Um ano em Paris

Há exatamente um ano eu pisei aqui.
Era primavera. Estava sol. Eu me perdia pelas ruas, e me despedia de uma outra eu.
Era hoje, há um ano.
Antes de chegar, eu não estava bem fazia muito tempo.
Por diversos motivos, mas, principalmente, porque eu sempre tentei ser o outro. Fulano se deu bem na publicidade. Ciclano vai. São Paulo, tem que amar. Tem que ficar. Tem que ir. Tem que fazer. Tem que ganhar. Tem que mostrar. Tem que ter diploma, bater ponto, namorar, casar. E eu sempre fui atrás dos outros e das regras impostas para me encaixar e não ser rejeitada.
Eu tentei, durante toda a minha vida, ser uma filha ideal, amiga ideal, namorada ideal, aluna ideal, mulher ideal. Sempre me pautando nos desejos e expectativas do outro.
Muitas vezes, desejos e expectativas esses que eu mesma criei.
No início da adolescência meu corpo começou a não dar conta da minha própria demanda, e precisei iniciar um processo de terapia, consultas médicas e psiquiátricas, para aliviar a dor em forma de angústia, TOC, obsessões, pânico, fobias e sensações que eu nem sei nomear.
Até hoje mergulho nas águas profundas de Freud e Lacan para buscar o que é melhor pra mim e não para o outro. Ainda sofro só de pensar que posso fazer algo que não seja condizente com o que alguém espera de mim. Não importa quem o “alguém” seja. Se você está me lendo, saiba que tenho medo de você e do seu julgamento. E que a cada texto que eu publico é uma grande barreira enfrentada, porque não paro de pensar no que você pensa, até passar muito mal, ser obrigada a devorar qualquer coisa que seja comestível (ou não), e mandar mensagem para a minha terapeuta tremendo e suando, do chão do meu quarto. Na postura do cachorro. Considerando voltar a fumar.
Nos últimos anos eu não tinha vontade de sair de casa, pois assim podia me proteger e não correr o risco de expor os meus defeitos ou a minha não compatibilidade com o que eu vivia pro bando de Instagrammers que meus amigos viraram.
Perdi a confiança no meu corpo, que virava e mexia me dava umas chacoalhadas muito assustadoras através de crises de ansiedade, seguidas de vontade de sumir do mundo, a cada coisa diferente que eu tentava fazer. Considere “diferente”, por exemplo, dar um gole de vinho e ter certeza, depois, de que entraria em coma alcóolico.
Fui parar em hospital. Centros espíritas. Igrejas. Capelas. Tentei acupuntura, yoga, meditação, cortar a carne vermelha e o glúten e a lactose e tomar 10 litros de chá de camomila e florais por dia. Procurei me entupir de bananas, kiwis e ovos não tão cozidos (uma nutricionista-astróloga-cartomante-budista-ortomolecular com a qual me consultei um dia, me disse que essas comidas intercaladas curavam a depressão e “todo o resto, é tiro e queda, mas só funciona se você parar de tomar leite, querida”).
Tentei sal grosso pela casa toda e em volta do meu travesseiro. Virei churrasco. Borrifei arruda na cara de todo mundo que se aproximava de mim para eliminar as más energias. Tentei regressão. Pai de Santo. Danças não convencionais. Tudo.
E há um ano, ainda soterrada por muitos sintomas, mas me sentindo ao menos bastante amada por alguém que me convidou a largar tudo e viver uma história de amor em outro país, o que eu pensei foi: são muitos anos de sofrimento do mesmo lugar, e eu já sei como é. Pior não fica. Então vou tentar do lado de lá, vivendo com quem me aceita e me ama do jeito que eu sou. Fiz o sinal da cruz e vim, porque fé nunca faltou.
