O meu carnaval

Tudo começa com a fantasia que me coça.
Só de olhar aqueles frufrus, babados e brilhos me dá urticária, e toda a vez que me fantasio só consigo torcer pra não desenvolver candidíase purpurinada.
Daí ok, respiro fundo.
Pô, faz um esforço, você é jovem, olha aí o pessoal como tá animado pra ir pro bloco, se anima também, sua mala metidinha a diferentona.
Calma, quem é aquele? O Raul? Mas não é possível, quem chamou esse cara pra ir com a gente?
Oi, Raul! Tudo ótimo, e você? Não, isso é uma orelha de coelha. Pareço o quê? Ah, que engraçado, e você tá fantasiado de quê?
Gasparzinho é a sua avó, Teletubbie alucinado. E de Zorro você não tem nem o branco do olho, garoto, me respeita.
Daí vem a hora do supermercado. Eu tentando, delicadamente, introduzir o assunto de que não acho justo dividir a conta toda, pois eu não bebo álcool em multidão (e em quase nenhuma ocasião): gente, vou beber água, alguém comprou água? E chocolate? Para a hipoglicemia, ué. Não? Tem salgadinho pra pressão baixa? Pode ser uma Brahma Zero, então? Mas não tem nada pra mim, e a minha parte fica em R$84,65?
Bom. Tudo bem. É para o bem de manter amizades, e não morrer sozinha na sarjeta da rua dos isolados.
Paramos o carro (o meu, porque eu sou a única com condições de dirigir depois do bloco de carnaval), e enquanto todos começam a descer animadíssimos a rua perfumada de pinga com urina, eu vou me afastando do meu Fox preto com o coração partido, torcendo para que ele não seja exposto à nenhum trauma, para que nenhum casal transe em cima dele sem camisinha, ou para que ele, simplesmente, não suma de onde está.
Entro no bloco como uma adolescente que chega de madrugada em casa, analisando cada movimento meu com muito cuidado e tensão, apavorada só de pensar em tomar um banho de cerveja, vômito e confetes em seguida – para fixá-las bem no meu corpo.
Começo a distribuir “licença” e “desculpa” pra passar, esfregando a minha pele antes lisinha e cheirosa num paredão humano de suor fosforescente. Demoro alguns minutos pra entender que o jeito de andar é distribuindo cotovelada, senão eu vou ficar pra trás do meu grupo de amigos naquela merda de bloquinho – mas, gente, que ideia fraca que eu fui ter.
Finalmente, meus amigos decidem parar de me torturar, e encontram um lugar para se instalarem – pelo resto da tarde, da noite e da eternidade. A este ponto, já estão todos drogados: eles nos ilícitos, eu nos receitados. Ao nosso lado tem uma roda de jovens que bebe um galão de gasolina com colorante azul; do outro lado tem um casal que disputa quem consegue morder a amídala do outro primeiro, ao mesmo tempo em que ensaiam posições de ashtanga vinyasa yoga sem roupa; e atrás de mim um grupo ri como se não existisse a morte de tanto chupar uma camiseta embebida de lança-perfume.
Começo a ver estrelas, e as pessoas passam a ter chifres e 5 narinas.
Percebo que eu, definitivamente, não sei paquerar em carnaval, porque durante todo o tempo em que estou no bloquinho não olho para homens, apenas para mulheres, suas maquiagens perfeitamente reluzentes peroladas simétricas brilhantes e fascinantes, e seus corpos tão lindos, torneados, bronzeados – enquanto eu me sinto gorda, flácida, branca, derretida e assada. Até suas celulites são muito mais lindas que as minhas. E os sorrisos? Mas como conseguem, estão rindo do quê, o que aqui é engraçado, elas não passam mal? A pressão delas se mantém como, a taxa de açúcar no sangue não baixa? Elas não têm medo de colocarem MD nas suas bebidas? E Boa Noite Cinderela? Elas não tremem, não veem pontos pretos pré-desmaio, meu Deus, queria ter a barriga daquela garota, olha como aquela outra rebola como se não houvesse possibilidade de hospital depois daqui, de onde elas vêm? Do que se alimentam?
Elas suam de pular, e eu de hipoglicemia, pressão baixa e pânico, então começo a procurar por algum vendedor ambulante que tenha com ele algo semelhante a um shot de soro e misericórdia pra eu comprar. Não encontro nada além de cerveja “uma é cem, duas cento e noventa e nove”, então chego para um amigo, e digo: não estou bem.
Este amigo, afogado na compaixão, diz que eu nunca estou bem e que é pra eu relaxar: joga a mão pro alto e curte o som, abre a boca assim, ó, e respira essa fumaça boa, você precisa enfrentar esses seus medos, vai acabar com a tarde de todo mundo por causa deles. Enfrenta logo, vai, vou te ajudar.
Enquanto este amigo coloca à força meus braços pra cima e os balança como se eu achasse carnaval algo aceitável para a minha saúde, eu não ouço o som, só consigo sentir marteladas no meu estômago, minhas costelas querendo fazer aula de step dentro de mim, e minhas pernas começando o processo de adormecimento, bem característico de quando chegaram ao seu limite de horror.
Quanto à fumaça, nunca engoli tanto CO2 e outros gases e substâncias que não quero saber quais são, e começo a procurar, desesperadamente, uma fantasia do bem para eu desmaiar em cima. Acho que naquela Branca de Neve, pondero. Mas também considero o homem vestido de bombeiro, me parece útil. Mudo de ideia pois tenho medo de homens em carnaval, e decido cair em cima da ursinha Pooh.
Enquanto um infeliz tenta me beijar sem saber o meu nome e se eu tenho ou não sapinho na boca, desvio dele ensaiando o discurso que direi ao médico: não, doutor. Eu não usei nada, eu respirei. Eu inalei exibicionismo alheio de gente que consegue ser feliz, e esfrega isso na minha cara pintada de derrota. É isso o que tem no meu sangue agora, dá pra tirar?
Daí olho para o lado, e vejo que o cara com quem eu estava saindo, e que inclusive me chamou para um jantar romântico no dia anterior dizendo que me amava, agora brinca do mesmo jogo das amídalas com uma colega de trabalho dele, sem se importar que eu estou ao lado vendo tudo. O Raul tira uma selfie mostrando os dois se beijando atrás dele, e posta com a hashtag #foliões.
Observo o bloquinho com apenas um olho (uma das orelhas da minha fantasia perde a força e morre de tanto sofrer), e não consigo compreender se as pessoas estão naquela situação pra pagar promessa, serem perdoadas por algum pecado, ou, como eu, têm apenas medo da solidão: elas estão mesmo se divertindo? Mas, céus, como?
Para me distrair, tento puxar assunto com uma garota que curte todas as minhas fotos nas redes sociais, e escreve pública e insistentemente que está morrendo de saudades de mim, mas ela mal me responde, pois está muito ocupada atualizando o seu Stories no Instagram. E também porque dizem que ela desaprendeu a falar, sabe apenas digitar – isso não sei, são boatos.
As pessoas que eu julgava serem meus amigos não respondem mais por suas atitudes e mandam eu parar de ser chatinha, o cara com quem eu saía agora se atraca em algo parecido com um Pikachu, e o Raul vomita em cima de uma fada Sininho.
Decido, corajosa (e sem muita saída), ir embora sozinha, já que todos estão felizes demais para me ajudar, e pelo que parece ninguém vai sair de lá até o dia do ano novo – quando vão, novamente, esfregar na minha cara como são plenos e estilosos, e como têm roupas tão brancas tão maravilhosas e tão exclusivas que eu jamais terei – isso sem contar os destinos para onde viajam, porque se não for pra custar o valor anual do meu aluguel, meu bem, eles nem saem de casa.
Vou cotovelando o bloco inteiro pedindo a todos os santos que me ajudem a sair de lá viva, e quando coloco o primeiro pé pra fora daquele circo de horrores, olho para trás e visualizo o que eu (agora sim, não preciso de mais um ano de carnaval pra constatar), tenho certeza de que não condiz com minha personalidade e meus limites: nunca mais eu piso nessa barbaridade, prometo.
Entro num boteco em que eu jamais entraria (a hipoglicemia e a pressão baixa sempre fazem você tomar atitudes lunáticas), compro uma água, um Doritos e um chocolate, e subo solitária, caolha e aliviada, a rua urinada e alagada de álcool, respirando com força para compensar a meia-hora de tudo – menos oxigênio – que eu inalei.
Desfruto da minha liberdade até finalmente chegar em casa, e deitada no sofá depois de 40 banhos normais e 60 de álcool-gel, começar a rolar infinitamente a tela do meu celular, sendo metralhada por todas as redes sociais, onde fotos coloridas brilhantes eufóricas e pertencentes ao mundo normal me lembram como eu sou solitária e totalmente sem graça de não conseguir aproveitar a festa.
Não é raiva. Não é ódio. Não é aversão.
O que eu tenho é apenas uma inveja brutal da saúde dessa gente que consegue aproveitar o carnaval sem temer a morte salpicada de purpurina – concluo, quando começo a sentir a candidíase querendo dar o ar da graça.

