Não deu tempo

Eu corro na estação para trocar de trem, saio da linha 5 em direção à linha 7, preciso chegar logo.
Esbarro em uma família de quatro americanos que seguram um mapa da cidade e o comparam com os nomes das estações na parede do metrô. Eles falam alto, discutem feio entre si, os pais não vão se falar até a hora da sobremesa do jantar, a única hora em que tudo, até milagre, é possível. Estão todos os quatro ansiosos, precisam chegar logo ao destino, as férias não esperam. Peço desculpas em português depois de quase derrubar o caçula em cima do seu patinete com seu tênis de luzinha vermelha. Estou apressada, não consigo raciocinar, não dá pra parar, eu sinto muito por quase matar o mais novo esmagado nas suas férias tão esperadas. A irmã mais velha e adolescente que não larga o celular nem perceberia. Tadinho do menino.
Um rapaz se coloca na minha frente, me pede dinheiro, ticket restaurante, qualquer coisa semelhante, ele tem fome. Eu não posso, eu não tenho, preciso correr, não consigo ajudar. Ele tem pressa pra comer, eu tenho pressa pra chegar.
Um casal ri apressado ao esperar o metrô, a graça vai passar, assim como as horas, o trem, o tempo que eles têm juntos, a paixão que tem um prazo.
Entro no vagão, arranjo um lugar pra sentar e olho para minhas mãos: minhas unhas não estão decentes, não arranjei hora pra ajeitar, devia ter colocado outra bota, essa está velha, está feia, uma moça impecável se coloca na minha frente, e me olha, orgulhosa. Sinto inveja do tempo que ela teve pra se arrumar, e ela se sente feliz do tempo que teve para poder exibir, agora, a sua beleza, seu cabelo escovado, o seu tempo. O telefone dela toca, e, como um raio, ela responde: “J’arrive” (já estou chegando). Sinto menos inveja, ela sente menos orgulho.
Descemos na mesma estação, e cada uma corre para um lado.
Subo as escadas, chego na rua abarrotada de gente apressada, e no bairro 9 há tantos asiáticos que me pergunto se na pressa não peguei algum trem em direção à Xangai. Peles de pêssego, cabelos que não fazem questão alguma de sair do lugar, olhares surpresos com a grandiosidade das Galeries Lafayette, e ansiosos pelas compras que virão. Celulares, ipads, moderninades, tudo sem limites.
Sem tempo.
Mãozinhas na boca para rir, demonstrar medo, surpresa, felicidade, raiva, fome, sono. Passo por uma asiática que, particularmente, chama a minha atenção: a sua filha berra, apressada para dormir, o marido reclama, apressado para sumir, ela não muda a feição, a precisão dos passos, a altura da voz, a pele que eu pedi a Deus. Ela empurra o carrinho da filha, sorri um meio sorriso de alguém que mesmo desesperado engole todas as palavras, fixa o olhar em um horizonte que só ela vê, e segue.
Atrasada, pode ser, mas socialmente adaptada, com certeza.
Ela, diferente de nós, sabe que vai chegar.
Não importa a cor, a religião a cultura: nos apressamos, todos.
Como aquela pessoa teve tempo para um rastafári, como aquele rapaz fez o nó da gravata, como aquele cantor compôs aquela letra, demora pra enrolar aquele turbante? Alguém ainda reza antes de dormir?
Com que tempo, com que hora, de que jeito?
Chego na porta do trabalho, e me lembro que não era hoje.
Me apressei demais, esqueci de olhar a agenda, hoje não trabalho, é domingo.
Não tenho tempo para xingar ninguém, então corro para pegar a linha 4. No domingo preciso escrever, eu tinha feito uma promessa, com que tempo não sei, acho que a fiz dentro do metrô, numa hora de culpa por não escrever o suficiente.
Escreverei todo o domingo, prometi.
E eu lá tenho hora pra cumprir promessa?
A última promessa que fiz, de nunca mais comer pão, croissant e pain au chocolat (ou pelo menos até voltar aos meus 55kg) quebrei porque cheguei aos 56,7kg e fiquei angustiada por ainda não estar nos 55kg. Me dei de presente comer o que eu quisesse para passar a ansiedade.
Chego no café que frequento aos domingos, peço o meu latte, abro meu caderno, procuro, desesperada, minha caneta.
Escrevo, faminta, sobre não ter tempo.
