Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

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Mudar dói, mas pode ser muito bom

Mudar dói. Li artigos, livros, falei com gente especializada, pedi conselhos de amigos, de não tão amigos, de desconhecidos, busquei ajuda espiritual. É geral, internacional, universal: todo mundo tem medo. A zona de conforto em que a gente vive, após algum período de adaptação, vai sugando, cada dia mais, a nossa disposição, disponibilidade e coragem de mudar. E aí começam as razões que a gente encontra pra não sair do lugar: o salário que eu não posso largar, o(a) namorado(a) que precisa aceitar – assim como a família e os amigos -, e o que os outros vão dizer, mas e meu cachorro, tem a academia, meu peso que preciso manter, minha imagem que preciso zelar, e os likes? E minha terapia? E o cinema de domingo? E o caminho que eu sei fazer? E o meu plano de saúde?

Me perguntaram há algumas semanas de onde eu tirei coragem para sair sozinha do país e vir pra cá sem ninguém ao meu lado, ao que eu respondi: coragem seria continuar vivendo uma vida que já não fazia mais sentido pra mim.

Talvez eu não precisasse ter esperado tanto.
Tomei a decisão porque cheguei no meu limite.
Eu não conseguia mais acordar e fazer o mesmo caminho todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos prédios, e até arrisco dizer que as sinalizações no asfalto meia-boca do Brooklin, tudo começou a me dar ânsia. Chegou uma hora que deu.
Eu não suportava mais olhar os mesmos edifícios envidraçados da Berrini, Faria Lima, Paulista.
Eu não tinha mais condições de passar o dia na frente do computador fazendo coisas que não me supriam mais.
Eu não tinha mais estômago para o trânsito.
A Estaiada começou a me torturar, não podia mais ver aqueles canos amarelos às 8h da manhã que tinha vontade de me jogar lá de cima da ponte.

Eu estava ficando acostumada.
Eu estava adoecendo cada vez mais.

Antes de comprar a minha passagem, eu achava que eu nunca ia dar conta de mudar a minha rotina, simplesmente porque crises de ansiedade e depressão tiram de você a sua autoestima e a confiança em si mesmo(a). E eu tive muitas delas. Levava uma, levantava, levava outra, tentava levantar de novo, ficava de pé e, sem mais nem menos, levava outra… E foi assim por um bom tempo, até que com muita terapia e muita leitura e muita conversa e muita palestra e muito chá de camomila e muita yoga e muito esforço, entendi: era hora de mudar.

Pior não ficava.

Um dia – nunca esqueço daquela quarta-feira -, eu abri o computador, pesquisei preços de passagens, encontrei a mais barata, fechei o olho na hora de clicar em “comprar”… e cliquei. Era uma passagem só de ida pra Paris, e pra mim aquilo significou tanto, foi tão enorme, que depois de comprar me deu diarreia o resto dia e da semana.

Tem horas em que a solução é fechar o olho e fazer de uma vez, sabendo que isso pode sim dar muito certo.

Há seis meses, no Brasil, eu não dormiria fora de casa nem se você me oferecesse milhões de reais pra isso. Eu precisava ter controle de tudo, nada podia sair da ordem, do previsível, do que eu estava costumada. Minha rotina tinha que ser certinha, retinha, sem nada fora do lugar. O diferente me causava muita ansiedade, e os meus sintomas estavam em ebulição constante dentro de mim. Era um quadro muito próprio de alguém que não estava no seu lugar certo, de alguém que precisava mudar.

Neste momento, estou aqui no meu sexto lar em Paris, na Bastille, onde dou três passos e o apartamento acabou. No banheiro tem um buraco que dá pra não sei onde, mas também não procurei saber. O buraco é escuro e cheio de teias de aranha. Mas aqui tem a minha caminha com a qual aprendi a me entender, bem como a minha escrivaninha, a minha varandinha e o Oliver, bichinho de pelúcia que ganhei de um amigo francês muito querido. Sempre gostei do nome Oliver. Talvez um dia terei um filho cujo nome será Oliver.

E, agora, mesmo estando alojada neste lugar tão diferente, tão simples e tão não habitável há algum tempo atrás, estou bem.

Aqui em Paris já passei por dois Airbnbs, duas casas de amigas, um hotel (para o qual tive que ir correndo no meio da noite assim que deu um perrengue monumental em um dos Airbnbs – história digna de um só texto), e agora estou na casa do amigo de um amigo que me alugou o seu apartamento por dois meses. Vou me mudar de novo em um mês. Para quem não dormia fora de casa, evolução.

Aqui na França não tem essa de casa limpinha, restaurante limpinho, carro limpinho, roupa limpinha. Uma grande amiga daqui me ensinou outro dia a pensar que “sujeira é vitamina”, e tentei comprar a ideia (ou roubar, porque aqui conto cada euro que eu gasto, e não acho que teria dinheiro pra comprar mais nada, na real). Aprendi a lavar a roupa quando dá, a casa limpo quando não há mais possibilidade de habitá-la caso eu não o faça, e me acostumei a ver ratinhos nos parques pelos quais eu passo e, inclusive, nomeá-los. A maioria chama Sarah, não sei dizer o motivo. Mas nada disso é fácil, e a primeira vez que um ratatouille ficou ao meu lado enquanto eu almoçava uma baguete e não conseguia me mover de tanto pânico, liguei para o meu médico no Brasil perguntando qual era a chance de leptospirose. Foi um dia muito sofrido. Fiz ele jurar que eu estava imune. Outra história para um só texto, porque o medo foi tanto que mobilizei em 24h, além do médico, mais uns 5 amigos, fazendo todos me prometerem que já tinham passado por ratos em parques, e continuavam vivos e saudáveis. Um casal brigou por causa do tema.