Mas aí, como minha história nunca foi óbvia, e talvez nunca será, os planos já começaram a mudar bastante duas semanas antes de eu chegar aqui. Tinham me convidado pra morar em Paris, eu teria casa, suporte, companhia e muito amor (e todas as etcéteras que acompanham). Me desconvidaram (nunca mais dar notícias deve ser desconvidar, acredito eu?) 15 dias antes de eu chegar, mas já era tarde, estava tudo pronto pra vir. Me virei nos “trinta” mesmo com o enorme hematoma de sola francesa na bunda, tendo pego uma virose muito forte, e tentando gerenciar uma ansiedade monstra.
Arranjei um Airbnb para o primeiro mês em Paris – que eu achei que seria o único mês possível longe do Brasil ou habitando este mundo – e vim. Cheguei aqui quase sem nada: sem casa, sem companhia, doente, sem nenhuma voz e sem dinheiro. O quase é porque se eu tinha algo, eram os sintomas de ansiedade. Cheguei nadando em todos eles, afogada em arritmia, repetições, culpa, mal-estar.
Na primeira noite em Paris, eu lembro de ter conversado gentil e carinhosamente comigo mesma na cama desconhecida, muito nervosa por não conseguir pegar no sono e não entender que merda eu tinha, de fato, vindo fazer neste lugar: “aguenta só mais 24 horas. Vai passar”. E, para o meu próprio espanto, foi passando, até passarem 365 dias.
Mudei de casa 9 vezes até hoje. Eu e minhas 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Conheci, por minha conta, pessoas maravilhosas e outras nem tanto. Trabalhei em tudo o que é trabalho. Sofri agressão física em um deles. Fui parar na polícia. Aluguei um quarto na casa de uma pessoa descontrolada, e tive que sair sem rumo dois dias depois de chegar, com as 3 malas, mochilas e 2 bolsas. Morei uma semana em um hotel decadente, enquanto tentava achar uma casa pra me mudar – passei a primeira noite neste hotel com a lanterna do meu celular nas mãos procurando por “black bugs”, e me vi, de madrugada, sentada no chão daquele lugar aos prantos, por ter medo de deitar na cama e ser devorada por pulgas extraterrestres ansiosas pelo jantar (eu). Tive que sair no meio da noite de um apartamento que havia alugado, pois a encanação estourou, e, além disso, dei todo o dinheiro vivo que restava dentro da minha mala pro encanador que nem eu sei como fiz pra chamar, porque ele não falava inglês, e eu, na época, não falava francês. Tive uma crise de ansiedade em outro hotel para o qual eu tive que ir depois disso, praticamente sem nada de dinheiro, e ninguém fisicamente ao meu lado pra me fazer companhia. Fui demitida pela primeira vez na vida de um trabalho no qual achei que eu estava indo muito bem – fui acolhida por estranhos no metrô no dia da demissão, porque não conseguia ficar de pé de tanto chorar (neste dia eu só não vomitei na rua porque não sei vomitar, mas os movimentos e os barulhos que acompanham o ato eu fiz de forma profissional – pedestres pararam para assistir o show).
Fui me virando como podia, e aprendi francês na rua, nos livros, trabalhando. Encontrei, depois de 8 tentativas, uma casa no subúrbio com pessoas do bem onde estou há um tempo. Mas é aquilo: coabitar. Nada muito simples. Aprendi a economizar muito. A viver uma vida mais simples com muito menos conforto. A tentar me adaptar a ambientes e hábitos. A respeitar mais o diferente. E, no meio tempo, fui escrevendo. A única coisa que, mesmo diante de todas as minhas metamorfoses, nunca deixou de fazer sentido pra mim. E quando me perguntam: “E agora? Vai fazer o quê?”, o que respondo é: já que estou aqui, vou continuar caminhando pelas ruazinhas de Paris em busca de mim mesma, mergulhando na cultura nova, prestando atenção para ver se encontro pelo caminho possíveis promoções de queijos (pague 1 leve 10), e tentando não mais ficar bêbada
com apenas um gole de vinho, porque euro não dá pra desperdiçar assim com facilidade – mas, caso isso aconteça, tudo bem também, assim terei mais histórias pra contar.

