Para tudo dá-se um jeito

Tentei engolir aquela batata cozida que parece isopor salpicado de plástico com aroma artificial de alecrim, já de olho no brownie de espuma de travesseiro ruim com gosto de Zero Cal vencido, e fiquei na dúvida se virava um vidro de remédio pra dormir, ou puxava assunto com a moça ao lado (que, felizmente, descobri que era médica, e por isso logo me apaixonei – fóbicos entenderão).

O paralelepípedo foi sendo abraçado por gordos primeiros pingos de chuva, e começava a refletir cada um de todos aqueles anos: o de 2004, minha primeira noite insone ao lado da minha mãe na cama me dizendo que a noite era apenas “o claro sem luz”; o de 2006, primeira consulta terapêutica; 2008, primeiro porre; 2009, primeira crise de pânico; 2012, primeira vez morando longe dos pais em outro país; 2013, o ano em que tive medo até de mim mesma e mal podia sair da casa dos pais; 2015, o ano em que recusei todo e qualquer passeio em que não tivesse a segurança de estar de volta em casa antes do anoitecer; 2016, o ano em que me joguei num amor louco e em dois novos trabalhos, começando a, de pouquinho em pouquinho, enfrentar alguns dos meus infinitos medos. 2017, o ano em que me disponibilizei a viver a vida de outra forma, em outro lugar.

Me tranquei no banheiro e olhei pra minha cara pálida e minha boca trêmula, que tinha cor de filme antigo que meu avô botava pra eu ver quando eu era pequenininha. Que merda eu estava fazendo? Quantas gotas, mesmo? Escovava o dente agora, ou deixava pra mais tarde, quando eu não conseguisse dormir, pra ter uma desculpa pra levantar? As pessoas lá fora iam achar que eu estava demorando muito? Meus pais estariam na estrada, na padaria ou em casa? Como será que aquela amiga, que eu sempre quis ser, agiria no meu lugar? Ela estaria vendo filme agora? Mas o que eu deveria ver? O que pessoas assistem no avião? Elas entendem os filmes, elas prestam atenção, elas relaxam, elas pegam no sono naturalmente, tomam vinho com Dramin, misturam o quê com o quê? Como eu faço? Eu tenho pavor de série, nunca assisto série, deveria começar, mas começaria por onde? Friends é série?

Era uma rua estreita, eu gosto muito de ruas estreitas. Depois de tudo até aquele dia, minha terapeuta cansou de ouvir que eu não sabia mais se eu gostava realmente de algo, ou achava que gostava porque o certo era gostar. Eu me senti, naquela ruazinha, uma plantinha que luta com toda a força que sobrou pra se recuperar e crescer de novo depois de ser trucidada por um caminhão-pipa de antidepressivos. E depois de ser esmagada por um ônibus turístico cheio de gente irritantemente alegre dentro, ou um trailer carregando um grupo enorme de amigos que esfregam na cara o quanto são bons vivants. E depois de uma vaca gorda que além de passar em cima de mim, insistiu em me convencer da nossa semelhança.
Olhando os paralelepípedos agora completamente aliviados daquele calor de antes da chuva, tive certeza: de ruas estreitas eu gosto. Fui me aproximando da janela de algum lugar, da qual saía uma fumaça de filme que, misturada com a chuva e a quase noite que chegava, me deu um nó no peito. Mas dessa vez o nó não me esfaqueava toda a esperança de sobreviver a mais um dia, só dava vontade de chorar, e de deixar ser assim.

Fazia quantos minutos que eu olhava pra minha própria cara naquele banheiro cubículo onde sinto nojo de encostar em qualquer coisa, sinto nojo da minha roupa que encostou em alguma coisa, sinto nojo de lavar a mão que foi obrigada a encostar em qualquer coisa? Minhas sobrancelhas são, definitivamente, diferentes uma da outra. Tenho um olho maior que o outro. Eu pareço um quadro do Picasso. Eu analisava todos os meus defeitos do rosto cautelosamente, quando a tosse de um H1N1 recentemente recuperado foi agulhando minhas amígdalas e deixou na minha garganta um formigueiro de presente depois da primeira tosse: não. Vai começar. Tossi tossi tossi. A vontade de chorar veio, e, com ela, mais vontade de tossir. Chorei, e como o choro dá tosse, fiquei mais bons minutos no cubículo porque era o único lugar com o mínimo de privacidade dentro do avião pra sofrer em paz. Decidi escovar o dentes pra não voltar nunca mais naquele banheiro, porque além da privacidade não há nada de bom lá dentro, e saí do mesmo tossindo e chorando. Passageiros me olharam com dó.