Minhas mãos tentam correr mais rápido do que o tempo, e doem para eu parar. Um ralador de queijo se coloca entre meu pulmão e meu estômago, na garganta tem um gosto de gengibre que me lembra das saudades, mas não dá tempo de sofrer, preciso escrever.
Fico assustada com a minha bochecha que treme de tanta pressa, pego o celular e escrevo pra minha mãe, pergunto para um amigo se ele quer fazer algo à tarde, será que aquela amiga está livre hoje, vou falar com aquele cara, dane-se, hoje vou ser a primeira a enviar mensagem.
Verifico a previsão do tempo para pensar no que podemos fazer mais tarde (ou eu e meus amigos, ou eu e o cara, ou eu e eu na pior das hipóteses), abro o meu Facebook, olho fotos de gente que eu não cumprimentaria se passassem por mim na rua, e as notícias do dia. Cleo Pires fala de sexo e chama todos de hipócritas, a política mais decadente impossível, os gays sem direito algum, não se pode mais falar sobre nudez, Bruna Marquezine manda indireta pra Neymar, eu deveria estar lendo em francês, vou ter insônia.
Decido parar de escrever porque o tempo está correndo muito rápido, é domingo, minha folga, se eu não descansar não vou servir pra nada na semana que vem, entro na primeira livraria que vejo, e peço um livro estúpido para a atendente, que se chama Julie. Talvez um dia terei uma filha cujo nome será Julie. Julie estranha o meu pedido, e eu explico: meu francês precisa melhorar, eu não aguento mais ler livro pra criança, e preciso de uma história em que a protagonista está no fundo do poço, e então acontece um milagre e ela arranja um trabalho muito bom e fica rica e conhece um grande amor e tem filhos e tempo. Se ela conseguir emagrecer neste meio–tempo ainda melhor. Tudo isso, se possível, num francês fácil, e gostaria também de um livro que seja curto, de preferência, pois não tenho muito tempo.
Não saio nem com meu amigo e nem com minha amiga, decido que não vou tomar iniciativa nenhuma, o cara que fale comigo primeiro que eu tô cansada dessa história de joguinho (mas continuo jogando), volto pra casa porque o dia vai acabar, e em breve e eu preciso descansar para amanhã. Não trabalhei, não escrevi nada, não consigo começar o livro novo se eu já sei o final.
Não tenho nem paciência e nem tempo.
Volto num metrô abarrotado de gente atrasada pro jantar, pra dormir, pra semana que vem, pra ter mais tempo.
Chego em casa, tem fila pra tomar banho. Todos impacientes, todos trabalham cedo amanhã. Todos nós, moradores do mesmo lar, nos cumprimentamos educadamente, desejando, no fundo, que não tivesse ninguém mais naquela casa. Sento na escada impaciente segurando meu pijama na mão, e aguardo a minha vez de entrar no banheiro. Titi, a gata preta e branca, vem no meu colo ronronando, pedindo um pouco do meu tempo.
Lembro do ralador de queijo entre o pulmão e o estômago, e do gengibre na garganta: não tenho muito pra dar, meu amor. Nem escrevi hoje, e hoje é domingo.
Tomo o meu banho o mais rápido que consigo, tem gente me esperando na fila, não posso nem olhar com mais cuidado a parte de trás da minha perna e analisar se há alguma nova celulite, então desço pro quarto, porque agora é hora de dormir, descansar, respirar, e precisa ser agora, senão não terei muito tempo.
Se eu não responder as pessoas que me procuraram durante o dia não vou dormir, então decido enviar mensagem a todos dizendo que estou ótima, que o dia foi ótimo, que fez um tempo muito ótimo. Não quero dar pano pra manga, criar burburinho, conversa à toa.
Não tenho tempo.
Abro o Youtube contra a minha vontade, e vejo uma entrevista estúpida de uma famosa A perguntando à famosa B se ela já tomou um fora de alguém, e se sim, a famosa B precisa beber álcool (?). Desta forma, fazendo algo mais do que absolutamente inútil, minha culpa só aumenta, por isso checo doze vezes se coloquei o horário certo no despertador para não perder a hora amanhã. Amanhã é segunda? Sim. Checo de novo? Sim. E aí se vão mais 20 vezes.
Desligo todas as redes sociais, coloco o celular no modo “pelo amor à minha vida, não me mande mais nada hoje”, abro o caderno decidindo não dormir agora e começar a escrever, pois amanhã não terei tempo.