Anúncios

Mudar dói, mas pode ser muito bom

Mudar dói. Li artigos, livros, falei com gente especializada, pedi conselhos de amigos, de não tão amigos, de desconhecidos, busquei ajuda espiritual. É geral, internacional, universal: todo mundo tem medo. A zona de conforto em que a gente vive, após algum período de adaptação, vai sugando, cada dia mais, a nossa disposição, disponibilidade e coragem de mudar. E aí começam as razões que a gente encontra pra não sair do lugar: o salário que eu não posso largar, o(a) namorado(a) que precisa aceitar – assim como a família e os amigos -, e o que os outros vão dizer, mas e meu cachorro, tem a academia, meu peso que preciso manter, minha imagem que preciso zelar, e os likes? E minha terapia? E o cinema de domingo? E o caminho que eu sei fazer? E o meu plano de saúde?

Me perguntaram há algumas semanas de onde eu tirei coragem para sair sozinha do país e vir pra cá sem ninguém ao meu lado, ao que eu respondi: coragem seria continuar vivendo uma vida que já não fazia mais sentido pra mim.

Talvez eu não precisasse ter esperado tanto.
Tomei a decisão porque cheguei no meu limite.
Eu não conseguia mais acordar e fazer o mesmo caminho todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos prédios, e até arrisco dizer que as sinalizações no asfalto meia-boca do Brooklin, tudo começou a me dar ânsia. Chegou uma hora que deu.
Eu não suportava mais olhar os mesmos edifícios envidraçados da Berrini, Faria Lima, Paulista.
Eu não tinha mais condições de passar o dia na frente do computador fazendo coisas que não me supriam mais.
Eu não tinha mais estômago para o trânsito.
A Estaiada começou a me torturar, não podia mais ver aqueles canos amarelos às 8h da manhã que tinha vontade de me jogar lá de cima da ponte.

Eu estava ficando acostumada.
Eu estava adoecendo cada vez mais.

Antes de comprar a minha passagem, eu achava que eu nunca ia dar conta de mudar a minha rotina, simplesmente porque crises de ansiedade e depressão tiram de você a sua autoestima e a confiança em si mesmo(a). E eu tive muitas delas. Levava uma, levantava, levava outra, tentava levantar de novo, ficava de pé e, sem mais nem menos, levava outra… E foi assim por um bom tempo, até que com muita terapia e muita leitura e muita conversa e muita palestra e muito chá de camomila e muita yoga e muito esforço, entendi: era hora de mudar.

Pior não ficava.

Um dia – nunca esqueço daquela quarta-feira -, eu abri o computador, pesquisei preços de passagens, encontrei a mais barata, fechei o olho na hora de clicar em “comprar”… e cliquei. Era uma passagem só de ida pra Paris, e pra mim aquilo significou tanto, foi tão enorme, que depois de comprar me deu diarreia o resto dia e da semana.

Tem horas em que a solução é fechar o olho e fazer de uma vez, sabendo que isso pode sim dar muito certo.

Há seis meses, no Brasil, eu não dormiria fora de casa nem se você me oferecesse milhões de reais pra isso. Eu precisava ter controle de tudo, nada podia sair da ordem, do previsível, do que eu estava costumada. Minha rotina tinha que ser certinha, retinha, sem nada fora do lugar. O diferente me causava muita ansiedade, e os meus sintomas estavam em ebulição constante dentro de mim. Era um quadro muito próprio de alguém que não estava no seu lugar certo, de alguém que precisava mudar.

Neste momento, estou aqui no meu sexto lar em Paris, na Bastille, onde dou três passos e o apartamento acabou. No banheiro tem um buraco que dá pra não sei onde, mas também não procurei saber. O buraco é escuro e cheio de teias de aranha. Mas aqui tem a minha caminha com a qual aprendi a me entender, bem como a minha escrivaninha, a minha varandinha e o Oliver, bichinho de pelúcia que ganhei de um amigo francês muito querido. Sempre gostei do nome Oliver. Talvez um dia terei um filho cujo nome será Oliver.

E, agora, mesmo estando alojada neste lugar tão diferente, tão simples e tão não habitável há algum tempo atrás, estou bem.

Aqui em Paris já passei por dois Airbnbs, duas casas de amigas, um hotel (para o qual tive que ir correndo no meio da noite assim que deu um perrengue monumental em um dos Airbnbs – história digna de um só texto), e agora estou na casa do amigo de um amigo que me alugou o seu apartamento por dois meses. Vou me mudar de novo em um mês. Para quem não dormia fora de casa, evolução.

Aqui na França não tem essa de casa limpinha, restaurante limpinho, carro limpinho, roupa limpinha. Uma grande amiga daqui me ensinou outro dia a pensar que “sujeira é vitamina”, e tentei comprar a ideia (ou roubar, porque aqui conto cada euro que eu gasto, e não acho que teria dinheiro pra comprar mais nada, na real). Aprendi a lavar a roupa quando dá, a casa limpo quando não há mais possibilidade de habitá-la caso eu não o faça, e me acostumei a ver ratinhos nos parques pelos quais eu passo e, inclusive, nomeá-los. A maioria chama Sarah, não sei dizer o motivo. Mas nada disso é fácil, e a primeira vez que um ratatouille ficou ao meu lado enquanto eu almoçava uma baguete e não conseguia me mover de tanto pânico, liguei para o meu médico no Brasil perguntando qual era a chance de leptospirose. Foi um dia muito sofrido. Fiz ele jurar que eu estava imune. Outra história para um só texto, porque o medo foi tanto que mobilizei em 24h, além do médico, mais uns 5 amigos, fazendo todos me prometerem que já tinham passado por ratos em parques, e continuavam vivos e saudáveis. Um casal brigou por causa do tema.

