Sobre-viver sozinha em Paris

Eu não fazia ideia de como eu tinha chegado até o meio daquela ponte. Que caminho eu tinha feito? Eu peguei o metrô? Aquela mulher estava sendo pedida em casamento? Aquela velhinha tinha quantos anos? Por que eu estava em Paris? Quantos currículos eu tinha que mandar amanhã para poder conseguir um trabalho? Se eu mandasse um milhão de currículos e a chance de conseguir um trabalho fosse uma a cada mil e-mails enviados, quantos trabalhos eu conseguiria enviando um milhão de e-mails? Se eu tivesse estudado qualquer coisa na área de exatas eu estaria fazendo essa conta tranquilamente? Que dor era aquela perto do apêndice? O que eu faria se eu fosse o Silvio Santos? Eu não queria casar nunca na minha vida. Filhos, queria.

Era um hotel. Eu, a atendente da noite. A que fazia mojitos que deveriam ter gosto de limão com rum, mas pareciam suco de uva batido com pizza margherita. Era a pessoa que “sabia” sugerir champagne e vinho para quem estava sofrendo um jetlag e queria relaxar; quem tinha acabado de chegar de uma reunião de trabalho e desejava esquecer um pouco do dia; quem queria afogar as mágoas; ou talvez pessoas que estavam afim, simplesmente, sem um porquê, de beber. Mas, na realidade, eu era a barmaid que não sabia qual a diferença entre todas as milhares de bebidas do restaurante, e procurava no Google agachada atrás do balcão o que aquele nome do rótulo significava. Um dia servi prosecco falando que aquele champagne era maravilhoso. Outro dia respondi de bate-pronto a um cliente que me perguntou o que havia em determinado drink, que o mesmo era feito com “gin”. Falei com propriedade. Depois fui checar, e o drink era feito com tequila. Ainda bem que ele desistiu do “gin” e preferiu uma Coca-Cola. Era eu quem oferecia potinhos de amendoim para quem eu ia com a cara ou achava bonito. Era eu quem ajeitava as mesas pro café da manhã do dia seguinte.

Eu estava ferrada. Tinha perdido o meu trabalho, e agora como eu ia pagar o aluguel, a comida, o meu latte de todos os dias? Resolvi mandar Whatsapp pra minha lista inteira de amigos em Paris pedindo emprego. Depois que mandei vinte e sete Whatsapps me arrependi, porque agora todo mundo responderia, e eu teria que explicar toda a história vinte e sete vezes de formas diferentes dependendo da resposta de cada um. Minha ansiedade deu uma turbinada, e pensei em deletar o meu Whatsapp. Achei que ler me acalmaria, e ali mesmo, no meio da ponte, sentei, li duas linhas da página trinta e seis de um livro recomendado por uma professora, não entendi nada, decidi que era analfabeta em francês, e fechei o livro.

Durante duas semanas naquele mesmo hotel, eu fui convocada para trabalhar no café da manhã em vez do período noturno (função para a qual eu tinha que acordar às 5h da manhã e chegar no trabalho ainda de noite). Em uma daquelas manhãs, depois de servir milhares de mesas sem poder comer um único croissant; passar aspirador em todos os lugares que podem existir sob um chão (nunca soube que chão era tão cheio de lugares, descobri com aquela chefe que me dava muita bronca se encontrava qualquer migalha de qualquer coisa naquele chão); cansada; com fome, e com vontade de sair correndo pra fazer xixi, entrei na cozinha e achei que ou estava faltando alguma medicação, ou eu estava tomando qualquer coisa em um nível não recomendado.