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nunca ninguém

nunca ninguém me perguntou
se eu gostava de ser gente

quando eu era pequena
coisa que ainda sou
achava muito chato me chamarem
de nomes que não eram meus
me jogarem areia no cabelo
sem eu pedir
fazerem
eu me sentir
um cachorro sem patas pra correr
coisa que só gente
é capaz de fazer

quando eu era pequena
coisa que não deixei de ser
eu queria ser um cachorro
mesmo que sem patas
pra ser cuidada de verdade
por alguém que chorasse
minha irracionalidade

até hoje ninguém me perguntou
se eu gosto de ser gente

quando eu era pequena
coisa que vou morrer sem saber
ser
queria ter berrado no ouvido deles
bem alto
estourado tímpanos
ao dizer:

sou cachorro e valho mais do que vocês

em vez de me encorujar
no corpo que restava
encaretar a boca pra chorar
por todos os anos que viriam
por todas as respostas que eu deixei
pra falar depois em poesia

e, sem nem titubear
queria olhar bem fundo
nos olhos deles
mostrando meus caninos,
tão amada,
ao prever:

ainda bem
que eu não nasci vocês

Eu aceito

Entro em um restaurante e pego um prato para me servir. Acho a textura dele estranha, e me pergunto se a louça daquele lugar é bem lavada.
Ouço um burburinho de alguns executivos ao meu lado na fila, mas nada me interessa, então lembro da anemia, e decido pagar caro por gordas de lascas de beterraba. Carne vermelha contém em si a dor do animal quando é abatido para virar comida, e isso é transmitido para aqueles que a comem – o resultado disso é raiva, depressão, ansiedade, desespero. Melhor evitar. E isso, claro, sem contar o processo de produção horrendo deste alimento.
O mundo é muito cruel.
Sento em uma mesa ao lado de duas moças que conversam sobre colesterol, uma ingerindo 03 ovos fritos, e a outra mergulhando num mar de bacon, e não lembro a última vez que senti o gosto de um ou outro – parei por medo da balança, do espelho, do LDL, pressão, Fleury, diagnóstico, doença.
As moças começam a falar sobre trabalho, e resolvo ceder ao celular que apita descontroladamente por atenção.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu aceito.
Eu digito o texto com as mãos trêmulas e as bochechas pegando fogo, como se estivesse falando “sim” a um jantar com meu amor platônico. Ou a uma vida de massagens gratuitas a qualquer momento em que o coração acelerasse. Ou ao fim do trânsito em São Paulo. Ou a um Kit Kat sem calorias. Eu digo ao editor que aceito a proposta, eu não posso mais sabotar esse desejo incontrolável de ser o que sempre quis, de fazer o que me faz bem, de publicar, finalmente, o que eu venho tentando desde a minha última encarnação: vou ser, oficialmente, uma escritora.
Não apenas quando der. Não somente quando o trabalho der uma aliviadinha. Não exclusivamente quando escrever for a única alternativa para eu achar a vida vivível (momentos únicos em que consigo jogar o resto pro alto, e não me culpar por isso).
Vou, apenas, somente, exclusivamente, escrever.
Eu aceito.
Termino de comer a lasanha, as batatas fritas e o ovo com bacon, peço um cheesecake com um café, e pago tudo sem remorso. Saio pra andar.
Acho as pessoas interessantes e amigáveis, brinco com um cachorro, dou a mão para um mendigo.
Paro na Augusta, corto o meu cabelo, me acho linda, e como mais um doce.
Lambo os dedos sem encharcá-los de álcool-gel.
Vou caminhando e sorrindo, o tempo não me assombra, as horas param, as cores de fim de ano iluminam o meu bem-estar.
Entro em um boteco, peço uma cerveja, e ligo para o plano de saúde: agora só Dr. Consulta, não vou mais deixar meu salário na conta da Amil. Não vou. Sou forte e saudável, e vou usar esse dinheiro para aproveitar mais os meus dias, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo.
Saio do bar e entro em uma agência de turismo: com o dinheiro dos livros, vou viajar. Dane-se tudo, nada mais me impede, vou desfrutar da minha juventude onde quer que seja que não aqui, vou parar com essa mania de prorrogar tudo, agora eu vou mesmo, não tenho medo.
Planejo tudo em 30 segundos, estou muito satisfeita, e saindo de lá decido avisar o meu médico que não preciso mais de remédio algum: estou ótima, doutor, estou em paz, estou livre de tudo aquilo, nem lembro mais como era, podemos parar por aqui. Obrigada, valeu, foi bom, mas agora vou me dedicar ao meu gatinho de estimação. À yoga. Ao trabalho voluntário. Ao sucesso do meu livro.
A mim mesma.
.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu já estou indo.
As duas moças ao meu lado continuam falando sobre trabalho, e eu preciso levantar pra continuar o meu.

