Sobre-viver sozinha em Paris

Eu não fazia ideia de como eu tinha chegado até o meio daquela ponte. Que caminho eu tinha feito? Eu peguei o metrô? Aquela mulher estava sendo pedida em casamento? Aquela velhinha tinha quantos anos? Por que eu estava em Paris? Quantos currículos eu tinha que mandar amanhã para poder conseguir um trabalho? Se eu mandasse um milhão de currículos e a chance de conseguir um trabalho fosse uma a cada mil e-mails enviados, quantos trabalhos eu conseguiria enviando um milhão de e-mails? Se eu tivesse estudado qualquer coisa na área de exatas eu estaria fazendo essa conta tranquilamente? Que dor era aquela perto do apêndice? O que eu faria se eu fosse o Silvio Santos? Eu não queria casar nunca na minha vida. Filhos, queria.

Era um hotel. Eu, a atendente da noite. A que fazia mojitos que deveriam ter gosto de limão com rum, mas pareciam suco de uva batido com pizza margherita. Era a pessoa que “sabia” sugerir champagne e vinho para quem estava sofrendo um jetlag e queria relaxar; quem tinha acabado de chegar de uma reunião de trabalho e desejava esquecer um pouco do dia; quem queria afogar as mágoas; ou talvez pessoas que estavam afim, simplesmente, sem um porquê, de beber. Mas, na realidade, eu era a barmaid que não sabia qual a diferença entre todas as milhares de bebidas do restaurante, e procurava no Google agachada atrás do balcão o que aquele nome do rótulo significava. Um dia servi prosecco falando que aquele champagne era maravilhoso. Outro dia respondi de bate-pronto a um cliente que me perguntou o que havia em determinado drink, que o mesmo era feito com “gin”. Falei com propriedade. Depois fui checar, e o drink era feito com tequila. Ainda bem que ele desistiu do “gin” e preferiu uma Coca-Cola. Era eu quem oferecia potinhos de amendoim para quem eu ia com a cara ou achava bonito. Era eu quem ajeitava as mesas pro café da manhã do dia seguinte.

Eu estava ferrada. Tinha perdido o meu trabalho, e agora como eu ia pagar o aluguel, a comida, o meu latte de todos os dias? Resolvi mandar Whatsapp pra minha lista inteira de amigos em Paris pedindo emprego. Depois que mandei vinte e sete Whatsapps me arrependi, porque agora todo mundo responderia, e eu teria que explicar toda a história vinte e sete vezes de formas diferentes dependendo da resposta de cada um. Minha ansiedade deu uma turbinada, e pensei em deletar o meu Whatsapp. Achei que ler me acalmaria, e ali mesmo, no meio da ponte, sentei, li duas linhas da página trinta e seis de um livro recomendado por uma professora, não entendi nada, decidi que era analfabeta em francês, e fechei o livro.

Durante duas semanas naquele mesmo hotel, eu fui convocada para trabalhar no café da manhã em vez do período noturno (função para a qual eu tinha que acordar às 5h da manhã e chegar no trabalho ainda de noite). Em uma daquelas manhãs, depois de servir milhares de mesas sem poder comer um único croissant; passar aspirador em todos os lugares que podem existir sob um chão (nunca soube que chão era tão cheio de lugares, descobri com aquela chefe que me dava muita bronca se encontrava qualquer migalha de qualquer coisa naquele chão); cansada; com fome, e com vontade de sair correndo pra fazer xixi, entrei na cozinha e achei que ou estava faltando alguma medicação, ou eu estava tomando qualquer coisa em um nível não recomendado.

Não podia ser.
Não. Non. No. Nicht. 不要.
Merda, e todos os outros palavrões que eu conheço, em todas as línguas possíveis.
Era um rato.
Ratinho, ratatouille, Drica, olha que gracinha, respira, calma: inspira em cinco, prende em cinco, solta em cinco.
Quero meu médico.
Pera, se controla, em Paris é mais normal do que em São Paulo, e ela é pequenininha, ela é bonitinha, tem duas cores, não há de haver doença…
Interfonei para o Sebastian porque não conseguia mais me consolar. Sebastian cuidava da limpeza pesada do hotel, e achei que somente ele poderia me salvar: tira esse mostro da cozinha, pelo amor de todos os santos.
Sebastian morreu de rir.
Olhamos uma para a outra (eu e Sarah – a ratinha que nomeei desta forma), e percebi que ela sentiu uma certa pena de mim. Ela, aquele serzinho que mesmo tão repugnante era até que amável se comparada à alguns colegas de trabalho, sabia que me assustava, mas não queria me fazer mal. A bichinha só queria um queijinho de graça.
Assim como Sarah, também senti dó de mim mesma naquela situação, e aos poucos a dó foi se transformando em desespero, que começou a subir pelos pés, passou pelas minhas veias, endométrio, intestino, fígado, e um enjoo avassalador tomou conta do meu pobre e vazio estômago. Uma nuvem negra de pavor com cheiro de camembert quis tampar a minha vista, e então a única reação possível com tanta incoerência, pavor, compaixão e nojo dentro de mim, foi gritar.

Quando a gente tem medo de alguma coisa, mas muito medo mesmo, perde totalmente o bom senso e a capacidade de lembrar que existem outros seres humanos no mundo. Na hora do medo tanto faz, dane-se tudo, só queremos a salvação.
Clientes ouviram o grito, colegas se deram conta de que era eu, e levei uma bronca.
Bronca feia: “Adapte-se e aceite. Em Paris tem rato.”
Decidi aceitar. Precisava do trabalho.
Mas, antes, falei com meu médico. Só pra garantir que a lesptospirose estava descartada.

Enquanto um barco passava cheio de turistas ricos que não se importavam em pagar o meu budget mensal num passeio pelo Sena, me lembrei do dia em que levei uma surra verbal daquela chefe por eu ter servido duas taças de um champagne mais caro a um casal, quando eu deveria ter servido de um mais barato. Minha chefe me perguntou num francês bem duro qual era o motivo de eu ter cometido tamanho erro grotesco e sem lógica, e eu tentando explicar com meu francês meia-boca que eu só tinha tentado ser rápida e me confundi, acabei abrindo a garrafa mais cara. Mas nada adiantava, ela gritava cada vez mais alto comigo na frente de todo mundo, chacoalhando a garrafa aberta, me envergonhando cada vez mais, dizendo que aquilo custava mais de cem euros, e pensei que daria tudo pra ser a Sarah e me enfiar no primeiro buraco que eu visse. Com um queijinho. Mas engoli em seco e me mantive firme, precisava do salário.

Lembrei também do primeiro dia em que tive que limpar o banheiro do hotel. Enfiei as luvas nas mãos, arregacei as mangas, peguei aqueles paninhos de limpeza, e comecei o trabalho pensando que era bom que um dia eu escrevesse um best-seller que fosse bem seller, porque limpar banheiro era uma tarefa tão deprimente, que deveria ser proibida por lei. Espirrava produto de limpeza pra todos os lados, e na hora de encostar na pia, na privada, e no chão respingados para esfregá-los e limpá-los, torcia para que alguém no céu estivesse vendo aquilo. Imaginava bactérias, vírus, febre amarela, tuberculose, candidíase. Chorei ao ver que o lixo do banheiro masculino estava lotado, e quando um cliente se aproximou para entrar dentro da cabine, fingi que estava espirrando para que ele não soubesse que, na realidade, eu estava me desfazendo em lágrimas de horror.
Tomei dois banhos quando cheguei em casa.

