batatas

a cabeça não
calava
toda aquela falação
de motos que buzinavam
toda a minha exaustão

esqueci quantos anos eu tinha
e se havia comprado as batatas,
céus, as batatas,
e voltando pro mercado
veio um cachorro
do meu lado

quis morar nos seus pelos
tão macios como a voz da minha avó
quando dizia pra correr
que o macarrão ia esfriar

eu pedia um minuto,
só mais um minuto
que era pro minuto
nunca mais se acabar

os tomates pro molho, o alho, a cebola,
e um refrão da música
que não cessava o martelar

o mesmo,
a mesma,
do mesmo

eu tinha 28
pois nasci em 88
mas as motos me lembravam
do horário do jantar

queria um cachorro
com cara de arcanjo
mas e o dinheiro que faltava
pra pagar meu bem-estar?

Freud dizia,
já cansado de explicar,
eu não entendia
já pequena de pensar

o farol fechava e toda a gente
parava
que era pra brincar com o tempo
que ninguém tem pra gastar

a roupa de Jocasta
o julgamento de Arnaldo
a conversa de Adélia
decisão de Juremar

tanta vontade de calar
aquela boca grande
daquela mente distante
que não sabia onde parar
 
céus, as batatas

 

 

 

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Nada é top

Não entendo a palavra top como adjetivo.

Viagem top, dia top, tarde top, noite top, evento top.

Nunca vi nem comi.

Para o ansioso fóbico, top é aquilo que segura o peito, e olhe lá. As coisas, para nós, são sobrevivíveis ou não. Sem mais nem menos nem top.

Viagem fazemos, sim, porém você não poderia imaginar pelo que passamos antes de te enviar aquela foto linda perto daquele ponto turístico, onde sorrimos como se aquilo fosse top.

Não é.

Acho que naquela foto a gente sorri tanto por ainda estar vivo. Por não ter morrido dentro do avião depois de uma crise traumatizante de ansiedade, onde teríamos que mobilizar toda a tripulação e atrapalhar a vida de todo mundo. Também sorrimos porque mesmo depois do avião, não desmaiamos de tanto chorar a falta que a casa e a cama da gente fazem depois de 12 horas longe delas, que são os lugares mais seguros para se estar em qualquer momento da vida. A pressão não baixou, nenhuma pontada no apêndice, tenho um chocolate na bolsa se a hipoglicemia vier dar um oi. Também sorrimos pois ainda não tivemos nenhuma infecção alimentar depois de ingerir alimentos locais, e isso é uma questão importantíssima.

Sorrimos a sobrevivência.

Viagens são bonitas, são interessantes, são engrandecedoras. Agora top, para o ansioso fóbico, não são.

Eventos sociais são sobrevivíveis até um certo horário, depois disso não são mais. O fóbico normalmente não sabe como agir. A gente aguenta firme até a hora em que: ou ficam todos bêbados nos lembrando que nunca mais saberemos o que é essa sensação (pois temos medo de perder o controle e qualquer droga nos assusta), e assim vamos embora de mansinho do lugar nos culpando por não ter dado tchau pra todo mundo; ou não aguentamos mais sorrir, tentar fazer todos gostarem da gente, e pedir desculpas das mais diversas formas depois que percebemos que sempre falamos alguma besteira, e só pensamos em conseguir cavar um buraco que dê diretamente no nosso quarto.

Normalmente, quando chegamos em casa depois de um evento considerado top, somos soterrados pelas perguntas: a fulana estava falando de mim? Ciclana achou que eu engordei? Por que eu falei aquilo pra mãe do beltrano? Por que razão eu teria nascido? E a gente só reza pra conseguir pegar no sono depois de tantos erros cometidos naquele evento que tem de tudo, menos de top.

Lugares lotados – shows, concertos, bloquinhos de rua, passeatas, feiras livres, eventos em parques, avenidas, ciclovias, praias, palestras cheias de gente ou qualquer outro tipo de lugar onde não tem como ficar perto da saída se qualquer coisa acontecer – são o mesmo que o inferno em formato de lugares lotados. Eles costumam nos lembrar que a nossa pressão é baixa, sim, que temos hipoglicemia, sim, que muito CO2 junto dá tontura, sim, e que não queremos dar um gole da sua bebida, não, vai saber o que pode ter dentro dela? Você ficou prestando atenção o tempo todo pra ver se não botaram boa noite cinderela dentro? Você não teria sem querer deixado alguma boca infectada encostar no lugar onde você sugere que eu coloque a minha boca? A bebida não tem álcool mesmo? E energético, você botou ali dentro? Quem garante? Isso vai me dar um revertério, eu vou lembrar dessa noite pra sempre, não vou conseguir dormir quando chegar em casa, e posso ter um troço de olhos abertos pois não vou pegar no sono nunca mais, e nada poderia ser pior do que isso.

É tudo menos top.