batatas

a cabeça não
calava
toda aquela falação
de motos que buzinavam
toda a minha exaustão

esqueci quantos anos eu tinha
e se havia comprado as batatas,
céus, as batatas,
e voltando pro mercado
veio um cachorro
do meu lado

quis morar nos seus pelos
tão macios como a voz da minha avó
quando dizia pra correr
que o macarrão ia esfriar

eu pedia um minuto,
só mais um minuto
que era pro minuto
nunca mais se acabar

os tomates pro molho, o alho, a cebola,
e um refrão da música
que não cessava o martelar

o mesmo,
a mesma,
do mesmo

eu tinha 28
pois nasci em 88
mas as motos me lembravam
do horário do jantar

queria um cachorro
com cara de arcanjo
mas e o dinheiro que faltava
pra pagar meu bem-estar?

Freud dizia,
já cansado de explicar,
eu não entendia
já pequena de pensar

o farol fechava e toda a gente
parava
que era pra brincar com o tempo
que ninguém tem pra gastar

a roupa de Jocasta
o julgamento de Arnaldo
a conversa de Adélia
decisão de Juremar

tanta vontade de calar
aquela boca grande
daquela mente distante
que não sabia onde parar
 
céus, as batatas

 

 

 

noite que segue

A noite era clara.

O cheiro queria ser de carro novo, não fosse o bafo das milhares de histórias que sentaram dentro daquele automóvel em um curto espaço de tempo. Eu segurava um chocolate quente nas mãos, porque o dia era frio e porque me presenteio quando a visão acinzenta e os órgãos trocam de lugar – podia sentir meu cérebro se contorcendo no estômago, o coração nas pontas dos dedos e o fígado explodindo na cabeça.

O motorista queria conversar, e eu respirar. Então eu concordava até com o que eu era contra para não gerar polêmica e mais assunto. Não imaginava que a palavra “aham” podia ser tão útil e ansiolítica, descobri naquela noite.

Eu estava no meu inferno astral, o pai dele tinha morrido. Eu não sabia tomar decisões, ele era Uber, mas prestaria concurso público. Eu cogitei tomar metade do remédio, ele questionou sobre a publicidade. Tive certeza de que tomaria o remédio inteiro, ele perguntou se choveria.

Eu não sabia.

Tem horas em que tudo o que a gente sabe, é que a gente não quer saber de nada. Éramos só nós dois dentro daquele carro, tentando aliviar o peso de saber que éramos só mais dois em meio a tantos outros. Só não pesava tanto quanto ver o rapaz oferecendo amendoim crocante, apenas um real, enquanto estávamos parados no trânsito. Porque não andávamos de ônibus como ele provavelmente fazia? Quem a gente achava que a gente era?

Aham, à direta aqui. Aham, faz seu caminho, pior não fica. Aham, posso abrir o vidro? Aham, concordo. Ah, foi uma pergunta? Eu não sei, realmente.

Aham.

É que quando o meu estômago está cheio de cérebro e meu fígado fica atacado dentro da minha cabeça, fazendo meu coração bater nas pontas dos dedos, eu só sei que isso tudo não orna, não casa, não faz sentido, essa bola cheia de gente em cima, 70% água, e a água que não cai, e a terra que engole o que é meu, o que é seu, o trabalho, as pessoas, e o outro, o outro, o outro, opiniões e julgamentos orquestrando palavras e gestos e batimentos, e o ônibus que eu não peguei enquanto respondia tudo ao contrário do que eu queria.

Aquilo era a vida que eu não vivia.

À direita, aqui, moço. Final do quarteirão à esquerda, tá? Aham. Ah, sobre isso não sei. É, sei lá, pode ser. Realmente não sei de nada hoje, moço, desculpa, só sei que a noite está clara, né?