No hotel aprendi a fazer mojito, daiquiri, lindas tábuas de queijo e de presunto, e croque-monsieur. Aprendi a não falar com clientes que não queriam falar, e a falar bastante com quem estava afim de conversar. Passei a entrar na cozinha batendo palma e implorando: “Sai, Sarah, vaza”, só pra garantir que não trombaria com a ratinha (que insistia em ressuscitar em cores e tamanhos diferentes, era impressionante, caso a ser estudado). Sambava com as moças portuguesas da limpeza, e cantava “Aquarela do Brasil” passando aspirador. Fiz amigos que hoje considero de infância. Fui embora definitivamente daquele hotel já limpando privada com a mesma naturalidade com que tomo água, e sabendo diferenciar produtos pra vidro, madeira, parede e prateleiras com a mesma facilidade que tenho pra tomar trinta banhos no mesmo dia se acho necessário.

E foi assim: naquele dia, horas antes de parar no meio da ponte sem ter razão, larguei tudo e disse que tinha dado. Falei para a minha chefe – logo depois dela me metralhar com palavras horríveis em alto e bom som – que ela não tinha o direito de me humilhar daquele jeito, que ela nunca mais gritaria comigo, e que ela não era, absolutamente, nada. Quando a mesma arregalou o olho e me perguntou “O quê você disse?”, eu comecei a tremer de pavor, juntei o pouquinho de coragem que eu ainda tinha, me comprometi a não chorar, e repeti, por aquela e por todas as outras experiências abusivas de trabalho que eu já tive na minha vida: é exatamente isso que você escutou: Você. Não. É. Nada. Não grite comigo, não trate a mim e nem a ninguém desse jeito, e pra mim chega. Tô indo embora. C’est fini. C’est parti.

Saí da cozinha com as pernas bambas, fraca de tanta energia que eu tinha deixado pra trás, pairando no ar junto com a ex-chefe abusiva, mas igualmente orgulhosa. Passei por clientes sem me importar com o fato de que acabava de decretar demissão praticamente na frente de todo mundo, e me direcionei ao vestiário. Troquei de roupa, e bati o ponto. Dane-se, nunca mais voltaria. Nunca mais seria humilhada, e nunca mais ninguém falaria assim comigo.

E de cima da ponte, onde eu nem sei como fui chegar, com o Sena correndo embaixo de mim e o tempo passando sem nenhum esforço, decidi que se o preço de continuar seguindo o meu caminho era sobreviver a esses perrengues, eu aceitaria. Eu superaria o que fosse: ratos no meu caminho, casa-moquifo caindo aos pedaços (que acabou virando o meu ninho protetor, me acolhendo docemente todos os dias), falta de grana, vontade de chorar, adaptação a uma cultura nova, dificuldade de falar o que realmente penso, gente grossa, e todos os outros. Porque morar em Paris tem sim o seu lado muito bom, e aqui gosto mais de quem eu sou – só isso, na realidade, já é o suficiente para eu decidir ficar por enquanto.

Por fim, disse a mim mesma que pessoa alguma, fosse ela chefe, colega de trabalho, conhecido(a), ex-amigo, ex-familiar, ou qualquer um outro(a) teria direito de maltratar, ou, ainda pior, querer me convencer de que eu não era capaz de alguma coisa.
Eles que se enganavam.
Eu era sim.

E eu ia dar um jeito.

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O que é o amor?

O que é o amor?

Eu me pergunto quando deixo o metrô, doída pelo zumbido que restou de ontem; pela poeira levantada depois de passos tão medrosos, mas esgotados da mesmice; pelo transbordamento daquilo que eu não sei nomear, mas que tenho provas da veracidade.

O cinza daquele cimento que piso, cor tão acostumada a não fazer rir, me lembra do passado, que corre alucinado em busca do amanhã, e me faz querer viver procurando cor. Será que o amanhã será hoje, ou o hoje é o amanhã que espera não ser cinza?

O que é o amor?

Eu procuro no barco ancorado, tão cansado de dizer sim sem nenhum poder de decisão; eu busco nas rugas de gente que não faz questão de agradar; em cigarros devorados por bocas desacreditadas; em garrafas largadas pela metade por alguém exausto de cumprir regras.

Procuro no meu pão sem manteiga, que mesmo seco é familiar; no café que me pega no colo com paciência, e me acalenta por mais algumas horas; nos olhos da moça negra que me dizem tudo sem que eu saiba de nada; no cachorro deitado no chão gelado abraçando forte o seu dono, pois sabe que mais que cão, é casa.

O que é o amor?

Eu me desespero com tanto barulho que anuncia a vida sem falar a minha língua, e me espalho pelas ruas de dia, de tarde e de noite pedindo respostas; engulo o sal de lágrimas tão necessárias; eu imploro por explicação. Paredes descascadas, arranhadas e inacabadas como tudo aquilo que deixei de falar, secam meu rosto e me dizem que eu não estou só.

Busco no riso de uma criança que mesmo tão nova é tão mais honesta, e assim me pergunto se o amor é ainda é possível depois de tantos acordos, contratos, delações, duplos-sentidos. Tanta amizade acabada por medo da perda de espaço. Tanta família desmantelada por não saber se ama ou se garante. Tantos sonhos que não amanheceram com a gente.

O que é o amor?

Me enxergo tão pequena perto do que eu posso imaginar; tão confusa na minha existência que teme não dar tempo; tão certa da minha incoerência que não sabe se escreve, ou se espera, resignada, o amor curar.

Depois de todas as aceitações forçadas; depois de tantos fins que invejaram começos; perfumes que senti sem poder reagir; beijos que deixamos para aquele encontro por acaso, que ambos sabemos não existir. Vejo você se afastando, cada dia mais, e eu na dúvida sem saber se te amo ou se continuo procurando respostas para me ver livre de te amar;

mas afinal,

O que é o amor?

Mudar dói, mas pode ser muito bom

Mudar dói. Li artigos, livros, falei com gente especializada, pedi conselhos de amigos, de não tão amigos, de desconhecidos, busquei ajuda espiritual. É geral, internacional, universal: todo mundo tem medo. A zona de conforto em que a gente vive, após algum período de adaptação, vai sugando, cada dia mais, a nossa disposição, disponibilidade e coragem de mudar. E aí começam as razões que a gente encontra pra não sair do lugar: o salário que eu não posso largar, o(a) namorado(a) que precisa aceitar – assim como a família e os amigos -, e o que os outros vão dizer, mas e meu cachorro, tem a academia, meu peso que preciso manter, minha imagem que preciso zelar, e os likes? E minha terapia? E o cinema de domingo? E o caminho que eu sei fazer? E o meu plano de saúde?

Me perguntaram há algumas semanas de onde eu tirei coragem para sair sozinha do país e vir pra cá sem ninguém ao meu lado, ao que eu respondi: coragem seria continuar vivendo uma vida que já não fazia mais sentido pra mim.

Talvez eu não precisasse ter esperado tanto.
Tomei a decisão porque cheguei no meu limite.
Eu não conseguia mais acordar e fazer o mesmo caminho todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos prédios, e até arrisco dizer que as sinalizações no asfalto meia-boca do Brooklin, tudo começou a me dar ânsia. Chegou uma hora que deu.
Eu não suportava mais olhar os mesmos edifícios envidraçados da Berrini, Faria Lima, Paulista.
Eu não tinha mais condições de passar o dia na frente do computador fazendo coisas que não me supriam mais.
Eu não tinha mais estômago para o trânsito.
A Estaiada começou a me torturar, não podia mais ver aqueles canos amarelos às 8h da manhã que tinha vontade de me jogar lá de cima da ponte.