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Sobre-viver sozinha em Paris

Eu não fazia ideia de como eu tinha chegado até o meio daquela ponte. Que caminho eu tinha feito? Eu peguei o metrô? Aquela mulher estava sendo pedida em casamento? Aquela velhinha tinha quantos anos? Por que eu estava em Paris? Quantos currículos eu tinha que mandar amanhã para poder conseguir um trabalho? Se eu mandasse um milhão de currículos e a chance de conseguir um trabalho fosse uma a cada mil e-mails enviados, quantos trabalhos eu conseguiria enviando um milhão de e-mails? Se eu tivesse estudado qualquer coisa na área de exatas eu estaria fazendo essa conta tranquilamente? Que dor era aquela perto do apêndice? O que eu faria se eu fosse o Silvio Santos? Eu não queria casar nunca na minha vida. Filhos, queria.

Era um hotel. Eu, a atendente da noite. A que fazia mojitos que deveriam ter gosto de limão com rum, mas pareciam suco de uva batido com pizza margherita. Era a pessoa que “sabia” sugerir champagne e vinho para quem estava sofrendo um jetlag e queria relaxar; quem tinha acabado de chegar de uma reunião de trabalho e desejava esquecer um pouco do dia; quem queria afogar as mágoas; ou talvez pessoas que estavam afim, simplesmente, sem um porquê, de beber. Mas, na realidade, eu era a barmaid que não sabia qual a diferença entre todas as milhares de bebidas do restaurante, e procurava no Google agachada atrás do balcão o que aquele nome do rótulo significava. Um dia servi prosecco falando que aquele champagne era maravilhoso. Outro dia respondi de bate-pronto a um cliente que me perguntou o que havia em determinado drink, que o mesmo era feito com “gin”. Falei com propriedade. Depois fui checar, e o drink era feito com tequila. Ainda bem que ele desistiu do “gin” e preferiu uma Coca-Cola. Era eu quem oferecia potinhos de amendoim para quem eu ia com a cara ou achava bonito. Era eu quem ajeitava as mesas pro café da manhã do dia seguinte.

Eu estava ferrada. Tinha perdido o meu trabalho, e agora como eu ia pagar o aluguel, a comida, o meu latte de todos os dias? Resolvi mandar Whatsapp pra minha lista inteira de amigos em Paris pedindo emprego. Depois que mandei vinte e sete Whatsapps me arrependi, porque agora todo mundo responderia, e eu teria que explicar toda a história vinte e sete vezes de formas diferentes dependendo da resposta de cada um. Minha ansiedade deu uma turbinada, e pensei em deletar o meu Whatsapp. Achei que ler me acalmaria, e ali mesmo, no meio da ponte, sentei, li duas linhas da página trinta e seis de um livro recomendado por uma professora, não entendi nada, decidi que era analfabeta em francês, e fechei o livro.

