descartada.

Enquanto um barco passava cheio de turistas ricos que não se importavam em pagar o meu budget mensal num passeio pelo Sena, me lembrei do dia em que levei uma surra verbal daquela chefe por eu ter servido duas taças de um champagne mais caro a um casal, quando eu deveria ter servido de um mais barato. Minha chefe me perguntou num francês bem duro qual era o motivo de eu ter cometido tamanho erro grotesco e sem lógica, e eu tentando explicar com meu francês meia-boca que eu só tinha tentado ser rápida e me confundi, acabei abrindo a garrafa mais cara. Mas nada adiantava, ela gritava cada vez mais alto comigo na frente de todo mundo, chacoalhando a garrafa aberta, me envergonhando cada vez mais, dizendo que aquilo custava mais de cem euros, e pensei que daria tudo pra ser a Sarah e me enfiar no primeiro buraco que eu visse. Com um queijinho. Mas engoli em seco e me mantive firme, precisava do salário.

Lembrei também do primeiro dia em que tive que limpar o banheiro do hotel. Enfiei as luvas nas mãos, arregacei as mangas, peguei aqueles paninhos de limpeza, e comecei o trabalho pensando que era bom que um dia eu escrevesse um best-seller que fosse bem seller, porque limpar banheiro era uma tarefa tão deprimente, que deveria ser proibida por lei. Espirrava produto de limpeza pra todos os lados, e na hora de encostar na pia, na privada, e no chão respingados para esfregá-los e limpá-los, torcia para que alguém no céu estivesse vendo aquilo. Imaginava bactérias, vírus, febre amarela, tuberculose, candidíase. Chorei ao ver que o lixo do banheiro masculino estava lotado, e quando um cliente se aproximou para entrar dentro da cabine, fingi que estava espirrando para que ele não soubesse que, na realidade, eu estava me desfazendo em lágrimas de horror.
Tomei dois banhos quando cheguei em casa.

No hotel aprendi a fazer mojito, daiquiri, lindas tábuas de queijo e de presunto, e croque-monsieur. Aprendi a não falar com clientes que não queriam falar, e a falar bastante com quem estava afim de conversar. Passei a entrar na cozinha batendo palma e implorando: “Sai, Sarah, vaza”, só pra garantir que não trombaria com a ratinha (que insistia em ressuscitar em cores e tamanhos diferentes, era impressionante, caso a ser estudado). Sambava com as moças portuguesas da limpeza, e cantava “Aquarela do Brasil” passando aspirador. Fiz amigos que hoje considero de infância. Fui embora definitivamente daquele hotel já limpando privada com a mesma naturalidade com que tomo água, e sabendo diferenciar produtos pra vidro, madeira, parede e prateleiras com a mesma facilidade que tenho pra tomar trinta banhos no mesmo dia se acho necessário.

E foi assim: naquele dia, horas antes de parar no meio da ponte sem ter razão, larguei tudo e disse que tinha dado. Falei para a minha chefe – logo depois dela me metralhar com palavras horríveis em alto e bom som – que ela não tinha o direito de me humilhar daquele jeito, que ela nunca mais gritaria comigo, e que ela não era, absolutamente, nada. Quando a mesma arregalou o olho e me perguntou “O quê você disse?”, eu comecei a tremer de pavor, juntei o pouquinho de coragem que eu ainda tinha, me comprometi a não chorar, e repeti, por aquela e por todas as outras experiências abusivas de trabalho que eu já tive na minha vida: é exatamente isso que você escutou: Você. Não. É. Nada. Não grite comigo, não trate a mim e nem a ninguém desse jeito, e pra mim chega. Tô indo embora. C’est fini. C’est parti.

Saí da cozinha com as pernas bambas, fraca de tanta energia que eu tinha deixado pra trás, pairando no ar junto com a ex-chefe abusiva, mas igualmente orgulhosa. Passei por clientes sem me importar com o fato de que acabava de decretar demissão praticamente na frente de todo mundo, e me direcionei ao vestiário. Troquei de roupa, e bati o ponto. Dane-se, nunca mais voltaria. Nunca mais seria humilhada, e nunca mais ninguém falaria assim comigo.

