Fuga

vou me mudar
pegar roupas e coisas velhas
bater tudo na janela
e ver o pó dançando
como quem quer esquecer
de que viver exige força

decidi uma hora
quando li a palavra fuga
alguém falava dela
como planejo o meu almoço
e vivia aquele filme
como eu enfrento as horas iguais

a iminência do abismo que nunca suga o meu melhor
e me deixa esperando de esmalte fresco

oras, pensei,
quem é que me pode me impedir?
na hora do almoço
também posso fugir

escrevi uma carta de adeus
borrada de choro
porque fuga sem drama
não vende ingresso

me preparei como José
quando sai pra vadiar
ou como Maria
quando o espera no quarto
de camisola e um resto de esperança

se for covardia
covardia será
porque não há maior covardia
do que a luz do dia
que diz no ouvido bem baixinho
que será de novo o dia
que nunca virá

vou me mudar
me livrar de roupas e coisas velhas
jogar tudo pela janela
e ver de cima meu passado
completamente desmantelado
implorando para eu esquecê-lo

– dizendo para eu dar meia volta
chutar aquela porta
e me abrir –

enfiar a camisola na mala
e me mudar daqui

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