Durante duas semanas naquele mesmo hotel, eu fui convocada para trabalhar no café da manhã em vez do período noturno (função para a qual eu tinha que acordar às 5h da manhã e chegar no trabalho ainda de noite). Em uma daquelas manhãs, depois de servir milhares de mesas sem poder comer um único croissant; passar aspirador em todos os lugares que podem existir sob um chão (nunca soube que chão era tão cheio de lugares, descobri com aquela chefe que me dava muita bronca se encontrava qualquer migalha de qualquer coisa naquele chão); cansada; com fome, e com vontade de sair correndo pra fazer xixi, entrei na cozinha e achei que ou estava faltando alguma medicação, ou eu estava tomando qualquer coisa em um nível não recomendado.

Não podia ser.
Não. Non. No. Nicht. 不要.
Merda, e todos os outros palavrões que eu conheço, em todas as línguas possíveis.
Era um rato.
Ratinho, ratatouille, Drica, olha que gracinha, respira, calma: inspira em cinco, prende em cinco, solta em cinco.
Quero meu médico.
Pera, se controla, em Paris é mais normal do que em São Paulo, e ela é pequenininha, ela é bonitinha, tem duas cores, não há de haver doença…
Interfonei para o Sebastian porque não conseguia mais me consolar. Sebastian cuidava da limpeza pesada do hotel, e achei que somente ele poderia me salvar: tira esse mostro da cozinha, pelo amor de todos os santos.
Sebastian morreu de rir.
Olhamos uma para a outra (eu e Sarah – a ratinha que nomeei desta forma), e percebi que ela sentiu uma certa pena de mim. Ela, aquele serzinho que mesmo tão repugnante era até que amável se comparada à alguns colegas de trabalho, sabia que me assustava, mas não queria me fazer mal. A bichinha só queria um queijinho de graça.
Assim como Sarah, também senti dó de mim mesma naquela situação, e aos poucos a dó foi se transformando em desespero, que começou a subir pelos pés, passou pelas minhas veias, endométrio, intestino, fígado, e um enjoo avassalador tomou conta do meu pobre e vazio estômago. Uma nuvem negra de pavor com cheiro de camembert quis tampar a minha vista, e então a única reação possível com tanta incoerência, pavor, compaixão e nojo dentro de mim, foi gritar.

Quando a gente tem medo de alguma coisa, mas muito medo mesmo, perde totalmente o bom senso e a capacidade de lembrar que existem outros seres humanos no mundo. Na hora do medo tanto faz, dane-se tudo, só queremos a salvação.
Clientes ouviram o grito, colegas se deram conta de que era eu, e levei uma bronca.
Bronca feia: “Adapte-se e aceite. Em Paris tem rato.”
Decidi aceitar. Precisava do trabalho.
Mas, antes, falei com meu médico. Só pra garantir que a lesptospirose estava descartada.

Enquanto um barco passava cheio de turistas ricos que não se importavam em pagar o meu budget mensal num passeio pelo Sena, me lembrei do dia em que levei uma surra verbal daquela chefe por eu ter servido duas taças de um champagne mais caro a um casal, quando eu deveria ter servido de um mais barato. Minha chefe me perguntou num francês bem duro qual era o motivo de eu ter cometido tamanho erro grotesco e sem lógica, e eu tentando explicar com meu francês meia-boca que eu só tinha tentado ser rápida e me confundi, acabei abrindo a garrafa mais cara. Mas nada adiantava, ela gritava cada vez mais alto comigo na frente de todo mundo, chacoalhando a garrafa aberta, me envergonhando cada vez mais, dizendo que aquilo custava mais de cem euros, e pensei que daria tudo pra ser a Sarah e me enfiar no primeiro buraco que eu visse. Com um queijinho. Mas engoli em seco e me mantive firme, precisava do salário.

Lembrei também do primeiro dia em que tive que limpar o banheiro do hotel. Enfiei as luvas nas mãos, arregacei as mangas, peguei aqueles paninhos de limpeza, e comecei o trabalho pensando que era bom que um dia eu escrevesse um best-seller que fosse bem seller, porque limpar banheiro era uma tarefa tão deprimente, que deveria ser proibida por lei. Espirrava produto de limpeza pra todos os lados, e na hora de encostar na pia, na privada, e no chão respingados para esfregá-los e limpá-los, torcia para que alguém no céu estivesse vendo aquilo. Imaginava bactérias, vírus, febre amarela, tuberculose, candidíase. Chorei ao ver que o lixo do banheiro masculino estava lotado, e quando um cliente se aproximou para entrar dentro da cabine, fingi que estava espirrando para que ele não soubesse que, na realidade, eu estava me desfazendo em lágrimas de horror.
Tomei dois banhos quando cheguei em casa.

No hotel aprendi a fazer mojito, daiquiri, lindas tábuas de queijo e de presunto, e croque-monsieur. Aprendi a não falar com clientes que não queriam falar, e a falar bastante com quem estava afim de conversar. Passei a entrar na cozinha batendo palma e implorando: “Sai, Sarah, vaza”, só pra garantir que não trombaria com a ratinha (que insistia em ressuscitar em cores e tamanhos diferentes, era impressionante, caso a ser estudado). Sambava com as moças portuguesas da limpeza, e cantava “Aquarela do Brasil” passando aspirador. Fiz amigos que hoje considero de infância. Fui embora definitivamente daquele hotel já limpando privada com a mesma naturalidade com que tomo água, e sabendo diferenciar produtos pra vidro, madeira, parede e prateleiras com a mesma facilidade que tenho pra tomar trinta banhos no mesmo dia se acho necessário.

E foi assim: naquele dia, horas antes de parar no meio da ponte sem ter razão, larguei tudo e disse que tinha dado. Falei para a minha chefe – logo depois dela me metralhar com palavras horríveis em alto e bom som – que ela não tinha o direito de me humilhar daquele jeito, que ela nunca mais gritaria comigo, e que ela não era, absolutamente, nada. Quando a mesma arregalou o olho e me perguntou “O quê você disse?”, eu comecei a tremer de pavor, juntei o pouquinho de coragem que eu ainda tinha, me comprometi a não chorar, e repeti, por aquela e por todas as outras experiências abusivas de trabalho que eu já tive na minha vida: é exatamente isso que você escutou: Você. Não. É. Nada. Não grite comigo, não trate a mim e nem a ninguém desse jeito, e pra mim chega. Tô indo embora. C’est fini. C’est parti.

