Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

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O meu carnaval

Tudo começa com a fantasia que me coça.
Só de olhar aqueles frufrus, babados e brilhos me dá urticária, e toda a vez que me fantasio só consigo torcer pra não desenvolver candidíase purpurinada.
Daí ok, respiro fundo.
Pô, faz um esforço, você é jovem, olha aí o pessoal como tá animado pra ir pro bloco, se anima também, sua mala metidinha a diferentona.
Calma, quem é aquele? O Raul? Mas não é possível, quem chamou esse cara pra ir com a gente?
Oi, Raul! Tudo ótimo, e você? Não, isso é uma orelha de coelha. Pareço o quê? Ah, que engraçado, e você tá fantasiado de quê?
Gasparzinho é a sua avó, Teletubbie alucinado. E de Zorro você não tem nem o branco do olho, garoto, me respeita.
Daí vem a hora do supermercado. Eu tentando, delicadamente, introduzir o assunto de que não acho justo dividir a conta toda, pois eu não bebo álcool em multidão (e em quase nenhuma ocasião): gente, vou beber água, alguém comprou água? E chocolate? Para a hipoglicemia, ué. Não? Tem salgadinho pra pressão baixa? Pode ser uma Brahma Zero, então? Mas não tem nada pra mim, e a minha parte fica em R$84,65?
Bom. Tudo bem. É para o bem de manter amizades, e não morrer sozinha na sarjeta da rua dos isolados.
Paramos o carro (o meu, porque eu sou a única com condições de dirigir depois do bloco de carnaval), e enquanto todos começam a descer animadíssimos a rua perfumada de pinga com urina, eu vou me afastando do meu Fox preto com o coração partido, torcendo para que ele não seja exposto à nenhum trauma, para que nenhum casal transe em cima dele sem camisinha, ou para que ele, simplesmente, não suma de onde está.
Entro no bloco como uma adolescente que chega de madrugada em casa, analisando cada movimento meu com muito cuidado e tensão, apavorada só de pensar em tomar um banho de cerveja, vômito e confetes em seguida – para fixá-las bem no meu corpo.
Começo a distribuir “licença” e “desculpa” pra passar, esfregando a minha pele antes lisinha e cheirosa num paredão humano de suor fosforescente. Demoro alguns minutos pra entender que o jeito de andar é distribuindo cotovelada, senão eu vou ficar pra trás do meu grupo de amigos naquela merda de bloquinho – mas, gente, que ideia fraca que eu fui ter.
Finalmente, meus amigos decidem parar de me torturar, e encontram um lugar para se instalarem – pelo resto da tarde, da noite e da eternidade. A este ponto, já estão todos drogados: eles nos ilícitos, eu nos receitados. Ao nosso lado tem uma roda de jovens que bebe um galão de gasolina com colorante azul; do outro lado tem um casal que disputa quem consegue morder a amídala do outro primeiro, ao mesmo tempo em que ensaiam posições de ashtanga vinyasa yoga sem roupa; e atrás de mim um grupo ri como se não existisse a morte de tanto chupar uma camiseta embebida de lança-perfume.
Começo a ver estrelas, e as pessoas passam a ter chifres e 5 narinas.
Percebo que eu, definitivamente, não sei paquerar em carnaval, porque durante todo o tempo em que estou no bloquinho não olho para homens, apenas para mulheres, suas maquiagens perfeitamente reluzentes peroladas simétricas brilhantes e fascinantes, e seus corpos tão lindos, torneados, bronzeados – enquanto eu me sinto gorda, flácida, branca, derretida e assada. Até suas celulites são muito mais lindas que as minhas. E os sorrisos? Mas como conseguem, estão rindo do quê, o que aqui é engraçado, elas não passam mal? A pressão delas se mantém como, a taxa de açúcar no sangue não baixa? Elas não têm medo de colocarem MD nas suas bebidas? E Boa Noite Cinderela? Elas não tremem, não veem pontos pretos pré-desmaio, meu Deus, queria ter a barriga daquela garota, olha como aquela outra rebola como se não houvesse possibilidade de hospital depois daqui, de onde elas vêm? Do que se alimentam?
Elas suam de pular, e eu de hipoglicemia, pressão baixa e pânico, então começo a procurar por algum vendedor ambulante que tenha com ele algo semelhante a um shot de soro e misericórdia pra eu comprar. Não encontro nada além de cerveja “uma é cem, duas cento e noventa e nove”, então chego para um amigo, e digo: não estou bem.
Este amigo, afogado na compaixão, diz que eu nunca estou bem e que é pra eu relaxar: joga a mão pro alto e curte o som, abre a boca assim, ó, e respira essa fumaça boa, você precisa enfrentar esses seus medos, vai acabar com a tarde de todo mundo por causa deles. Enfrenta logo, vai, vou te ajudar.