E de cima da ponte, onde eu nem sei como fui chegar, com o Sena correndo embaixo de mim e o tempo passando sem nenhum esforço, decidi que se o preço de continuar seguindo o meu caminho era sobreviver a esses perrengues, eu aceitaria. Eu superaria o que fosse: ratos no meu caminho, casa-moquifo caindo aos pedaços (que acabou virando o meu ninho protetor, me acolhendo docemente todos os dias), falta de grana, vontade de chorar, adaptação a uma cultura nova, dificuldade de falar o que realmente penso, gente grossa, e todos os outros. Porque morar em Paris tem sim o seu lado muito bom, e aqui gosto mais de quem eu sou – só isso, na realidade, já é o suficiente para eu decidir ficar por enquanto.

Por fim, disse a mim mesma que pessoa alguma, fosse ela chefe, colega de trabalho, conhecido(a), ex-amigo, ex-familiar, ou qualquer um outro(a) teria direito de maltratar, ou, ainda pior, querer me convencer de que eu não era capaz de alguma coisa.
Eles que se enganavam.
Eu era sim.

E eu ia dar um jeito.

À Paris (continuação)

Eu não vou conseguir ficar nem uma semana neste lugar se eu não souber como falar “carregador” e “socorro”, pensei, enquanto seguia as orientações passadas por algum pedestre parisiense para chegar perto do Panthéon.
A única palavra que eu sabia em francês naquele momento parecia ser “perdue”, porque esta não posso esquecer. Nem sabia como eu tinha elaborado a frase completa explicando eu estava “perdue” e perguntando sobre a localização do Panthéon. Nem sei como lembrei do Panthéon. Na realidade, eu não sei se falei com alguém ou foi um delírio, mas nessas horas fica claro que Deus existe, pois parecia, pela paisagem, que eu estava me aproximando de lá.
Os franceses sabem muito de história, política, economia. Eu sei comer pain au chocolat, e escrevo quando posso. Eles são magros. Eu era até pisar aqui, tenho certeza que vou engordar. Eu não sei viver sem os meus pais por perto, franceses são independentes. Minhas irmãs fazem muita falta, não era pra eu estar tão sozinha, eu não sei morar sozinha, ninguém me ensinou a fazer isso, será que eu entro neste bar para tentar carregar o celular, tomar algum álcool e fazer amigos?
Mas naquela hora, eu tinha horror de bar, de álcool e de amigos.
Franceses não pensariam assim.
Como é que raios eu vim parar aqui?
Precisava ficar sozinha.
Como é que dá pra ser tão louca?
Tudo isso metralhava o meu pobre cérebro cansado e confuso, enquanto eu seguia as orientações que me passaram na rua para eu tentar chegar em casa.
Mas tudo estava muito difícil, o caminho era muito tortuoso, principalmente porque se tem algo que eu nunca decorei foi “direita” e “esquerda”. Não dá, tentamos de tudo (eu, minha família, professores, guardas de rua, médicos, colegas, bombeiros, desconhecidos, frentistas, CETs, policiais) todos já tentaram me ajudar com isso e nunca foi possível encontrar um método de memorização. Portanto, se em português não consigo, você pode imaginar em francês.
“Gauche” me lembra um poema de Drummond, não me lembra “esquerda”, que por sua vez é o lado do coração, ou o lado com o qual eu não escrevo, ou o lado que não é a “direita”. Gauche é o Carlos, gauche, para meus neurônios, não vira pra lugar nenhum.
Porém, em algum momento em que virei “à gauche”, passei por um Carrefour e aquilo me pareceu tão Brasil, tão meu bairro, tão mamãe, que quis entrar e comprar coisas para a minha casa. Não sei qual foi a lógica na hora da compra, mas saí de lá com produtos de limpeza, pão, leite, cereais, queijo, papel higiênico e bananas. Eu nem sabia o que estava faltando na casa, eu nem sabia do que eu precisava. Decidi que tudo aquilo era bastante necessário. Eu só me esqueci de que eu não tinha noção se estava perto ou longe do apartamento, e de que agora, além da bolsa, tinha que carregar aqueles produtos todos na mão – o rapaz do caixa me disse que eu teria que pagar a mais pela sacola, e eu achei que não valia a pena, precisava economizar, então coloquei tudo o que dava na bolsa e o resto – incluindo o papel higiênico – levei na mão.
