coisa boa

coisa boa
é uma menina de 6 anos que
procura um chiclete
cor-
de-
rosa
no bolso da sua capa de chuva
de verniz
cor-
de-
rosa
e que com dedinhos
sem digitais de tanto que ainda
têm a
descobrir
e unhinhas pintadas de bic
verde
acha
e sente o mesmo cheiro de
morango do mesmo chiclete
meio-
rosa
trinta anos depois enquanto
espera
clément
chegar

coisa boa é um trailer velho
de viajar sem
data
pra
volta
com um casal em nó dentro
e um mato bem

infinito

em
volta.
cores laranja na tela
desse filme que assistimos juntos
depois da mesa
nova
já instalada na nossa
nova
cozinha e a faxina que já fizemos com
produtos panos e nenhuma
maturidade

coisa boa é errar
feio
pela manhã, ter
medo
o dia inteiro de contar
o que
fez
pensar tanto em
tantas
c o n s e q u ê n c i a s
arrumar as malas pra ser expulso à
murros
e de noite ouvir que isso
não
é
nada
melhor dormir que
cansaço

aumenta

as

coisas

coisa boa é acordar com muitos
planos
que
deveriam
ser feitos
e ir dormir com os mesmos planos a
serem feitos
e batom por

toda

a

parte

porque hoje você mudou de
ideia
e ligou para
alguém
que mudou seus planos suas roupas sua
rima
e até secou seu cabelo
pra você
sonhar em

paz

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jamais deux sans trois

acordei e o domingo me deu febre

queimei minhas roupas
com uma carne quase viva
e as cinzas que voaram
me desfazendo em pequenas
peças de um quebra-cabeça
estilhaçado como vidro
cegaram todas as pessoas
que ainda acreditavam no meu
futuro

Você quer que eu te faça uma visita?

todas as festas que não fui
ainda estão com cheiro
de caixa de Marlboro cheia
assim que é aberta, e os doze dedos
de crianças que, excitadas
correm para acender e tragar
o primeiro cigarro e provar
pro mundo sua genialidade
mesmo que isso custe achar
que descobriu-se a beira
da Morte

o menino segurando firme
a perna da menina
que para um pouco
para pegar ar
e não pensar na conversa que teve com a
dona Lúcia da orientação educacional
e as luzes rosas verdes azuis
ainda se cruzam numa adolescência
que eu não tive
porque estava
tentando aprender a dançar
Sozinha

a cada beijo mais urgente que
eles dão
seus pais
que agora dormem
ao som de um filme ruim
respiram mais profundamente
embalados por uma certeza
própria
de pais que fazem o
possível

não sei nada sobre o
Amor
a não ser que na semana passada
eu achei que tinha entendido
quando vi um homem abraçando
a sua bengala
e negando ajuda para não
ofendê-la
amanhã eu vou achar que vou saber
quando receber um sinal seu
e há três dias eu terei medo de
descobrir

suspeito que um dia te direi
eu te amo, e depois você
também
e, então, nos
chamarão de mentirosos

e seremos

Você não acha que as coisas estão estranhas?

alguns amigos meus não existem
e nem sabem que eu os considero Amigos
mas eu lembro deles quando o dia
engatinhando
alcança meu
lençol perfumado de um corpo
Só,
que mesmo enrolado em ideias futuras
é capaz de voar

e me pergunto se eles ainda estão na
festa

eu poderia ir à casa deles
agora mesmo
caso estejam de ressaca
aos cinquenta e poucos anos,
de tanto que imaginam
um futuro que está difícil de alcançar
porque foi ontem
e a cada ano fica mais difícil
porque era no ano passado
e naquela festa era tão longe
e agora é tão hoje

eu cuidaria de todos com
as palavras
que eu colhi como flores quando saí
em companhia do meu avô
que nunca conheci,
mas que nunca me abandonou
ao me pegar pela mão
e me mostrar o caminho
das flores

mas, isso é só desculpa,
pra dizer
que eu cuidaria
é de você

se você quiser, levaria algo pra gente tomar
e queijos que vou
comprar na fromagerie
podíamos falar sobre qual é a hora do dia que
lembra mais das nossas peles
que já não são mais tão plásticas
e se movem querendo
entrar e sair da gente
ficando a cada ano mais parecidas
com papel crepom

ou falaríamos sobre qual é o momento
exato em que
tememos a perda da vaidade
para uma
Paixão
que vai nos tornar
miseráveis
e nos fazer gostar
da cor opaca de domingo