Saí da cozinha com as pernas bambas, fraca de tanta energia que eu tinha deixado pra trás, pairando no ar junto com a ex-chefe abusiva, mas igualmente orgulhosa. Passei por clientes sem me importar com o fato de que acabava de decretar demissão praticamente na frente de todo mundo, e me direcionei ao vestiário. Troquei de roupa, e bati o ponto. Dane-se, nunca mais voltaria. Nunca mais seria humilhada, e nunca mais ninguém falaria assim comigo.

E de cima da ponte, onde eu nem sei como fui chegar, com o Sena correndo embaixo de mim e o tempo passando sem nenhum esforço, decidi que se o preço de continuar seguindo o meu caminho era sobreviver a esses perrengues, eu aceitaria. Eu superaria o que fosse: ratos no meu caminho, casa-moquifo caindo aos pedaços (que acabou virando o meu ninho protetor, me acolhendo docemente todos os dias), falta de grana, vontade de chorar, adaptação a uma cultura nova, dificuldade de falar o que realmente penso, gente grossa, e todos os outros. Porque morar em Paris tem sim o seu lado muito bom, e aqui gosto mais de quem eu sou – só isso, na realidade, já é o suficiente para eu decidir ficar por enquanto.

Por fim, disse a mim mesma que pessoa alguma, fosse ela chefe, colega de trabalho, conhecido(a), ex-amigo, ex-familiar, ou qualquer um outro(a) teria direito de maltratar, ou, ainda pior, querer me convencer de que eu não era capaz de alguma coisa.
Eles que se enganavam.
Eu era sim.

E eu ia dar um jeito.

O que é o amor?

O que é o amor?

Eu me pergunto quando deixo o metrô, doída pelo zumbido que restou de ontem; pela poeira levantada depois de passos tão medrosos, mas esgotados da mesmice; pelo transbordamento daquilo que eu não sei nomear, mas que tenho provas da veracidade.

O cinza daquele cimento que piso, cor tão acostumada a não fazer rir, me lembra do passado, que corre alucinado em busca do amanhã, e me faz querer viver procurando cor. Será que o amanhã será hoje, ou o hoje é o amanhã que espera não ser cinza?

O que é o amor?

Eu procuro no barco ancorado, tão cansado de dizer sim sem nenhum poder de decisão; eu busco nas rugas de gente que não faz questão de agradar; em cigarros devorados por bocas desacreditadas; em garrafas largadas pela metade por alguém exausto de cumprir regras.

Procuro no meu pão sem manteiga, que mesmo seco é familiar; no café que me pega no colo com paciência, e me acalenta por mais algumas horas; nos olhos da moça negra que me dizem tudo sem que eu saiba de nada; no cachorro deitado no chão gelado abraçando forte o seu dono, pois sabe que mais que cão, é casa.

O que é o amor?

Eu me desespero com tanto barulho que anuncia a vida sem falar a minha língua, e me espalho pelas ruas de dia, de tarde e de noite pedindo respostas; engulo o sal de lágrimas tão necessárias; eu imploro por explicação. Paredes descascadas, arranhadas e inacabadas como tudo aquilo que deixei de falar, secam meu rosto e me dizem que eu não estou só.

Busco no riso de uma criança que mesmo tão nova é tão mais honesta, e assim me pergunto se o amor é ainda é possível depois de tantos acordos, contratos, delações, duplos-sentidos. Tanta amizade acabada por medo da perda de espaço. Tanta família desmantelada por não saber se ama ou se garante. Tantos sonhos que não amanheceram com a gente.

O que é o amor?

Me enxergo tão pequena perto do que eu posso imaginar; tão confusa na minha existência que teme não dar tempo; tão certa da minha incoerência que não sabe se escreve, ou se espera, resignada, o amor curar.

Depois de todas as aceitações forçadas; depois de tantos fins que invejaram começos; perfumes que senti sem poder reagir; beijos que deixamos para aquele encontro por acaso, que ambos sabemos não existir. Vejo você se afastando, cada dia mais, e eu na dúvida sem saber se te amo ou se continuo procurando respostas para me ver livre de te amar;

mas afinal,

O que é o amor?

Para tudo dá-se um jeito

Tentei engolir aquela batata cozida que parece isopor salpicado de plástico com aroma artificial de alecrim, já de olho no brownie de espuma de travesseiro ruim com gosto de Zero Cal vencido, e fiquei na dúvida se virava um vidro de remédio pra dormir, ou puxava assunto com a moça ao lado (que, felizmente, descobri que era médica, e por isso logo me apaixonei – fóbicos entenderão).

O paralelepípedo foi sendo abraçado por gordos primeiros pingos de chuva, e começava a refletir cada um de todos aqueles anos: o de 2004, minha primeira noite insone ao lado da minha mãe na cama me dizendo que a noite era apenas “o claro sem luz”; o de 2006, primeira consulta terapêutica; 2008, primeiro porre; 2009, primeira crise de pânico; 2012, primeira vez morando longe dos pais em outro país; 2013, o ano em que tive medo até de mim mesma e mal podia sair da casa dos pais; 2015, o ano em que recusei todo e qualquer passeio em que não tivesse a segurança de estar de volta em casa antes do anoitecer; 2016, o ano em que me joguei num amor louco e em dois novos trabalhos, começando a, de pouquinho em pouquinho, enfrentar alguns dos meus infinitos medos. 2017, o ano em que me disponibilizei a viver a vida de outra forma, em outro lugar.

Me tranquei no banheiro e olhei pra minha cara pálida e minha boca trêmula, que tinha cor de filme antigo que meu avô botava pra eu ver quando eu era pequenininha. Que merda eu estava fazendo? Quantas gotas, mesmo? Escovava o dente agora, ou deixava pra mais tarde, quando eu não conseguisse dormir, pra ter uma desculpa pra levantar? As pessoas lá fora iam achar que eu estava demorando muito? Meus pais estariam na estrada, na padaria ou em casa? Como será que aquela amiga, que eu sempre quis ser, agiria no meu lugar? Ela estaria vendo filme agora? Mas o que eu deveria ver? O que pessoas assistem no avião? Elas entendem os filmes, elas prestam atenção, elas relaxam, elas pegam no sono naturalmente, tomam vinho com Dramin, misturam o quê com o quê? Como eu faço? Eu tenho pavor de série, nunca assisto série, deveria começar, mas começaria por onde? Friends é série?