Imagina.
Quis economizar na sacola.
E levei o papel higiênico na mão.
De qualquer forma, fui virando à esquerda, depois direita, depois eu vi uma Boulangerie e meus olhos brilharam ao avistar éclairs.
Era como se ursinhos carinhosos vestidos de cores pastel voassem ao meu lado e nada mais pudesse ser uma ameaça na minha vida.
Éclairs.
Entrei e perguntei quanto custava, como se naquele momento eu me importasse, e como se eu não tivesse economizado em uma sacolinha de plástico. Eu tinha necessidade de uma éclair, eu tinha todo o direito, eu estava perdida em outro país, eu podia comer mil éclairs se eu quisesse, era totalmente justo, e nada me engordaria naquele momento.
E, no fim, elas nem eram tão caras como estava acostumada. E eram brilhantes. E sortidas.
Comprei.
A atendente era tão gentil que me perguntei se ela não queria ser minha amiga. Adoraria perguntar se ela queria que fôssemos melhores amigas, para podermos passear juntas e ela me levar pra casa na volta. Talvez pudéssemos combinar alguma coisa para o final de semana, ela me ensinaria francês, e eu a ensinaria samba, aquele clichê de filme, mas que soava tão adorável naquele momento. Quando a gente come doce tudo é tão possível e bonito, e estar perdida nunca é um problema.
Acabei não perguntando se ela queria aprender a sambar, mas porque Deus existe, no momento do auge da éclair na minha boca, lembrei do nome da minha rua. Lembrei. Assim, como a água é molhada, lembrei.
Expliquei a minha história para ela, que rapidamente se convalesceu, e abriu o Google Maps no computador da Boulangerie. Vamos procurar onde fica, e você vai pra casa segura. Não me lembro como ela chamava, mas gosto muito de Julie, então vou chamá-la de Julie. Talvez terei uma filha cujo nome será Julie.
Julie, portanto, encontrou a minha rua no Google, saiu da Boulangerie comigo e foi me explicando o caminho para chegar lá (à gauche, à droite…). Na hora pareceu muito fácil, e eu disse que ela era muito querida e que eu voltaria lá para visitá-la com certeza e comprar mais éclairs e talvez pain au chocolat, e que havia sido muito adorável receber aquela ajuda e conhecê-la.
Nunca mais voltei para ver a Julie porque não soube encontrar o caminho até lá.
Fui virando pra lá e pra cá, e em algum momento cheguei em uma rua lotada de jovens que não seguravam papel higiênico e bananas nas mãos, mas sim cigarros e taças de vinho. Procurei por alguém com uma cara amigável, e quando achei uma moça que parecia muito legal, perguntei sobre a minha rua. Ela abriu o Google Maps, pois tinha bateria no celular, parecia ser muito mais razoável e sensata que eu, e me levou até lá.
Era perto.
Nem acreditei.
Agradeci muito, e agora era a hora de achar o prédio. Qual seria? Eu subi e desci a rua (que, ok vai, nem é tão grande assim) tantas vezes que seria impossível contar. Acho que nunca passei tanta vergonha e tampouco passei tantas vezes pelas mesmas pessoas carregando compras estranhas de supermercado enquanto elas aproveitavam a sexta feira à noite. Foi ridículo, triste, exaustivo e hilário (para quem viu, não para mim).
Mas uma hora, eu avistei.
Aquele prediozinho, com uma gradezinha na frente, calma, eu lembrava daquela gradezinha, era lá. Era a minha casinha. Tinha chegado.
