Fuga

vou me mudar
pegar roupas e coisas velhas
bater tudo na janela
e ver o pó dançando
como quem quer esquecer
de que viver exige força

decidi uma hora
quando li a palavra fuga
alguém falava dela
como planejo o meu almoço
e vivia aquele filme
como eu enfrento as horas iguais

a iminência do abismo que nunca suga o meu melhor
e me deixa esperando de esmalte fresco

oras, pensei,
quem é que me pode me impedir?
na hora do almoço
também posso fugir

escrevi uma carta de adeus
borrada de choro
porque fuga sem drama
não vende ingresso

me preparei como José
quando sai pra vadiar
ou como Maria
quando o espera no quarto
de camisola e um resto de esperança

se for covardia
covardia será
porque não há maior covardia
do que a luz do dia
que diz no ouvido bem baixinho
que será de novo o dia
que nunca virá

vou me mudar
me livrar de roupas e coisas velhas
jogar tudo pela janela
e ver de cima meu passado
completamente desmantelado
implorando para eu esquecê-lo

– dizendo para eu dar meia volta
chutar aquela porta
e me abrir –

enfiar a camisola na mala
e me mudar daqui

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Assim me sinto menos só

há dias em que as palavras engasgam na garganta

correm soltas com o vento

escorregam pelos dedos

não se deixam ser desenhadas…

nessas horas,

eu só torço para alguém agarrá-las por mim

e me contar

o que eu sinto.

 

Mais um dia

Dou a volta ao mundo sem sair do lugar, toco o fundo do oceano da beira da praia, conheço o oriente ocidentalizando o meu jeito de ser. Norte e sul se misturam dentro de mim e a bússola gira em descompasso. Ninguém sabe onde eu estou, e eu sei que me perco nas profundezas de mim mesma a cada tentativa de pegar ar do lado de fora. Quando foi que isso aconteceu? O relógio também está desregulado, e não me aponta mais as horas, apenas os medos. Por que raios isso se deu? Astrólogos explicariam com base na posição dos planetas; cartomantes tirariam valetes e damas para dançar; médicos usariam bases científicas e investigariam meu código genético. A verdade é que nasci pra enfrentar a vida e me dar conta de que o tudo não passa do nada. A curiosidade corre solta dentro de cada célula daquilo que eu sou – mais um ser que habita o mundo dos sobreviventes – e me leva pra passear todo o dia pela Via Láctea me devolvendo em casa para a hora do jantar. A minha mente gira nos anéis de Saturno e volta pra minha alma em questão de milésimos de inseguranças, sem dar tempo de eu me preparar. Outro dia peguei carona na cauda de um dragão e fui entregue do inferno ao céu através de um impulso que a fera deu ao me ver chorar – os monstros nunca são tão maus quanto parecem ser.

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Hoje a noite está linda, o céu lotado de estrelas, e esperanças voltam a habitar meu corpo. Não há explicação astrológica, cartomante ou médica. Ligo o rádio e viajo pra longe daqui: amanhã é um novo dia.