mas no caminho para a sua casa
já com os queijos na mão
estava anoitecendo e luminárias
de rua
dessas ruas que não muita gente conhece
estavam pifando
acendendo e apagando
no compasso de uma canção
nunca escrita
e aí eu me vi sentada na aula de música
tentando tocar flauta, pensando que seria
muito bonito
apresentar aos meus pais
e deixá-los orgulhosos

mas passou

e não fui ginasta, não fui atriz de dar
autógrafo, não fui ao Jô
e a flauta foi tocada só no chão de tacos
em quebra-cabeça do meu quarto
quando eu imaginava o palco e treinava
Aquarela do Brasil
o mais escondida possível
para fazer surpresa

nem sei porque estou te contando,
mas

é que há dois dias eu percebi que o domingo
anda me seduzindo a cada semana
não importa quantos
pássaros de domingo
roçando as unhas no tijolo,
e batendo asas pra tentar me lembrar
que é domingo

da cama eu imagino nós dois
no sofá da sua sala

eu colocaria meus pés embaixo das suas pernas
fingindo uma intimidade que não temos
você ficaria sem graça
mas aparentaria estar em paz
e talvez falássemos de algo mais
pessoal
dependendo do que bebêssemos
brincaríamos dizendo
jamais deux
sans trois

ou então eu podia até ouvir você contar
daquela mulher pela qual você está
apaixonado

e tudo bem

porque depois eu ligaria o som
e perguntaria mais e mais
e te daria mais e mais
vírgulas espaços reticências
e minha alça que está caindo
sem querer

até você se embebedar
no seu próprio desejo
e aceitar levantar

pegar na minha cintura

e dançar comigo
na luz opaca de
domingo

Partes Pessoais

Joana viu aquela pomba esmagada com suas tripas, penas e poucas cores expostas ao mundo, no asfalto da rua de cima. A infeliz da ave nem teve tempo de virar de costas e esconder a cara e o peito, partes tão pessoais. Era tão nojento e verdadeiro que não dava pra não olhar. Era como passar por um acidente na rua, que quanto mais trágico, mais todo mundo para por mais tempo pra contemplar a sorte que é não estar no lugar dos que se ferraram naquele dia. Daí o papai começava a chamar por uma tal de Cacilda, que não se sabia quem era, Joana já tinha perguntado, e ele não respondia: “Cacilda! Vagabundos que não trabalham. Não têm que chegar no trabalho, não, inúteis? Ê, bando de esquerdistas vagais! Cacilda!”.

Os olhos da ave azarada pulavam pra fora, tentando entender se tinham morrido ou se era só mais um pesadelo. Joana sabia bem como era ter os olhos assim no meio da noite. Já tinha acontecido no dia em que sonhou que estava pelada na frente da classe e menstruava pelo chão de madeira, enquanto todos, inclusive o Felipe, riam e apontavam.

As asas da falecida não tinham mais nenhuma utilidade. Estavam cortadas, que nem as vontades de Joana, quando era proibida, por exemplo, de sair na chuva pra dançar e sentir a roupa toda grudando e escorrendo por suas formas cada dia mais evidentes. O bico da ave que havia aceitado tanta migalha até hoje, estava boquiaberto com a novidade.

Morrer saciava.

Que nem a boca do vô José aos domingos, quando tirava soneca depois da feijoada e de uns copos de água benta que fazia ele ficar vermelho e falar enrolado. Ele também parecia morto dormindo. Joana não queria que o avô morresse, mas o tio Carlos queria – ouviu a avó dizendo outro dia, parece que assim tio Carlos raparia tudo. O que era “rapar”, Joana não sabia. Tio Carlos era o homem mais feio que Joana já tinha visto. Mas ao contar esse segredo pra Clarinha, sua melhor amiga, Clarinha disse que achava que todo mundo tem um tio feio que só pensa em rapar tudo. Clarinha era sempre muito sábia, mesmo sem saber de tudo.

Acabou para a pomba.