Isso sem contar o dia em que liguei para o mesmo santo médico e perguntei se depois de três anos sem álcool, tendo tomado uma sangria há quatro horas e ainda estar bêbada, existia chance de eu não suportar e ter um troço. Eu havia perdido completamente a segurança em mim e no meu corpo, e agora estou tentando reconquistá-la. Hoje, inclusive, sou atendente da tarde/noite de um hotel. Meu trabalho, é, entre outros, fazer drinks, e para isso tenho que experimentá-los. Ficam horríveis mesmo experimentando, mas isso outro dia eu conto. O importante é que o medo do álcool e de sair à noite de casa e de pessoas e de tudo, por fim, melhorou. Não passou, melhorou. Tô na luta.

Outro dia um senhor que tocava música no metrô era tão cativante que me fez chorar. Ele veio até mim e eu deixei ele dar um beijo na minha bochecha (pessoas aplaudiram, foi bem ridículo). Antes, isso não seria possível. Ou talvez fosse, e eu me encharcaria de álcool-gel depois. Ele era um senhor de rua. Vai saber por onde tinha passado. Mas dessa vez, deixei. Ele era muito querido.

Teve ainda uma outra vez em que me veio uma daquelas ideias fracas antes de dormir me dizendo que ou eu limpava a “cozinha” – trinta centímetros de pia onde está toda a louça e duas plaquinhas de forno – ou não ia rolar de pegar no sono. Deitei e esperei o desespero passar, mas sempre dialogando comigo mesma, e dizendo quantas vezes fossem necessárias, que “estava tudo bem, pensa naquela francesa que você conheceu que só lava tudo uma vez por semana. Ela está viva, você também vai sobreviver se não lavar tudo um só dia”.

O que eu faço para conseguir viver sozinha mais tranquilamente em um país cuja a cultura é sim bem diferente da nossa, e ainda tendo que enfrentar meus medos e minha ansiedade, é negociar comigo. A gente entra num acordo. A gente = eu e eu. As frases “calma, tenta só mais um pouquinho, se não der, não tem problema”, ou “você já veio até aqui, segura mais alguns minutinhos que isso vai passar” estão sempre na ponta da língua. O pensamento: “Eles não te odeiam, os franceses só são mais fechados e secos, lembra que você tem fulano, ciclano… (e aqui nomeio cada um dos meus bons amigos, que são poucos)” é frequente.

Não sou uma deusa que venceu a ansiedade, pânico e fobias de uma hora pra outra e está curtindo à beça em Paris. Eu já passei por mais perrengue do que momentos maravilhosos aqui, e talvez seja isso que faça a experiência tão enriquecedora.

Eu conto cada euro que eu gasto, enquanto muitos amigos compram apartamentos e casam. Tem dias em que eu só como sanduíche para economizar, e tenho inveja de pessoas que comem saladas top em lugares top. Aqui, isso é muito caro. Tem dias em que parece que eu não consigo falar nada em francês e fico muito triste. Tem dias em que eu falo muito bem, e, assim, ganho meu dia. Tem dias em que me dou de presente tomar uma taça de vinho. Tem dias em que depois de tomá-la ligo para o meu médico pois me surge, criativamente, alguma doença que eu preciso que ele me prove que eu não tenho. Tem dias em que me sinto sozinha. Tem dias em que visitar um museu sozinha é a coisa mais prazerosa que existe no mundo. Tem dias em que aceito sair com algum grupo de amigos, e me permito aproveitar. Em outros dias me dou a liberdade de dizer não, e ficar bem com isso. Tem dias em que fico carente. Um dia resolvi tomar a iniciativa e paquerei um cara gato no trem. Um dia baixei o Tinder. Semanas depois, deletei. Num outro dia me perguntei se chia grudava no estômago e em seguida sufocava o esôfago. Há alguns dias, num parque, uma criancinha pegou na minha mão e pediu para eu cuidar dela, sem saber que eu, no auge dos quase 30, ainda estou aprendendo a cuidar de mim.