Era uma rua estreita, eu gosto muito de ruas estreitas. Depois de tudo até aquele dia, minha terapeuta cansou de ouvir que eu não sabia mais se eu gostava realmente de algo, ou achava que gostava porque o certo era gostar. Eu me senti, naquela ruazinha, uma plantinha que luta com toda a força que sobrou pra se recuperar e crescer de novo depois de ser trucidada por um caminhão-pipa de antidepressivos. E depois de ser esmagada por um ônibus turístico cheio de gente irritantemente alegre dentro, ou um trailer carregando um grupo enorme de amigos que esfregam na cara o quanto são bons vivants. E depois de uma vaca gorda que além de passar em cima de mim, insistiu em me convencer da nossa semelhança.
Olhando os paralelepípedos agora completamente aliviados daquele calor de antes da chuva, tive certeza: de ruas estreitas eu gosto. Fui me aproximando da janela de algum lugar, da qual saía uma fumaça de filme que, misturada com a chuva e a quase noite que chegava, me deu um nó no peito. Mas dessa vez o nó não me esfaqueava toda a esperança de sobreviver a mais um dia, só dava vontade de chorar, e de deixar ser assim.

Fazia quantos minutos que eu olhava pra minha própria cara naquele banheiro cubículo onde sinto nojo de encostar em qualquer coisa, sinto nojo da minha roupa que encostou em alguma coisa, sinto nojo de lavar a mão que foi obrigada a encostar em qualquer coisa? Minhas sobrancelhas são, definitivamente, diferentes uma da outra. Tenho um olho maior que o outro. Eu pareço um quadro do Picasso. Eu analisava todos os meus defeitos do rosto cautelosamente, quando a tosse de um H1N1 recentemente recuperado foi agulhando minhas amígdalas e deixou na minha garganta um formigueiro de presente depois da primeira tosse: não. Vai começar. Tossi tossi tossi. A vontade de chorar veio, e, com ela, mais vontade de tossir. Chorei, e como o choro dá tosse, fiquei mais bons minutos no cubículo porque era o único lugar com o mínimo de privacidade dentro do avião pra sofrer em paz. Decidi escovar o dentes pra não voltar nunca mais naquele banheiro, porque além da privacidade não há nada de bom lá dentro, e saí do mesmo tossindo e chorando. Passageiros me olharam com dó.

Cheguei pertinho, e era um restaurante. A fumaça que eu tinha visto estava saindo da janela da cozinha. A chuva caía, e eu não gastaria nem um centavo num guarda-chuva. Quem passou por um H1N1, recém solteira, fazendo as malas com 38 de febre pra morar nem eu sabia direito onde e completamente sozinha, estava imune, não ficaria doente, estava protegida. O chef gritava, os cozinheiros correspondiam, gargalhavam, brincavam, e faziam arte em pratos branquinhos e quentinhos que seriam devorados por casais que confortável e secamente – diferente de mim – observavam Notre Dame recebendo os primeiros sinais de uma noite linda.

A aeromoça veio me perguntar se eu estava bem, e resolvi ali que afrancesaria meu jeito de sempre fingir discretamente que não havia nada errado: não estava nada bem, estava tudo péssimo, eu estava ferrada, mas ia passar. Não sabia o que me esperava em Paris, mas quando está tudo enlameado, não há outra opção a não ser pensar assim. Não, obrigada, não bebo álcool. Não, obrigada, a espuma de travesseiro ruim estava ótima, mas estou satisfeita. Aliás, não, mudei de ideia, tem mais brownie? Procurei por “Frozen” naquela televisãozinha. Eu não sei que aditivo botaram neste filme, que aparentemente é a única coisa que acalma crianças histéricas e a mim dentro do avião. Ouvir aquele “Let it go” me lembra que a vida pode ser ok e aviões podem ser amáveis passarinhos que fazem seu trabalho direitinho e não caem.

Fiquei ali parada, de frente pra janela da cozinha, da mesma forma em que há alguns meses eu estava na frente do espelho daquele banheiro cubículo. Eu ficava cada vez mais encharcada, gotas geladas caíam do meu cabelo nas costas, meu rímel foi derretendo, se misturou com a chuva, com o meu batom de morango da Nívea, com as lágrimas, com todos aqueles anos, comigo ali de pé. Depois de tudo, ainda de pé.

Dormi, e quando acordei, sem saber se o meu pescoço era meu ou da cadeira da classe econômica que quis roubá-lo de mim, a tosse tinha passado, a médica já estava acordada lendo ao meu lado, aeromoças pediam licença para passar com aquele carrinho cheio de coisas que chamamos de comida para transformar a viagem em algo aceitável. Faltava uma hora pra eu descer e enxergar a mim mesma chutando a porta do aeroporto enquanto equilibrava três malas pra pegar o meu primeiro táxi aqui em Paris. Primeiro de poucos, diga-se de passagem, porque se há um negócio caro nesta vida não é uma bolsa da Chanel, é o táxi em Paris. Só pego se estiver bêbada. Por isso não bebo.

Sorri para um dos cozinheiros que acenou com a cabeça pra mim. Fiquei imaginando o que ele pensava ao ver aquela mulher molhada na janela, com a maquiagem toda destruída, o cabelo que fica puto da vida quando chove, o vestido da Farm todo grudado na pele seca ainda não acostumada com os novos ares, mas igualmente satisfeita por ter passado por tanto, em tão pouco tempo de vida, e ainda ser pele.

Bonsoir, eu disse. Bonsoir, ele respondeu. Ele me mostrou o prato, como quem oferece a comida, eu sorri, agradeci, e disse que “um dia”.
A comida daquele restaurante custa quase o preço do meu aluguel, mas um dia eu vou lá jantar, sim.

