coisa boa

coisa boa
é uma menina de 6 anos que
procura um chiclete
cor-
de-
rosa
no bolso da sua capa de chuva
de verniz
cor-
de-
rosa
e que com dedinhos
sem digitais de tanto que ainda
têm a
descobrir
e unhinhas pintadas de bic
verde
acha
e sente o mesmo cheiro de
morango do mesmo chiclete
meio-
rosa
trinta anos depois enquanto
espera
clément
chegar

coisa boa é um trailer velho
de viajar sem
data
pra
volta
com um casal em nó dentro
e um mato bem

infinito

em
volta.
cores laranja na tela
desse filme que assistimos juntos
depois da mesa
nova
já instalada na nossa
nova
cozinha e a faxina que já fizemos com
produtos panos e nenhuma
maturidade

coisa boa é errar
feio
pela manhã, ter
medo
o dia inteiro de contar
o que
fez
pensar tanto em
tantas
c o n s e q u ê n c i a s
arrumar as malas pra ser expulso à
murros
e de noite ouvir que isso
não
é
nada
melhor dormir que
cansaço

aumenta

as

coisas

coisa boa é acordar com muitos
planos
que
deveriam
ser feitos
e ir dormir com os mesmos planos a
serem feitos
e batom por

toda

a

parte

porque hoje você mudou de
ideia
e ligou para
alguém
que mudou seus planos suas roupas sua
rima
e até secou seu cabelo
pra você
sonhar em

paz

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Amélie

Amélie
te cantaria
tudo o que tivesse no bolso
ela afinaria o ukulele
e tocaria sem parar
de Bobigny
à Place d’Italie

ela não pararia por palmas, notas
cartões de visita, troca
de turbantes e dentes pretos
por terno e gravata
de sobrevivência e jantar na mesa
por alguns outros
investimentos mais rentáveis

e nem mesmo de Bobigny
por Place d’Italie
ou 20 cigarros
já enrolados
que viessem com
isqueiro e promessa
de 20 outros
mais

Amélie te cantaria
todas as canções
até em chinês
até de gente que ela não sabe
de onde é
e nem sabe cantar
o dedo até sangraria
e as unhas se lascariam
ao meio de lado na diagonal
em seu ukulele

ela aguentaria
a tendinite e o acúmulo de água
e outras substanciazinhas
nos pés de pão
seguindo um repertório
inocentemente estratégico

Amélie botaria
seu melhor vestido
seu melhor sutiã
emprestaria o colar de prata
da Annabel e até
depilaria a perna inteira
pensando na sua
mão tão
curiosa

mas você não viria

e Amélie
na segunda
canção
perdeu a voz, o compasso
e, com gosto de rímel
na língua
desceu na próxima
estação

jamais deux sans trois

acordei e o domingo me deu febre

queimei minhas roupas
com uma carne quase viva
e as cinzas que voaram
me desfazendo em pequenas
peças de um quebra-cabeça
estilhaçado como vidro
cegaram todas as pessoas
que ainda acreditavam no meu
futuro

Você quer que eu te faça uma visita?

todas as festas que não fui
ainda estão com cheiro
de caixa de Marlboro cheia
assim que é aberta, e os doze dedos
de crianças que, excitadas
correm para acender e tragar
o primeiro cigarro e provar
pro mundo sua genialidade
mesmo que isso custe achar
que descobriu-se a beira
da Morte

o menino segurando firme
a perna da menina
que para um pouco
para pegar ar
e não pensar na conversa que teve com a
dona Lúcia da orientação educacional
e as luzes rosas verdes azuis
ainda se cruzam numa adolescência
que eu não tive
porque estava
tentando aprender a dançar
Sozinha

a cada beijo mais urgente que
eles dão
seus pais
que agora dormem
ao som de um filme ruim
respiram mais profundamente
embalados por uma certeza
própria
de pais que fazem o
possível

não sei nada sobre o
Amor
a não ser que na semana passada
eu achei que tinha entendido
quando vi um homem abraçando
a sua bengala
e negando ajuda para não
ofendê-la
amanhã eu vou achar que vou saber
quando receber um sinal seu
e há três dias eu terei medo de
descobrir

suspeito que um dia te direi
eu te amo, e depois você
também
e, então, nos
chamarão de mentirosos

e seremos

Você não acha que as coisas estão estranhas?