Enquanto este amigo coloca à força meus braços pra cima e os balança como se eu achasse carnaval algo aceitável para a minha saúde, eu não ouço o som, só consigo sentir marteladas no meu estômago, minhas costelas querendo fazer aula de step dentro de mim, e minhas pernas começando o processo de adormecimento, bem característico de quando chegaram ao seu limite de horror.
Quanto à fumaça, nunca engoli tanto CO2 e outros gases e substâncias que não quero saber quais são, e começo a procurar, desesperadamente, uma fantasia do bem para eu desmaiar em cima. Acho que naquela Branca de Neve, pondero. Mas também considero o homem vestido de bombeiro, me parece útil. Mudo de ideia pois tenho medo de homens em carnaval, e decido cair em cima da ursinha Pooh.
Enquanto um infeliz tenta me beijar sem saber o meu nome e se eu tenho ou não sapinho na boca, desvio dele ensaiando o discurso que direi ao médico: não, doutor. Eu não usei nada, eu respirei. Eu inalei exibicionismo alheio de gente que consegue ser feliz, e esfrega isso na minha cara pintada de derrota. É isso o que tem no meu sangue agora, dá pra tirar?
Daí olho para o lado, e vejo que o cara com quem eu estava saindo, e que inclusive me chamou para um jantar romântico no dia anterior dizendo que me amava, agora brinca do mesmo jogo das amídalas com uma colega de trabalho dele, sem se importar que eu estou ao lado vendo tudo. O Raul tira uma selfie mostrando os dois se beijando atrás dele, e posta com a hashtag #foliões.
Observo o bloquinho com apenas um olho (uma das orelhas da minha fantasia perde a força e morre de tanto sofrer), e não consigo compreender se as pessoas estão naquela situação pra pagar promessa, serem perdoadas por algum pecado, ou, como eu, têm apenas medo da solidão: elas estão mesmo se divertindo? Mas, céus, como?
Para me distrair, tento puxar assunto com uma garota que curte todas as minhas fotos nas redes sociais, e escreve pública e insistentemente que está morrendo de saudades de mim, mas ela mal me responde, pois está muito ocupada atualizando o seu Stories no Instagram. E também porque dizem que ela desaprendeu a falar, sabe apenas digitar – isso não sei, são boatos.
As pessoas que eu julgava serem meus amigos não respondem mais por suas atitudes e mandam eu parar de ser chatinha, o cara com quem eu saía agora se atraca em algo parecido com um Pikachu, e o Raul vomita em cima de uma fada Sininho.
Decido, corajosa (e sem muita saída), ir embora sozinha, já que todos estão felizes demais para me ajudar, e pelo que parece ninguém vai sair de lá até o dia do ano novo – quando vão, novamente, esfregar na minha cara como são plenos e estilosos, e como têm roupas tão brancas tão maravilhosas e tão exclusivas que eu jamais terei – isso sem contar os destinos para onde viajam, porque se não for pra custar o valor anual do meu aluguel, meu bem, eles nem saem de casa.
Vou cotovelando o bloco inteiro pedindo a todos os santos que me ajudem a sair de lá viva, e quando coloco o primeiro pé pra fora daquele circo de horrores, olho para trás e visualizo o que eu (agora sim, não preciso de mais um ano de carnaval pra constatar), tenho certeza de que não condiz com minha personalidade e meus limites: nunca mais eu piso nessa barbaridade, prometo.
Entro num boteco em que eu jamais entraria (a hipoglicemia e a pressão baixa sempre fazem você tomar atitudes lunáticas), compro uma água, um Doritos e um chocolate, e subo solitária, caolha e aliviada, a rua urinada e alagada de álcool, respirando com força para compensar a meia-hora de tudo – menos oxigênio – que eu inalei.
Desfruto da minha liberdade até finalmente chegar em casa, e deitada no sofá depois de 40 banhos normais e 60 de álcool-gel, começar a rolar infinitamente a tela do meu celular, sendo metralhada por todas as redes sociais, onde fotos coloridas brilhantes eufóricas e pertencentes ao mundo normal me lembram como eu sou solitária e totalmente sem graça de não conseguir aproveitar a festa.
Não é raiva. Não é ódio. Não é aversão.
O que eu tenho é apenas uma inveja brutal da saúde dessa gente que consegue aproveitar o carnaval sem temer a morte salpicada de purpurina – concluo, quando começo a sentir a candidíase querendo dar o ar da graça.