Eu estava ficando acostumada.
Eu estava adoecendo cada vez mais.

Antes de comprar a minha passagem, eu achava que eu nunca ia dar conta de mudar a minha rotina, simplesmente porque crises de ansiedade e depressão tiram de você a sua autoestima e a confiança em si mesmo(a). E eu tive muitas delas. Levava uma, levantava, levava outra, tentava levantar de novo, ficava de pé e, sem mais nem menos, levava outra… E foi assim por um bom tempo, até que com muita terapia e muita leitura e muita conversa e muita palestra e muito chá de camomila e muita yoga e muito esforço, entendi: era hora de mudar.

Pior não ficava.

Um dia – nunca esqueço daquela quarta-feira -, eu abri o computador, pesquisei preços de passagens, encontrei a mais barata, fechei o olho na hora de clicar em “comprar”… e cliquei. Era uma passagem só de ida pra Paris, e pra mim aquilo significou tanto, foi tão enorme, que depois de comprar me deu diarreia o resto dia e da semana.

Tem horas em que a solução é fechar o olho e fazer de uma vez, sabendo que isso pode sim dar muito certo.

Há seis meses, no Brasil, eu não dormiria fora de casa nem se você me oferecesse milhões de reais pra isso. Eu precisava ter controle de tudo, nada podia sair da ordem, do previsível, do que eu estava costumada. Minha rotina tinha que ser certinha, retinha, sem nada fora do lugar. O diferente me causava muita ansiedade, e os meus sintomas estavam em ebulição constante dentro de mim. Era um quadro muito próprio de alguém que não estava no seu lugar certo, de alguém que precisava mudar.

Neste momento, estou aqui no meu sexto lar em Paris, na Bastille, onde dou três passos e o apartamento acabou. No banheiro tem um buraco que dá pra não sei onde, mas também não procurei saber. O buraco é escuro e cheio de teias de aranha. Mas aqui tem a minha caminha com a qual aprendi a me entender, bem como a minha escrivaninha, a minha varandinha e o Oliver, bichinho de pelúcia que ganhei de um amigo francês muito querido. Sempre gostei do nome Oliver. Talvez um dia terei um filho cujo nome será Oliver.

E, agora, mesmo estando alojada neste lugar tão diferente, tão simples e tão não habitável há algum tempo atrás, estou bem.

Aqui em Paris já passei por dois Airbnbs, duas casas de amigas, um hotel (para o qual tive que ir correndo no meio da noite assim que deu um perrengue monumental em um dos Airbnbs – história digna de um só texto), e agora estou na casa do amigo de um amigo que me alugou o seu apartamento por dois meses. Vou me mudar de novo em um mês. Para quem não dormia fora de casa, evolução.

Aqui na França não tem essa de casa limpinha, restaurante limpinho, carro limpinho, roupa limpinha. Uma grande amiga daqui me ensinou outro dia a pensar que “sujeira é vitamina”, e tentei comprar a ideia (ou roubar, porque aqui conto cada euro que eu gasto, e não acho que teria dinheiro pra comprar mais nada, na real). Aprendi a lavar a roupa quando dá, a casa limpo quando não há mais possibilidade de habitá-la caso eu não o faça, e me acostumei a ver ratinhos nos parques pelos quais eu passo e, inclusive, nomeá-los. A maioria chama Sarah, não sei dizer o motivo. Mas nada disso é fácil, e a primeira vez que um ratatouille ficou ao meu lado enquanto eu almoçava uma baguete e não conseguia me mover de tanto pânico, liguei para o meu médico no Brasil perguntando qual era a chance de leptospirose. Foi um dia muito sofrido. Fiz ele jurar que eu estava imune. Outra história para um só texto, porque o medo foi tanto que mobilizei em 24h, além do médico, mais uns 5 amigos, fazendo todos me prometerem que já tinham passado por ratos em parques, e continuavam vivos e saudáveis. Um casal brigou por causa do tema.

Isso sem contar o dia em que liguei para o mesmo santo médico e perguntei se depois de três anos sem álcool, tendo tomado uma sangria há quatro horas e ainda estar bêbada, existia chance de eu não suportar e ter um troço. Eu havia perdido completamente a segurança em mim e no meu corpo, e agora estou tentando reconquistá-la. Hoje, inclusive, sou atendente da tarde/noite de um hotel. Meu trabalho, é, entre outros, fazer drinks, e para isso tenho que experimentá-los. Ficam horríveis mesmo experimentando, mas isso outro dia eu conto. O importante é que o medo do álcool e de sair à noite de casa e de pessoas e de tudo, por fim, melhorou. Não passou, melhorou. Tô na luta.

Outro dia um senhor que tocava música no metrô era tão cativante que me fez chorar. Ele veio até mim e eu deixei ele dar um beijo na minha bochecha (pessoas aplaudiram, foi bem ridículo). Antes, isso não seria possível. Ou talvez fosse, e eu me encharcaria de álcool-gel depois. Ele era um senhor de rua. Vai saber por onde tinha passado. Mas dessa vez, deixei. Ele era muito querido.

Teve ainda uma outra vez em que me veio uma daquelas ideias fracas antes de dormir me dizendo que ou eu limpava a “cozinha” – trinta centímetros de pia onde está toda a louça e duas plaquinhas de forno – ou não ia rolar de pegar no sono. Deitei e esperei o desespero passar, mas sempre dialogando comigo mesma, e dizendo quantas vezes fossem necessárias, que “estava tudo bem, pensa naquela francesa que você conheceu que só lava tudo uma vez por semana. Ela está viva, você também vai sobreviver se não lavar tudo um só dia”.

O que eu faço para conseguir viver sozinha mais tranquilamente em um país cuja a cultura é sim bem diferente da nossa, e ainda tendo que enfrentar meus medos e minha ansiedade, é negociar comigo. A gente entra num acordo. A gente = eu e eu. As frases “calma, tenta só mais um pouquinho, se não der, não tem problema”, ou “você já veio até aqui, segura mais alguns minutinhos que isso vai passar” estão sempre na ponta da língua. O pensamento: “Eles não te odeiam, os franceses só são mais fechados e secos, lembra que você tem fulano, ciclano… (e aqui nomeio cada um dos meus bons amigos, que são poucos)” é frequente.

Não sou uma deusa que venceu a ansiedade, pânico e fobias de uma hora pra outra e está curtindo à beça em Paris. Eu já passei por mais perrengue do que momentos maravilhosos aqui, e talvez seja isso que faça a experiência tão enriquecedora.

Eu conto cada euro que eu gasto, enquanto muitos amigos compram apartamentos e casam. Tem dias em que eu só como sanduíche para economizar, e tenho inveja de pessoas que comem saladas top em lugares top. Aqui, isso é muito caro. Tem dias em que parece que eu não consigo falar nada em francês e fico muito triste. Tem dias em que eu falo muito bem, e, assim, ganho meu dia. Tem dias em que me dou de presente tomar uma taça de vinho. Tem dias em que depois de tomá-la ligo para o meu médico pois me surge, criativamente, alguma doença que eu preciso que ele me prove que eu não tenho. Tem dias em que me sinto sozinha. Tem dias em que visitar um museu sozinha é a coisa mais prazerosa que existe no mundo. Tem dias em que aceito sair com algum grupo de amigos, e me permito aproveitar. Em outros dias me dou a liberdade de dizer não, e ficar bem com isso. Tem dias em que fico carente. Um dia resolvi tomar a iniciativa e paquerei um cara gato no trem. Um dia baixei o Tinder. Semanas depois, deletei. Num outro dia me perguntei se chia grudava no estômago e em seguida sufocava o esôfago. Há alguns dias, num parque, uma criancinha pegou na minha mão e pediu para eu cuidar dela, sem saber que eu, no auge dos quase 30, ainda estou aprendendo a cuidar de mim.