Assim como um dia, bem que a Márcia prometeu, aquela crise passou. Assim como um dia eu consegui dormir sem medo. Assim como um dia eu conheci um grande amor. Assim como um dia eu tive coragem de terminar com alguém que eu amava, porque me virar sozinha seria o melhor caminho. Assim como um dia eu comi camarão sem temer a morte. Assim como um dia eu cansei de pedir desculpas. Assim como um dia eu pedi ajuda. Assim como um dia eu fiz as malas, me dizendo que se desse tudo errado, e eu fosse parar no inferno do fundo do poço, pelo menos que fosse um poço de Paris. E, no fim das contas, essa foi a melhor decisão que eu já tomei até hoje.

Força a gente não tem, a gente arranja. Um dia, a gente sempre dá um jeito.

À Paris (continuação)

Eu não vou conseguir ficar nem uma semana neste lugar se eu não souber como falar “carregador” e “socorro”, pensei, enquanto seguia as orientações passadas por algum pedestre parisiense para chegar perto do Panthéon.
A única palavra que eu sabia em francês naquele momento parecia ser “perdue”, porque esta não posso esquecer. Nem sabia como eu tinha elaborado a frase completa explicando eu estava “perdue” e perguntando sobre a localização do Panthéon. Nem sei como lembrei do Panthéon. Na realidade, eu não sei se falei com alguém ou foi um delírio, mas nessas horas fica claro que Deus existe, pois parecia, pela paisagem, que eu estava me aproximando de lá.
Os franceses sabem muito de história, política, economia. Eu sei comer pain au chocolat, e escrevo quando posso. Eles são magros. Eu era até pisar aqui, tenho certeza que vou engordar. Eu não sei viver sem os meus pais por perto, franceses são independentes. Minhas irmãs fazem muita falta, não era pra eu estar tão sozinha, eu não sei morar sozinha, ninguém me ensinou a fazer isso, será que eu entro neste bar para tentar carregar o celular, tomar algum álcool e fazer amigos?
Mas naquela hora, eu tinha horror de bar, de álcool e de amigos.
Franceses não pensariam assim.
Como é que raios eu vim parar aqui?
Precisava ficar sozinha.
Como é que dá pra ser tão louca?
Tudo isso metralhava o meu pobre cérebro cansado e confuso, enquanto eu seguia as orientações que me passaram na rua para eu tentar chegar em casa.
Mas tudo estava muito difícil, o caminho era muito tortuoso, principalmente porque se tem algo que eu nunca decorei foi “direita” e “esquerda”. Não dá, tentamos de tudo (eu, minha família, professores, guardas de rua, médicos, colegas, bombeiros, desconhecidos, frentistas, CETs, policiais) todos já tentaram me ajudar com isso e nunca foi possível encontrar um método de memorização. Portanto, se em português não consigo, você pode imaginar em francês.
“Gauche” me lembra um poema de Drummond, não me lembra “esquerda”, que por sua vez é o lado do coração, ou o lado com o qual eu não escrevo, ou o lado que não é a “direita”. Gauche é o Carlos, gauche, para meus neurônios, não vira pra lugar nenhum.
Porém, em algum momento em que virei “à gauche”, passei por um Carrefour e aquilo me pareceu tão Brasil, tão meu bairro, tão mamãe, que quis entrar e comprar coisas para a minha casa. Não sei qual foi a lógica na hora da compra, mas saí de lá com produtos de limpeza, pão, leite, cereais, queijo, papel higiênico e bananas. Eu nem sabia o que estava faltando na casa, eu nem sabia do que eu precisava. Decidi que tudo aquilo era bastante necessário. Eu só me esqueci de que eu não tinha noção se estava perto ou longe do apartamento, e de que agora, além da bolsa, tinha que carregar aqueles produtos todos na mão – o rapaz do caixa me disse que eu teria que pagar a mais pela sacola, e eu achei que não valia a pena, precisava economizar, então coloquei tudo o que dava na bolsa e o resto – incluindo o papel higiênico – levei na mão.
Imagina.
Quis economizar na sacola.
E levei o papel higiênico na mão.
De qualquer forma, fui virando à esquerda, depois direita, depois eu vi uma Boulangerie e meus olhos brilharam ao avistar éclairs.
Era como se ursinhos carinhosos vestidos de cores pastel voassem ao meu lado e nada mais pudesse ser uma ameaça na minha vida.
Éclairs.
Entrei e perguntei quanto custava, como se naquele momento eu me importasse, e como se eu não tivesse economizado em uma sacolinha de plástico. Eu tinha necessidade de uma éclair, eu tinha todo o direito, eu estava perdida em outro país, eu podia comer mil éclairs se eu quisesse, era totalmente justo, e nada me engordaria naquele momento.
E, no fim, elas nem eram tão caras como estava acostumada. E eram brilhantes. E sortidas.
Comprei.
A atendente era tão gentil que me perguntei se ela não queria ser minha amiga. Adoraria perguntar se ela queria que fôssemos melhores amigas, para podermos passear juntas e ela me levar pra casa na volta. Talvez pudéssemos combinar alguma coisa para o final de semana, ela me ensinaria francês, e eu a ensinaria samba, aquele clichê de filme, mas que soava tão adorável naquele momento. Quando a gente come doce tudo é tão possível e bonito, e estar perdida nunca é um problema.
Acabei não perguntando se ela queria aprender a sambar, mas porque Deus existe, no momento do auge da éclair na minha boca, lembrei do nome da minha rua. Lembrei. Assim, como a água é molhada, lembrei.
Expliquei a minha história para ela, que rapidamente se convalesceu, e abriu o Google Maps no computador da Boulangerie. Vamos procurar onde fica, e você vai pra casa segura. Não me lembro como ela chamava, mas gosto muito de Julie, então vou chamá-la de Julie. Talvez terei uma filha cujo nome será Julie.
Julie, portanto, encontrou a minha rua no Google, saiu da Boulangerie comigo e foi me explicando o caminho para chegar lá (à gauche, à droite…). Na hora pareceu muito fácil, e eu disse que ela era muito querida e que eu voltaria lá para visitá-la com certeza e comprar mais éclairs e talvez pain au chocolat, e que havia sido muito adorável receber aquela ajuda e conhecê-la.
Nunca mais voltei para ver a Julie porque não soube encontrar o caminho até lá.
Fui virando pra lá e pra cá, e em algum momento cheguei em uma rua lotada de jovens que não seguravam papel higiênico e bananas nas mãos, mas sim cigarros e taças de vinho. Procurei por alguém com uma cara amigável, e quando achei uma moça que parecia muito legal, perguntei sobre a minha rua. Ela abriu o Google Maps, pois tinha bateria no celular, parecia ser muito mais razoável e sensata que eu, e me levou até lá.
Era perto.
Nem acreditei.
Agradeci muito, e agora era a hora de achar o prédio. Qual seria? Eu subi e desci a rua (que, ok vai, nem é tão grande assim) tantas vezes que seria impossível contar. Acho que nunca passei tanta vergonha e tampouco passei tantas vezes pelas mesmas pessoas carregando compras estranhas de supermercado enquanto elas aproveitavam a sexta feira à noite. Foi ridículo, triste, exaustivo e hilário (para quem viu, não para mim).
Mas uma hora, eu avistei.
Aquele prediozinho, com uma gradezinha na frente, calma, eu lembrava daquela gradezinha, era lá. Era a minha casinha. Tinha chegado.
Sinal da cruz. Mais do que um, porque naquele dia Deus e todos os anjos estavam comigo.
Porém, havia mais uma barreira antes de entrar em casa, que era: qual seria o código para abrir a porta principal que levava ao pátio, que por sua vez me levaria ao meu apartamento? 132A? 891B? 67A9B? Tudo era possível, fiz algumas tentativas e só se ouvia um “PÉÉÉ” de uma campainha gritando que a garota das bananas e papel higiênico havia sido barrada. Mais vergonha, e o bar da frente devia estar se deliciando com a cena aos goles de um Bordeaux e uns bons tragos de sei lá o quê.
Me afastei, e fui para perto da esquina, com um pouco mais de luz, para pensar no que fazer. Será que alguém tinha um carregador nesses bares? Eu já começava a fazer careta para chorar, minhas sombrancelhas começaram a se contrair e se aproximar uma da outra, e meus olhos foram fechando para eu poder permitir que as primeiras lágrimas escorressem: onde eu estava? O que eu vim fazer aqui? Como sobreviver sem meu pai e minha mãe e meus amigos que falam a minha língua, e sem alguém pra me abraçar quando eu chegar em casa, se é que eu entraria em casa? Por que eu nunca fui organizada e não escrevi num papel todas as informações de Paris? Por que eu não fiquei em São Paulo?
Quando comecei a lacrimejar e cogitar a voltar para o Brasil dentro de uma hora, uma francesa saiu de um carro, e andou em direção ao meu prédio.
Não.
Será?
Ela parou na frente dele, e começou a digitar o código na porta. Eu, que nesta hora ainda estava na esquina dando uma olhada em tudo, e vendo se algum estabelecimento tinha cara de ter carregador pra celular, saí gritando “ME ESPERA” em todas as línguas que eu podia falar. Mas naquela hora eu não podia falar nenhuma, então não sei o que chegou aos ouvidos dela.
Mas ela ouviu.
Ela virou, me viu, me encarou um pouquinho, e me esperou. Eu me aproximei completamente sem ar, e, transbordando de alívio, expliquei que era nova ali, e toda a história (ela talvez não estivesse nada afim de escutar, mas teve que ouvir tudo sobre eu ser do Brasil, e a minha trajetória até aqui, e o parque, o café, o cachorro, a Boulangerie, minha família, o Carrefour e a gauche).
E entramos.
Subi as escadas.
Abri a porta do meu apartamento.
Cheguei.
Joguei tudo o que tinha nas nas mãos no chão, assim que pisei dentro de casa.
Comecei a lacrimejar ao respirar fundo e relembrar o filme da minha história até lá.
E depois passei a chorar.
A soluçar.
A berrar.
Até não aguentar mais.
Até perder o ar.
Até uma hora em que, com os olhos borrados de rímel e a vista bem embaçada depois de tanto choro, parei um pouco para olhar o meu novo apartamento com mais calma e cuidado.
Lá fora, alguém tocava sanfona e os jovens falavam alto aquela língua desconhecida, mas tão charmosa.
Em um papel eu li “Bienvenue”.
E então, uma onda começou a ser sentida em meus pés. Começou como uma cócega, um formigamentozinho engraçado, e foi aumentando.
Era um calor que passou pelos pés, pernas, pâncreas, e foi subindo por todos os órgãos que eu chamo de “estômago” quando me dou conta da existência, ou de “coração” se doem. Chegou até minha boca, e, sem mais nem menos, explodi.
Comecei a rir, e depois gargalhar.
Eu ri, mas eu ri tanto, que perdi a força, e sentei no chão, entre minha bolsa cheia de compras estranhas, o papel higiênico e as bananas.
E aí o riso foi virando choro, e chorei de novo.
E ri mais um pouco.
E comi uma banana.
Céus, o que foi isso?
E, assim, algo veio à minha mente, do jeito mais lindo que pode acontecer, quando a gente menos espera.
Uma constatação que demorou meses, anos, séculos, mas chegou:

Caramba. Isso pra mim é viver.

Nada é top

Não entendo a palavra top como adjetivo.

Viagem top, dia top, tarde top, noite top, evento top.

Nunca vi nem comi.

Para o ansioso fóbico, top é aquilo que segura o peito, e olhe lá. As coisas, para nós, são sobrevivíveis ou não. Sem mais nem menos nem top.

Viagem fazemos, sim, porém você não poderia imaginar pelo que passamos antes de te enviar aquela foto linda perto daquele ponto turístico, onde sorrimos como se aquilo fosse top.

Não é.

Acho que naquela foto a gente sorri tanto por ainda estar vivo. Por não ter morrido dentro do avião depois de uma crise traumatizante de ansiedade, onde teríamos que mobilizar toda a tripulação e atrapalhar a vida de todo mundo. Também sorrimos porque mesmo depois do avião, não desmaiamos de tanto chorar a falta que a casa e a cama da gente fazem depois de 12 horas longe delas, que são os lugares mais seguros para se estar em qualquer momento da vida. A pressão não baixou, nenhuma pontada no apêndice, tenho um chocolate na bolsa se a hipoglicemia vier dar um oi. Também sorrimos pois ainda não tivemos nenhuma infecção alimentar depois de ingerir alimentos locais, e isso é uma questão importantíssima.

