Fogo

Era botar fogo no corpo inteiro e sair correndo sem medo de existir como detento fugitivo que foi preso por falar de amor. Era falar palavra de furadeira, que entra fundo na pele de quem precisa saber, sem o menor pudor próprio daqueles que são catequizados para diferenciar o certo do errado. Era se aproximar daquilo que faz mal e tirar as próprias conclusões, porque o bem que isso traz mãe e pai não ensinam. Era o corpo sem temer a dor, porque é ela quem lembra da força que existe. Era aceitar a solidão como a melhor amiga de quem não está pronto para ser o que não é – era amá-la como parte essencial do processo de saber dizer não. Era o passado pedir desculpas por tudo, mesmo tendo consciência da sua importância – era aceitar as suas desculpas, mesmo sabendo que ele teria feito de novo. Era olhar para aquela imagem antiga sem querer chorar, só enxergando de um outro ângulo um tempo que não existe mais. Era subir numa bicicleta e pedalar pra longe da realidade que lembra todo o dia da burrice que foi inventar a realidade. Era entender que o inimigo é um espelho. Era aceitá-lo como quem faz as pazes com os erros cometidos. Era cometer mais erros sem pensar nos seus desdobramentos. Era se arrepender por esses erros, e cometer alguns outros. Era concordar com o fato de que crianças sabem mais. Era amar como quem vai embora pelo bem do outro. Era odiar como quem sabe que não cabe tanto amor. Era encontrar a paz no lugar do qual se tem mais medo. Era calar a boca das vozes que tentam impedir, e ir, delicadamente, atrás de uma história pra contar. Era agradecer as opiniões com muito respeito, e fazer tudo ao contrário. Era dar risada dos problemas criados para sair um pouco da rotina.
Era com o passar dos medos.
Era com o passar dos dias.
Era com o passar dos anos.
Depois de todos esses danos.

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Juventude

Um enjoo que aperta até os órgãos que nunca me ensinaram os nomes. Uma cobrança que não se descreve, pois palavras não são tão maldosas. Uma dor que ainda não dói, é a iminência dela, é saber que ela vem. É a vida que está sendo vivida por todos, menos por mim. É o vento que só sopra a favor da moça bonita que cruza o meu caminho. É essa modernidade que transforma a minha essência em uma tela de vidro para eu me enquadrar na realidade e não me sentir tão só. É a incoerência da imaturidade, da falta de familiaridade, de ser nova demais pra não sentir vergonha. É o suco doce que depois de engolir deixa um gosto amargo na boca, assim como as pessoas que vão embora. É a sabedoria dos quatro elementos, de enfiar a linha na agulha, caminhar até o correio, falar com a boca, olhar nos olhos, e tudo aquilo que não entra mais neste mundo de meu Deus – mundo este que eu habito em busca da minha outra parte, que deve estar em algum lugar de uma mata fechada se protegendo de tudo o que emite onda e que tem língua grande pra falar de mim. É o pôr do sol que eu não sei se me esforço para achar só e simplesmente bonito, ou se me rendo para quem me moldou antes de eu entrar nesta dimensão, e admito que aquele fim de dia gera uma enorme guerra entre o que eu sou e o que eu quero ser (sem saber o que querer significa).
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É olhar pra garota que faz o meu chá atrás do balcão, e me perguntar se eu estou sendo injusta, se ela me entenderia, e se ela, por acaso, também se sente assim.