À Paris (continuação)

Eu não vou conseguir ficar nem uma semana neste lugar se eu não souber como falar “carregador” e “socorro”, pensei, enquanto seguia as orientações passadas por algum pedestre parisiense para chegar perto do Panthéon.
A única palavra que eu sabia em francês naquele momento parecia ser “perdue”, porque esta não posso esquecer. Nem sabia como eu tinha elaborado a frase completa explicando eu estava “perdue” e perguntando sobre a localização do Panthéon. Nem sei como lembrei do Panthéon. Na realidade, eu não sei se falei com alguém ou foi um delírio, mas nessas horas fica claro que Deus existe, pois parecia, pela paisagem, que eu estava me aproximando de lá.
Os franceses sabem muito de história, política, economia. Eu sei comer pain au chocolat, e escrevo quando posso. Eles são magros. Eu era até pisar aqui, tenho certeza que vou engordar. Eu não sei viver sem os meus pais por perto, franceses são independentes. Minhas irmãs fazem muita falta, não era pra eu estar tão sozinha, eu não sei morar sozinha, ninguém me ensinou a fazer isso, será que eu entro neste bar para tentar carregar o celular, tomar algum álcool e fazer amigos?
Mas naquela hora, eu tinha horror de bar, de álcool e de amigos.
Franceses não pensariam assim.
Como é que raios eu vim parar aqui?
Precisava ficar sozinha.
Como é que dá pra ser tão louca?
Tudo isso metralhava o meu pobre cérebro cansado e confuso, enquanto eu seguia as orientações que me passaram na rua para eu tentar chegar em casa.
Mas tudo estava muito difícil, o caminho era muito tortuoso, principalmente porque se tem algo que eu nunca decorei foi “direita” e “esquerda”. Não dá, tentamos de tudo (eu, minha família, professores, guardas de rua, médicos, colegas, bombeiros, desconhecidos, frentistas, CETs, policiais) todos já tentaram me ajudar com isso e nunca foi possível encontrar um método de memorização. Portanto, se em português não consigo, você pode imaginar em francês.
“Gauche” me lembra um poema de Drummond, não me lembra “esquerda”, que por sua vez é o lado do coração, ou o lado com o qual eu não escrevo, ou o lado que não é a “direita”. Gauche é o Carlos, gauche, para meus neurônios, não vira pra lugar nenhum.
Porém, em algum momento em que virei “à gauche”, passei por um Carrefour e aquilo me pareceu tão Brasil, tão meu bairro, tão mamãe, que quis entrar e comprar coisas para a minha casa. Não sei qual foi a lógica na hora da compra, mas saí de lá com produtos de limpeza, pão, leite, cereais, queijo, papel higiênico e bananas. Eu nem sabia o que estava faltando na casa, eu nem sabia do que eu precisava. Decidi que tudo aquilo era bastante necessário. Eu só me esqueci de que eu não tinha noção se estava perto ou longe do apartamento, e de que agora, além da bolsa, tinha que carregar aqueles produtos todos na mão – o rapaz do caixa me disse que eu teria que pagar a mais pela sacola, e eu achei que não valia a pena, precisava economizar, então coloquei tudo o que dava na bolsa e o resto – incluindo o papel higiênico – levei na mão.
Imagina.
Quis economizar na sacola.
E levei o papel higiênico na mão.
De qualquer forma, fui virando à esquerda, depois direita, depois eu vi uma Boulangerie e meus olhos brilharam ao avistar éclairs.
Era como se ursinhos carinhosos vestidos de cores pastel voassem ao meu lado e nada mais pudesse ser uma ameaça na minha vida.
Éclairs.
Entrei e perguntei quanto custava, como se naquele momento eu me importasse, e como se eu não tivesse economizado em uma sacolinha de plástico. Eu tinha necessidade de uma éclair, eu tinha todo o direito, eu estava perdida em outro país, eu podia comer mil éclairs se eu quisesse, era totalmente justo, e nada me engordaria naquele momento.
E, no fim, elas nem eram tão caras como estava acostumada. E eram brilhantes. E sortidas.
Comprei.
A atendente era tão gentil que me perguntei se ela não queria ser minha amiga. Adoraria perguntar se ela queria que fôssemos melhores amigas, para podermos passear juntas e ela me levar pra casa na volta. Talvez pudéssemos combinar alguma coisa para o final de semana, ela me ensinaria francês, e eu a ensinaria samba, aquele clichê de filme, mas que soava tão adorável naquele momento. Quando a gente come doce tudo é tão possível e bonito, e estar perdida nunca é um problema.
Acabei não perguntando se ela queria aprender a sambar, mas porque Deus existe, no momento do auge da éclair na minha boca, lembrei do nome da minha rua. Lembrei. Assim, como a água é molhada, lembrei.
Expliquei a minha história para ela, que rapidamente se convalesceu, e abriu o Google Maps no computador da Boulangerie. Vamos procurar onde fica, e você vai pra casa segura. Não me lembro como ela chamava, mas gosto muito de Julie, então vou chamá-la de Julie. Talvez terei uma filha cujo nome será Julie.