Por fim, o que as pessoas veem é, no máximo, 1% do que eu passo. Os outros 99%, pra falar a verdade, são bem mais inspiradores.

Outro dia eu conto mais.

O apelo da chaleira

Queria te falar do céu.

Eu perdi o sono na noite passada, porque um pouco antes de dormir fui esquentar água para fazer o meu chá, e quando a água ferveu, a chaleira fez um barulho estranho.

Não era barulho de chaleira quando grita, previsivelmente, que a água ferveu. Aquilo era um choro.

A chaleira gemia, soluçava, e era de um jeito tão sofrido, que parecia criança querendo mamar. Me deu dó da chaleira.

Eu sabia que ela queria dizer alguma coisa com aquelas lágrimas amargas suadas ardidas que eu podia enxergar através daquele som tão triste. Os sons abrem os olhos, às vezes mais do que aquilo que é possível ver. Será que ninguém nunca olhou pro sofrimento daquela chaleira? Mas onde é que eu estava com a cabeça até aquela hora, que não tive a sensibilidade de perguntar se ela estava bem com a tarefa de ferver a água todos os dias, para o resto da vida?

Peguei a coitada da chaleira e derramei a sua dor na minha xícara, porque queria compartilhar daquele lamento. Era culpa, mesmo.

Queria me desculpar por tanto tempo de descaso.

Assim como eu queria também me desculpar para o guarda da rua, por não ter falado boa noite quando fechava o portão de casa e ele me observava de pé naquelas pernas cansadas de procurar ameaças. É que eu estava checando se tinha mesmo fechado o portão, e precisava fazer isso três vezes pra ter certeza absoluta de que eu estava segura. E assim, também, como queria pedir desculpas à minha terapeuta pela quantidade de erros iguais que eu cometi e, consequentemente, sessões de terapia tão iguais na vida dela, mas eu demoro muito pra aprender, e minha mão já está totalmente dilacerada de tanto murro na ponta da mesma faca. E também queria pedir desculpas aos meus amigos por ter tanto pavor dos lugares para os quais eles me chamam pra ir. Tipo lugares com muitas pessoas. Ou com muita música. Como lugares meio escuros. Ou lugares muito jovens. Tipo lugares.

Fiquei na dúvida entre os sachês camomila e erva doce, e achei que eram propósitos tão iguais, tão quotidianos, que me deu pena de mim.

Tudo me lembrava que eu precisava ficar calma, o que queria dizer que eu nunca estava calma. Pegar aquelas caixinhas de chás com sabores ansiolíticos me transformava numa menininha com duas tranças, uma de cada lado da cabeça, usando óculos gigantes e projetando um bico nos lábios, pedindo um abraço. Tomar chás e mais todos aqueles cuidados, todo o dia, toda a hora, era como o gato que se esconde no buraco e deixa o rabo de fora. Parece que resolve, mas não adianta nada.

Optei pela camomila, porque já que era pra ser óbvio, que fosse com propriedade.

E aí, quando fazia aquele sachê de camomila patinar nas águas ferventes da minha xícara, que de tão quentes formavam espumas parecidas com gelo, pensei no céu. De onde eu estava era impossível vê-lo, paredes gigantes me cercavam como a aflição que ia, como um formigueiro, tomando conta de mim ao passo que as horas corriam.

Fui tendo a capacidade de enxergar com um olho que eu inventei, a textura do céu e suas promessas de um futuro incerto, tive a chance de passar a ponta dos dedos nas nuvens de memórias que eu queria desembaçar, e no vaivém da camomila, fui tomada por uma certeza que de tão incontestável, podia ser vendida: o céu não existe.

Eu lembrei que numa tarde de muitas nuvens, quando era pequena, perguntei pra minha avó o que era o céu, ela olhou pra cima e disse que o céu era sopro de anjos. Eles sopravam o chá da tarde, e aquele ar todo, junto com vapor, se transformava em nuvem. Perguntei por que então o céu mudava de cor dependendo da hora, e ela disse que, obviamente, tinha anjo que soprava o chá de dia e anjo que soprava chá de tarde. Ela gargalhou, me deu um beijo na testa, e eu não dormi.

Fiquei pensando, quem, então, soprava o chá da noite? Demônios?

