jamais deux sans trois

acordei e o domingo me deu febre

queimei minhas roupas
com uma carne quase viva
e as cinzas que voaram
me desfazendo em pequenas
peças de um quebra-cabeça
estilhaçado como vidro
cegaram todas as pessoas
que ainda acreditavam no meu
futuro

Você quer que eu te faça uma visita?

todas as festas que não fui
ainda estão com cheiro
de caixa de Marlboro cheia
assim que é aberta, e os doze dedos
de crianças que, excitadas
correm para acender e tragar
o primeiro cigarro e provar
pro mundo sua genialidade
mesmo que isso custe achar
que descobriu-se a beira
da Morte

o menino segurando firme
a perna da menina
que para um pouco
para pegar ar
e não pensar na conversa que teve com a
dona Lúcia da orientação educacional
e as luzes rosas verdes azuis
ainda se cruzam numa adolescência
que eu não tive
porque estava
tentando aprender a dançar
Sozinha

a cada beijo mais urgente que
eles dão
seus pais
que agora dormem
ao som de um filme ruim
respiram mais profundamente
embalados por uma certeza
própria
de pais que fazem o
possível

não sei nada sobre o
Amor
a não ser que na semana passada
eu achei que tinha entendido
quando vi um homem abraçando
a sua bengala
e negando ajuda para não
ofendê-la
amanhã eu vou achar que vou saber
quando receber um sinal seu
e há três dias eu terei medo de
descobrir

suspeito que um dia te direi
eu te amo, e depois você
também
e, então, nos
chamarão de mentirosos

e seremos

Você não acha que as coisas estão estranhas?

alguns amigos meus não existem
e nem sabem que eu os considero Amigos
mas eu lembro deles quando o dia
engatinhando
alcança meu
lençol perfumado de um corpo
Só,
que mesmo enrolado em ideias futuras
é capaz de voar

e me pergunto se eles ainda estão na
festa

eu poderia ir à casa deles
agora mesmo
caso estejam de ressaca
aos cinquenta e poucos anos,
de tanto que imaginam
um futuro que está difícil de alcançar
porque foi ontem
e a cada ano fica mais difícil
porque era no ano passado
e naquela festa era tão longe
e agora é tão hoje

eu cuidaria de todos com
as palavras
que eu colhi como flores quando saí
em companhia do meu avô
que nunca conheci,
mas que nunca me abandonou
ao me pegar pela mão
e me mostrar o caminho
das flores

mas, isso é só desculpa,
pra dizer
que eu cuidaria
é de você

se você quiser, levaria algo pra gente tomar
e queijos que vou
comprar na fromagerie
podíamos falar sobre qual é a hora do dia que
lembra mais das nossas peles
que já não são mais tão plásticas
e se movem querendo
entrar e sair da gente
ficando a cada ano mais parecidas
com papel crepom

ou falaríamos sobre qual é o momento
exato em que
tememos a perda da vaidade
para uma
Paixão
que vai nos tornar
miseráveis
e nos fazer gostar
da cor opaca de domingo

mas no caminho para a sua casa
já com os queijos na mão
estava anoitecendo e luminárias
de rua
dessas ruas que não muita gente conhece
estavam pifando
acendendo e apagando
no compasso de uma canção
nunca escrita
e aí eu me vi sentada na aula de música
tentando tocar flauta, pensando que seria
muito bonito
apresentar aos meus pais
e deixá-los orgulhosos

mas passou

e não fui ginasta, não fui atriz de dar
autógrafo, não fui ao Jô
e a flauta foi tocada só no chão de tacos
em quebra-cabeça do meu quarto
quando eu imaginava o palco e treinava
Aquarela do Brasil
o mais escondida possível
para fazer surpresa

nem sei porque estou te contando,
mas

é que há dois dias eu percebi que o domingo
anda me seduzindo a cada semana
não importa quantos
pássaros de domingo
roçando as unhas no tijolo,
e batendo asas pra tentar me lembrar
que é domingo

da cama eu imagino nós dois
no sofá da sua sala

eu colocaria meus pés embaixo das suas pernas
fingindo uma intimidade que não temos
você ficaria sem graça
mas aparentaria estar em paz
e talvez falássemos de algo mais
pessoal
dependendo do que bebêssemos
brincaríamos dizendo
jamais deux
sans trois