Cheguei pertinho, e era um restaurante. A fumaça que eu tinha visto estava saindo da janela da cozinha. A chuva caía, e eu não gastaria nem um centavo num guarda-chuva. Quem passou por um H1N1, recém solteira, fazendo as malas com 38 de febre pra morar nem eu sabia direito onde e completamente sozinha, estava imune, não ficaria doente, estava protegida. O chef gritava, os cozinheiros correspondiam, gargalhavam, brincavam, e faziam arte em pratos branquinhos e quentinhos que seriam devorados por casais que confortável e secamente – diferente de mim – observavam Notre Dame recebendo os primeiros sinais de uma noite linda.

A aeromoça veio me perguntar se eu estava bem, e resolvi ali que afrancesaria meu jeito de sempre fingir discretamente que não havia nada errado: não estava nada bem, estava tudo péssimo, eu estava ferrada, mas ia passar. Não sabia o que me esperava em Paris, mas quando está tudo enlameado, não há outra opção a não ser pensar assim. Não, obrigada, não bebo álcool. Não, obrigada, a espuma de travesseiro ruim estava ótima, mas estou satisfeita. Aliás, não, mudei de ideia, tem mais brownie? Procurei por “Frozen” naquela televisãozinha. Eu não sei que aditivo botaram neste filme, que aparentemente é a única coisa que acalma crianças histéricas e a mim dentro do avião. Ouvir aquele “Let it go” me lembra que a vida pode ser ok e aviões podem ser amáveis passarinhos que fazem seu trabalho direitinho e não caem.

Fiquei ali parada, de frente pra janela da cozinha, da mesma forma em que há alguns meses eu estava na frente do espelho daquele banheiro cubículo. Eu ficava cada vez mais encharcada, gotas geladas caíam do meu cabelo nas costas, meu rímel foi derretendo, se misturou com a chuva, com o meu batom de morango da Nívea, com as lágrimas, com todos aqueles anos, comigo ali de pé. Depois de tudo, ainda de pé.

Dormi, e quando acordei, sem saber se o meu pescoço era meu ou da cadeira da classe econômica que quis roubá-lo de mim, a tosse tinha passado, a médica já estava acordada lendo ao meu lado, aeromoças pediam licença para passar com aquele carrinho cheio de coisas que chamamos de comida para transformar a viagem em algo aceitável. Faltava uma hora pra eu descer e enxergar a mim mesma chutando a porta do aeroporto enquanto equilibrava três malas pra pegar o meu primeiro táxi aqui em Paris. Primeiro de poucos, diga-se de passagem, porque se há um negócio caro nesta vida não é uma bolsa da Chanel, é o táxi em Paris. Só pego se estiver bêbada. Por isso não bebo.

Sorri para um dos cozinheiros que acenou com a cabeça pra mim. Fiquei imaginando o que ele pensava ao ver aquela mulher molhada na janela, com a maquiagem toda destruída, o cabelo que fica puto da vida quando chove, o vestido da Farm todo grudado na pele seca ainda não acostumada com os novos ares, mas igualmente satisfeita por ter passado por tanto, em tão pouco tempo de vida, e ainda ser pele.

Bonsoir, eu disse. Bonsoir, ele respondeu. Ele me mostrou o prato, como quem oferece a comida, eu sorri, agradeci, e disse que “um dia”.
A comida daquele restaurante custa quase o preço do meu aluguel, mas um dia eu vou lá jantar, sim.

Assim como um dia, bem que a Márcia prometeu, aquela crise passou. Assim como um dia eu consegui dormir sem medo. Assim como um dia eu conheci um grande amor. Assim como um dia eu tive coragem de terminar com alguém que eu amava, porque me virar sozinha seria o melhor caminho. Assim como um dia eu comi camarão sem temer a morte. Assim como um dia eu cansei de pedir desculpas. Assim como um dia eu pedi ajuda. Assim como um dia eu fiz as malas, me dizendo que se desse tudo errado, e eu fosse parar no inferno do fundo do poço, pelo menos que fosse um poço de Paris. E, no fim das contas, essa foi a melhor decisão que eu já tomei até hoje.

Força a gente não tem, a gente arranja. Um dia, a gente sempre dá um jeito.

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