Não podia ser.
Não. Non. No. Nicht. 不要.
Merda, e todos os outros palavrões que eu conheço, em todas as línguas possíveis.
Era um rato.
Ratinho, ratatouille, Drica, olha que gracinha, respira, calma: inspira em cinco, prende em cinco, solta em cinco.
Quero meu médico.
Pera, se controla, em Paris é mais normal do que em São Paulo, e ela é pequenininha, ela é bonitinha, tem duas cores, não há de haver doença…
Interfonei para o Sebastian porque não conseguia mais me consolar. Sebastian cuidava da limpeza pesada do hotel, e achei que somente ele poderia me salvar: tira esse mostro da cozinha, pelo amor de todos os santos.
Sebastian morreu de rir.
Olhamos uma para a outra (eu e Sarah – a ratinha que nomeei desta forma), e percebi que ela sentiu uma certa pena de mim. Ela, aquele serzinho que mesmo tão repugnante era até que amável se comparada à alguns colegas de trabalho, sabia que me assustava, mas não queria me fazer mal. A bichinha só queria um queijinho de graça.
Assim como Sarah, também senti dó de mim mesma naquela situação, e aos poucos a dó foi se transformando em desespero, que começou a subir pelos pés, passou pelas minhas veias, endométrio, intestino, fígado, e um enjoo avassalador tomou conta do meu pobre e vazio estômago. Uma nuvem negra de pavor com cheiro de camembert quis tampar a minha vista, e então a única reação possível com tanta incoerência, pavor, compaixão e nojo dentro de mim, foi gritar.

Quando a gente tem medo de alguma coisa, mas muito medo mesmo, perde totalmente o bom senso e a capacidade de lembrar que existem outros seres humanos no mundo. Na hora do medo tanto faz, dane-se tudo, só queremos a salvação.
Clientes ouviram o grito, colegas se deram conta de que era eu, e levei uma bronca.
Bronca feia: “Adapte-se e aceite. Em Paris tem rato.”
Decidi aceitar. Precisava do trabalho.
Mas, antes, falei com meu médico. Só pra garantir que a lesptospirose estava descartada.

Enquanto um barco passava cheio de turistas ricos que não se importavam em pagar o meu budget mensal num passeio pelo Sena, me lembrei do dia em que levei uma surra verbal daquela chefe por eu ter servido duas taças de um champagne mais caro a um casal, quando eu deveria ter servido de um mais barato. Minha chefe me perguntou num francês bem duro qual era o motivo de eu ter cometido tamanho erro grotesco e sem lógica, e eu tentando explicar com meu francês meia-boca que eu só tinha tentado ser rápida e me confundi, acabei abrindo a garrafa mais cara. Mas nada adiantava, ela gritava cada vez mais alto comigo na frente de todo mundo, chacoalhando a garrafa aberta, me envergonhando cada vez mais, dizendo que aquilo custava mais de cem euros, e pensei que daria tudo pra ser a Sarah e me enfiar no primeiro buraco que eu visse. Com um queijinho. Mas engoli em seco e me mantive firme, precisava do salário.

Lembrei também do primeiro dia em que tive que limpar o banheiro do hotel. Enfiei as luvas nas mãos, arregacei as mangas, peguei aqueles paninhos de limpeza, e comecei o trabalho pensando que era bom que um dia eu escrevesse um best-seller que fosse bem seller, porque limpar banheiro era uma tarefa tão deprimente, que deveria ser proibida por lei. Espirrava produto de limpeza pra todos os lados, e na hora de encostar na pia, na privada, e no chão respingados para esfregá-los e limpá-los, torcia para que alguém no céu estivesse vendo aquilo. Imaginava bactérias, vírus, febre amarela, tuberculose, candidíase. Chorei ao ver que o lixo do banheiro masculino estava lotado, e quando um cliente se aproximou para entrar dentro da cabine, fingi que estava espirrando para que ele não soubesse que, na realidade, eu estava me desfazendo em lágrimas de horror.
Tomei dois banhos quando cheguei em casa.

No hotel aprendi a fazer mojito, daiquiri, lindas tábuas de queijo e de presunto, e croque-monsieur. Aprendi a não falar com clientes que não queriam falar, e a falar bastante com quem estava afim de conversar. Passei a entrar na cozinha batendo palma e implorando: “Sai, Sarah, vaza”, só pra garantir que não trombaria com a ratinha (que insistia em ressuscitar em cores e tamanhos diferentes, era impressionante, caso a ser estudado). Sambava com as moças portuguesas da limpeza, e cantava “Aquarela do Brasil” passando aspirador. Fiz amigos que hoje considero de infância. Fui embora definitivamente daquele hotel já limpando privada com a mesma naturalidade com que tomo água, e sabendo diferenciar produtos pra vidro, madeira, parede e prateleiras com a mesma facilidade que tenho pra tomar trinta banhos no mesmo dia se acho necessário.