Mudar dói, mas pode ser muito bom

Mudar dói. Li artigos, livros, falei com gente especializada, pedi conselhos de amigos, de não tão amigos, de desconhecidos, busquei ajuda espiritual. É geral, internacional, universal: todo mundo tem medo. A zona de conforto em que a gente vive, após algum período de adaptação, vai sugando, cada dia mais, a nossa disposição, disponibilidade e coragem de mudar. E aí começam as razões que a gente encontra pra não sair do lugar: o salário que eu não posso largar, o(a) namorado(a) que precisa aceitar – assim como a família e os amigos -, e o que os outros vão dizer, mas e meu cachorro, tem a academia, meu peso que preciso manter, minha imagem que preciso zelar, e os likes? E minha terapia? E o cinema de domingo? E o caminho que eu sei fazer? E o meu plano de saúde?

Me perguntaram há algumas semanas de onde eu tirei coragem para sair sozinha do país e vir pra cá sem ninguém ao meu lado, ao que eu respondi: coragem seria continuar vivendo uma vida que já não fazia mais sentido pra mim.

Talvez eu não precisasse ter esperado tanto.
Tomei a decisão porque cheguei no meu limite.
Eu não conseguia mais acordar e fazer o mesmo caminho todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos prédios, e até arrisco dizer que as sinalizações no asfalto meia-boca do Brooklin, tudo começou a me dar ânsia. Chegou uma hora que deu.
Eu não suportava mais olhar os mesmos edifícios envidraçados da Berrini, Faria Lima, Paulista.
Eu não tinha mais condições de passar o dia na frente do computador fazendo coisas que não me supriam mais.
Eu não tinha mais estômago para o trânsito.
A Estaiada começou a me torturar, não podia mais ver aqueles canos amarelos às 8h da manhã que tinha vontade de me jogar lá de cima da ponte.

Eu estava ficando acostumada.
Eu estava adoecendo cada vez mais.

Antes de comprar a minha passagem, eu achava que eu nunca ia dar conta de mudar a minha rotina, simplesmente porque crises de ansiedade e depressão tiram de você a sua autoestima e a confiança em si mesmo(a). E eu tive muitas delas. Levava uma, levantava, levava outra, tentava levantar de novo, ficava de pé e, sem mais nem menos, levava outra… E foi assim por um bom tempo, até que com muita terapia e muita leitura e muita conversa e muita palestra e muito chá de camomila e muita yoga e muito esforço, entendi: era hora de mudar.

Pior não ficava.

Um dia – nunca esqueço daquela quarta-feira -, eu abri o computador, pesquisei preços de passagens, encontrei a mais barata, fechei o olho na hora de clicar em “comprar”… e cliquei. Era uma passagem só de ida pra Paris, e pra mim aquilo significou tanto, foi tão enorme, que depois de comprar me deu diarreia o resto dia e da semana.

Tem horas em que a solução é fechar o olho e fazer de uma vez, sabendo que isso pode sim dar muito certo.

Há seis meses, no Brasil, eu não dormiria fora de casa nem se você me oferecesse milhões de reais pra isso. Eu precisava ter controle de tudo, nada podia sair da ordem, do previsível, do que eu estava costumada. Minha rotina tinha que ser certinha, retinha, sem nada fora do lugar. O diferente me causava muita ansiedade, e os meus sintomas estavam em ebulição constante dentro de mim. Era um quadro muito próprio de alguém que não estava no seu lugar certo, de alguém que precisava mudar.