Daí também lembrei que na adolescência eu beijei um garoto numa festa pra me convencer de que eu era adolescente, e que logo depois de me beijar, o garoto apontou pra cima e falou: olha, o céu. Eu olhei pra cima achando aquilo muito romântico, mas não vi nada além de um morcego numa árvore, e me perguntei se morcegos passavam algum tipo de doença para humanos. Tentei achar algo no céu depois de focar no morcego, mas lá não achei nada além de medo.

O garoto disse que tinha visto um disco-voador, que aquilo era sem dúvidas um óvni, como eu não conseguia enxergar? Ele sabia desde o início que discos-voadores existiam, e agora estava confirmando sua hipótese. Ele teria filmado o suposto objeto voador se existisse smartphone na época, mas isso faz tempo. Naquele tempo a gente imaginava.

Fiquei com receio de ter beijado alguém que tivesse usado drogas, e falei pra ele que minha mãe tinha chegado pra me buscar. Saí correndo.

De volta à escola, na segunda-feira, o menino falou que comentou com outro colega sobre o disco-voador na festa, e que o outro também não conseguiu enxergá-lo, mas que por outro lado jurava de pés juntos que viu no céu o contorno do seu tio que já tinha morrido.

Fiquei implicada com aquilo, e não dormi naquela noite, pensando que se eu via o medo onde uma pessoa via disco-voador e outra via o tio falecido, será que alguém no mundo era capaz de ver naquela escuridão toda o que seria da minha vida? Eu teria filhos, ou subiria num cavalo branco para fugir pra sempre de todas as provas de matemática da vida inteira?

Isso tudo veio assim na minha mente enquanto fazia a camomila de bailarina, bem perto da hora de ir pra cama, e então eu não dormi.

No ápice da briga corpo-lençol-travesseiro-ventilador-barulho-falta dele-pássaros-exaustão-sono-delírio, cheguei à seguinte conclusão: se toda a pessoa enxerga o céu de uma forma diferente, fazendo com que ele tenha infinitas formas e naturezas, ele, na verdade, é só da cor dos olhos de quem vê. Ele não existe.

Portanto, quem garante que eu também não seja quem eu acho que sou, e, seja, na realidade, apenas milhares de reflexos de pessoas que olham pra mim e me julgam de formas diferentes?

Neste caso, eu não existo.

Ou então, nada aqui neste mundo faria de mim uma pessoa.

Pra ser muito honesta com você, acho que não passo de uma chaleira na dúvida se esquento mais água, resignadamente, ou se continuo berrando pela atenção de algo que possa me salvar.

Cansou de ser santa

Segundo Eugênio, o psiquiatra de Cecília, havia dois grupos de pessoas no mundo: o grupo dos que nascem com os genes normais, e o grupo dos que nascem com os genes meio podres.
Cecília era paciente assídua de Dr. Eugênio há 8 anos, portanto não precisa nem dizer a que grupo ela pertencia.

Era falta de ar que chegava sem avisar fazendo o coração bater feito britadeira de investidor milionário, e gotas de suor que escorriam pelo corpo todo dando inveja às peruas que passavam o dia tentando eliminar impurezas dentro da sauna. Tremedeira por fora, por dentro, toc, tic, e todas as outras abreviações, traziam sempre com elas a certeza de que a morte estava seduzindo o seu quase cadáver de 30 anos.
Era lavar a mão repetidas vinte vezes ao pegar no dinheiro, encostar no chão ou cumprimentar qualquer pessoa para não ser devorada por alguma bactéria sem dó que a levasse a pular na cova de vez.

Era o marido que a largou por outra.
Era a depressão.
Era o pânico.
Era paranoia, neurose, insônia, tudo pra ontem, Whatsapp, Facebook, Instagram, vida louca, vida alheia, é assim mesmo, já tentou yoga, meditação? Vou te levar na minha igreja, sua vida vai mudar. Modernidades, minha filha, todo mundo sofre disso, não é só você, precisa saber lidar.

Não, nananinanão, são genes meio podres, Cecília, não reclama, que eu te conheço bem, e toma mais 10 gotinhas de Rivotril antes de dormir, questão de aceitação. Quantas receitas você quer? Pode ser duas, sim. Coloco duas caixas em cada receita, tá bom? É caro mesmo, mas é sua saúde, é isso que vale, pra aguentar São Paulo e o trânsito e toda essa vida artificial é o jeito, não tem como.