Por fim, o que as pessoas veem é, no máximo, 1% do que eu passo. Os outros 99%, pra falar a verdade, são bem mais inspiradores.

Outro dia eu conto mais.

Para tudo dá-se um jeito

Tentei engolir aquela batata cozida que parece isopor salpicado de plástico com aroma artificial de alecrim, já de olho no brownie de espuma de travesseiro ruim com gosto de Zero Cal vencido, e fiquei na dúvida se virava um vidro de remédio pra dormir, ou puxava assunto com a moça ao lado (que, felizmente, descobri que era médica, e por isso logo me apaixonei – fóbicos entenderão).

O paralelepípedo foi sendo abraçado por gordos primeiros pingos de chuva, e começava a refletir cada um de todos aqueles anos: o de 2004, minha primeira noite insone ao lado da minha mãe na cama me dizendo que a noite era apenas “o claro sem luz”; o de 2006, primeira consulta terapêutica; 2008, primeiro porre; 2009, primeira crise de pânico; 2012, primeira vez morando longe dos pais em outro país; 2013, o ano em que tive medo até de mim mesma e mal podia sair da casa dos pais; 2015, o ano em que recusei todo e qualquer passeio em que não tivesse a segurança de estar de volta em casa antes do anoitecer; 2016, o ano em que me joguei num amor louco e em dois novos trabalhos, começando a, de pouquinho em pouquinho, enfrentar alguns dos meus infinitos medos. 2017, o ano em que me disponibilizei a viver a vida de outra forma, em outro lugar.

Me tranquei no banheiro e olhei pra minha cara pálida e minha boca trêmula, que tinha cor de filme antigo que meu avô botava pra eu ver quando eu era pequenininha. Que merda eu estava fazendo? Quantas gotas, mesmo? Escovava o dente agora, ou deixava pra mais tarde, quando eu não conseguisse dormir, pra ter uma desculpa pra levantar? As pessoas lá fora iam achar que eu estava demorando muito? Meus pais estariam na estrada, na padaria ou em casa? Como será que aquela amiga, que eu sempre quis ser, agiria no meu lugar? Ela estaria vendo filme agora? Mas o que eu deveria ver? O que pessoas assistem no avião? Elas entendem os filmes, elas prestam atenção, elas relaxam, elas pegam no sono naturalmente, tomam vinho com Dramin, misturam o quê com o quê? Como eu faço? Eu tenho pavor de série, nunca assisto série, deveria começar, mas começaria por onde? Friends é série?

Era uma rua estreita, eu gosto muito de ruas estreitas. Depois de tudo até aquele dia, minha terapeuta cansou de ouvir que eu não sabia mais se eu gostava realmente de algo, ou achava que gostava porque o certo era gostar. Eu me senti, naquela ruazinha, uma plantinha que luta com toda a força que sobrou pra se recuperar e crescer de novo depois de ser trucidada por um caminhão-pipa de antidepressivos. E depois de ser esmagada por um ônibus turístico cheio de gente irritantemente alegre dentro, ou um trailer carregando um grupo enorme de amigos que esfregam na cara o quanto são bons vivants. E depois de uma vaca gorda que além de passar em cima de mim, insistiu em me convencer da nossa semelhança.
Olhando os paralelepípedos agora completamente aliviados daquele calor de antes da chuva, tive certeza: de ruas estreitas eu gosto. Fui me aproximando da janela de algum lugar, da qual saía uma fumaça de filme que, misturada com a chuva e a quase noite que chegava, me deu um nó no peito. Mas dessa vez o nó não me esfaqueava toda a esperança de sobreviver a mais um dia, só dava vontade de chorar, e de deixar ser assim.

Fazia quantos minutos que eu olhava pra minha própria cara naquele banheiro cubículo onde sinto nojo de encostar em qualquer coisa, sinto nojo da minha roupa que encostou em alguma coisa, sinto nojo de lavar a mão que foi obrigada a encostar em qualquer coisa? Minhas sobrancelhas são, definitivamente, diferentes uma da outra. Tenho um olho maior que o outro. Eu pareço um quadro do Picasso. Eu analisava todos os meus defeitos do rosto cautelosamente, quando a tosse de um H1N1 recentemente recuperado foi agulhando minhas amígdalas e deixou na minha garganta um formigueiro de presente depois da primeira tosse: não. Vai começar. Tossi tossi tossi. A vontade de chorar veio, e, com ela, mais vontade de tossir. Chorei, e como o choro dá tosse, fiquei mais bons minutos no cubículo porque era o único lugar com o mínimo de privacidade dentro do avião pra sofrer em paz. Decidi escovar o dentes pra não voltar nunca mais naquele banheiro, porque além da privacidade não há nada de bom lá dentro, e saí do mesmo tossindo e chorando. Passageiros me olharam com dó.

Cheguei pertinho, e era um restaurante. A fumaça que eu tinha visto estava saindo da janela da cozinha. A chuva caía, e eu não gastaria nem um centavo num guarda-chuva. Quem passou por um H1N1, recém solteira, fazendo as malas com 38 de febre pra morar nem eu sabia direito onde e completamente sozinha, estava imune, não ficaria doente, estava protegida. O chef gritava, os cozinheiros correspondiam, gargalhavam, brincavam, e faziam arte em pratos branquinhos e quentinhos que seriam devorados por casais que confortável e secamente – diferente de mim – observavam Notre Dame recebendo os primeiros sinais de uma noite linda.

A aeromoça veio me perguntar se eu estava bem, e resolvi ali que afrancesaria meu jeito de sempre fingir discretamente que não havia nada errado: não estava nada bem, estava tudo péssimo, eu estava ferrada, mas ia passar. Não sabia o que me esperava em Paris, mas quando está tudo enlameado, não há outra opção a não ser pensar assim. Não, obrigada, não bebo álcool. Não, obrigada, a espuma de travesseiro ruim estava ótima, mas estou satisfeita. Aliás, não, mudei de ideia, tem mais brownie? Procurei por “Frozen” naquela televisãozinha. Eu não sei que aditivo botaram neste filme, que aparentemente é a única coisa que acalma crianças histéricas e a mim dentro do avião. Ouvir aquele “Let it go” me lembra que a vida pode ser ok e aviões podem ser amáveis passarinhos que fazem seu trabalho direitinho e não caem.

Fiquei ali parada, de frente pra janela da cozinha, da mesma forma em que há alguns meses eu estava na frente do espelho daquele banheiro cubículo. Eu ficava cada vez mais encharcada, gotas geladas caíam do meu cabelo nas costas, meu rímel foi derretendo, se misturou com a chuva, com o meu batom de morango da Nívea, com as lágrimas, com todos aqueles anos, comigo ali de pé. Depois de tudo, ainda de pé.

Dormi, e quando acordei, sem saber se o meu pescoço era meu ou da cadeira da classe econômica que quis roubá-lo de mim, a tosse tinha passado, a médica já estava acordada lendo ao meu lado, aeromoças pediam licença para passar com aquele carrinho cheio de coisas que chamamos de comida para transformar a viagem em algo aceitável. Faltava uma hora pra eu descer e enxergar a mim mesma chutando a porta do aeroporto enquanto equilibrava três malas pra pegar o meu primeiro táxi aqui em Paris. Primeiro de poucos, diga-se de passagem, porque se há um negócio caro nesta vida não é uma bolsa da Chanel, é o táxi em Paris. Só pego se estiver bêbada. Por isso não bebo.

