no meio dessa confusão

mas isso é tudo um grande
engano

ontem eu era só um pequeno
abajour tentando
ganhar a atenção de alguém
iluminando um pouquinho
suas opiniões e falando
o que eu sei que você gosta
de ouvir
de quem você
acha que não te
conhece
 
hoje sou uma criança
amanhã talvez eu seja a minha mãe
ou a Maëlle,
que eu conheci numa praça
e tive desejo de ter como
filha

mas passou

o que você faz quando
acha que os únicos que te
entendem nunca lerão
sequer uma palavra
sua?

como você lida com a falta de horas
e as horas que não passam com
receio de morrer num abismo
de números estraçalhados como
os nossos brinquedos que um dia
foram jogados fora
sem

querer?

você reza pra Deus, ou pra sua Tia
que morreu de tanto

sorrir?

você alivia sua própria
presença com bicicleta mato
queimado pinot
noir ou uma receita
azul?

você se interessa por
partidos e outras barbaridades?
coloca a mão embaixo da torneira

fechada

pra ter
certeza?

morde a boca
sem

saber

quando ouve o
nome de alguém, querendo
na verdade
morder a
boca desse
Alguém? 

podíamos ir ao Sena
juntas
caminhar, mesmo,
como duas coreaninhas
encantadas com flores
mas sem muito objetivo, porque
os melhores dias da minha vida
não tinham pretensão nenhuma, queria
tentar de novo

eu curaria suas dores
de mentirinha
só por pouquinho
tempo, e você ficaria
feliz, achando que eu era
tudo
o que você
precisava
 
eu falaria das diferenças
entre São Paulo e Paris
talvez possamos
passar por ruas de pedras onde
moças
andam de vestidos que já nasceram
costurados nelas
com seios que não se importam
em ser
ou contar uma
vida

nos perguntaremos se os sapatos pendurados
nos fios elétricos
pertencem à pessoas
que ainda acreditam
em democracia;
se seus pés cresceram e os sapatos
passaram a ser
inúteis
demais
até para irem pro
lixo;
ou se as pessoas jogaram os sapatos pro alto
para oferecer a um orixá que nunca
lhes deu presente de natal,
um sinal de existência
 
é difícil te dizer depois de tudo,

mas

eu não sou
eu

mesma

é por isso que tento
me expressar de alguma
forma que possa
me tornar
menos

outra ou menos
você

eu nunca fui menina, mulher nem
nada dessas coisas que eu deveria ter sido
eu serei, um dia, disso não há dúvidas,
se quiser, também podemos falar disso e de
outras invenções minhas
mas o que eu sou hoje é água clara
em busca de sal
pra virar
mar
e te abraçar quando
você vier nadar
em mim depois de um acontecimento
que te deixará
sem

chão

e enquanto não consigo subir
no último andar
de Sacre Cœur
e gritar pro mundo que eu não sou
nenhum dos meus
personagens
e não serei o que me premiarão
por ter
sido com sucesso

e enquanto
eu não puder
jogar fogo pra todos os lados
dançando que nem águas de março
pra ver todas as noites de dor
queimando afogadas
e um início de amor molhado
à luz de velas,
eu me apaixono pelos meus

medos

que, ao menos
me mantêm bem

viva

e atenta às mudanças da
Lua

ela sim, ouvi dizer
é responsavel por
grandes
Revoluções Naturais

– até lá,
posso te contar
algumas
histórias

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coisa boa

coisa boa
é uma menina de 6 anos que
procura um chiclete
cor-
de-
rosa
no bolso da sua capa de chuva
de verniz
cor-
de-
rosa
e que com dedinhos
sem digitais de tanto que ainda
têm a
descobrir
e unhinhas pintadas de bic
verde
acha
e sente o mesmo cheiro de
morango do mesmo chiclete
meio-
rosa
trinta anos depois enquanto
espera
clément
chegar

coisa boa é um trailer velho
de viajar sem
data
pra
volta
com um casal em nó dentro
e um mato bem

infinito

em
volta.
cores laranja na tela
desse filme que assistimos juntos
depois da mesa
nova
já instalada na nossa
nova
cozinha e a faxina que já fizemos com
produtos panos e nenhuma
maturidade

