À Paris

O jetlag nunca ajudou. Antes disso, o avião jamais ajudou. Antes do avião, o momento pré-viagem jamais foi um momento de paz, ou seja, nunca na história da vida foi de alguma ajuda.
Mas desci mesmo assim, e tentei descer com o pé direito. Pelo menos eu tenho quase certeza de que aquele pé é o direito, fiz um grande esforço para diferenciar um do outro.
De qualquer forma, a intenção era descer otimista, mesmo com aquela sensação de que as formas do mundo não são as mesmas quando descemos do avião, e de que existem pessoas com três cabeças, e de que os braços e pernas viram amebas gigantes e pesadas depois de uma viagem de 11 horas. Mesmo assim, a ideia era chegar bem.
Ou, pelo menos, chegar viva.
Chegar estaria de bom tamanho.
E cheguei.
Carregava uma bolsa e uma mala de mão quando deixei aquela máquina voadora de ar pressurizado (porque em uma bagagem, apenas, não caberiam todos os remédios necessários e possíveis de serem necessários durante a viagem; mais uma muda de roupa se qualquer coisa acontecer; mais 03 livros diferentes sendo que um deles é sempre de auto-ajuda para uma noite insone; mais um casaco a mais; mais um caderno; mais algumas canetas de cores diferentes; mais documentos; mais algodão (não sei por que, mas me parece necessário); mais fotos da família; mais imagens de anjos; e mais alguns outros.
Desci.
Descemos.
Eu, minha bolsa, minha mala de mão e mais duas outras malas que depois de 30 minutos me sentindo enjoada em um labirinto de esteiras e bagagens e tontura sem fim se juntaram a nós – um rapaz muito experiente e gentil entendeu que uma mulher pálida e descabelada falando “Cadê?” poderia estar precisando de ajuda, e me direcionou à esteira de bagagens correta com muita paciência e delicadeza. E então, após resgatar quilos e mais quilos de roupas para todas as estações em formatos de malas gigantescas, eu saí como uma malabarista depois de duzentas noitadas pesadas sem pausa, tentando controlar aquele carrinho de bagagem que sempre anda para onde ele quer, e não se importa nem um pouco se eu tenho um objetivo de chegar a algum lugar – ele só deseja subir em cima da cabeça de velhinhas, ou esmagar crianças na frente dos seus pais com suas rodinhas irônicas.
Fui diretamente pegar um táxi sem pausa para um pain au chocolat – porque queria muito chegar logo em casa -, e mostrei pra o taxista o meu endereço na tela do celular, já que o meu francês ainda não é aquelas coisas, e que depois de uma viagem de avião não tenho muita certeza se o que eu falo é compreensível, ou soa como um urso saindo da hibernação tentando falar mandarim.
Começamos a corrida de táxi, e eu acabei dormindo no balancinho gostoso do carro.
Quando acordei estava na Bastilha.
Não acreditei.
Durou alguns minutos para eu entender que não estava sonhando, que havia chegado o momento em que eu estava em Paris para ficar o quanto eu quisesse, depois de anos sonhando com isso. E então, quando me dei conta de que não era ilusão, de que eu não acordaria com o despertador berrando para eu pegar o carro, o trânsito, e me preparar para mais um dia exaustivo em São Paulo, quis chorar. Mas estava muito enjoada, então achei que sorrir seria mais prudente e não teria como consequência precisar de um Dramin.
Sorri.
O táxi foi entrando em ruelas delicadas e coloridas, com casinhas e prediozinhos expondo vasos de flores muito amáveis e dóceis nas sacadas, e por mim, aquela corrida podia durar o dia todo. Eu dormiria no balancinho do carro, e quando acordasse, estaria em uma ruazinha florida perdida no meio de Paris. Sorriria, dormiria de novo, e ficaria assim para todo o sempre, sem ter que equilibrar malas, subir com elas no apartamento, ou o pior, desfazê-las depois.