alguns amigos meus não existem
e nem sabem que eu os considero Amigos
mas eu lembro deles quando o dia
engatinhando
alcança meu
lençol perfumado de um corpo
Só,
que mesmo enrolado em ideias futuras
é capaz de voar

e me pergunto se eles ainda estão na
festa

eu poderia ir à casa deles
agora mesmo
caso estejam de ressaca
aos cinquenta e poucos anos,
de tanto que imaginam
um futuro que está difícil de alcançar
porque foi ontem
e a cada ano fica mais difícil
porque era no ano passado
e naquela festa era tão longe
e agora é tão hoje

eu cuidaria de todos com
as palavras
que eu colhi como flores quando saí
em companhia do meu avô
que nunca conheci,
mas que nunca me abandonou
ao me pegar pela mão
e me mostrar o caminho
das flores

mas, isso é só desculpa,
pra dizer
que eu cuidaria
é de você

se você quiser, levaria algo pra gente tomar
e queijos que vou
comprar na fromagerie
podíamos falar sobre qual é a hora do dia que
lembra mais das nossas peles
que já não são mais tão plásticas
e se movem querendo
entrar e sair da gente
ficando a cada ano mais parecidas
com papel crepom

ou falaríamos sobre qual é o momento
exato em que
tememos a perda da vaidade
para uma
Paixão
que vai nos tornar
miseráveis
e nos fazer gostar
da cor opaca de domingo

mas no caminho para a sua casa
já com os queijos na mão
estava anoitecendo e luminárias
de rua
dessas ruas que não muita gente conhece
estavam pifando
acendendo e apagando
no compasso de uma canção
nunca escrita
e aí eu me vi sentada na aula de música
tentando tocar flauta, pensando que seria
muito bonito
apresentar aos meus pais
e deixá-los orgulhosos

mas passou

e não fui ginasta, não fui atriz de dar
autógrafo, não fui ao Jô
e a flauta foi tocada só no chão de tacos
em quebra-cabeça do meu quarto
quando eu imaginava o palco e treinava
Aquarela do Brasil
o mais escondida possível
para fazer surpresa

nem sei porque estou te contando,
mas

é que há dois dias eu percebi que o domingo
anda me seduzindo a cada semana
não importa quantos
pássaros de domingo
roçando as unhas no tijolo,
e batendo asas pra tentar me lembrar
que é domingo

da cama eu imagino nós dois
no sofá da sua sala

eu colocaria meus pés embaixo das suas pernas
fingindo uma intimidade que não temos
você ficaria sem graça
mas aparentaria estar em paz
e talvez falássemos de algo mais
pessoal
dependendo do que bebêssemos
brincaríamos dizendo
jamais deux
sans trois

ou então eu podia até ouvir você contar
daquela mulher pela qual você está
apaixonado

e tudo bem

porque depois eu ligaria o som
e perguntaria mais e mais
e te daria mais e mais
vírgulas espaços reticências
e minha alça que está caindo
sem querer

até você se embebedar
no seu próprio desejo
e aceitar levantar

pegar na minha cintura

e dançar comigo
na luz opaca de
domingo

o seu aniversário e o meu ventilador

Margarida
você sempre foi minha
única amiga
pena que está
morta
agora não tenho com quem
conversar

eu teria uma montanha
de nadas pra contar, mas
nada
é um termo já tão batido
todo o poeta usa como
última moda, é um
desalento para mim
pois é a única palavra que
diz
o que eu tenho
pra falar

minha filha já vai fazer
trinta anos
e acha que sabe de
coisas
coitada, outro dia me disse
mãe, acho que estou entendendo
de alguns assuntos
pobre ignorante, Margarida,
deixei ela achar
nem teria recursos
para curar sua
frustração

o Arnélio é um grande
Idiota
sabe que eu o amo e sabe
me azedar os
sentidos
daquele jeito que eu quero
desistir de mim
mas não
dele
tem gente que nasceu
pra assombrar, minha amiga
fico feliz que você
mesmo Mortinha
não me faça dessas
coisas

a minha companhia,
se te interessa saber,
é meu ventilador
eu saio de casa e só penso
na hora de voltar pra
comer algo fácil
tomar banho e pôr minha
camisola de quem ainda não
é avó mas
será
olhando o ventilador
girar
da minha cama de casal
pela metade