Sinal da cruz. Mais do que um, porque naquele dia Deus e todos os anjos estavam comigo.
Porém, havia mais uma barreira antes de entrar em casa, que era: qual seria o código para abrir a porta principal que levava ao pátio, que por sua vez me levaria ao meu apartamento? 132A? 891B? 67A9B? Tudo era possível, fiz algumas tentativas e só se ouvia um “PÉÉÉ” de uma campainha gritando que a garota das bananas e papel higiênico havia sido barrada. Mais vergonha, e o bar da frente devia estar se deliciando com a cena aos goles de um Bordeaux e uns bons tragos de sei lá o quê.
Me afastei, e fui para perto da esquina, com um pouco mais de luz, para pensar no que fazer. Será que alguém tinha um carregador nesses bares? Eu já começava a fazer careta para chorar, minhas sombrancelhas começaram a se contrair e se aproximar uma da outra, e meus olhos foram fechando para eu poder permitir que as primeiras lágrimas escorressem: onde eu estava? O que eu vim fazer aqui? Como sobreviver sem meu pai e minha mãe e meus amigos que falam a minha língua, e sem alguém pra me abraçar quando eu chegar em casa, se é que eu entraria em casa? Por que eu nunca fui organizada e não escrevi num papel todas as informações de Paris? Por que eu não fiquei em São Paulo?
Quando comecei a lacrimejar e cogitar a voltar para o Brasil dentro de uma hora, uma francesa saiu de um carro, e andou em direção ao meu prédio.
Não.
Será?
Ela parou na frente dele, e começou a digitar o código na porta. Eu, que nesta hora ainda estava na esquina dando uma olhada em tudo, e vendo se algum estabelecimento tinha cara de ter carregador pra celular, saí gritando “ME ESPERA” em todas as línguas que eu podia falar. Mas naquela hora eu não podia falar nenhuma, então não sei o que chegou aos ouvidos dela.
Mas ela ouviu.
Ela virou, me viu, me encarou um pouquinho, e me esperou. Eu me aproximei completamente sem ar, e, transbordando de alívio, expliquei que era nova ali, e toda a história (ela talvez não estivesse nada afim de escutar, mas teve que ouvir tudo sobre eu ser do Brasil, e a minha trajetória até aqui, e o parque, o café, o cachorro, a Boulangerie, minha família, o Carrefour e a gauche).
E entramos.
Subi as escadas.
Abri a porta do meu apartamento.
Cheguei.
Joguei tudo o que tinha nas nas mãos no chão, assim que pisei dentro de casa.
Comecei a lacrimejar ao respirar fundo e relembrar o filme da minha história até lá.
E depois passei a chorar.
A soluçar.
A berrar.
Até não aguentar mais.
Até perder o ar.
Até uma hora em que, com os olhos borrados de rímel e a vista bem embaçada depois de tanto choro, parei um pouco para olhar o meu novo apartamento com mais calma e cuidado.
Lá fora, alguém tocava sanfona e os jovens falavam alto aquela língua desconhecida, mas tão charmosa.
Em um papel eu li “Bienvenue”.
E então, uma onda começou a ser sentida em meus pés. Começou como uma cócega, um formigamentozinho engraçado, e foi aumentando.
Era um calor que passou pelos pés, pernas, pâncreas, e foi subindo por todos os órgãos que eu chamo de “estômago” quando me dou conta da existência, ou de “coração” se doem. Chegou até minha boca, e, sem mais nem menos, explodi.
Comecei a rir, e depois gargalhar.
Eu ri, mas eu ri tanto, que perdi a força, e sentei no chão, entre minha bolsa cheia de compras estranhas, o papel higiênico e as bananas.
E aí o riso foi virando choro, e chorei de novo.
E ri mais um pouco.
E comi uma banana.
Céus, o que foi isso?
E, assim, algo veio à minha mente, do jeito mais lindo que pode acontecer, quando a gente menos espera.
Uma constatação que demorou meses, anos, séculos, mas chegou:

Caramba. Isso pra mim é viver.

O apelo da chaleira

Queria te falar do céu.

Eu perdi o sono na noite passada, porque um pouco antes de dormir fui esquentar água para fazer o meu chá, e quando a água ferveu, a chaleira fez um barulho estranho.

Não era barulho de chaleira quando grita, previsivelmente, que a água ferveu. Aquilo era um choro.

A chaleira gemia, soluçava, e era de um jeito tão sofrido, que parecia criança querendo mamar. Me deu dó da chaleira.

Eu sabia que ela queria dizer alguma coisa com aquelas lágrimas amargas suadas ardidas que eu podia enxergar através daquele som tão triste. Os sons abrem os olhos, às vezes mais do que aquilo que é possível ver. Será que ninguém nunca olhou pro sofrimento daquela chaleira? Mas onde é que eu estava com a cabeça até aquela hora, que não tive a sensibilidade de perguntar se ela estava bem com a tarefa de ferver a água todos os dias, para o resto da vida?

Peguei a coitada da chaleira e derramei a sua dor na minha xícara, porque queria compartilhar daquele lamento. Era culpa, mesmo.

Queria me desculpar por tanto tempo de descaso.

Assim como eu queria também me desculpar para o guarda da rua, por não ter falado boa noite quando fechava o portão de casa e ele me observava de pé naquelas pernas cansadas de procurar ameaças. É que eu estava checando se tinha mesmo fechado o portão, e precisava fazer isso três vezes pra ter certeza absoluta de que eu estava segura. E assim, também, como queria pedir desculpas à minha terapeuta pela quantidade de erros iguais que eu cometi e, consequentemente, sessões de terapia tão iguais na vida dela, mas eu demoro muito pra aprender, e minha mão já está totalmente dilacerada de tanto murro na ponta da mesma faca. E também queria pedir desculpas aos meus amigos por ter tanto pavor dos lugares para os quais eles me chamam pra ir. Tipo lugares com muitas pessoas. Ou com muita música. Como lugares meio escuros. Ou lugares muito jovens. Tipo lugares.

Fiquei na dúvida entre os sachês camomila e erva doce, e achei que eram propósitos tão iguais, tão quotidianos, que me deu pena de mim.

Tudo me lembrava que eu precisava ficar calma, o que queria dizer que eu nunca estava calma. Pegar aquelas caixinhas de chás com sabores ansiolíticos me transformava numa menininha com duas tranças, uma de cada lado da cabeça, usando óculos gigantes e projetando um bico nos lábios, pedindo um abraço. Tomar chás e mais todos aqueles cuidados, todo o dia, toda a hora, era como o gato que se esconde no buraco e deixa o rabo de fora. Parece que resolve, mas não adianta nada.

Optei pela camomila, porque já que era pra ser óbvio, que fosse com propriedade.

E aí, quando fazia aquele sachê de camomila patinar nas águas ferventes da minha xícara, que de tão quentes formavam espumas parecidas com gelo, pensei no céu. De onde eu estava era impossível vê-lo, paredes gigantes me cercavam como a aflição que ia, como um formigueiro, tomando conta de mim ao passo que as horas corriam.

Fui tendo a capacidade de enxergar com um olho que eu inventei, a textura do céu e suas promessas de um futuro incerto, tive a chance de passar a ponta dos dedos nas nuvens de memórias que eu queria desembaçar, e no vaivém da camomila, fui tomada por uma certeza que de tão incontestável, podia ser vendida: o céu não existe.

Eu lembrei que numa tarde de muitas nuvens, quando era pequena, perguntei pra minha avó o que era o céu, ela olhou pra cima e disse que o céu era sopro de anjos. Eles sopravam o chá da tarde, e aquele ar todo, junto com vapor, se transformava em nuvem. Perguntei por que então o céu mudava de cor dependendo da hora, e ela disse que, obviamente, tinha anjo que soprava o chá de dia e anjo que soprava chá de tarde. Ela gargalhou, me deu um beijo na testa, e eu não dormi.

Fiquei pensando, quem, então, soprava o chá da noite? Demônios?

Daí também lembrei que na adolescência eu beijei um garoto numa festa pra me convencer de que eu era adolescente, e que logo depois de me beijar, o garoto apontou pra cima e falou: olha, o céu. Eu olhei pra cima achando aquilo muito romântico, mas não vi nada além de um morcego numa árvore, e me perguntei se morcegos passavam algum tipo de doença para humanos. Tentei achar algo no céu depois de focar no morcego, mas lá não achei nada além de medo.