coisa boa é errar
feio
pela manhã, ter
medo
o dia inteiro de contar
o que
fez
pensar tanto em
tantas
c o n s e q u ê n c i a s
arrumar as malas pra ser expulso à
murros
e de noite ouvir que isso
não
é
nada
melhor dormir que
cansaço

aumenta

as

coisas

coisa boa é acordar com muitos
planos
que
deveriam
ser feitos
e ir dormir com os mesmos planos a
serem feitos
e batom por

toda

a

parte

porque hoje você mudou de
ideia
e ligou para
alguém
que mudou seus planos suas roupas sua
rima
e até secou seu cabelo
pra você
sonhar em

paz

Amélie

Amélie
te cantaria
tudo o que tivesse no bolso
ela afinaria o ukulele
e tocaria sem parar
de Bobigny
à Place d’Italie

ela não pararia por palmas, notas
cartões de visita, troca
de turbantes e dentes pretos
por terno e gravata
de sobrevivência e jantar na mesa
por alguns outros
investimentos mais rentáveis

e nem mesmo de Bobigny
por Place d’Italie
ou 20 cigarros
já enrolados
que viessem com
isqueiro e promessa
de 20 outros
mais

Amélie te cantaria
todas as canções
até em chinês
até de gente que ela não sabe
de onde é
e nem sabe cantar
o dedo até sangraria
e as unhas se lascariam
ao meio de lado na diagonal
em seu ukulele

ela aguentaria
a tendinite e o acúmulo de água
e outras substanciazinhas
nos pés de pão
seguindo um repertório
inocentemente estratégico

Amélie botaria
seu melhor vestido
seu melhor sutiã
emprestaria o colar de prata
da Annabel e até
depilaria a perna inteira
pensando na sua
mão tão
curiosa

mas você não viria

e Amélie
na segunda
canção
perdeu a voz, o compasso
e, com gosto de rímel
na língua
desceu na próxima
estação

jamais deux sans trois

acordei e o domingo me deu febre

queimei minhas roupas
com uma carne quase viva
e as cinzas que voaram
me desfazendo em pequenas
peças de um quebra-cabeça
estilhaçado como vidro
cegaram todas as pessoas
que ainda acreditavam no meu
futuro

Você quer que eu te faça uma visita?

todas as festas que não fui
ainda estão com cheiro
de caixa de Marlboro cheia
assim que é aberta, e os doze dedos
de crianças que, excitadas
correm para acender e tragar
o primeiro cigarro e provar
pro mundo sua genialidade
mesmo que isso custe achar
que descobriu-se a beira
da Morte

o menino segurando firme
a perna da menina
que para um pouco
para pegar ar
e não pensar na conversa que teve com a
dona Lúcia da orientação educacional
e as luzes rosas verdes azuis
ainda se cruzam numa adolescência
que eu não tive
porque estava
tentando aprender a dançar
Sozinha

a cada beijo mais urgente que
eles dão
seus pais
que agora dormem
ao som de um filme ruim
respiram mais profundamente
embalados por uma certeza
própria
de pais que fazem o
possível

não sei nada sobre o
Amor
a não ser que na semana passada
eu achei que tinha entendido
quando vi um homem abraçando
a sua bengala
e negando ajuda para não
ofendê-la
amanhã eu vou achar que vou saber
quando receber um sinal seu
e há três dias eu terei medo de
descobrir

suspeito que um dia te direi
eu te amo, e depois você
também
e, então, nos
chamarão de mentirosos

e seremos

Você não acha que as coisas estão estranhas?