Mas de qualquer forma, contra a vontade do meu jetlag, chegamos numa rua adorável e super estreita, cheia de pessoas caminhando e andando de bicicleta.
Era a minha rua.
Estava sol.
Eu estava bem.
O taxista me deixou na frente do prediozinho onde eu ficaria, e logo o dono do apartamento surgiu para me ajudar a carregar as coisas para cima e me mostrar meu novo lar. Eram 5 da tarde mas meu corpo ainda estava preso no fuso do Brasil, então para mim era meio dia e eu estava louca pra tomar café da manhã.
Fiz um reconhecimento rápido do meu novo espaço, comecei a desfazer as malas, dei uma ajeitada geral na minha nova casinha, e decidi passear. Eu precisava pisar em Paris com meus próprios pés (e talvez dar uns pulos no asfalto para ter certeza de que aquilo estava acontecendo), e me certificar de que desta vez era verdade mesmo.
Precisava sair sozinha, e ver meu corpo ali no meio, perdido naquele mar de gente desconhecida, naqueles sorrisos jamais vistos, naquelas peles tão diferentes que já passaram por tantos lugares, e que nunca saberiam meu nome. Eu precisava ficar com aquele nó na garganta que deixa dúvida entre chorar e sorrir, comer um croissant ou tomar um café – ou ambos -, simplesmente porque eu merecia, simplesmente porque eu queria tanto isso por tanto tempo, simplesmente porque o tempo chegou e eu também.
E o dia era meu.
Simplesmente.
Saí.
O ar entrava leve dentro de mim, o frio era tão bonito e as pessoas voltaram a ter apenas uma cabeça.
Fui andando pelo bairro, me apaixonando por cada paralelepípedo em que eu pisava, e quando me dei conta, estava no Jardin du Luxembourg.
Paguei menos de 2 euros em um croissaint de uma vendinha na frente do parque – meu café da manhã finalmente estava sendo tomado às 6 da tarde -, e entrei para visitar. Pessoas namoravam de um jeito tão internacional, crianças berravam um berro tão estrangeiro, cachorros latiam de um jeito tão francês, tinha tanto oxigênio lá dentro. As árvores, as flores, as cores, a rima toda que fazia tanto tempo que eu não encontrava, tudo valia tanto a pena, como eu tinha conseguido?
Quanto tempo tinha passado?
O azul do céu nunca foi tão de céu.
Pensei nisso enquanto as camadas amanteigadas do croissant desmanchavam na minha boca, e eu sentava no chão sem me importar com nada, a não ser em não derrubar nenhuma migalha e desperdiçar aquela maravilha. Me perguntei como essa preciosidade, essa cura para todos os problemas do mundo, esse bálsamo divino, custa menos de 2 euros?
Que sorte.
Saí do parque e andei mais e mais, cheguei em Notre Dame e rezei do lado de fora, já que a igreja já estava fechada. Agradeci e fiz tantos sinais da cruz quanto achei que eram necessários por eu estar viva e de pé, por meus braços e pernas terem voltado a ser braços e pernas depois do avião, por eu não estar passando mal ou vomitando desesperada por estar longe de casa, por eu estar, inclusive, sendo capaz de sorrir. Por eu ser eu.
E continuei a caminhada, até escurecer.
Passei por um café e já estava tarde para café, eu podia não dormir à noite, e então eu ficaria mal no dia seguinte, talvez tivesse uma dor de cabeça monstra, e tudo daria errado caso tomasse o café, uma catástrofe aconteceria, e eu teria que ligar para minha terapeuta em um dia que não era para ser dia de terapia (pensamento bem frequente na rotina frenética de São Paulo), mas não me importei com isso, e pedi um café au lait.
Nunca um café teve tanto gosto.
Nunca me senti tão charmosa ao pedir um “Café au lait, s’il vous plaît”.