E foi assim: naquele dia, horas antes de parar no meio da ponte sem ter razão, larguei tudo e disse que tinha dado. Falei para a minha chefe – logo depois dela me metralhar com palavras horríveis em alto e bom som – que ela não tinha o direito de me humilhar daquele jeito, que ela nunca mais gritaria comigo, e que ela não era, absolutamente, nada. Quando a mesma arregalou o olho e me perguntou “O quê você disse?”, eu comecei a tremer de pavor, juntei o pouquinho de coragem que eu ainda tinha, me comprometi a não chorar, e repeti, por aquela e por todas as outras experiências abusivas de trabalho que eu já tive na minha vida: é exatamente isso que você escutou: Você. Não. É. Nada. Não grite comigo, não trate a mim e nem a ninguém desse jeito, e pra mim chega. Tô indo embora. C’est fini. C’est parti.

Saí da cozinha com as pernas bambas, fraca de tanta energia que eu tinha deixado pra trás, pairando no ar junto com a ex-chefe abusiva, mas igualmente orgulhosa. Passei por clientes sem me importar com o fato de que acabava de decretar demissão praticamente na frente de todo mundo, e me direcionei ao vestiário. Troquei de roupa, e bati o ponto. Dane-se, nunca mais voltaria. Nunca mais seria humilhada, e nunca mais ninguém falaria assim comigo.

E de cima da ponte, onde eu nem sei como fui chegar, com o Sena correndo embaixo de mim e o tempo passando sem nenhum esforço, decidi que se o preço de continuar seguindo o meu caminho era sobreviver a esses perrengues, eu aceitaria. Eu superaria o que fosse: ratos no meu caminho, casa-moquifo caindo aos pedaços (que acabou virando o meu ninho protetor, me acolhendo docemente todos os dias), falta de grana, vontade de chorar, adaptação a uma cultura nova, dificuldade de falar o que realmente penso, gente grossa, e todos os outros. Porque morar em Paris tem sim o seu lado muito bom, e aqui gosto mais de quem eu sou – só isso, na realidade, já é o suficiente para eu decidir ficar por enquanto.

Por fim, disse a mim mesma que pessoa alguma, fosse ela chefe, colega de trabalho, conhecido(a), ex-amigo, ex-familiar, ou qualquer um outro(a) teria direito de maltratar, ou, ainda pior, querer me convencer de que eu não era capaz de alguma coisa.
Eles que se enganavam.
Eu era sim.

E eu ia dar um jeito.

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6 respostas

  1. Estou amando suas histórias, melhor ainda, a naturalidade da sua narrativa. Continue escrevendo, você me inspira muito. Tenho certeza que haverão possibilidades muito melhores na sua vida. Não te conheço mas estou te a-do-ran-do !!!!

    • Silvia! Obrigada =) Na verdade acho que devem ter coisas muito boas guardadas pra mim no futuro (poxa, merecido, né? 😉 ), mas vou te dizer que eu não trocaria esse caminho até lá de forma nenhuma. A-do-rei seu recadinho, beijoca!

  2. Drica, sobreviver não é fácil em lugar nenhum né? Chefes abusivos e que adoram assediar moralmente tem em todos os lugares. Fez muito bem em mandar essa chefe catar coquinho, rs. Gostei de ver você demarcar território. O seu território. Viva, tenha experiências e aprenda a conviver com os ratinhos. Eu mesma preciso aprender isso. Mas acredite: conviver com os ratos humanos é bem mais difícil. Adorando suas experiências! Torço por você!

    • Aiaiai, você sempre querida! Obrigada, e concordo – o ser humano pode ser milhares de vezes pior que a tadinha da Sarah. Humanos podem fazer por mal, animais fazem pra sobreviver. Beijos, Roseli, torço por você também ❤ Muito amada comigo, sempre =)

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