os últimos a saber

encontrei em crianças que
nunca nasceram
berço e permanência
nos entendemos muito bem
desde o dia em que nos foi
apresentada a vida:
tivemos preguiça

é que as crianças
que nunca nasceram
não querem achar aos 16
terem entendido
e descobrirem, aos 43
estarem devendo

elas não querem abrir a geladeira
esperando encontrar dentro dela
algo novo
sem que precisemos dizer
o que elas hão de
descobrir:
solidão não
faz as compras
e o vazio não
sente pena

as crianças que nunca
nasceram
não querem se ver
imbecis
quando apaixonadas
oferecendo a quem se ama
dicas honestas
sobre alguém
que elas fingirão ser
com muito cuidado e
dedicação
até acreditarem
na sua própria
invenção

elas têm horror
de pensar em falar
sobre sexo
com os próprios filhos
ou pior
com os próprios pais
ou, ainda pior
sobre a falta dele
com alguém que um dia
amaram

as crianças que
nunca
nasceram
não querem fazer
café de filtro num sábado
bege
se questionando por que
não responderam
a Natasha naquele recreio
ou quais são as razões
de não acompanharem
séries, política, convenções
ou mentiras
de semelhantes
proporções

elas tentarão
com muito empenho
agradar

forçarão risada
e pagarão em muitas vezes
uma roupa que nem
as favorece
engolindo a opinião de que
nada disso
é interessante

porque o
mundo
gira

mas palavras não ditas
enchendo as estantes
de vozes em luto;
sonhos bons acabados
tão rápido
como uma segunda de verão
em que não se sabe se
é segunda ou meio-dia;
e antigas dores de amor
que ressurgem
assim que foram
esquecidas

continuam os mesmos

e, se algo ainda muda,
eu e minhas crianças
que
nunca
nasceram
sempre fomos
os últimos
a saber

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nunca ninguém

nunca ninguém me perguntou
se eu gostava de ser gente

quando eu era pequena
coisa que ainda sou
achava muito chato me chamarem
de nomes que não eram meus
me jogarem areia no cabelo
sem eu pedir
fazerem
eu me sentir
um cachorro sem patas pra correr
coisa que só gente
é capaz de fazer

quando eu era pequena
coisa que não deixei de ser
eu queria ser um cachorro
mesmo que sem patas
pra ser cuidada de verdade
por alguém que chorasse
minha irracionalidade

até hoje ninguém me perguntou
se eu gosto de ser gente

quando eu era pequena
coisa que vou morrer sem saber
ser
queria ter berrado no ouvido deles
bem alto
estourado tímpanos
ao dizer:

sou cachorro e valho mais do que vocês

em vez de me encorujar
no corpo que restava
encaretar a boca pra chorar
por todos os anos que viriam
por todas as respostas que eu deixei
pra falar depois em poesia

e, sem nem titubear
queria olhar bem fundo
nos olhos deles
mostrando meus caninos,
tão amada,
ao prever:

ainda bem
que eu não nasci vocês

noite que segue

A noite era clara.

O cheiro queria ser de carro novo, não fosse o bafo das milhares de histórias que sentaram dentro daquele automóvel em um curto espaço de tempo. Eu segurava um chocolate quente nas mãos, porque o dia era frio e porque me presenteio quando a visão acinzenta e os órgãos trocam de lugar – podia sentir meu cérebro se contorcendo no estômago, o coração nas pontas dos dedos e o fígado explodindo na cabeça.

O motorista queria conversar, e eu respirar. Então eu concordava até com o que eu era contra para não gerar polêmica e mais assunto. Não imaginava que a palavra “aham” podia ser tão útil e ansiolítica, descobri naquela noite.

Eu estava no meu inferno astral, o pai dele tinha morrido. Eu não sabia tomar decisões, ele era Uber, mas prestaria concurso público. Eu cogitei tomar metade do remédio, ele questionou sobre a publicidade. Tive certeza de que tomaria o remédio inteiro, ele perguntou se choveria.

Eu não sabia.

Tem horas em que tudo o que a gente sabe, é que a gente não quer saber de nada. Éramos só nós dois dentro daquele carro, tentando aliviar o peso de saber que éramos só mais dois em meio a tantos outros. Só não pesava tanto quanto ver o rapaz oferecendo amendoim crocante, apenas um real, enquanto estávamos parados no trânsito. Porque não andávamos de ônibus como ele provavelmente fazia? Quem a gente achava que a gente era?

Aham, à direta aqui. Aham, faz seu caminho, pior não fica. Aham, posso abrir o vidro? Aham, concordo. Ah, foi uma pergunta? Eu não sei, realmente.

Aham.

É que quando o meu estômago está cheio de cérebro e meu fígado fica atacado dentro da minha cabeça, fazendo meu coração bater nas pontas dos dedos, eu só sei que isso tudo não orna, não casa, não faz sentido, essa bola cheia de gente em cima, 70% água, e a água que não cai, e a terra que engole o que é meu, o que é seu, o trabalho, as pessoas, e o outro, o outro, o outro, opiniões e julgamentos orquestrando palavras e gestos e batimentos, e o ônibus que eu não peguei enquanto respondia tudo ao contrário do que eu queria.

Aquilo era a vida que eu não vivia.

À direita, aqui, moço. Final do quarteirão à esquerda, tá? Aham. Ah, sobre isso não sei. É, sei lá, pode ser. Realmente não sei de nada hoje, moço, desculpa, só sei que a noite está clara, né?

Bati a porta do carro me perguntando porque eu não peguei um ônibus, mas não soube responder. Dormi pensando na resposta, me culpando por isso e pelo chocolate quente, enquanto meus órgãos buscavam seus devidos lugares dentro de mim.

A noite seguia clara.

Tudo bem

tão de tudo
que o tanto
que aperta o peito
tão já sentido
daquilo
tudo bem

é tanto pra falar
do mundo
e seus absurdos
que arranha
com a saliva
que tenta descer
e tudo bem

tantos passos
e o tanto que sabe
que deveria estar
onde jamais esteve
e a dor que a noite traz
do mesmo lugar de sempre
tudo bem

tanta incoerência
de gente que perdeu
a hora de brincar
e ganhou
o cinza
a fumaça
os berros
a doença
o vazio
a seca
e toda a gente
que não aceita
de forma alguma
que não está bem

que tudo bem
não estar bem

Saída

O mundo deu as costas pra mim.

Então eu ajoelhei de frente para a parede branca, e pedi ajuda.

Rezei por horas, dias, anos, séculos.

Até perder a criatividade.

Quando achei que já havia esgotado todas as minhas possibilidades,

olhei para o lado e encontrei uma caneta.

Desenhei o mundo na parede.