ou então eu podia até ouvir você contar
daquela mulher pela qual você está
apaixonado

e tudo bem

porque depois eu ligaria o som
e perguntaria mais e mais
e te daria mais e mais
vírgulas espaços reticências
e minha alça que está caindo
sem querer

até você se embebedar
no seu próprio desejo
e aceitar levantar

pegar na minha cintura

e dançar comigo
na luz opaca de
domingo

Anúncios

Perdas

Perdas que lambem a alma
Se misturam à lágrimas
Que desembocam no rio
Das mágoas que precisam ser sentidas
Correm
Evaporam e viram vento
De paz
 
Perdas que soltam as pernas
Antes tão pesadas
Ancoradas à vidas passadas
Que insistiam na inércia
Acorrentadas a uma regra
Do ser quem nunca
Se foi
 
Perdas tão necessárias
Sem as quais as horas param
A mente adoece
A dor é quase palpável
E os dias
De dias não têm nada
Só escuridão
 
Perdas que libertam desejos
Antes nunca consideráveis
Que abrem espaço na mata
Antes tão assustadora
E que nos levam pelas mãos
Em direção à luz
De uma vida melhor

Mãos

As mãos sabiam.

As mãos dela que cobriram seu próprio rosto em um momento de pavor horas antes do filme, e que, freneticamente, pesquisaram tudo sobre a vida de um outro homem um pouco antes disso. E as dele que, por manipulação do acaso, encostaram no cabelo da colega de trabalho na festa de confraternização da noite anterior, trazendo às suas mãos uma quentura de horror e satisfação;

Aquelas mãos sabiam.

As mãos dele que hesitaram tanto no primeiro encontro dos dois, suadas, quentes e tremidas, mas determinadas a pegar nas mãos dela pela sempre manipulação do acaso – como era de sua personalidade –; e as mãos dela pintadas de vermelho depois de muito cálculo, que sem pudor nenhum e cansadas de esperar, se colocaram cada uma de um lado do rosto dele antes do primeiro toque das bocas;

Estas mãos sempre souberam.

Feito mãos que querem tocar um piano inventado – perdidas, descontroladas e até humilhadas -, assim estavam as mãos deles dentro daquele cinema antes da consciência saber o que as mãos sabiam. As mãos dela fingindo que o cabelo não ficava do jeito que ela queria para ganhar tempo, as dele encenando aliviar a dor das pernas cansadas da corrida matinal para não ter que. As mãos não queriam se encontrar e admitir uma pra outra;

Mas, ah, como aquelas mãos sabiam.

As mãos dele que já conheciam de cor cada curva do corpo dela, e sentiriam falta delas quando tocassem o corpo esguio da colega de trabalho não encontrando nele os caminhos com que estavam acostumadas. E as dela que aprenderam a massagear ele de um jeito que mão alguma conseguiria, e que não queriam aprender a fazer o mesmo em ninguém mais, mesmo que fosse aquele outro homem, por falta de familiaridade e também de paciência;

Aquelas quatro mãos, infelizmente, sabiam.

Como mãos que colocam na pia um copo depois de virarem tudo o que havia dentro dele na boca, aquelas mãos não sabiam mais o que fazer. Elas já tinham feito de tudo. Não havia mais. Não havia palavra, promessa, gesto ou prosa que pudesse mudar aquilo que as mãos já podiam tocar. Duas eram dor, quatro dor demais. Só que o vazio era tanto, e era tão grande, que dava medo de entrar nele sem as mãos do outro;

Mas as mãos sabiam, e sabiam de um jeito, que não podiam mais esconder.

E foi naquele cinema que eles também souberam. Na hora em que por acaso, sem nenhuma manipulação de ninguém a não ser das mãos, os dedos frios, enrugados e pálidos dos dois se encontraram e se seguraram forte, com a pouca força que ainda restava. Não pela paixão do primeiro encontro, não pela felicidade de estar ao lado de quem se conta as horas para estar, não por prazer, e nem por amor. As mãos se prenderam com força para poderem se soltar depois. Por pura saudade do que viria;

Porque elas já sabiam.