alguns amigos meus não existem
e nem sabem que eu os considero Amigos
mas eu lembro deles quando o dia
engatinhando
alcança meu
lençol perfumado de um corpo
Só,
que mesmo enrolado em ideias futuras
é capaz de voar

e me pergunto se eles ainda estão na
festa

eu poderia ir à casa deles
agora mesmo
caso estejam de ressaca
aos cinquenta e poucos anos,
de tanto que imaginam
um futuro que está difícil de alcançar
porque foi ontem
e a cada ano fica mais difícil
porque era no ano passado
e naquela festa era tão longe
e agora é tão hoje

eu cuidaria de todos com
as palavras
que eu colhi como flores quando saí
em companhia do meu avô
que nunca conheci,
mas que nunca me abandonou
ao me pegar pela mão
e me mostrar o caminho
das flores

mas, isso é só desculpa,
pra dizer
que eu cuidaria
é de você

se você quiser, levaria algo pra gente tomar
e queijos que vou
comprar na fromagerie
podíamos falar sobre qual é a hora do dia que
lembra mais das nossas peles
que já não são mais tão plásticas
e se movem querendo
entrar e sair da gente
ficando a cada ano mais parecidas
com papel crepom

ou falaríamos sobre qual é o momento
exato em que
tememos a perda da vaidade
para uma
Paixão
que vai nos tornar
miseráveis
e nos fazer gostar
da cor opaca de domingo

mas no caminho para a sua casa
já com os queijos na mão
estava anoitecendo e luminárias
de rua
dessas ruas que não muita gente conhece
estavam pifando
acendendo e apagando
no compasso de uma canção
nunca escrita
e aí eu me vi sentada na aula de música
tentando tocar flauta, pensando que seria
muito bonito
apresentar aos meus pais
e deixá-los orgulhosos

mas passou

e não fui ginasta, não fui atriz de dar
autógrafo, não fui ao Jô
e a flauta foi tocada só no chão de tacos
em quebra-cabeça do meu quarto
quando eu imaginava o palco e treinava
Aquarela do Brasil
o mais escondida possível
para fazer surpresa

nem sei porque estou te contando,
mas

é que há dois dias eu percebi que o domingo
anda me seduzindo a cada semana
não importa quantos
pássaros de domingo
roçando as unhas no tijolo,
e batendo asas pra tentar me lembrar
que é domingo

da cama eu imagino nós dois
no sofá da sua sala

eu colocaria meus pés embaixo das suas pernas
fingindo uma intimidade que não temos
você ficaria sem graça
mas aparentaria estar em paz
e talvez falássemos de algo mais
pessoal
dependendo do que bebêssemos
brincaríamos dizendo
jamais deux
sans trois

ou então eu podia até ouvir você contar
daquela mulher pela qual você está
apaixonado

e tudo bem

porque depois eu ligaria o som
e perguntaria mais e mais
e te daria mais e mais
vírgulas espaços reticências
e minha alça que está caindo
sem querer

até você se embebedar
no seu próprio desejo
e aceitar levantar

pegar na minha cintura

e dançar comigo
na luz opaca de
domingo

o seu aniversário e o meu ventilador

Margarida
você sempre foi minha
única amiga
pena que está
morta
agora não tenho com quem
conversar

eu teria uma montanha
de nadas pra contar, mas
nada
é um termo já tão batido
todo o poeta usa como
última moda, é um
desalento para mim
pois é a única palavra que
diz
o que eu tenho
pra falar

minha filha já vai fazer
trinta anos
e acha que sabe de
coisas
coitada, outro dia me disse
mãe, acho que estou entendendo
de alguns assuntos
pobre ignorante, Margarida,
deixei ela achar
nem teria recursos
para curar sua
frustração

o Arnélio é um grande
Idiota
sabe que eu o amo e sabe
me azedar os
sentidos
daquele jeito que eu quero
desistir de mim
mas não
dele
tem gente que nasceu
pra assombrar, minha amiga
fico feliz que você
mesmo Mortinha
não me faça dessas
coisas

a minha companhia,
se te interessa saber,
é meu ventilador
eu saio de casa e só penso
na hora de voltar pra
comer algo fácil
tomar banho e pôr minha
camisola de quem ainda não
é avó mas
será
olhando o ventilador
girar
da minha cama de casal
pela metade

ouvi dizer um dia
que o barulho que o ventilador
faz quando gira
assim como das ondas do mar
quando batem
é algo semelhante ao barulho
de dentro do ventre da mãe
quando ainda não temos contato
com o que nos faz hipócritas
por isso
acalma e
é Bom