A irmã não tinha nenhuma pista, a não ser a última mensagem que Cecília mandou pelo Whatsapp três dias antes do sumiço: “Como você suporta essa vida?”. Tendo em vista que era uma reclamação constante de Ciça, assim como a chamavam, a irmã nem respondeu, estava tentando enfiar a colher de sopa de espinafre na boca do filho mais velho de 04 anos que se recusava a comer caso não ganhasse um ipad.

A mãe e o pai de Ciça não podiam imaginar do paradeiro da filha mais nova, ela nunca se abriu muito com eles, e a última notícia que tiveram da desnaturada foi na semana anterior, quando ligaram perguntando como ela estava em relação ao divórcio, ao que ela respondeu: “Ainda não morri”. Pareceu uma boa notícia.

As amigas alegaram que ela estava afastada de todos há um tempo, e acharam que seria prudente respeitar a vontade da amiga por alguns dias. “Se afundar na fossa por um tempo faz bem. Achamos que estava tudo normal, dentro do prazo aceitável de sofrência”.

Colegas de trabalho foram acionados, e deram a noticia de que Ciça havia pedido demissão. Sexta-feira havia sido último dia dela na empresa, teve até um almoço de despedida. Já era domingo, e ninguém sabia de nada. Dois longos dias de falta de informação e apenas um tracinho nas mensagens de Whatsapp.

A casa dela estava trancada, nenhum ruído chegava ao corredor, onde mãe, pai, irmã, cunhado, dois sobrinhos e duas amigas faziam barulho e gritavam o nome de Cecília na ingenuidade de serem atendidos.

“Vou arrombar a porta”, decidiu o pai.

As amigas sacaram os celulares da bolsa: Snapchat.

A mãe estava um tanto dopada de Lexotan, a irmã dizia para o filho mais velho esquecer do ipad, que a tia estava “desaparecida, pelo amor de todos os santos”, enquanto o marido dela ensinava o filho mais novo (02 anos) a desbloquear a tela do celular para que ele pudesse jogar joguinhos estúpidos quando começasse a encher o saco.

O pai de Cecília deu um impulso pra trás, correu desajeitadamente em direção à porta do apartamento da filha, e, chegando bem próximo da mesma, levantou a perna para a tentativa de um chute heróico. Enquanto a porta nem ameaçou se mexer, ele caiu no chão urrando de dor, e pronunciando a palavra “cazzo” quantas vezes conseguiu. Era o único palavrão que falava. Família italiana, aquela coisa.

Mesmo virada no Lexotan, e tentando levantar o marido do chão, a mãe, desajeitamente, lembrou: e a chave reserva do apartamento? Não estaria na portaria?

O pai pronunciou mais alguns mil cazzos por não ter lembrado.

Nesta hora, os Snapchats já bombavam com o vídeo do seu Roberto voando em cima da porta, e caindo como uma jaca no chão.

A irmã de Ciça foi atrás da chave na portaria, e voltou ao décimo andar orgulhosa, girando o chaveiro no dedo indicador. Ela tinha a atenção de todos, e os olhares voltados unicamente para ela, pela primeira vez. Dava até dó de usar aquela chave pra abrir a porta e acabar com o momento de celebridade.

Todos se aproximaram da fechadura do apartamento, e era possível notar o pavor, a curiosidade, o medo, e a excitação na cara de cara um. Não exatamente nesta ordem.

.

E, finalmente, a porta foi aberta.

.

Nada.

Nada de móveis, nada de pistas, nada de nada.
Vasculharam tudo, e nem o telefone com fio e velho estava mais lá. Celulares tirando fotos para todos os lados. Todo mundo tinha que saber. Alguém tinha que ajudar, aquilo era um filme de terror, será que nem uma carta ela deixou?

A Globo filmaria?
Dá pra perceber que tomei Lexotan?
Minha cunhada era louca mesmo, melhor assim.
Será que a maquiagem estava em ordem pro velório?
Eu precisava mandar aquele orçamento pro cliente, 20 mil reais dá pra muita coisa.
A tia Ciça morreu?
Tem herança envolvida?

“Mamãe, o que é isso?”
O sobrinho mais velho de Ciça estava pendurado em uma prateleira embutida na parede, em cima do terceiro degrau, segurando um papelzinho azul nas mãos.
A mãe arrancou o papel da mão do filho – mais um sucesso nas mãos, aquele dia estava sendo milagroso, a cartomante sabia bem o que dizia, 300 reais bem pagos – leu tudo cautelosamente, esticou o braço, apalpou a mesma prateleira na ponta dos pés, e encontrou mais um papelzinho igual.