O garoto disse que tinha visto um disco-voador, que aquilo era sem dúvidas um óvni, como eu não conseguia enxergar? Ele sabia desde o início que discos-voadores existiam, e agora estava confirmando sua hipótese. Ele teria filmado o suposto objeto voador se existisse smartphone na época, mas isso faz tempo. Naquele tempo a gente imaginava.

Fiquei com receio de ter beijado alguém que tivesse usado drogas, e falei pra ele que minha mãe tinha chegado pra me buscar. Saí correndo.

De volta à escola, na segunda-feira, o menino falou que comentou com outro colega sobre o disco-voador na festa, e que o outro também não conseguiu enxergá-lo, mas que por outro lado jurava de pés juntos que viu no céu o contorno do seu tio que já tinha morrido.

Fiquei implicada com aquilo, e não dormi naquela noite, pensando que se eu via o medo onde uma pessoa via disco-voador e outra via o tio falecido, será que alguém no mundo era capaz de ver naquela escuridão toda o que seria da minha vida? Eu teria filhos, ou subiria num cavalo branco para fugir pra sempre de todas as provas de matemática da vida inteira?

Isso tudo veio assim na minha mente enquanto fazia a camomila de bailarina, bem perto da hora de ir pra cama, e então eu não dormi.

No ápice da briga corpo-lençol-travesseiro-ventilador-barulho-falta dele-pássaros-exaustão-sono-delírio, cheguei à seguinte conclusão: se toda a pessoa enxerga o céu de uma forma diferente, fazendo com que ele tenha infinitas formas e naturezas, ele, na verdade, é só da cor dos olhos de quem vê. Ele não existe.

Portanto, quem garante que eu também não seja quem eu acho que sou, e, seja, na realidade, apenas milhares de reflexos de pessoas que olham pra mim e me julgam de formas diferentes?

Neste caso, eu não existo.

Ou então, nada aqui neste mundo faria de mim uma pessoa.

Pra ser muito honesta com você, acho que não passo de uma chaleira na dúvida se esquento mais água, resignadamente, ou se continuo berrando pela atenção de algo que possa me salvar.