Julie, portanto, encontrou a minha rua no Google, saiu da Boulangerie comigo e foi me explicando o caminho para chegar lá (à gauche, à droite…). Na hora pareceu muito fácil, e eu disse que ela era muito querida e que eu voltaria lá para visitá-la com certeza e comprar mais éclairs e talvez pain au chocolat, e que havia sido muito adorável receber aquela ajuda e conhecê-la.
Nunca mais voltei para ver a Julie porque não soube encontrar o caminho até lá.
Fui virando pra lá e pra cá, e em algum momento cheguei em uma rua lotada de jovens que não seguravam papel higiênico e bananas nas mãos, mas sim cigarros e taças de vinho. Procurei por alguém com uma cara amigável, e quando achei uma moça que parecia muito legal, perguntei sobre a minha rua. Ela abriu o Google Maps, pois tinha bateria no celular, parecia ser muito mais razoável e sensata que eu, e me levou até lá.
Era perto.
Nem acreditei.
Agradeci muito, e agora era a hora de achar o prédio. Qual seria? Eu subi e desci a rua (que, ok vai, nem é tão grande assim) tantas vezes que seria impossível contar. Acho que nunca passei tanta vergonha e tampouco passei tantas vezes pelas mesmas pessoas carregando compras estranhas de supermercado enquanto elas aproveitavam a sexta feira à noite. Foi ridículo, triste, exaustivo e hilário (para quem viu, não para mim).
Mas uma hora, eu avistei.
Aquele prediozinho, com uma gradezinha na frente, calma, eu lembrava daquela gradezinha, era lá. Era a minha casinha. Tinha chegado.
Sinal da cruz. Mais do que um, porque naquele dia Deus e todos os anjos estavam comigo.
Porém, havia mais uma barreira antes de entrar em casa, que era: qual seria o código para abrir a porta principal que levava ao pátio, que por sua vez me levaria ao meu apartamento? 132A? 891B? 67A9B? Tudo era possível, fiz algumas tentativas e só se ouvia um “PÉÉÉ” de uma campainha gritando que a garota das bananas e papel higiênico havia sido barrada. Mais vergonha, e o bar da frente devia estar se deliciando com a cena aos goles de um Bordeaux e uns bons tragos de sei lá o quê.
Me afastei, e fui para perto da esquina, com um pouco mais de luz, para pensar no que fazer. Será que alguém tinha um carregador nesses bares? Eu já começava a fazer careta para chorar, minhas sombrancelhas começaram a se contrair e se aproximar uma da outra, e meus olhos foram fechando para eu poder permitir que as primeiras lágrimas escorressem: onde eu estava? O que eu vim fazer aqui? Como sobreviver sem meu pai e minha mãe e meus amigos que falam a minha língua, e sem alguém pra me abraçar quando eu chegar em casa, se é que eu entraria em casa? Por que eu nunca fui organizada e não escrevi num papel todas as informações de Paris? Por que eu não fiquei em São Paulo?
Quando comecei a lacrimejar e cogitar a voltar para o Brasil dentro de uma hora, uma francesa saiu de um carro, e andou em direção ao meu prédio.
Não.
Será?
Ela parou na frente dele, e começou a digitar o código na porta. Eu, que nesta hora ainda estava na esquina dando uma olhada em tudo, e vendo se algum estabelecimento tinha cara de ter carregador pra celular, saí gritando “ME ESPERA” em todas as línguas que eu podia falar. Mas naquela hora eu não podia falar nenhuma, então não sei o que chegou aos ouvidos dela.
Mas ela ouviu.
Ela virou, me viu, me encarou um pouquinho, e me esperou. Eu me aproximei completamente sem ar, e, transbordando de alívio, expliquei que era nova ali, e toda a história (ela talvez não estivesse nada afim de escutar, mas teve que ouvir tudo sobre eu ser do Brasil, e a minha trajetória até aqui, e o parque, o café, o cachorro, a Boulangerie, minha família, o Carrefour e a gauche).
E entramos.
Subi as escadas.
Abri a porta do meu apartamento.
Cheguei.
Joguei tudo o que tinha nas nas mãos no chão, assim que pisei dentro de casa.
Comecei a lacrimejar ao respirar fundo e relembrar o filme da minha história até lá.
E depois passei a chorar.
A soluçar.
A berrar.
Até não aguentar mais.
Até perder o ar.
Até uma hora em que, com os olhos borrados de rímel e a vista bem embaçada depois de tanto choro, parei um pouco para olhar o meu novo apartamento com mais calma e cuidado.
Lá fora, alguém tocava sanfona e os jovens falavam alto aquela língua desconhecida, mas tão charmosa.
Em um papel eu li “Bienvenue”.
E então, uma onda começou a ser sentida em meus pés. Começou como uma cócega, um formigamentozinho engraçado, e foi aumentando.
Era um calor que passou pelos pés, pernas, pâncreas, e foi subindo por todos os órgãos que eu chamo de “estômago” quando me dou conta da existência, ou de “coração” se doem. Chegou até minha boca, e, sem mais nem menos, explodi.
Comecei a rir, e depois gargalhar.
Eu ri, mas eu ri tanto, que perdi a força, e sentei no chão, entre minha bolsa cheia de compras estranhas, o papel higiênico e as bananas.
E aí o riso foi virando choro, e chorei de novo.
E ri mais um pouco.
E comi uma banana.
Céus, o que foi isso?
E, assim, algo veio à minha mente, do jeito mais lindo que pode acontecer, quando a gente menos espera.
Uma constatação que demorou meses, anos, séculos, mas chegou:

Caramba. Isso pra mim é viver.

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líquido

líquido como o suor frio do medo
da vida que me chutaram pra viver
sem me perguntarem se eu daria conta
das coisas dos outros de mim mesma
do sol das estrelas da infinidade de assuntos
que eu nunca vou entender
das situações em que eu nunca vou estar
das pessoas que eu nunca vou ser
verdade que um dia eu teria que saber

líquido como o seu amor
que chegou de mansinho feito visita
e foi dominando a sala a cozinha o meu quarto
me deixou sem palavras e me afogou em tanta coisa
que dói a cabeça e me faz chorar
não sei por que
a liquidez do tempo que tivemos pra viver

líquido como o relógio de Dalí
como a minha infância
que não tinha nome nem inveja
mas onde ainda está o balanço e a areia
que escorre da ampulheta
como líquido
daquela cachoeira daquele dia daquela época
que me fez saber que estava viva
apesar da dor de ter que entender

líquido como nós
escorrendo dos prédios
dos ônibus da sala de espera
dominando aos pouquinhos
calçadas avenidas espaços secos
saaras de solidão e corpos corcundas
de tanto caminhar em busca de sentido
pingando a falta de respostas
e esquizofrenicamente atrás da voz
que diz que precisa ter calma,
que tudo isso é fase, é líquido

líquido como a Marginal a Paulista a Capital
como a fuga pra qualquer lugar
pro fundo pra cima pra baixo pra direção nenhuma
onde não haja nada que seja
líquido como o desespero que desce com a saliva
quando está demorando pra passar
a hora em que o coração para de escorrer
pro nada
e passa a bombear novamente
o ar

o alívio de se ver fora da água
pra respirar a vida com lucidez
apesar da sua liquidez