Sorrimos a sobrevivência.

Viagens são bonitas, são interessantes, são engrandecedoras. Agora top, para o ansioso fóbico, não são.

Eventos sociais são sobrevivíveis até um certo horário, depois disso não são mais. O fóbico normalmente não sabe como agir. A gente aguenta firme até a hora em que: ou ficam todos bêbados nos lembrando que nunca mais saberemos o que é essa sensação (pois temos medo de perder o controle e qualquer droga nos assusta), e assim vamos embora de mansinho do lugar nos culpando por não ter dado tchau pra todo mundo; ou não aguentamos mais sorrir, tentar fazer todos gostarem da gente, e pedir desculpas das mais diversas formas depois que percebemos que sempre falamos alguma besteira, e só pensamos em conseguir cavar um buraco que dê diretamente no nosso quarto.

Normalmente, quando chegamos em casa depois de um evento considerado top, somos soterrados pelas perguntas: a fulana estava falando de mim? Ciclana achou que eu engordei? Por que eu falei aquilo pra mãe do beltrano? Por que razão eu teria nascido? E a gente só reza pra conseguir pegar no sono depois de tantos erros cometidos naquele evento que tem de tudo, menos de top.

Lugares lotados – shows, concertos, bloquinhos de rua, passeatas, feiras livres, eventos em parques, avenidas, ciclovias, praias, palestras cheias de gente ou qualquer outro tipo de lugar onde não tem como ficar perto da saída se qualquer coisa acontecer – são o mesmo que o inferno em formato de lugares lotados. Eles costumam nos lembrar que a nossa pressão é baixa, sim, que temos hipoglicemia, sim, que muito CO2 junto dá tontura, sim, e que não queremos dar um gole da sua bebida, não, vai saber o que pode ter dentro dela? Você ficou prestando atenção o tempo todo pra ver se não botaram boa noite cinderela dentro? Você não teria sem querer deixado alguma boca infectada encostar no lugar onde você sugere que eu coloque a minha boca? A bebida não tem álcool mesmo? E energético, você botou ali dentro? Quem garante? Isso vai me dar um revertério, eu vou lembrar dessa noite pra sempre, não vou conseguir dormir quando chegar em casa, e posso ter um troço de olhos abertos pois não vou pegar no sono nunca mais, e nada poderia ser pior do que isso.

É tudo menos top.

Outra coisa que o ansioso e fóbico não entende muito bem é esse negócio de usar o “festa open bar” como argumento para um evento top. Top mesmo seria “festa com hospital”, porque nunca se sabe, e qualquer coisa, já teria médico por perto. Muitas situações são possíveis num evento com mais de 03 pessoas, além de mim, meu pai e minha mãe, e eu não conseguiria e nem gostaria de listar todos aqui porque pode me dar muito, mas muito enjoo.

O que tem a ver com a personalidade do ansioso fóbico não dá medo, não causa ansiedade, e libera um hormônio que só a gente sabe qual é, que deve ter o nome de algo como “alivium”. Não estou na multidão – alivium; me responderam o e-mail e não encontrei a palavra louca nele – alivium; o médico disse que isso é normal e não quer dizer morte – alivium; a amiga me respondeu a mensagem de forma dócil, dando a entender que eu não saí da lista de amigos dela – alivium; consegui achar uma desculpa pra dormir abraçada com o meu urso de pelúcia em vez de ir numa balada open bar – alivium.

Dia e noite para o ansioso fóbico não são top, eles são passageiros, o que para nós é uma benção. Ufa, passou. Tô vivo(a), tô bem, vou tomar um chá de camomila pra comemorar. Então estamos bem felizes pois nos comportamos normalmente durante o dia, não chamamos a atenção de ninguém durante a noite, tudo parece bem civilizado, até entrarmos nas redes sociais e percebermos que a nossa vida é tão morna e sem graça perto da sua, que você teria dó se soubesse.

Aí ficamos tristes.

Choramos.

Abraçamos o travesseiro da nossa caminha na nossa casinha lendo nosso livrinho com nosso chazinho, e, de repente, sentimos uma coisa boa por nada daquilo ser top, mas ter a ver com a gente. Não saberíamos dizer, na verdade, se gostaríamos de estar no seu lugar naquela situação top ou não, pois agora estamos ok, e isso pra gente é a coisa mais top que poderia existir.

Fogo

Era botar fogo no corpo inteiro e sair correndo sem medo de existir como detento fugitivo que foi preso por falar de amor. Era falar palavra de furadeira, que entra fundo na pele de quem precisa saber, sem o menor pudor próprio daqueles que são catequizados para diferenciar o certo do errado. Era se aproximar daquilo que faz mal e tirar as próprias conclusões, porque o bem que isso traz mãe e pai não ensinam. Era o corpo sem temer a dor, porque é ela quem lembra da força que existe. Era aceitar a solidão como a melhor amiga de quem não está pronto para ser o que não é – era amá-la como parte essencial do processo de saber dizer não. Era o passado pedir desculpas por tudo, mesmo tendo consciência da sua importância – era aceitar as suas desculpas, mesmo sabendo que ele teria feito de novo. Era olhar para aquela imagem antiga sem querer chorar, só enxergando de um outro ângulo um tempo que não existe mais. Era subir numa bicicleta e pedalar pra longe da realidade que lembra todo o dia da burrice que foi inventar a realidade. Era entender que o inimigo é um espelho. Era aceitá-lo como quem faz as pazes com os erros cometidos. Era cometer mais erros sem pensar nos seus desdobramentos. Era se arrepender por esses erros, e cometer alguns outros. Era concordar com o fato de que crianças sabem mais. Era amar como quem vai embora pelo bem do outro. Era odiar como quem sabe que não cabe tanto amor. Era encontrar a paz no lugar do qual se tem mais medo. Era calar a boca das vozes que tentam impedir, e ir, delicadamente, atrás de uma história pra contar. Era agradecer as opiniões com muito respeito, e fazer tudo ao contrário. Era dar risada dos problemas criados para sair um pouco da rotina.
Era com o passar dos medos.
Era com o passar dos dias.
Era com o passar dos anos.
Depois de todos esses danos.