Para Joana também acabaria. Para o avô também, e para a mãe também. Para a Clarinha e para o Felipe, com quem Joana casaria, também. Para o pai também. E até para o tio Carlos, que parecia não saber. Para a sua árvore preferida, cheia de limões pequenos e bondosos, e para a tia Teca, que não entendia ser possível sobreviver sem um homem ao lado, também. Para o Seu João da pipoca, Valdemira da limpeza, para o cachorro pulguento e cheio de sarna da praia da areia boa, também. Para a gata Caramelo e para as mulheres peladas que o irmão via na televisão à noite, acabaria. Para o primo débil que não largava o vídeo game, e só sabia falar disso, também acabaria. Acabaria para a professora Georgina e para o garçom magrelo da pizzaria, que sempre convencia Joana a comer também os legumes, e não só o queijo da pizza. Acabaria até para o mar e para o céu e para o sorveteiro Bebeto. Para Gigi, a sua prima mais linda do mundo que dava raiva e vontade mesmo que ela morresse, assim paravam um pouco de elogiá-la, também. E acabaria para a chuva, para as tardes de chuva, para as manhãs ardidas antes das tardes de chuva. Para o asfalto que exalava um cheiro de chuva antes mesmo da chuva.

Daria saudades do ódio da chuva naqueles dias de verão. Joana entendia daquele ódio. Era o ódio daqueles que querem expor suas razões e não são ouvidos pois não têm idade suficiente – de repente, eles ficam tão bravos de serem impedidos, que não se seguram e descem destruindo tudo o que veem pela frente.

Chover era vingança, e um dia Joana choveria.

Acabaria para aquele porteiro novo que procurava algo nas suas pernas de criança, algo que ela não sabia o que era, e fazia ela se envergonhar. Acabaria para a velha do terceiro andar que apertava a sua bochecha forte, de tanta inveja por ser velha e baforenta, enquanto Joana era nova e escovava os dentes. Acabaria para o elevador, seria o fim do apartamento onde morava, e do peixe betta que ganhou de lembrancinha numa festa, e que matou todos os outros peixes do aquário, achando ser possível, assim, evitar a própria morte. Ele que se enganava. Acabaria para ele também.

– Ué, Joana, cadê o pão?

– Não trouxe ainda. Vim buscar uma capa antes de ir à padaria.

– Capa? Mas já está chovendo, filha?

– Não. Mas quero esconder as minhas partes pessoais.

nunca ninguém

nunca ninguém me perguntou
se eu gostava de ser gente

quando eu era pequena
coisa que ainda sou
achava muito chato me chamarem
de nomes que não eram meus
me jogarem areia no cabelo
sem eu pedir
fazerem
eu me sentir
um cachorro sem patas pra correr
coisa que só gente
é capaz de fazer

quando eu era pequena
coisa que não deixei de ser
eu queria ser um cachorro
mesmo que sem patas
pra ser cuidada de verdade
por alguém que chorasse
minha irracionalidade

até hoje ninguém me perguntou
se eu gosto de ser gente

quando eu era pequena
coisa que vou morrer sem saber
ser
queria ter berrado no ouvido deles
bem alto
estourado tímpanos
ao dizer:

sou cachorro e valho mais do que vocês

em vez de me encorujar
no corpo que restava
encaretar a boca pra chorar
por todos os anos que viriam
por todas as respostas que eu deixei
pra falar depois em poesia

e, sem nem titubear
queria olhar bem fundo
nos olhos deles
mostrando meus caninos,
tão amada,
ao prever:

ainda bem
que eu não nasci vocês

batatas

a cabeça não
calava
toda aquela falação
de motos que buzinavam
toda a minha exaustão

esqueci quantos anos eu tinha
e se havia comprado as batatas,
céus, as batatas,
e voltando pro mercado
veio um cachorro
do meu lado

quis morar nos seus pelos
tão macios como a voz da minha avó
quando dizia pra correr
que o macarrão ia esfriar

eu pedia um minuto,
só mais um minuto
que era pro minuto
nunca mais se acabar

os tomates pro molho, o alho, a cebola,
e um refrão da música
que não cessava o martelar

o mesmo,
a mesma,
do mesmo

eu tinha 28
pois nasci em 88
mas as motos me lembravam
do horário do jantar

queria um cachorro
com cara de arcanjo
mas e o dinheiro que faltava
pra pagar meu bem-estar?

Freud dizia,
já cansado de explicar,
eu não entendia
já pequena de pensar

o farol fechava e toda a gente
parava
que era pra brincar com o tempo
que ninguém tem pra gastar

a roupa de Jocasta
o julgamento de Arnaldo
a conversa de Adélia
decisão de Juremar

tanta vontade de calar
aquela boca grande
daquela mente distante
que não sabia onde parar
 
céus, as batatas