Uma noite, uma vida

Queria dar um descanso pra minha loucura, emprestar um tempo um mínimo eterno para ela dormir em paz, reconsiderar tudo o que pensa, e talvez mudar de ideia sobre suas inquietações.
Enquanto todo mundo espera uma vida melhor, ela só espera uma vida de verdade. Ela me pergunta se é pedir demais, e eu não sei responder, nem sei se um dia eu vou saber. Ninguém sabe o que é a verdade.
As pessoas fingem que sabem pra doer menos o levantar da cama pela manhã.
Costumamos falar sobre o futuro, e toda a vez nos arrependemos alguns minutos depois por termos perdido o presente. Nos culpamos por isso, e mudamos de assunto, tentando achar respostas eficazes para o fato de nos questionarmos tanto sobre tudo. Pensamos nas horas, na solidão, nos julgamentos, nas dores que nunca chegamos a sentir. Buscamos respostas, mas como a verdade não existe, continuamos nas perguntas.
Será que a vida é uma mentira?
Dorme, dorme em paz, eu digo. Ela não consegue, tem medo de perder o controle. Eu compreendo penalizada, e compreendo bem até demais. Resolvemos, então, jogar palavras na noite à dentro. Quando a madrugada te observa rolar na cama, sem rumo nem proteção, o melhor é conversar sobre isso com quem te ouve sem te julgar.
Freud dizia que a fala cura.
Assim, conversando com a minha loucura, é possível que as horas se percam nas palavras, e, cansadas de tentar entender, vão embora deixando minhas pálpebras pesadas.
Falamos sobre o sol, sobre as coisas que giram, sobre o universo, sobre cartomantes, sobre a Verdade e a Mentira. Vi cenas coloridas e presenciei diálogos que foram cortados por impulsos de razão e lucidez.
Ou mentiras.
Tenho interesse pelos opostos, então o assunto caiu sobre a chuva, sobre o tempo, sobre o peso da mesmice e da falta de luz em vidas que gastaram toda a sua energia com aquilo que não faz sentido. Aqueles homens dentro do elevador, cada um olhando o seu relógio, checando e-mails nos respectivos celulares, talvez pensando em uma forma de fugir do trânsito, do país, ou da vida.
Ou da verdade.
Ou da mentira.
Pude ver um deles chorando escondido, gente grande não chora, mas a dor não respeita esta verdade. Ele estaria acordado agora? Que horas eram?
Contei pra loucura que não me sentia bem de não me sentir bem, já que eu tenho tudo o que muitos não têm. A culpa aumenta, e junto com ela, as batidas do coração e o tamanho das horas.
Eu sou uma farsa?
Eu deveria ajoelhar e agradecer a Deus toda a hora por eu ser eu – digo à loucura, já pedindo desculpas pra quem quer que seja, e deixando claro que me importo, pra não ser castigada. Mas isso tudo dói ainda mais – o fato de ser injusto sofrer pela minha vida, e não pela dos outros, que agora passam frio ou calor na rua – já perdi a noção da temperatura também, assim como das horas.
Choramos juntas, eu e a loucura, até darmos risada. Sempre fomos assim: diante do desespero e dos pensamentos que soltam quilômetros de cordas à nossa criatividade e angústia, rimos.
Pensamos nas pessoas que conhecemos, e nos comparamos a cada um deles – um por um. Todos felizes? Aparentemente, sim. Sabemos que não é verdade? Sabemos. Mas eles podem mostrar? Não. E nós, podemos? Claro que não.
Ou isso é tudo mentira?
Estão todos doentes, ou as doentes somos nós?
O que é ser doente?
Estou inventando tudo isso?
Essa noite vai acabar, eu digo à minha loucura. Não somos onipotentes a ponto de acabarmos com o mundo por causa da nossa insônia. Ainda não alcançamos esse status.
Será que um dia eu vou ser tão poderosa sobre alguma coisa? Não importa. Se eu tiver poder sobre a minha mente, já estou muito satisfeita.
Estávamos falando há umas duas horas sem parar, resolvemos calcular. Chegamos a, inclusive, questionar sobre a felicidade e a estratégia da indústria farmacêutica para conseguirmos alcançá-la. Nos culpamos novamente. Fomos até Vênus e voltamos.
Mas a vista não dava pro mar.
Combinamos que amanhã passaríamos menos tempo na internet. Ligaríamos para o Dr. Rubens e finalmente marcaríamos a consulta – nossa saúde deveria vir em primeiro lugar (é o que dizem, mas no fundo no fundo, o capitalismo nos ensinou que isso é o que vem por último, na verdade. Ou na mentira). Pagaríamos a conta do banco, e contamos quantas horas teríamos para descansar se pegássemos no sono em cinco minutos. Tudo calculado, como a vida tem que ser.
Como o sistema injusto nos ensinou.
Ou injusta sou eu?
Esquece tudo isso, respeita as regras, foca na respiração, e dorme.
A loucura sabe que vai passar, como todas as outras noites, mas ela sempre precisa ouvir de novo. E tem que ser de mim, mesmo que eu esteja querendo dormir – o que é querer? É desejar, ou seguir as regras?
Ela me sacode para eu poder consolá-la, e, como quem não quer nada, deita de bruços ao meu lado na cama, apoia o rosto nos braços e me pergunta de um jeito travesso sobre quem eu sou e o que quero de tudo isso.
Acho essa pergunta muito impertinente para às 3 da manhã – chequei o horário no celular – mas não posso deixar ninguém sem resposta (e ela sabe disso), senão minhas entranhas começam a engolir umas às outras, o coração bate tão forte quanto a chuva na janela (esse barulho é de chuva, eu penso, ou já comecei a delirar, preciso ligar pro Dr. Rubens), o suor escorre nas costas como depois de uma maratona trás do tempo perdido, e penso que o mundo vai desmoronar por minha causa se eu não fizer algo que tenho condições de fazer naquele momento.
Falamos sobre ansiedade também. Precisamos levar a sério a nossa ideia de ajudar pessoas como nós.
Será que existe alguém como eu?
Eu não sei quem eu sou, e eu não sei o que eu quero, respondo.
Brigo com o choro, ele não pode vir de novo, por favor, vai prejudicar a respiração, o sono, minha vida inteira.
A noite é sempre dramática.
Olhamos uma para a outra com certa autopiedade, mas também com cumplicidade, sempre presente entre nós. Porque apesar de nada fazer sentido, ainda assim existe uma empatia grande que nos permeia, e isso não é a solução da questão Verdade X Mentira, mas nos basta naquela hora.
É bom saber que mesmo embaixo de horas muito sofridas ainda temos uma à outra e o nosso repertório para qualquer 3 da manhã que forem precisos – até pegarmos no sono juntas, quando as horas perderem o interesse na conversa, as pálpebras pesarem como disseram que deveria ser depois de um dia de trabalho, e acordarmos abraçadas uma à outra –
torcendo para o mundo ter amanhecido um pouco menos louco, ou, pelo menos, não tão injusto.