Neste momento, estou aqui no meu sexto lar em Paris, na Bastille, onde dou três passos e o apartamento acabou. No banheiro tem um buraco que dá pra não sei onde, mas também não procurei saber. O buraco é escuro e cheio de teias de aranha. Mas aqui tem a minha caminha com a qual aprendi a me entender, bem como a minha escrivaninha, a minha varandinha e o Oliver, bichinho de pelúcia que ganhei de um amigo francês muito querido. Sempre gostei do nome Oliver. Talvez um dia terei um filho cujo nome será Oliver.

E, agora, mesmo estando alojada neste lugar tão diferente, tão simples e tão não habitável há algum tempo atrás, estou bem.

Aqui em Paris já passei por dois Airbnbs, duas casas de amigas, um hotel (para o qual tive que ir correndo no meio da noite assim que deu um perrengue monumental em um dos Airbnbs – história digna de um só texto), e agora estou na casa do amigo de um amigo que me alugou o seu apartamento por dois meses. Vou me mudar de novo em um mês. Para quem não dormia fora de casa, evolução.

Aqui na França não tem essa de casa limpinha, restaurante limpinho, carro limpinho, roupa limpinha. Uma grande amiga daqui me ensinou outro dia a pensar que “sujeira é vitamina”, e tentei comprar a ideia (ou roubar, porque aqui conto cada euro que eu gasto, e não acho que teria dinheiro pra comprar mais nada, na real). Aprendi a lavar a roupa quando dá, a casa limpo quando não há mais possibilidade de habitá-la caso eu não o faça, e me acostumei a ver ratinhos nos parques pelos quais eu passo e, inclusive, nomeá-los. A maioria chama Sarah, não sei dizer o motivo. Mas nada disso é fácil, e a primeira vez que um ratatouille ficou ao meu lado enquanto eu almoçava uma baguete e não conseguia me mover de tanto pânico, liguei para o meu médico no Brasil perguntando qual era a chance de leptospirose. Foi um dia muito sofrido. Fiz ele jurar que eu estava imune. Outra história para um só texto, porque o medo foi tanto que mobilizei em 24h, além do médico, mais uns 5 amigos, fazendo todos me prometerem que já tinham passado por ratos em parques, e continuavam vivos e saudáveis. Um casal brigou por causa do tema.

Isso sem contar o dia em que liguei para o mesmo santo médico e perguntei se depois de três anos sem álcool, tendo tomado uma sangria há quatro horas e ainda estar bêbada, existia chance de eu não suportar e ter um troço. Eu havia perdido completamente a segurança em mim e no meu corpo, e agora estou tentando reconquistá-la. Hoje, inclusive, sou atendente da tarde/noite de um hotel. Meu trabalho, é, entre outros, fazer drinks, e para isso tenho que experimentá-los. Ficam horríveis mesmo experimentando, mas isso outro dia eu conto. O importante é que o medo do álcool e de sair à noite de casa e de pessoas e de tudo, por fim, melhorou. Não passou, melhorou. Tô na luta.

Outro dia um senhor que tocava música no metrô era tão cativante que me fez chorar. Ele veio até mim e eu deixei ele dar um beijo na minha bochecha (pessoas aplaudiram, foi bem ridículo). Antes, isso não seria possível. Ou talvez fosse, e eu me encharcaria de álcool-gel depois. Ele era um senhor de rua. Vai saber por onde tinha passado. Mas dessa vez, deixei. Ele era muito querido.

Teve ainda uma outra vez em que me veio uma daquelas ideias fracas antes de dormir me dizendo que ou eu limpava a “cozinha” – trinta centímetros de pia onde está toda a louça e duas plaquinhas de forno – ou não ia rolar de pegar no sono. Deitei e esperei o desespero passar, mas sempre dialogando comigo mesma, e dizendo quantas vezes fossem necessárias, que “estava tudo bem, pensa naquela francesa que você conheceu que só lava tudo uma vez por semana. Ela está viva, você também vai sobreviver se não lavar tudo um só dia”.

O que eu faço para conseguir viver sozinha mais tranquilamente em um país cuja a cultura é sim bem diferente da nossa, e ainda tendo que enfrentar meus medos e minha ansiedade, é negociar comigo. A gente entra num acordo. A gente = eu e eu. As frases “calma, tenta só mais um pouquinho, se não der, não tem problema”, ou “você já veio até aqui, segura mais alguns minutinhos que isso vai passar” estão sempre na ponta da língua. O pensamento: “Eles não te odeiam, os franceses só são mais fechados e secos, lembra que você tem fulano, ciclano… (e aqui nomeio cada um dos meus bons amigos, que são poucos)” é frequente.