Bati a porta do carro me perguntando porque eu não peguei um ônibus, mas não soube responder. Dormi pensando na resposta, me culpando por isso e pelo chocolate quente, enquanto meus órgãos buscavam seus devidos lugares dentro de mim.

A noite seguia clara.

Cansou de ser santa

Segundo Eugênio, o psiquiatra de Cecília, havia dois grupos de pessoas no mundo: o grupo dos que nascem com os genes normais, e o grupo dos que nascem com os genes meio podres.
Cecília era paciente assídua de Dr. Eugênio há 8 anos, portanto não precisa nem dizer a que grupo ela pertencia.

Era falta de ar que chegava sem avisar fazendo o coração bater feito britadeira de investidor milionário, e gotas de suor que escorriam pelo corpo todo dando inveja às peruas que passavam o dia tentando eliminar impurezas dentro da sauna. Tremedeira por fora, por dentro, toc, tic, e todas as outras abreviações, traziam sempre com elas a certeza de que a morte estava seduzindo o seu quase cadáver de 30 anos.
Era lavar a mão repetidas vinte vezes ao pegar no dinheiro, encostar no chão ou cumprimentar qualquer pessoa para não ser devorada por alguma bactéria sem dó que a levasse a pular na cova de vez.

Era o marido que a largou por outra.
Era a depressão.
Era o pânico.
Era paranoia, neurose, insônia, tudo pra ontem, Whatsapp, Facebook, Instagram, vida louca, vida alheia, é assim mesmo, já tentou yoga, meditação? Vou te levar na minha igreja, sua vida vai mudar. Modernidades, minha filha, todo mundo sofre disso, não é só você, precisa saber lidar.

Não, nananinanão, são genes meio podres, Cecília, não reclama, que eu te conheço bem, e toma mais 10 gotinhas de Rivotril antes de dormir, questão de aceitação. Quantas receitas você quer? Pode ser duas, sim. Coloco duas caixas em cada receita, tá bom? É caro mesmo, mas é sua saúde, é isso que vale, pra aguentar São Paulo e o trânsito e toda essa vida artificial é o jeito, não tem como.

A irmã não tinha nenhuma pista, a não ser a última mensagem que Cecília mandou pelo Whatsapp três dias antes do sumiço: “Como você suporta essa vida?”. Tendo em vista que era uma reclamação constante de Ciça, assim como a chamavam, a irmã nem respondeu, estava tentando enfiar a colher de sopa de espinafre na boca do filho mais velho de 04 anos que se recusava a comer caso não ganhasse um ipad.

A mãe e o pai de Ciça não podiam imaginar do paradeiro da filha mais nova, ela nunca se abriu muito com eles, e a última notícia que tiveram da desnaturada foi na semana anterior, quando ligaram perguntando como ela estava em relação ao divórcio, ao que ela respondeu: “Ainda não morri”. Pareceu uma boa notícia.

As amigas alegaram que ela estava afastada de todos há um tempo, e acharam que seria prudente respeitar a vontade da amiga por alguns dias. “Se afundar na fossa por um tempo faz bem. Achamos que estava tudo normal, dentro do prazo aceitável de sofrência”.

Colegas de trabalho foram acionados, e deram a noticia de que Ciça havia pedido demissão. Sexta-feira havia sido último dia dela na empresa, teve até um almoço de despedida. Já era domingo, e ninguém sabia de nada. Dois longos dias de falta de informação e apenas um tracinho nas mensagens de Whatsapp.

A casa dela estava trancada, nenhum ruído chegava ao corredor, onde mãe, pai, irmã, cunhado, dois sobrinhos e duas amigas faziam barulho e gritavam o nome de Cecília na ingenuidade de serem atendidos.

“Vou arrombar a porta”, decidiu o pai.

As amigas sacaram os celulares da bolsa: Snapchat.

A mãe estava um tanto dopada de Lexotan, a irmã dizia para o filho mais velho esquecer do ipad, que a tia estava “desaparecida, pelo amor de todos os santos”, enquanto o marido dela ensinava o filho mais novo (02 anos) a desbloquear a tela do celular para que ele pudesse jogar joguinhos estúpidos quando começasse a encher o saco.