Nunca aquele vapor de leite com café tinha entrado em mim como se fosse um abraço do Papa, e nunca me vi tão mulher.
Bom, depois disso, a genialidade das rimas da poesia deram uma amenizada, e começou a ficar escuro e frio, portanto achei que deveria fazer compras para a casa antes de ficar noite e frio de verdade.
Peguei o celular para checar o endereço do mercado mais próximo, e no meio da pesquisa Maps – Google Maps – Waze – Paris – Casa – Onde moro – Como chegar – Onde estou – Quem sou, acabou a bateria.
Acabou.
A bateria.
Acabou.
O Google Maps.
Acabou.
O endereço. Da minha casa.
Acabou. A minha vida. Acabou. O carregador.
Acabou.
A tela do meu celular escureceu, e eu arregalei o olho no mesmo compasso em que aquele simbolozinho redondo foi girando, mostrando que eu estava me afastando de qualquer tecnologia, GPS, qualquer informação, estava me ferrando, tudo no gerúndio mesmo, e bem devagarzinho, pra sofrer bastante.
Pensei numa palavra horrorosa que pudesse descrever o que eu sentia, mas nenhuma do meu vocabulário teve essa capacidade.
Eu não sabia onde eu estava, e não tinha o meu endereço. Eu não sabia falar “carregador” em francês. Eu não sabia falar nem em inglês, e nem em português.
Eu não sabia falar.
Eu não tinha o nome da minha rua, o número do prédio, e muito menos o código para digitar na porta da frente para entrar no pátio do prédio.
Eu não sabia, eu não podia, eu não queria.
Eu estava num jetlag violento.
Estava tudo acabado junto com a bateria, a felicidade tinha durado pouco, eu não sobreviveria, queria que a moça passando ao lado me abraçasse. Ou que o bebezinho encapotado com uma roupinha peluda e quentinha me abraçasse. Ou o rapaz guiando seu cão que eu avistei de longe, queria que ele me abraçasse. Ou o cão, adoraria que ele me abraçasse.
Só queria ser abraçada, levada pra casa, queria que me dessem um banho e me pusessem pra dormir, queria chorar.
Seria muita falta de sentido voltar pro Brasil duas horas depois de pisar em Paris? Eu seria julgada? Meus amigos ainda seriam meus amigos? E meus pais ainda me amariam? O que a minha mãe estaria fazendo? Ela estaria fazendo compras para a semana, resolvendo alguma coisa, estaria no meu bairro, no banco, como falar “banco” em francês?
Esqueci.
Eu queria a minha mãe, o travesseiro dela, o colo dela, a sopa dela, eu queria ela me dizendo que sabia o meu endereço e que me encontraria lá, e que tinha feito o jantar, e que estava tudo bem, que podíamos dormir juntas, ela me contaria historinha pra eu dormir.
Os meus neurônios sempre trabalharam muito bem e muito rápido em momentos de ameaça, para o meu azar, porque me levam ao desespero rapidamente, mas para a minha sorte também, porque felizmente no meio daquele curto-circuito lembraram do Panthéon.
Pera.
Passei pelo Panthéon.
Eu vi o Panthéon.
Moro perto do Panthéon.
O que aconteceu mesmo no Panthéon? Como o Panthéon tem esse nome, aliás?
Não importa agora. Moça, por favor, onde fica o Panthéon? Ai. Sorry! How can I get close to Panthéon? Ops. Excusez-moi, je suis perdue, vous pouvez me dire comment je peux aller au Panthéon?
“De lá eu me viro”, inocentemente pensei.
(Continua)

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7 comentários sobre “À Paris

  1. Ai que me desesperei e vivenciei com você pelas ruas de Paris todas essas situações. É meu sonho também percorrer as ruas daí. Permito-me perder pelas vielas também. Vou seguir você por toda parte Drica! Mon Dieu! Que aventura!

  2. Drica que delicia!! Vou estar adorando (assim mesmo, no gerúndio) essas suas histórias… Em Pariq que j’adore!!! Bjs meu e fique muito feliz sempre!!

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