Outra coisa que o ansioso e fóbico não entende muito bem é esse negócio de usar o “festa open bar” como argumento para um evento top. Top mesmo seria “festa com hospital”, porque nunca se sabe, e qualquer coisa, já teria médico por perto. Muitas situações são possíveis num evento com mais de 03 pessoas, além de mim, meu pai e minha mãe, e eu não conseguiria e nem gostaria de listar todos aqui porque pode me dar muito, mas muito enjoo.

O que tem a ver com a personalidade do ansioso fóbico não dá medo, não causa ansiedade, e libera um hormônio que só a gente sabe qual é, que deve ter o nome de algo como “alivium”. Não estou na multidão – alivium; me responderam o e-mail e não encontrei a palavra louca nele – alivium; o médico disse que isso é normal e não quer dizer morte – alivium; a amiga me respondeu a mensagem de forma dócil, dando a entender que eu não saí da lista de amigos dela – alivium; consegui achar uma desculpa pra dormir abraçada com o meu urso de pelúcia em vez de ir numa balada open bar – alivium.

Dia e noite para o ansioso fóbico não são top, eles são passageiros, o que para nós é uma benção. Ufa, passou. Tô vivo(a), tô bem, vou tomar um chá de camomila pra comemorar. Então estamos bem felizes pois nos comportamos normalmente durante o dia, não chamamos a atenção de ninguém durante a noite, tudo parece bem civilizado, até entrarmos nas redes sociais e percebermos que a nossa vida é tão morna e sem graça perto da sua, que você teria dó se soubesse.

Aí ficamos tristes.

Choramos.

Abraçamos o travesseiro da nossa caminha na nossa casinha lendo nosso livrinho com nosso chazinho, e, de repente, sentimos uma coisa boa por nada daquilo ser top, mas ter a ver com a gente. Não saberíamos dizer, na verdade, se gostaríamos de estar no seu lugar naquela situação top ou não, pois agora estamos ok, e isso pra gente é a coisa mais top que poderia existir.

escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

Inferno

Hoje é domingo,  meia-noite, e eu sei que não vou dormir cedo. Acontecimentos, leituras perturbadoras e conversas profundas demais vão tagarelar com o meu ego, minha vontade de auto-preservação e meus medos a noite toda. Dizem que não podemos afirmar algo negativo com tanta devoção – se o fizermos, atraímos definitivamente o conteúdo para nós e o concretizamos na realidade – mais uma regra que busco seguir a cada dia que levanto da cama: me agarro nas palavras boas e empurro com o meu consciente as ruins. Mais dos “tenho que(s)”. Mais vertigem. E mesmo assim acho que não durmo fácil hoje.

.

Lembrei das redes sociais com o livro. Uma sala clara, olhos que não piscam (meus e os de meus companheiros de cela) determinando a falta de pausa para o descanso, a eternidade, a não existência da morte – isso sim é o inferno. O inferno é, também, a dependência do julgamento de outrem para eu decidir quem eu sou ou quem serei da próxima vez: quero agradar os olhos de quem me vê. Quero a perfeição, mas não a desejo simplesmente para o meu bem, eu a desejo para provar para os outros que sou perfeita. Eu vou a lugares para dizer que fui. Eu me pinto pra esconder as marcas, olheiras, cicatrizes e as dores que eu não quero que vejam – eu sei quem eu sou, e eu sei que tenho tudo isso dentro de mim. Tomo banho e me maquio todos os dias para não me tornar insuportável à sociedade. Abro uma ferramenta para ver o quão aceita eu sou, o quão amada permaneço, o quanto existo. Sem a ferramenta eu não me sinto viva. Sem os outros eu não me vejo no espelho, eu não sei quem eu sou. Sartre enfiou agulhas em baixo de cada uma das minhas unhas pintadas de vermelho-sangue: “O inferno são os outros”. E eles são.

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Me chicoteio a cada sinal de contrariedade. Cutuco minha pele a cada sinal de falha, até me ferir para substituir a dor emocional pela física. Anseio pela felicidade, e, quando acordo feliz, não sei como lidar com a plenitude: com ela se vão a minha inspiração e os questionamentos – eu não quero ter tudo, eu quero lágrimas, eu quero a cólera, pois eu quero ter objetivos. Eu odeio precisar querer tudo isso. Odeio precisar de qualquer coisa.

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Quantas pessoas estão conectadas agora? Quantas pessoas vão ler estas palavras? Quantas pessoas agora pensam, fumam, dançam, bebem, medicam-se, choram, riem, suicidam-se? O que é o mundo? Quem sou eu a não ser um perfil falso na tela reluzente de uma máquina irreal tentando mostrar o melhor de mim? A mentira dentro da mentira?

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Ando em direção à cama pedindo a Deus que me acorde quando eu souber quem eu sou, e quando eu consiga lidar com dias felizes sem me sentir vazia por isso. Eu quero me amar, mas será que é possível? Aquele cara olharia bem nos meus olhos e me encheria de porrada com as suas palavras ferventes de tão geladas: “Não. Você se conhece demais para isso”.

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E enquanto os outros não me conhecem bem, eu finjo ser quem não sou, quem sabe assim me amam mais, e eu finjo que encontrei a perfeição.