Não sou uma deusa que venceu a ansiedade, pânico e fobias de uma hora pra outra e está curtindo à beça em Paris. Eu já passei por mais perrengue do que momentos maravilhosos aqui, e talvez seja isso que faça a experiência tão enriquecedora.

Eu conto cada euro que eu gasto, enquanto muitos amigos compram apartamentos e casam. Tem dias em que eu só como sanduíche para economizar, e tenho inveja de pessoas que comem saladas top em lugares top. Aqui, isso é muito caro. Tem dias em que parece que eu não consigo falar nada em francês e fico muito triste. Tem dias em que eu falo muito bem, e, assim, ganho meu dia. Tem dias em que me dou de presente tomar uma taça de vinho. Tem dias em que depois de tomá-la ligo para o meu médico pois me surge, criativamente, alguma doença que eu preciso que ele me prove que eu não tenho. Tem dias em que me sinto sozinha. Tem dias em que visitar um museu sozinha é a coisa mais prazerosa que existe no mundo. Tem dias em que aceito sair com algum grupo de amigos, e me permito aproveitar. Em outros dias me dou a liberdade de dizer não, e ficar bem com isso. Tem dias em que fico carente. Um dia resolvi tomar a iniciativa e paquerei um cara gato no trem. Um dia baixei o Tinder. Semanas depois, deletei. Num outro dia me perguntei se chia grudava no estômago e em seguida sufocava o esôfago. Há alguns dias, num parque, uma criancinha pegou na minha mão e pediu para eu cuidar dela, sem saber que eu, no auge dos quase 30, ainda estou aprendendo a cuidar de mim.

Por fim, o que as pessoas veem é, no máximo, 1% do que eu passo. Os outros 99%, pra falar a verdade, são bem mais inspiradores.

Outro dia eu conto mais.

Cansou de ser santa

Segundo Eugênio, o psiquiatra de Cecília, havia dois grupos de pessoas no mundo: o grupo dos que nascem com os genes normais, e o grupo dos que nascem com os genes meio podres.
Cecília era paciente assídua de Dr. Eugênio há 8 anos, portanto não precisa nem dizer a que grupo ela pertencia.

Era falta de ar que chegava sem avisar fazendo o coração bater feito britadeira de investidor milionário, e gotas de suor que escorriam pelo corpo todo dando inveja às peruas que passavam o dia tentando eliminar impurezas dentro da sauna. Tremedeira por fora, por dentro, toc, tic, e todas as outras abreviações, traziam sempre com elas a certeza de que a morte estava seduzindo o seu quase cadáver de 30 anos.
Era lavar a mão repetidas vinte vezes ao pegar no dinheiro, encostar no chão ou cumprimentar qualquer pessoa para não ser devorada por alguma bactéria sem dó que a levasse a pular na cova de vez.

Era o marido que a largou por outra.
Era a depressão.
Era o pânico.
Era paranoia, neurose, insônia, tudo pra ontem, Whatsapp, Facebook, Instagram, vida louca, vida alheia, é assim mesmo, já tentou yoga, meditação? Vou te levar na minha igreja, sua vida vai mudar. Modernidades, minha filha, todo mundo sofre disso, não é só você, precisa saber lidar.

Não, nananinanão, são genes meio podres, Cecília, não reclama, que eu te conheço bem, e toma mais 10 gotinhas de Rivotril antes de dormir, questão de aceitação. Quantas receitas você quer? Pode ser duas, sim. Coloco duas caixas em cada receita, tá bom? É caro mesmo, mas é sua saúde, é isso que vale, pra aguentar São Paulo e o trânsito e toda essa vida artificial é o jeito, não tem como.

A irmã não tinha nenhuma pista, a não ser a última mensagem que Cecília mandou pelo Whatsapp três dias antes do sumiço: “Como você suporta essa vida?”. Tendo em vista que era uma reclamação constante de Ciça, assim como a chamavam, a irmã nem respondeu, estava tentando enfiar a colher de sopa de espinafre na boca do filho mais velho de 04 anos que se recusava a comer caso não ganhasse um ipad.