não sei se acredito
nisso e não
conheço nenhum médico
pra
perguntar

mas quando o ventilador
gira
venta minhas saudades
e eu até imagino
novidades
que só você era capaz
de me contar

tentei fazer amizade com a cleide
mas eu a detesto, Margarida
acho ela burra
não tem assunto que
Preste
entre nós
acredite você, outro dia
ela me disse “mas a Margarida também
não era flor que se cheirasse”
levantei da Mesa de Chá naquele
instante
e disse que ela que fosse
usar o Tempo dela pra
outras coisas que não
falar dos Mortos

sou muito
contraditória
porque tudo o que eu faço é
pensar na sua falta
e falar sozinha com
Você através de recursos
incompreendidos
por quem nunca passou
tardes laranjas
no nosso banco de ferro
comentando sobre
gentes que
fazem a gente pensar

lembrei, aliás, como todos
os santos anos
que hoje é seu
aniversário

nós nos perfumaríamos
caminharíamos na rua
de terra até
o bar de azulejos finos
e toalhas de
linho
com vista pra
coisa nenhuma
e falaríamos mal do mundo
inteiro
com uma bondade
que só melhores amigas
têm

você pediria pelo amor
de jesus Cristinho
para eu não cantar parabéns,

e eu cantaria

pena que está Morta,
margarida

mas saiba que fiz um
bolo mesmo assim
e apaguei a vela por você
comi um pedaço
e o resto
eu vou dar para a cleide amanhã
na Casa de Chá depois da
chuva

me perdoe
é que me sinto

muito

os últimos a saber

encontrei em crianças que
nunca nasceram
berço e permanência
nos entendemos muito bem
desde o dia em que nos foi
apresentada a vida:
tivemos preguiça

é que as crianças
que nunca nasceram
não querem achar aos 16
terem entendido
e descobrirem, aos 43
estarem devendo

elas não querem abrir a geladeira
esperando encontrar dentro dela
algo novo
sem que precisemos dizer
o que elas hão de
descobrir:
solidão não
faz as compras
e o vazio não
sente pena

as crianças que nunca
nasceram
não querem se ver
imbecis
quando apaixonadas
oferecendo a quem se ama
dicas honestas
sobre alguém
que elas fingirão ser
com muito cuidado e
dedicação
até acreditarem
na sua própria
invenção

elas têm horror
de pensar em falar
sobre sexo
com os próprios filhos
ou pior
com os próprios pais
ou, ainda pior
sobre a falta dele
com alguém que um dia
amaram

as crianças que
nunca
nasceram
não querem fazer
café de filtro num sábado
bege
se questionando por que
não responderam
a Natasha naquele recreio
ou quais são as razões
de não acompanharem
séries, política, convenções
ou mentiras
de semelhantes
proporções

elas tentarão
com muito empenho
agradar

forçarão risada
e pagarão em muitas vezes
uma roupa que nem
as favorece
engolindo a opinião de que
nada disso
é interessante

porque o
mundo
gira

mas palavras não ditas
enchendo as estantes
de vozes em luto;
sonhos bons acabados
tão rápido
como uma segunda de verão
em que não se sabe se
é segunda ou meio-dia;
e antigas dores de amor
que ressurgem
assim que foram
esquecidas

continuam os mesmos

e, se algo ainda muda,
eu e minhas crianças
que
nunca
nasceram
sempre fomos
os últimos
a saber

Stella

Stella, ontem você me perguntou
e eu, calado,
falei do tempo

é que na vida, Stella,
tudo o que se responde
é simples demais

você diz me querer
como diria uma mulher
eu ouço, eu juro

mesmo com suas curvas
que ainda estão por
vir
falando mais alto
oferecidas
aos meus olhos confusos
como ponto e vírgula

mas tenho que ser justo,
Stella

querer é ter assunto
amar é aceitar
que não é bem
assim

e enquanto você fala
doce
sobre seus desejos
inventados
eu até esqueço das
responsabilidades
e silencio elogios que nunca
vou te fazer:

pois enquanto não damos certo
nunca daremos errado

e amanhã,
se você quiser,
podemos falar
sobre isso

ou
talvez
outras coisas