Isso sem contar o dia em que liguei para o mesmo santo médico e perguntei se depois de três anos sem álcool, tendo tomado uma sangria há quatro horas e ainda estar bêbada, existia chance de eu não suportar e ter um troço. Eu havia perdido completamente a segurança em mim e no meu corpo, e agora estou tentando reconquistá-la. Hoje, inclusive, sou atendente da tarde/noite de um hotel. Meu trabalho, é, entre outros, fazer drinks, e para isso tenho que experimentá-los. Ficam horríveis mesmo experimentando, mas isso outro dia eu conto. O importante é que o medo do álcool e de sair à noite de casa e de pessoas e de tudo, por fim, melhorou. Não passou, melhorou. Tô na luta.

Outro dia um senhor que tocava música no metrô era tão cativante que me fez chorar. Ele veio até mim e eu deixei ele dar um beijo na minha bochecha (pessoas aplaudiram, foi bem ridículo). Antes, isso não seria possível. Ou talvez fosse, e eu me encharcaria de álcool-gel depois. Ele era um senhor de rua. Vai saber por onde tinha passado. Mas dessa vez, deixei. Ele era muito querido.

Teve ainda uma outra vez em que me veio uma daquelas ideias fracas antes de dormir me dizendo que ou eu limpava a “cozinha” – trinta centímetros de pia onde está toda a louça e duas plaquinhas de forno – ou não ia rolar de pegar no sono. Deitei e esperei o desespero passar, mas sempre dialogando comigo mesma, e dizendo quantas vezes fossem necessárias, que “estava tudo bem, pensa naquela francesa que você conheceu que só lava tudo uma vez por semana. Ela está viva, você também vai sobreviver se não lavar tudo um só dia”.

O que eu faço para conseguir viver sozinha mais tranquilamente em um país cuja a cultura é sim bem diferente da nossa, e ainda tendo que enfrentar meus medos e minha ansiedade, é negociar comigo. A gente entra num acordo. A gente = eu e eu. As frases “calma, tenta só mais um pouquinho, se não der, não tem problema”, ou “você já veio até aqui, segura mais alguns minutinhos que isso vai passar” estão sempre na ponta da língua. O pensamento: “Eles não te odeiam, os franceses só são mais fechados e secos, lembra que você tem fulano, ciclano… (e aqui nomeio cada um dos meus bons amigos, que são poucos)” é frequente.

Não sou uma deusa que venceu a ansiedade, pânico e fobias de uma hora pra outra e está curtindo à beça em Paris. Eu já passei por mais perrengue do que momentos maravilhosos aqui, e talvez seja isso que faça a experiência tão enriquecedora.

Eu conto cada euro que eu gasto, enquanto muitos amigos compram apartamentos e casam. Tem dias em que eu só como sanduíche para economizar, e tenho inveja de pessoas que comem saladas top em lugares top. Aqui, isso é muito caro. Tem dias em que parece que eu não consigo falar nada em francês e fico muito triste. Tem dias em que eu falo muito bem, e, assim, ganho meu dia. Tem dias em que me dou de presente tomar uma taça de vinho. Tem dias em que depois de tomá-la ligo para o meu médico pois me surge, criativamente, alguma doença que eu preciso que ele me prove que eu não tenho. Tem dias em que me sinto sozinha. Tem dias em que visitar um museu sozinha é a coisa mais prazerosa que existe no mundo. Tem dias em que aceito sair com algum grupo de amigos, e me permito aproveitar. Em outros dias me dou a liberdade de dizer não, e ficar bem com isso. Tem dias em que fico carente. Um dia resolvi tomar a iniciativa e paquerei um cara gato no trem. Um dia baixei o Tinder. Semanas depois, deletei. Num outro dia me perguntei se chia grudava no estômago e em seguida sufocava o esôfago. Há alguns dias, num parque, uma criancinha pegou na minha mão e pediu para eu cuidar dela, sem saber que eu, no auge dos quase 30, ainda estou aprendendo a cuidar de mim.

Por fim, o que as pessoas veem é, no máximo, 1% do que eu passo. Os outros 99%, pra falar a verdade, são bem mais inspiradores.

Outro dia eu conto mais.

batatas

a cabeça não
calava
toda aquela falação
de motos que buzinavam
toda a minha exaustão

esqueci quantos anos eu tinha
e se havia comprado as batatas,
céus, as batatas,
e voltando pro mercado
veio um cachorro
do meu lado

quis morar nos seus pelos
tão macios como a voz da minha avó
quando dizia pra correr
que o macarrão ia esfriar

eu pedia um minuto,
só mais um minuto
que era pro minuto
nunca mais se acabar

os tomates pro molho, o alho, a cebola,
e um refrão da música
que não cessava o martelar

o mesmo,
a mesma,
do mesmo

eu tinha 28
pois nasci em 88
mas as motos me lembravam
do horário do jantar

queria um cachorro
com cara de arcanjo
mas e o dinheiro que faltava
pra pagar meu bem-estar?

Freud dizia,
já cansado de explicar,
eu não entendia
já pequena de pensar

o farol fechava e toda a gente
parava
que era pra brincar com o tempo
que ninguém tem pra gastar

a roupa de Jocasta
o julgamento de Arnaldo
a conversa de Adélia
decisão de Juremar

tanta vontade de calar
aquela boca grande
daquela mente distante
que não sabia onde parar
 
céus, as batatas