Sorri para um dos cozinheiros que acenou com a cabeça pra mim. Fiquei imaginando o que ele pensava ao ver aquela mulher molhada na janela, com a maquiagem toda destruída, o cabelo que fica puto da vida quando chove, o vestido da Farm todo grudado na pele seca ainda não acostumada com os novos ares, mas igualmente satisfeita por ter passado por tanto, em tão pouco tempo de vida, e ainda ser pele.

Bonsoir, eu disse. Bonsoir, ele respondeu. Ele me mostrou o prato, como quem oferece a comida, eu sorri, agradeci, e disse que “um dia”.
A comida daquele restaurante custa quase o preço do meu aluguel, mas um dia eu vou lá jantar, sim.

Assim como um dia, bem que a Márcia prometeu, aquela crise passou. Assim como um dia eu consegui dormir sem medo. Assim como um dia eu conheci um grande amor. Assim como um dia eu tive coragem de terminar com alguém que eu amava, porque me virar sozinha seria o melhor caminho. Assim como um dia eu comi camarão sem temer a morte. Assim como um dia eu cansei de pedir desculpas. Assim como um dia eu pedi ajuda. Assim como um dia eu fiz as malas, me dizendo que se desse tudo errado, e eu fosse parar no inferno do fundo do poço, pelo menos que fosse um poço de Paris. E, no fim das contas, essa foi a melhor decisão que eu já tomei até hoje.

Força a gente não tem, a gente arranja. Um dia, a gente sempre dá um jeito.

À Paris (continuação)

Eu não vou conseguir ficar nem uma semana neste lugar se eu não souber como falar “carregador” e “socorro”, pensei, enquanto seguia as orientações passadas por algum pedestre parisiense para chegar perto do Panthéon.
A única palavra que eu sabia em francês naquele momento parecia ser “perdue”, porque esta não posso esquecer. Nem sabia como eu tinha elaborado a frase completa explicando eu estava “perdue” e perguntando sobre a localização do Panthéon. Nem sei como lembrei do Panthéon. Na realidade, eu não sei se falei com alguém ou foi um delírio, mas nessas horas fica claro que Deus existe, pois parecia, pela paisagem, que eu estava me aproximando de lá.
Os franceses sabem muito de história, política, economia. Eu sei comer pain au chocolat, e escrevo quando posso. Eles são magros. Eu era até pisar aqui, tenho certeza que vou engordar. Eu não sei viver sem os meus pais por perto, franceses são independentes. Minhas irmãs fazem muita falta, não era pra eu estar tão sozinha, eu não sei morar sozinha, ninguém me ensinou a fazer isso, será que eu entro neste bar para tentar carregar o celular, tomar algum álcool e fazer amigos?
Mas naquela hora, eu tinha horror de bar, de álcool e de amigos.
Franceses não pensariam assim.
Como é que raios eu vim parar aqui?
Precisava ficar sozinha.
Como é que dá pra ser tão louca?
Tudo isso metralhava o meu pobre cérebro cansado e confuso, enquanto eu seguia as orientações que me passaram na rua para eu tentar chegar em casa.
Mas tudo estava muito difícil, o caminho era muito tortuoso, principalmente porque se tem algo que eu nunca decorei foi “direita” e “esquerda”. Não dá, tentamos de tudo (eu, minha família, professores, guardas de rua, médicos, colegas, bombeiros, desconhecidos, frentistas, CETs, policiais) todos já tentaram me ajudar com isso e nunca foi possível encontrar um método de memorização. Portanto, se em português não consigo, você pode imaginar em francês.
“Gauche” me lembra um poema de Drummond, não me lembra “esquerda”, que por sua vez é o lado do coração, ou o lado com o qual eu não escrevo, ou o lado que não é a “direita”. Gauche é o Carlos, gauche, para meus neurônios, não vira pra lugar nenhum.
Porém, em algum momento em que virei “à gauche”, passei por um Carrefour e aquilo me pareceu tão Brasil, tão meu bairro, tão mamãe, que quis entrar e comprar coisas para a minha casa. Não sei qual foi a lógica na hora da compra, mas saí de lá com produtos de limpeza, pão, leite, cereais, queijo, papel higiênico e bananas. Eu nem sabia o que estava faltando na casa, eu nem sabia do que eu precisava. Decidi que tudo aquilo era bastante necessário. Eu só me esqueci de que eu não tinha noção se estava perto ou longe do apartamento, e de que agora, além da bolsa, tinha que carregar aqueles produtos todos na mão – o rapaz do caixa me disse que eu teria que pagar a mais pela sacola, e eu achei que não valia a pena, precisava economizar, então coloquei tudo o que dava na bolsa e o resto – incluindo o papel higiênico – levei na mão.
Imagina.
Quis economizar na sacola.
E levei o papel higiênico na mão.
De qualquer forma, fui virando à esquerda, depois direita, depois eu vi uma Boulangerie e meus olhos brilharam ao avistar éclairs.
Era como se ursinhos carinhosos vestidos de cores pastel voassem ao meu lado e nada mais pudesse ser uma ameaça na minha vida.
Éclairs.
Entrei e perguntei quanto custava, como se naquele momento eu me importasse, e como se eu não tivesse economizado em uma sacolinha de plástico. Eu tinha necessidade de uma éclair, eu tinha todo o direito, eu estava perdida em outro país, eu podia comer mil éclairs se eu quisesse, era totalmente justo, e nada me engordaria naquele momento.
E, no fim, elas nem eram tão caras como estava acostumada. E eram brilhantes. E sortidas.
Comprei.
A atendente era tão gentil que me perguntei se ela não queria ser minha amiga. Adoraria perguntar se ela queria que fôssemos melhores amigas, para podermos passear juntas e ela me levar pra casa na volta. Talvez pudéssemos combinar alguma coisa para o final de semana, ela me ensinaria francês, e eu a ensinaria samba, aquele clichê de filme, mas que soava tão adorável naquele momento. Quando a gente come doce tudo é tão possível e bonito, e estar perdida nunca é um problema.
