Eu aceito

Entro em um restaurante e pego um prato para me servir. Acho a textura dele estranha, e me pergunto se a louça daquele lugar é bem lavada.
Ouço um burburinho de alguns executivos ao meu lado na fila, mas nada me interessa, então lembro da anemia, e decido pagar caro por gordas de lascas de beterraba. Carne vermelha contém em si a dor do animal quando é abatido para virar comida, e isso é transmitido para aqueles que a comem – o resultado disso é raiva, depressão, ansiedade, desespero. Melhor evitar. E isso, claro, sem contar o processo de produção horrendo deste alimento.
O mundo é muito cruel.
Sento em uma mesa ao lado de duas moças que conversam sobre colesterol, uma ingerindo 03 ovos fritos, e a outra mergulhando num mar de bacon, e não lembro a última vez que senti o gosto de um ou outro – parei por medo da balança, do espelho, do LDL, pressão, Fleury, diagnóstico, doença.
As moças começam a falar sobre trabalho, e resolvo ceder ao celular que apita descontroladamente por atenção.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu aceito.
Eu digito o texto com as mãos trêmulas e as bochechas pegando fogo, como se estivesse falando “sim” a um jantar com meu amor platônico. Ou a uma vida de massagens gratuitas a qualquer momento em que o coração acelerasse. Ou ao fim do trânsito em São Paulo. Ou a um Kit Kat sem calorias. Eu digo ao editor que aceito a proposta, eu não posso mais sabotar esse desejo incontrolável de ser o que sempre quis, de fazer o que me faz bem, de publicar, finalmente, o que eu venho tentando desde a minha última encarnação: vou ser, oficialmente, uma escritora.
Não apenas quando der. Não somente quando o trabalho der uma aliviadinha. Não exclusivamente quando escrever for a única alternativa para eu achar a vida vivível (momentos únicos em que consigo jogar o resto pro alto, e não me culpar por isso).
Vou, apenas, somente, exclusivamente, escrever.
Eu aceito.
Termino de comer a lasanha, as batatas fritas e o ovo com bacon, peço um cheesecake com um café, e pago tudo sem remorso. Saio pra andar.
Acho as pessoas interessantes e amigáveis, brinco com um cachorro, dou a mão para um mendigo.
Paro na Augusta, corto o meu cabelo, me acho linda, e como mais um doce.
Lambo os dedos sem encharcá-los de álcool-gel.
Vou caminhando e sorrindo, o tempo não me assombra, as horas param, as cores de fim de ano iluminam o meu bem-estar.
Entro em um boteco, peço uma cerveja, e ligo para o plano de saúde: agora só Dr. Consulta, não vou mais deixar meu salário na conta da Amil. Não vou. Sou forte e saudável, e vou usar esse dinheiro para aproveitar mais os meus dias, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo.
Saio do bar e entro em uma agência de turismo: com o dinheiro dos livros, vou viajar. Dane-se tudo, nada mais me impede, vou desfrutar da minha juventude onde quer que seja que não aqui, vou parar com essa mania de prorrogar tudo, agora eu vou mesmo, não tenho medo.
Planejo tudo em 30 segundos, estou muito satisfeita, e saindo de lá decido avisar o meu médico que não preciso mais de remédio algum: estou ótima, doutor, estou em paz, estou livre de tudo aquilo, nem lembro mais como era, podemos parar por aqui. Obrigada, valeu, foi bom, mas agora vou me dedicar ao meu gatinho de estimação. À yoga. Ao trabalho voluntário. Ao sucesso do meu livro.
A mim mesma.
.
Pego o telefone, e respondo de uma vez por todas:
Eu já estou indo.
As duas moças ao meu lado continuam falando sobre trabalho, e eu preciso levantar pra continuar o meu.

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Epifania

Entrou no seu lugar preferido.
Quis se dar um presente diante daquele dia, ela merecia.
Pediu aquilo que mais gostava de comer, junto com a bebida mais próxima de um abraço.
Arrancou uma caneta da bolsa, pegou um guardanapo da mesa:

“Alma, sou eu de novo.
Achei pertinente te escrever, não só pelas saudades, mas pela novidade.
Eu sei que você sabe.
E que você sempre soube.
Não sei direito o que fazer com isso nas mãos. Eu sempre quis, mas agora que tenho, me parece tão inadequado.
Entregaram outro dia pra mim, tudo aquilo embrulhado pra presente. Desfiz o laço, descolei a fita adesiva, e abri o papel com cuidado para não rasgar, como sempre fiz.
Imagina, eu nunca adivinharia.
Quando abri, ela estava lá.
Olhando pra mim daquele jeito que você deve saber desde sempre, mas queria que eu descobrisse sozinha – como não poderia deixar de ser.
Na hora em que a vi me deu medo, não senti alívio e nem leveza, dá pra acreditar?
Eu parecia vazia, porque agora podia fazer o que quisesse – mas quem disse que era isso o que eu queria, Alma? A gente banca querer o que insiste em dizer que quer?
De onde eu vou buscar inspiração se não me apertar por dentro? Como melhora se eu não for chorar, e, se eu não chorar mais, é porque não dá vontade?
Isso é tão incabível pra mim.
Eu vou passar o dia todo sorrindo? Não dá cãibra? Não dói?
E os outros, Alma? Eu conto pro mundo todo, tiro foto, jogo na cara, esfrego nos seus olhos esbugalhados de insônia no meio da noite?
Mas isso não seria maldade?
Mais uma vez fui pega de surpresa. A vida dá dessas, né? A gente pede, implora, suplica. Quando temos, aí é outra história, não era bem assim, ainda não estou satisfeita, e tudo aquilo que você sabe melhor que ninguém, principalmente quando diz respeito a mim.
Alma, me responde:
Onde já se viu? Te darem a liberdade nas mãos, e você continuar se sentindo presa por você mesma?”
.
Foi embora pra casa entendendo da vida muito mais do que sabia antes de entrar no seu lugar preferido.
Diferente de muitos, as palavras sempre estiveram lá para ela.