ouvi dizer um dia
que o barulho que o ventilador
faz quando gira
assim como das ondas do mar
quando batem
é algo semelhante ao barulho
de dentro do ventre da mãe
quando ainda não temos contato
com o que nos faz hipócritas
por isso
acalma e
é Bom

não sei se acredito
nisso e não
conheço nenhum médico
pra
perguntar

mas quando o ventilador
gira
venta minhas saudades
e eu até imagino
novidades
que só você era capaz
de me contar

tentei fazer amizade com a cleide
mas eu a detesto, Margarida
acho ela burra
não tem assunto que
Preste
entre nós
acredite você, outro dia
ela me disse “mas a Margarida também
não era flor que se cheirasse”
levantei da Mesa de Chá naquele
instante
e disse que ela que fosse
usar o Tempo dela pra
outras coisas que não
falar dos Mortos

sou muito
contraditória
porque tudo o que eu faço é
pensar na sua falta
e falar sozinha com
Você através de recursos
incompreendidos
por quem nunca passou
tardes laranjas
no nosso banco de ferro
comentando sobre
gentes que
fazem a gente pensar

lembrei, aliás, como todos
os santos anos
que hoje é seu
aniversário

nós nos perfumaríamos
caminharíamos na rua
de terra até
o bar de azulejos finos
e toalhas de
linho
com vista pra
coisa nenhuma
e falaríamos mal do mundo
inteiro
com uma bondade
que só melhores amigas
têm

você pediria pelo amor
de jesus Cristinho
para eu não cantar parabéns,

e eu cantaria

pena que está Morta,
margarida

mas saiba que fiz um
bolo mesmo assim
e apaguei a vela por você
comi um pedaço
e o resto
eu vou dar para a cleide amanhã
na Casa de Chá depois da
chuva

me perdoe
é que me sinto

muito

os últimos a saber

encontrei em crianças que
nunca nasceram
berço e permanência
nos entendemos muito bem
desde o dia em que nos foi
apresentada a vida:
tivemos preguiça

é que as crianças
que nunca nasceram
não querem achar aos 16
terem entendido
e descobrirem, aos 43
estarem devendo

elas não querem abrir a geladeira
esperando encontrar dentro dela
algo novo
sem que precisemos dizer
o que elas hão de
descobrir:
solidão não
faz as compras
e o vazio não
sente pena

as crianças que nunca
nasceram
não querem se ver
imbecis
quando apaixonadas
oferecendo a quem se ama
dicas honestas
sobre alguém
que elas fingirão ser
com muito cuidado e
dedicação
até acreditarem
na sua própria
invenção

elas têm horror
de pensar em falar
sobre sexo
com os próprios filhos
ou pior
com os próprios pais
ou, ainda pior
sobre a falta dele
com alguém que um dia
amaram

as crianças que
nunca
nasceram
não querem fazer
café de filtro num sábado
bege
se questionando por que
não responderam
a Natasha naquele recreio
ou quais são as razões
de não acompanharem
séries, política, convenções
ou mentiras
de semelhantes
proporções

elas tentarão
com muito empenho
agradar

forçarão risada
e pagarão em muitas vezes
uma roupa que nem
as favorece
engolindo a opinião de que
nada disso
é interessante

porque o
mundo
gira

mas palavras não ditas
enchendo as estantes
de vozes em luto;
sonhos bons acabados
tão rápido
como uma segunda de verão
em que não se sabe se
é segunda ou meio-dia;
e antigas dores de amor
que ressurgem
assim que foram
esquecidas

continuam os mesmos

e, se algo ainda muda,
eu e minhas crianças
que
nunca
nasceram
sempre fomos
os últimos
a saber

Stella

Stella, ontem você me perguntou
e eu, calado,
falei do tempo

é que na vida, Stella,
tudo o que se responde
é simples demais

você diz me querer
como diria uma mulher
eu ouço, eu juro

mesmo com suas curvas
que ainda estão por
vir
falando mais alto
oferecidas
aos meus olhos confusos
como ponto e vírgula

mas tenho que ser justo,
Stella

querer é ter assunto
amar é aceitar
que não é bem
assim

e enquanto você fala
doce
sobre seus desejos
inventados
eu até esqueço das
responsabilidades
e silencio elogios que nunca
vou te fazer:

pois enquanto não damos certo
nunca daremos errado

e amanhã,
se você quiser,
podemos falar
sobre isso

ou
talvez
outras coisas

Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.