Acabei não perguntando se ela queria aprender a sambar, mas porque Deus existe, no momento do auge da éclair na minha boca, lembrei do nome da minha rua. Lembrei. Assim, como a água é molhada, lembrei.
Expliquei a minha história para ela, que rapidamente se convalesceu, e abriu o Google Maps no computador da Boulangerie. Vamos procurar onde fica, e você vai pra casa segura. Não me lembro como ela chamava, mas gosto muito de Julie, então vou chamá-la de Julie. Talvez terei uma filha cujo nome será Julie.
Julie, portanto, encontrou a minha rua no Google, saiu da Boulangerie comigo e foi me explicando o caminho para chegar lá (à gauche, à droite…). Na hora pareceu muito fácil, e eu disse que ela era muito querida e que eu voltaria lá para visitá-la com certeza e comprar mais éclairs e talvez pain au chocolat, e que havia sido muito adorável receber aquela ajuda e conhecê-la.
Nunca mais voltei para ver a Julie porque não soube encontrar o caminho até lá.
Fui virando pra lá e pra cá, e em algum momento cheguei em uma rua lotada de jovens que não seguravam papel higiênico e bananas nas mãos, mas sim cigarros e taças de vinho. Procurei por alguém com uma cara amigável, e quando achei uma moça que parecia muito legal, perguntei sobre a minha rua. Ela abriu o Google Maps, pois tinha bateria no celular, parecia ser muito mais razoável e sensata que eu, e me levou até lá.
Era perto.
Nem acreditei.
Agradeci muito, e agora era a hora de achar o prédio. Qual seria? Eu subi e desci a rua (que, ok vai, nem é tão grande assim) tantas vezes que seria impossível contar. Acho que nunca passei tanta vergonha e tampouco passei tantas vezes pelas mesmas pessoas carregando compras estranhas de supermercado enquanto elas aproveitavam a sexta feira à noite. Foi ridículo, triste, exaustivo e hilário (para quem viu, não para mim).
Mas uma hora, eu avistei.
Aquele prediozinho, com uma gradezinha na frente, calma, eu lembrava daquela gradezinha, era lá. Era a minha casinha. Tinha chegado.
Sinal da cruz. Mais do que um, porque naquele dia Deus e todos os anjos estavam comigo.
Porém, havia mais uma barreira antes de entrar em casa, que era: qual seria o código para abrir a porta principal que levava ao pátio, que por sua vez me levaria ao meu apartamento? 132A? 891B? 67A9B? Tudo era possível, fiz algumas tentativas e só se ouvia um “PÉÉÉ” de uma campainha gritando que a garota das bananas e papel higiênico havia sido barrada. Mais vergonha, e o bar da frente devia estar se deliciando com a cena aos goles de um Bordeaux e uns bons tragos de sei lá o quê.
Me afastei, e fui para perto da esquina, com um pouco mais de luz, para pensar no que fazer. Será que alguém tinha um carregador nesses bares? Eu já começava a fazer careta para chorar, minhas sombrancelhas começaram a se contrair e se aproximar uma da outra, e meus olhos foram fechando para eu poder permitir que as primeiras lágrimas escorressem: onde eu estava? O que eu vim fazer aqui? Como sobreviver sem meu pai e minha mãe e meus amigos que falam a minha língua, e sem alguém pra me abraçar quando eu chegar em casa, se é que eu entraria em casa? Por que eu nunca fui organizada e não escrevi num papel todas as informações de Paris? Por que eu não fiquei em São Paulo?
Quando comecei a lacrimejar e cogitar a voltar para o Brasil dentro de uma hora, uma francesa saiu de um carro, e andou em direção ao meu prédio.
Não.
Será?
Ela parou na frente dele, e começou a digitar o código na porta. Eu, que nesta hora ainda estava na esquina dando uma olhada em tudo, e vendo se algum estabelecimento tinha cara de ter carregador pra celular, saí gritando “ME ESPERA” em todas as línguas que eu podia falar. Mas naquela hora eu não podia falar nenhuma, então não sei o que chegou aos ouvidos dela.
Mas ela ouviu.
Ela virou, me viu, me encarou um pouquinho, e me esperou. Eu me aproximei completamente sem ar, e, transbordando de alívio, expliquei que era nova ali, e toda a história (ela talvez não estivesse nada afim de escutar, mas teve que ouvir tudo sobre eu ser do Brasil, e a minha trajetória até aqui, e o parque, o café, o cachorro, a Boulangerie, minha família, o Carrefour e a gauche).
E entramos.
Subi as escadas.
Abri a porta do meu apartamento.
Cheguei.
Joguei tudo o que tinha nas nas mãos no chão, assim que pisei dentro de casa.
Comecei a lacrimejar ao respirar fundo e relembrar o filme da minha história até lá.
E depois passei a chorar.
A soluçar.
A berrar.
Até não aguentar mais.
Até perder o ar.
Até uma hora em que, com os olhos borrados de rímel e a vista bem embaçada depois de tanto choro, parei um pouco para olhar o meu novo apartamento com mais calma e cuidado.
Lá fora, alguém tocava sanfona e os jovens falavam alto aquela língua desconhecida, mas tão charmosa.
Em um papel eu li “Bienvenue”.
E então, uma onda começou a ser sentida em meus pés. Começou como uma cócega, um formigamentozinho engraçado, e foi aumentando.
Era um calor que passou pelos pés, pernas, pâncreas, e foi subindo por todos os órgãos que eu chamo de “estômago” quando me dou conta da existência, ou de “coração” se doem. Chegou até minha boca, e, sem mais nem menos, explodi.
Comecei a rir, e depois gargalhar.
Eu ri, mas eu ri tanto, que perdi a força, e sentei no chão, entre minha bolsa cheia de compras estranhas, o papel higiênico e as bananas.
E aí o riso foi virando choro, e chorei de novo.
E ri mais um pouco.
E comi uma banana.
Céus, o que foi isso?
E, assim, algo veio à minha mente, do jeito mais lindo que pode acontecer, quando a gente menos espera.
Uma constatação que demorou meses, anos, séculos, mas chegou:

Caramba. Isso pra mim é viver.

À Paris

O jetlag nunca ajudou. Antes disso, o avião jamais ajudou. Antes do avião, o momento pré-viagem jamais foi um momento de paz, ou seja, nunca na história da vida foi de alguma ajuda.
Mas desci mesmo assim, e tentei descer com o pé direito. Pelo menos eu tenho quase certeza de que aquele pé é o direito, fiz um grande esforço para diferenciar um do outro.
De qualquer forma, a intenção era descer otimista, mesmo com aquela sensação de que as formas do mundo não são as mesmas quando descemos do avião, e de que existem pessoas com três cabeças, e de que os braços e pernas viram amebas gigantes e pesadas depois de uma viagem de 11 horas. Mesmo assim, a ideia era chegar bem.
Ou, pelo menos, chegar viva.
Chegar estaria de bom tamanho.
E cheguei.
Carregava uma bolsa e uma mala de mão quando deixei aquela máquina voadora de ar pressurizado (porque em uma bagagem, apenas, não caberiam todos os remédios necessários e possíveis de serem necessários durante a viagem; mais uma muda de roupa se qualquer coisa acontecer; mais 03 livros diferentes sendo que um deles é sempre de auto-ajuda para uma noite insone; mais um casaco a mais; mais um caderno; mais algumas canetas de cores diferentes; mais documentos; mais algodão (não sei por que, mas me parece necessário); mais fotos da família; mais imagens de anjos; e mais alguns outros.
Desci.
Descemos.
Eu, minha bolsa, minha mala de mão e mais duas outras malas que depois de 30 minutos me sentindo enjoada em um labirinto de esteiras e bagagens e tontura sem fim se juntaram a nós – um rapaz muito experiente e gentil entendeu que uma mulher pálida e descabelada falando “Cadê?” poderia estar precisando de ajuda, e me direcionou à esteira de bagagens correta com muita paciência e delicadeza. E então, após resgatar quilos e mais quilos de roupas para todas as estações em formatos de malas gigantescas, eu saí como uma malabarista depois de duzentas noitadas pesadas sem pausa, tentando controlar aquele carrinho de bagagem que sempre anda para onde ele quer, e não se importa nem um pouco se eu tenho um objetivo de chegar a algum lugar – ele só deseja subir em cima da cabeça de velhinhas, ou esmagar crianças na frente dos seus pais com suas rodinhas irônicas.
Fui diretamente pegar um táxi sem pausa para um pain au chocolat – porque queria muito chegar logo em casa -, e mostrei pra o taxista o meu endereço na tela do celular, já que o meu francês ainda não é aquelas coisas, e que depois de uma viagem de avião não tenho muita certeza se o que eu falo é compreensível, ou soa como um urso saindo da hibernação tentando falar mandarim.
Começamos a corrida de táxi, e eu acabei dormindo no balancinho gostoso do carro.
Quando acordei estava na Bastilha.
Não acreditei.
Durou alguns minutos para eu entender que não estava sonhando, que havia chegado o momento em que eu estava em Paris para ficar o quanto eu quisesse, depois de anos sonhando com isso. E então, quando me dei conta de que não era ilusão, de que eu não acordaria com o despertador berrando para eu pegar o carro, o trânsito, e me preparar para mais um dia exaustivo em São Paulo, quis chorar. Mas estava muito enjoada, então achei que sorrir seria mais prudente e não teria como consequência precisar de um Dramin.
Sorri.
O táxi foi entrando em ruelas delicadas e coloridas, com casinhas e prediozinhos expondo vasos de flores muito amáveis e dóceis nas sacadas, e por mim, aquela corrida podia durar o dia todo. Eu dormiria no balancinho do carro, e quando acordasse, estaria em uma ruazinha florida perdida no meio de Paris. Sorriria, dormiria de novo, e ficaria assim para todo o sempre, sem ter que equilibrar malas, subir com elas no apartamento, ou o pior, desfazê-las depois.
Mas de qualquer forma, contra a vontade do meu jetlag, chegamos numa rua adorável e super estreita, cheia de pessoas caminhando e andando de bicicleta.
Era a minha rua.
Estava sol.
Eu estava bem.
O taxista me deixou na frente do prediozinho onde eu ficaria, e logo o dono do apartamento surgiu para me ajudar a carregar as coisas para cima e me mostrar meu novo lar. Eram 5 da tarde mas meu corpo ainda estava preso no fuso do Brasil, então para mim era meio dia e eu estava louca pra tomar café da manhã.
Fiz um reconhecimento rápido do meu novo espaço, comecei a desfazer as malas, dei uma ajeitada geral na minha nova casinha, e decidi passear. Eu precisava pisar em Paris com meus próprios pés (e talvez dar uns pulos no asfalto para ter certeza de que aquilo estava acontecendo), e me certificar de que desta vez era verdade mesmo.
Precisava sair sozinha, e ver meu corpo ali no meio, perdido naquele mar de gente desconhecida, naqueles sorrisos jamais vistos, naquelas peles tão diferentes que já passaram por tantos lugares, e que nunca saberiam meu nome. Eu precisava ficar com aquele nó na garganta que deixa dúvida entre chorar e sorrir, comer um croissant ou tomar um café – ou ambos -, simplesmente porque eu merecia, simplesmente porque eu queria tanto isso por tanto tempo, simplesmente porque o tempo chegou e eu também.
E o dia era meu.
Simplesmente.
Saí.
O ar entrava leve dentro de mim, o frio era tão bonito e as pessoas voltaram a ter apenas uma cabeça.
Fui andando pelo bairro, me apaixonando por cada paralelepípedo em que eu pisava, e quando me dei conta, estava no Jardin du Luxembourg.
Paguei menos de 2 euros em um croissaint de uma vendinha na frente do parque – meu café da manhã finalmente estava sendo tomado às 6 da tarde -, e entrei para visitar. Pessoas namoravam de um jeito tão internacional, crianças berravam um berro tão estrangeiro, cachorros latiam de um jeito tão francês, tinha tanto oxigênio lá dentro. As árvores, as flores, as cores, a rima toda que fazia tanto tempo que eu não encontrava, tudo valia tanto a pena, como eu tinha conseguido?
Quanto tempo tinha passado?
O azul do céu nunca foi tão de céu.
Pensei nisso enquanto as camadas amanteigadas do croissant desmanchavam na minha boca, e eu sentava no chão sem me importar com nada, a não ser em não derrubar nenhuma migalha e desperdiçar aquela maravilha. Me perguntei como essa preciosidade, essa cura para todos os problemas do mundo, esse bálsamo divino, custa menos de 2 euros?
Que sorte.
Saí do parque e andei mais e mais, cheguei em Notre Dame e rezei do lado de fora, já que a igreja já estava fechada. Agradeci e fiz tantos sinais da cruz quanto achei que eram necessários por eu estar viva e de pé, por meus braços e pernas terem voltado a ser braços e pernas depois do avião, por eu não estar passando mal ou vomitando desesperada por estar longe de casa, por eu estar, inclusive, sendo capaz de sorrir. Por eu ser eu.
E continuei a caminhada, até escurecer.
Passei por um café e já estava tarde para café, eu podia não dormir à noite, e então eu ficaria mal no dia seguinte, talvez tivesse uma dor de cabeça monstra, e tudo daria errado caso tomasse o café, uma catástrofe aconteceria, e eu teria que ligar para minha terapeuta em um dia que não era para ser dia de terapia (pensamento bem frequente na rotina frenética de São Paulo), mas não me importei com isso, e pedi um café au lait.
Nunca um café teve tanto gosto.
Nunca me senti tão charmosa ao pedir um “Café au lait, s’il vous plaît”.
Nunca aquele vapor de leite com café tinha entrado em mim como se fosse um abraço do Papa, e nunca me vi tão mulher.
Bom, depois disso, a genialidade das rimas da poesia deram uma amenizada, e começou a ficar escuro e frio, portanto achei que deveria fazer compras para a casa antes de ficar noite e frio de verdade.
Peguei o celular para checar o endereço do mercado mais próximo, e no meio da pesquisa Maps – Google Maps – Waze – Paris – Casa – Onde moro – Como chegar – Onde estou – Quem sou, acabou a bateria.
Acabou.
A bateria.
Acabou.
O Google Maps.
Acabou.
O endereço. Da minha casa.
Acabou. A minha vida. Acabou. O carregador.
Acabou.
A tela do meu celular escureceu, e eu arregalei o olho no mesmo compasso em que aquele simbolozinho redondo foi girando, mostrando que eu estava me afastando de qualquer tecnologia, GPS, qualquer informação, estava me ferrando, tudo no gerúndio mesmo, e bem devagarzinho, pra sofrer bastante.
Pensei numa palavra horrorosa que pudesse descrever o que eu sentia, mas nenhuma do meu vocabulário teve essa capacidade.
Eu não sabia onde eu estava, e não tinha o meu endereço. Eu não sabia falar “carregador” em francês. Eu não sabia falar nem em inglês, e nem em português.
Eu não sabia falar.
Eu não tinha o nome da minha rua, o número do prédio, e muito menos o código para digitar na porta da frente para entrar no pátio do prédio.
Eu não sabia, eu não podia, eu não queria.
Eu estava num jetlag violento.
Estava tudo acabado junto com a bateria, a felicidade tinha durado pouco, eu não sobreviveria, queria que a moça passando ao lado me abraçasse. Ou que o bebezinho encapotado com uma roupinha peluda e quentinha me abraçasse. Ou o rapaz guiando seu cão que eu avistei de longe, queria que ele me abraçasse. Ou o cão, adoraria que ele me abraçasse.
Só queria ser abraçada, levada pra casa, queria que me dessem um banho e me pusessem pra dormir, queria chorar.
Seria muita falta de sentido voltar pro Brasil duas horas depois de pisar em Paris? Eu seria julgada? Meus amigos ainda seriam meus amigos? E meus pais ainda me amariam? O que a minha mãe estaria fazendo? Ela estaria fazendo compras para a semana, resolvendo alguma coisa, estaria no meu bairro, no banco, como falar “banco” em francês?
Esqueci.
Eu queria a minha mãe, o travesseiro dela, o colo dela, a sopa dela, eu queria ela me dizendo que sabia o meu endereço e que me encontraria lá, e que tinha feito o jantar, e que estava tudo bem, que podíamos dormir juntas, ela me contaria historinha pra eu dormir.
Os meus neurônios sempre trabalharam muito bem e muito rápido em momentos de ameaça, para o meu azar, porque me levam ao desespero rapidamente, mas para a minha sorte também, porque felizmente no meio daquele curto-circuito lembraram do Panthéon.
Pera.
Passei pelo Panthéon.
Eu vi o Panthéon.
Moro perto do Panthéon.
O que aconteceu mesmo no Panthéon? Como o Panthéon tem esse nome, aliás?
Não importa agora. Moça, por favor, onde fica o Panthéon? Ai. Sorry! How can I get close to Panthéon? Ops. Excusez-moi, je suis perdue, vous pouvez me dire comment je peux aller au Panthéon?
“De lá eu me viro”, inocentemente pensei.
(Continua)

O apelo da chaleira

Queria te falar do céu.