Poema bom

poema bom
se encarrega do tempo
e da mente longa
desenvolve suas rimas
soltando cordas às mãos famintas
e concretiza o que nunca aconteceria
na cabeça dos que não podem
com o agora
 
poema bom
sopra ar fresco no suor da solidão
transforma a madrugada em um sonho doce
beija a pele queimada de elucubrar
e puxa o indivíduo do fundo
de onde quer que seja
para ele respirar
na beira de onde tenha nome
 
poema que presta
arranca a casca e deixa sangrar
até o corpo decidir estancar a dor
por si só;
ele abre a janela
para o presente entrar
e espera acordado
a dor condensar, os olhos cansarem,
e o passado, confortavelmente, dormir
 
poema que é poema
é gente do bem
ombro amigo
colo de alguém
desejo que surge
em meio à repressão:
o poeta se orgulha
e aceita, nem que só enquanto o poema,
que a tristeza vale a pena
 
poema bom
escreve com ele
toda a história do tal momento
e escreve aquilo tão bem escrito
que as horas o reverenciam
e correm rápido, o mais rápido possível
para contar às outras
a notícia que vem:
calma, que o futuro vai bem
 

Fuga

vou me mudar
pegar roupas e coisas velhas
bater tudo na janela
e ver o pó dançando
como quem quer esquecer
de que viver exige força

decidi uma hora
quando li a palavra fuga
alguém falava dela
como planejo o meu almoço
e vivia aquele filme
como eu enfrento as horas iguais

a iminência do abismo que nunca suga o meu melhor
e me deixa esperando de esmalte fresco

oras, pensei,
quem é que me pode me impedir?
na hora do almoço
também posso fugir

escrevi uma carta de adeus
borrada de choro
porque fuga sem drama
não vende ingresso

me preparei como José
quando sai pra vadiar
ou como Maria
quando o espera no quarto
de camisola e um resto de esperança

se for covardia
covardia será
porque não há maior covardia
do que a luz do dia
que diz no ouvido bem baixinho
que será de novo o dia
que nunca virá

vou me mudar
me livrar de roupas e coisas velhas
jogar tudo pela janela
e ver de cima meu passado
completamente desmantelado
implorando para eu esquecê-lo

– dizendo para eu dar meia volta
chutar aquela porta
e me abrir –

enfiar a camisola na mala
e me mudar daqui

Saída

O mundo deu as costas pra mim.

Então eu ajoelhei de frente para a parede branca, e pedi ajuda.

Rezei por horas, dias, anos, séculos.

Até perder a criatividade.

Quando achei que já havia esgotado todas as minhas possibilidades,

olhei para o lado e encontrei uma caneta.

Desenhei o mundo na parede.

Céu

Ela respira fundo, e dá o primeiro passo. O primeiro pulo. De criança a mulher. Ela cava um buraco bem fundo, o mais fundo que pode cavar, e ao se deparar com o inferno, joga nele tudo o que lhe aperta o peito. Mais leve, começa a perambular pelo universo com as asas da imaginação, em direção às constelações de campos de jasmim. Ela vai de um ponto a outro do mundo com seus próprios pés. Voa alto, alto, e ninguém pode segurar. Ela pula obstáculos, livra-se de armadilhas, empurra pessoas que a querem deter, e beija sem pudores os que torcem pela sua chegada. Ela se lambuza do que gosta, ela divide o que tem com a natureza, ela conversa com as estrelas – lampiões que contam histórias de pais para filhos. Ela brinca na areia, ela lambe o vento, ela abraça o sol com força – o amigo que sempre acalenta suas dores. Ela gira com os demais pássaros que a acompanham em sua jornada, ela tira fotografias com os olhos, ela filma com a sua memória.                                                    
Ela decide, ela luta, ela vive…

.

E no fim da amarelinha desbotada e pintada no chão da velha rua sem saída, a jovem mulher – contra o que todos imaginaram um dia – chega, finalmente, ao céu.

Lava a alma e leva a sombra que lava o que

Há de bom.

Leva a vida e atente à lava que leva o que

Há de bom.

Leva a lava, e deixe que a brisa leve ao que

Há de bom.

Lava o corpo e desbrava em ti o que leva ao que

Há de bom.

Descobre o que há, lava e leva daqui a dor que há de não ser o que

Há de bom.

Que há.