O pai de Cecília deu um impulso pra trás, correu desajeitadamente em direção à porta do apartamento da filha, e, chegando bem próximo da mesma, levantou a perna para a tentativa de um chute heróico. Enquanto a porta nem ameaçou se mexer, ele caiu no chão urrando de dor, e pronunciando a palavra “cazzo” quantas vezes conseguiu. Era o único palavrão que falava. Família italiana, aquela coisa.

Mesmo virada no Lexotan, e tentando levantar o marido do chão, a mãe, desajeitamente, lembrou: e a chave reserva do apartamento? Não estaria na portaria?

O pai pronunciou mais alguns mil cazzos por não ter lembrado.

Nesta hora, os Snapchats já bombavam com o vídeo do seu Roberto voando em cima da porta, e caindo como uma jaca no chão.

A irmã de Ciça foi atrás da chave na portaria, e voltou ao décimo andar orgulhosa, girando o chaveiro no dedo indicador. Ela tinha a atenção de todos, e os olhares voltados unicamente para ela, pela primeira vez. Dava até dó de usar aquela chave pra abrir a porta e acabar com o momento de celebridade.

Todos se aproximaram da fechadura do apartamento, e era possível notar o pavor, a curiosidade, o medo, e a excitação na cara de cara um. Não exatamente nesta ordem.

.

E, finalmente, a porta foi aberta.

.

Nada.

Nada de móveis, nada de pistas, nada de nada.
Vasculharam tudo, e nem o telefone com fio e velho estava mais lá. Celulares tirando fotos para todos os lados. Todo mundo tinha que saber. Alguém tinha que ajudar, aquilo era um filme de terror, será que nem uma carta ela deixou?

A Globo filmaria?
Dá pra perceber que tomei Lexotan?
Minha cunhada era louca mesmo, melhor assim.
Será que a maquiagem estava em ordem pro velório?
Eu precisava mandar aquele orçamento pro cliente, 20 mil reais dá pra muita coisa.
A tia Ciça morreu?
Tem herança envolvida?

“Mamãe, o que é isso?”
O sobrinho mais velho de Ciça estava pendurado em uma prateleira embutida na parede, em cima do terceiro degrau, segurando um papelzinho azul nas mãos.
A mãe arrancou o papel da mão do filho – mais um sucesso nas mãos, aquele dia estava sendo milagroso, a cartomante sabia bem o que dizia, 300 reais bem pagos – leu tudo cautelosamente, esticou o braço, apalpou a mesma prateleira na ponta dos pés, e encontrou mais um papelzinho igual.

“Aqui tem duas receitas de Rivotril. Com duas caixas em cada uma”.

Fogo

Era botar fogo no corpo inteiro e sair correndo sem medo de existir como detento fugitivo que foi preso por falar de amor. Era falar palavra de furadeira, que entra fundo na pele de quem precisa saber, sem o menor pudor próprio daqueles que são catequizados para diferenciar o certo do errado. Era se aproximar daquilo que faz mal e tirar as próprias conclusões, porque o bem que isso traz mãe e pai não ensinam. Era o corpo sem temer a dor, porque é ela quem lembra da força que existe. Era aceitar a solidão como a melhor amiga de quem não está pronto para ser o que não é – era amá-la como parte essencial do processo de saber dizer não. Era o passado pedir desculpas por tudo, mesmo tendo consciência da sua importância – era aceitar as suas desculpas, mesmo sabendo que ele teria feito de novo. Era olhar para aquela imagem antiga sem querer chorar, só enxergando de um outro ângulo um tempo que não existe mais. Era subir numa bicicleta e pedalar pra longe da realidade que lembra todo o dia da burrice que foi inventar a realidade. Era entender que o inimigo é um espelho. Era aceitá-lo como quem faz as pazes com os erros cometidos. Era cometer mais erros sem pensar nos seus desdobramentos. Era se arrepender por esses erros, e cometer alguns outros. Era concordar com o fato de que crianças sabem mais. Era amar como quem vai embora pelo bem do outro. Era odiar como quem sabe que não cabe tanto amor. Era encontrar a paz no lugar do qual se tem mais medo. Era calar a boca das vozes que tentam impedir, e ir, delicadamente, atrás de uma história pra contar. Era agradecer as opiniões com muito respeito, e fazer tudo ao contrário. Era dar risada dos problemas criados para sair um pouco da rotina.
Era com o passar dos medos.
Era com o passar dos dias.
Era com o passar dos anos.
Depois de todos esses danos.