A mãe e o pai de Ciça não podiam imaginar do paradeiro da filha mais nova, ela nunca se abriu muito com eles, e a última notícia que tiveram da desnaturada foi na semana anterior, quando ligaram perguntando como ela estava em relação ao divórcio, ao que ela respondeu: “Ainda não morri”. Pareceu uma boa notícia.

As amigas alegaram que ela estava afastada de todos há um tempo, e acharam que seria prudente respeitar a vontade da amiga por alguns dias. “Se afundar na fossa por um tempo faz bem. Achamos que estava tudo normal, dentro do prazo aceitável de sofrência”.

Colegas de trabalho foram acionados, e deram a noticia de que Ciça havia pedido demissão. Sexta-feira havia sido último dia dela na empresa, teve até um almoço de despedida. Já era domingo, e ninguém sabia de nada. Dois longos dias de falta de informação e apenas um tracinho nas mensagens de Whatsapp.

A casa dela estava trancada, nenhum ruído chegava ao corredor, onde mãe, pai, irmã, cunhado, dois sobrinhos e duas amigas faziam barulho e gritavam o nome de Cecília na ingenuidade de serem atendidos.

“Vou arrombar a porta”, decidiu o pai.

As amigas sacaram os celulares da bolsa: Snapchat.

A mãe estava um tanto dopada de Lexotan, a irmã dizia para o filho mais velho esquecer do ipad, que a tia estava “desaparecida, pelo amor de todos os santos”, enquanto o marido dela ensinava o filho mais novo (02 anos) a desbloquear a tela do celular para que ele pudesse jogar joguinhos estúpidos quando começasse a encher o saco.

O pai de Cecília deu um impulso pra trás, correu desajeitadamente em direção à porta do apartamento da filha, e, chegando bem próximo da mesma, levantou a perna para a tentativa de um chute heróico. Enquanto a porta nem ameaçou se mexer, ele caiu no chão urrando de dor, e pronunciando a palavra “cazzo” quantas vezes conseguiu. Era o único palavrão que falava. Família italiana, aquela coisa.

Mesmo virada no Lexotan, e tentando levantar o marido do chão, a mãe, desajeitamente, lembrou: e a chave reserva do apartamento? Não estaria na portaria?

O pai pronunciou mais alguns mil cazzos por não ter lembrado.

Nesta hora, os Snapchats já bombavam com o vídeo do seu Roberto voando em cima da porta, e caindo como uma jaca no chão.

A irmã de Ciça foi atrás da chave na portaria, e voltou ao décimo andar orgulhosa, girando o chaveiro no dedo indicador. Ela tinha a atenção de todos, e os olhares voltados unicamente para ela, pela primeira vez. Dava até dó de usar aquela chave pra abrir a porta e acabar com o momento de celebridade.

Todos se aproximaram da fechadura do apartamento, e era possível notar o pavor, a curiosidade, o medo, e a excitação na cara de cara um. Não exatamente nesta ordem.

.

E, finalmente, a porta foi aberta.

.

Nada.

Nada de móveis, nada de pistas, nada de nada.
Vasculharam tudo, e nem o telefone com fio e velho estava mais lá. Celulares tirando fotos para todos os lados. Todo mundo tinha que saber. Alguém tinha que ajudar, aquilo era um filme de terror, será que nem uma carta ela deixou?

A Globo filmaria?
Dá pra perceber que tomei Lexotan?
Minha cunhada era louca mesmo, melhor assim.
Será que a maquiagem estava em ordem pro velório?
Eu precisava mandar aquele orçamento pro cliente, 20 mil reais dá pra muita coisa.
A tia Ciça morreu?
Tem herança envolvida?

“Mamãe, o que é isso?”
O sobrinho mais velho de Ciça estava pendurado em uma prateleira embutida na parede, em cima do terceiro degrau, segurando um papelzinho azul nas mãos.
A mãe arrancou o papel da mão do filho – mais um sucesso nas mãos, aquele dia estava sendo milagroso, a cartomante sabia bem o que dizia, 300 reais bem pagos – leu tudo cautelosamente, esticou o braço, apalpou a mesma prateleira na ponta dos pés, e encontrou mais um papelzinho igual.

“Aqui tem duas receitas de Rivotril. Com duas caixas em cada uma”.