“Aqui tem duas receitas de Rivotril. Com duas caixas em cada uma”.

escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

primavera

eu disse coisas que não saberia dizer a mim mesma. na hora em que olhei pra trás já não dava mais tempo, o ano tinha passado, e naquela rua já era dia. eu vejo a luz daquelas estrelas negras toda a vez que a razão sem sentido se transforma em imaginação fértil no formato de arco e flecha. o escudo, que a princípio deveria me proteger, entra na pele junto com todas as modernidades, e sangra na mesma intensidade de um sorriso dado para fingir que sou igual àqueles que nasceram em outra vida. às 4h da manhã o sol está ardendo tanto, que a minha pele virou escuridão, assim como os olhos que fecham em busca de um quarto onde possam chorar, gritar ou simplesmente descansar em paz, sem ninguém para poder julgá-los. eu me emaranho no cabelo que deixei crescer pra me sentir mais mulher, me perguntando se os cientistas que me observam dentro dessa caixa de vidro conseguem notar algo diferente em mim. provavelmente não, porque eles não tem piedade alguma. as minhas unhas arranharam a parede enquanto a minha boca beijava uma flor, e senti muita dor quando precisava ouvir de alguém que aquilo fazia algum sentido, e o meu amor me disse que eu era alguém incoerente. quando estava pronta pra sair, com batom vermelho e tudo, me elogiaram, falaram que eu estava bonita para me incentivar, mas não adiantou, porque o espelho nunca foi o meu retrato; a profundeza, sim. os outros nunca souberam de nada da gente, e então eu resolvi ficar em casa, porque só a solidão entenderia.
.
hoje é dia de primavera, de botar um vestido, mostrar os dentes para a foto, tomar uma cerveja e dar risada do sol da chuva da noite e da desgraça alheia.
e eu, que sempre odiei as regras.

Inconsistência

“Você é consistente na sua inconsistência”.
.
Quando eu cheguei na ala de Picasso, senti um calor estranho e muito forte. Era como uma onda que toma conta da gente segundos antes de encontrar aquela pessoa. Você quer e não quer. Quer que passe rápido, que não acabe nunca mais. Imagens perfeitas na sua desconstrução. Não era sede. Uma vida linearmente organizada em todas as suas curvas e desvios de percurso. Não era fome. Olhar para dentro dói e faz bem. Não era angústia. Era eu. Era a minha inconsistência através da arte.
.
Sinto que quanto mais o tempo passa, menos as horas correm. Porque aceitei que envelhecer é o melhor processo pelo qual eu já passei desde que nasci, e porque me enxergar com carinho só foi possível através das pazes que eu fiz com o meu sofrimento. Ele machuca, mas é um ótimo conselheiro. Dá tapas na cara sem dó, e me faz enxergar coisas que sozinha eu não conseguiria. Às vezes demora para acharmos alguém bonito, e quando nos damos conta, já perdemos o controle, e estamos apaixonados – esse alguém sempre foi lindo, mas as regras não nos permitiam enxergar.
.
Fiquei encarando o pôr do sol como quem pede para ele dar mais explicações sobre o que é capaz de me fazer sentir. Brincamos de quem piscava primeiro, e quando a noite chegou, entendi que ele é um bom amigo, e me deixou ganhar. Olhei para o céu escuro e fui tomada por tanta coisa dentro de mim, que um velho sábio demoraria anos para conseguir descrever. Um vento muito forte quis me atravessar por dentro, quase chorei, mas parei para pensar, e lembrei que tudo bem. Se eu quiser chorar, o problema é meu.
.
Estou neste lugar sem nome, cercada pelas minhas dúvidas, medos, insônias, e coberta pela minha sempre companheira inconsistência. Um lugar sem códigos de conduta, doce de tão amargo, branco em toda a sua escuridão. Leve de tão denso. Amável de tão assustador. Com gosto de eterna pausa para o café. Onde eu sempre precisei estar.
.
Me senti abraçada pela mulher que estou me tornando. Não há ninguém tão inconsistentemente única como ela, em todos os seus defeitos e graças. A vida é uma questão de empatia com quem a gente é. O resto e os outros… Estes não nos cabem.