Alma

o corpo pede calma
quando a pele arrepia
de parar o tempo
mas quem disse que tenho tempo
a perder
com todo esse nada de tempo
pra viver?

enquanto a Terra dança
feito bailarina dolorida
que pisou no terreno errado,
eu chamo Deus de Vida
e peço pra ela não desistir de mim
quando eu pisar nos erros
tão enlameados, humanos e necessários
mas cheios de tempo
que eu não tenho a perder

será que um dia o mundo
vai me olhar e me botar pra viver
sem medo do coração que bate
quase tão rápido como o tempo
que ninguém tem pra saber?
será que ele me acalma
me coloca pra dormir
num terreno tão certo
de me levar pro lado exato
sem perder nenhum tempo
que eu nem tenho pra dizer?

é toda essa alma, sem nada de calma
é toda essa carne viva
exposta ao nascer ao pôr ao morrer do sol
é toda essa eu
que, Minha Vida, só você sabe
que não tem tempo a perder
e que por isso chora
a felicidade
da angústia
da raridade
da pressa

de viver

primavera

eu disse coisas que não saberia dizer a mim mesma. na hora em que olhei pra trás já não dava mais tempo, o ano tinha passado, e naquela rua já era dia. eu vejo a luz daquelas estrelas negras toda a vez que a razão sem sentido se transforma em imaginação fértil no formato de arco e flecha. o escudo, que a princípio deveria me proteger, entra na pele junto com todas as modernidades, e sangra na mesma intensidade de um sorriso dado para fingir que sou igual àqueles que nasceram em outra vida. às 4h da manhã o sol está ardendo tanto, que a minha pele virou escuridão, assim como os olhos que fecham em busca de um quarto onde possam chorar, gritar ou simplesmente descansar em paz, sem ninguém para poder julgá-los. eu me emaranho no cabelo que deixei crescer pra me sentir mais mulher, me perguntando se os cientistas que me observam dentro dessa caixa de vidro conseguem notar algo diferente em mim. provavelmente não, porque eles não tem piedade alguma. as minhas unhas arranharam a parede enquanto a minha boca beijava uma flor, e senti muita dor quando precisava ouvir de alguém que aquilo fazia algum sentido, e o meu amor me disse que eu era alguém incoerente. quando estava pronta pra sair, com batom vermelho e tudo, me elogiaram, falaram que eu estava bonita para me incentivar, mas não adiantou, porque o espelho nunca foi o meu retrato; a profundeza, sim. os outros nunca souberam de nada da gente, e então eu resolvi ficar em casa, porque só a solidão entenderia.
.
hoje é dia de primavera, de botar um vestido, mostrar os dentes para a foto, tomar uma cerveja e dar risada do sol da chuva da noite e da desgraça alheia.
e eu, que sempre odiei as regras.