Eu perdi o sono na noite passada, porque um pouco antes de dormir fui esquentar água para fazer o meu chá, e quando a água ferveu, a chaleira fez um barulho estranho.

Não era barulho de chaleira quando grita, previsivelmente, que a água ferveu. Aquilo era um choro.

A chaleira gemia, soluçava, e era de um jeito tão sofrido, que parecia criança querendo mamar. Me deu dó da chaleira.

Eu sabia que ela queria dizer alguma coisa com aquelas lágrimas amargas suadas ardidas que eu podia enxergar através daquele som tão triste. Os sons abrem os olhos, às vezes mais do que aquilo que é possível ver. Será que ninguém nunca olhou pro sofrimento daquela chaleira? Mas onde é que eu estava com a cabeça até aquela hora, que não tive a sensibilidade de perguntar se ela estava bem com a tarefa de ferver a água todos os dias, para o resto da vida?

Peguei a coitada da chaleira e derramei a sua dor na minha xícara, porque queria compartilhar daquele lamento. Era culpa, mesmo.

Queria me desculpar por tanto tempo de descaso.

Assim como eu queria também me desculpar para o guarda da rua, por não ter falado boa noite quando fechava o portão de casa e ele me observava de pé naquelas pernas cansadas de procurar ameaças. É que eu estava checando se tinha mesmo fechado o portão, e precisava fazer isso três vezes pra ter certeza absoluta de que eu estava segura. E assim, também, como queria pedir desculpas à minha terapeuta pela quantidade de erros iguais que eu cometi e, consequentemente, sessões de terapia tão iguais na vida dela, mas eu demoro muito pra aprender, e minha mão já está totalmente dilacerada de tanto murro na ponta da mesma faca. E também queria pedir desculpas aos meus amigos por ter tanto pavor dos lugares para os quais eles me chamam pra ir. Tipo lugares com muitas pessoas. Ou com muita música. Como lugares meio escuros. Ou lugares muito jovens. Tipo lugares.

Fiquei na dúvida entre os sachês camomila e erva doce, e achei que eram propósitos tão iguais, tão quotidianos, que me deu pena de mim.

Tudo me lembrava que eu precisava ficar calma, o que queria dizer que eu nunca estava calma. Pegar aquelas caixinhas de chás com sabores ansiolíticos me transformava numa menininha com duas tranças, uma de cada lado da cabeça, usando óculos gigantes e projetando um bico nos lábios, pedindo um abraço. Tomar chás e mais todos aqueles cuidados, todo o dia, toda a hora, era como o gato que se esconde no buraco e deixa o rabo de fora. Parece que resolve, mas não adianta nada.

Optei pela camomila, porque já que era pra ser óbvio, que fosse com propriedade.

E aí, quando fazia aquele sachê de camomila patinar nas águas ferventes da minha xícara, que de tão quentes formavam espumas parecidas com gelo, pensei no céu. De onde eu estava era impossível vê-lo, paredes gigantes me cercavam como a aflição que ia, como um formigueiro, tomando conta de mim ao passo que as horas corriam.

Fui tendo a capacidade de enxergar com um olho que eu inventei, a textura do céu e suas promessas de um futuro incerto, tive a chance de passar a ponta dos dedos nas nuvens de memórias que eu queria desembaçar, e no vaivém da camomila, fui tomada por uma certeza que de tão incontestável, podia ser vendida: o céu não existe.

Eu lembrei que numa tarde de muitas nuvens, quando era pequena, perguntei pra minha avó o que era o céu, ela olhou pra cima e disse que o céu era sopro de anjos. Eles sopravam o chá da tarde, e aquele ar todo, junto com vapor, se transformava em nuvem. Perguntei por que então o céu mudava de cor dependendo da hora, e ela disse que, obviamente, tinha anjo que soprava o chá de dia e anjo que soprava chá de tarde. Ela gargalhou, me deu um beijo na testa, e eu não dormi.

Fiquei pensando, quem, então, soprava o chá da noite? Demônios?

Daí também lembrei que na adolescência eu beijei um garoto numa festa pra me convencer de que eu era adolescente, e que logo depois de me beijar, o garoto apontou pra cima e falou: olha, o céu. Eu olhei pra cima achando aquilo muito romântico, mas não vi nada além de um morcego numa árvore, e me perguntei se morcegos passavam algum tipo de doença para humanos. Tentei achar algo no céu depois de focar no morcego, mas lá não achei nada além de medo.

O garoto disse que tinha visto um disco-voador, que aquilo era sem dúvidas um óvni, como eu não conseguia enxergar? Ele sabia desde o início que discos-voadores existiam, e agora estava confirmando sua hipótese. Ele teria filmado o suposto objeto voador se existisse smartphone na época, mas isso faz tempo. Naquele tempo a gente imaginava.

Fiquei com receio de ter beijado alguém que tivesse usado drogas, e falei pra ele que minha mãe tinha chegado pra me buscar. Saí correndo.

De volta à escola, na segunda-feira, o menino falou que comentou com outro colega sobre o disco-voador na festa, e que o outro também não conseguiu enxergá-lo, mas que por outro lado jurava de pés juntos que viu no céu o contorno do seu tio que já tinha morrido.

Fiquei implicada com aquilo, e não dormi naquela noite, pensando que se eu via o medo onde uma pessoa via disco-voador e outra via o tio falecido, será que alguém no mundo era capaz de ver naquela escuridão toda o que seria da minha vida? Eu teria filhos, ou subiria num cavalo branco para fugir pra sempre de todas as provas de matemática da vida inteira?

Isso tudo veio assim na minha mente enquanto fazia a camomila de bailarina, bem perto da hora de ir pra cama, e então eu não dormi.

No ápice da briga corpo-lençol-travesseiro-ventilador-barulho-falta dele-pássaros-exaustão-sono-delírio, cheguei à seguinte conclusão: se toda a pessoa enxerga o céu de uma forma diferente, fazendo com que ele tenha infinitas formas e naturezas, ele, na verdade, é só da cor dos olhos de quem vê. Ele não existe.

Portanto, quem garante que eu também não seja quem eu acho que sou, e, seja, na realidade, apenas milhares de reflexos de pessoas que olham pra mim e me julgam de formas diferentes?

Neste caso, eu não existo.

Ou então, nada aqui neste mundo faria de mim uma pessoa.

Pra ser muito honesta com você, acho que não passo de uma chaleira na dúvida se esquento mais água, resignadamente, ou se continuo berrando pela atenção de algo que possa me salvar.