O apelo da chaleira

Queria te falar do céu.

Eu perdi o sono na noite passada, porque um pouco antes de dormir fui esquentar água para fazer o meu chá, e quando a água ferveu, a chaleira fez um barulho estranho.

Não era barulho de chaleira quando grita, previsivelmente, que a água ferveu. Aquilo era um choro.

A chaleira gemia, soluçava, e era de um jeito tão sofrido, que parecia criança querendo mamar. Me deu dó da chaleira.

Eu sabia que ela queria dizer alguma coisa com aquelas lágrimas amargas suadas ardidas que eu podia enxergar através daquele som tão triste. Os sons abrem os olhos, às vezes mais do que aquilo que é possível ver. Será que ninguém nunca olhou pro sofrimento daquela chaleira? Mas onde é que eu estava com a cabeça até aquela hora, que não tive a sensibilidade de perguntar se ela estava bem com a tarefa de ferver a água todos os dias, para o resto da vida?

Peguei a coitada da chaleira e derramei a sua dor na minha xícara, porque queria compartilhar daquele lamento. Era culpa, mesmo.

Queria me desculpar por tanto tempo de descaso.

Assim como eu queria também me desculpar para o guarda da rua, por não ter falado boa noite quando fechava o portão de casa e ele me observava de pé naquelas pernas cansadas de procurar ameaças. É que eu estava checando se tinha mesmo fechado o portão, e precisava fazer isso três vezes pra ter certeza absoluta de que eu estava segura. E assim, também, como queria pedir desculpas à minha terapeuta pela quantidade de erros iguais que eu cometi e, consequentemente, sessões de terapia tão iguais na vida dela, mas eu demoro muito pra aprender, e minha mão já está totalmente dilacerada de tanto murro na ponta da mesma faca. E também queria pedir desculpas aos meus amigos por ter tanto pavor dos lugares para os quais eles me chamam pra ir. Tipo lugares com muitas pessoas. Ou com muita música. Como lugares meio escuros. Ou lugares muito jovens. Tipo lugares.

Fiquei na dúvida entre os sachês camomila e erva doce, e achei que eram propósitos tão iguais, tão quotidianos, que me deu pena de mim.

Tudo me lembrava que eu precisava ficar calma, o que queria dizer que eu nunca estava calma. Pegar aquelas caixinhas de chás com sabores ansiolíticos me transformava numa menininha com duas tranças, uma de cada lado da cabeça, usando óculos gigantes e projetando um bico nos lábios, pedindo um abraço. Tomar chás e mais todos aqueles cuidados, todo o dia, toda a hora, era como o gato que se esconde no buraco e deixa o rabo de fora. Parece que resolve, mas não adianta nada.

Optei pela camomila, porque já que era pra ser óbvio, que fosse com propriedade.

E aí, quando fazia aquele sachê de camomila patinar nas águas ferventes da minha xícara, que de tão quentes formavam espumas parecidas com gelo, pensei no céu. De onde eu estava era impossível vê-lo, paredes gigantes me cercavam como a aflição que ia, como um formigueiro, tomando conta de mim ao passo que as horas corriam.

Fui tendo a capacidade de enxergar com um olho que eu inventei, a textura do céu e suas promessas de um futuro incerto, tive a chance de passar a ponta dos dedos nas nuvens de memórias que eu queria desembaçar, e no vaivém da camomila, fui tomada por uma certeza que de tão incontestável, podia ser vendida: o céu não existe.

Eu lembrei que numa tarde de muitas nuvens, quando era pequena, perguntei pra minha avó o que era o céu, ela olhou pra cima e disse que o céu era sopro de anjos. Eles sopravam o chá da tarde, e aquele ar todo, junto com vapor, se transformava em nuvem. Perguntei por que então o céu mudava de cor dependendo da hora, e ela disse que, obviamente, tinha anjo que soprava o chá de dia e anjo que soprava chá de tarde. Ela gargalhou, me deu um beijo na testa, e eu não dormi.

Fiquei pensando, quem, então, soprava o chá da noite? Demônios?

Daí também lembrei que na adolescência eu beijei um garoto numa festa pra me convencer de que eu era adolescente, e que logo depois de me beijar, o garoto apontou pra cima e falou: olha, o céu. Eu olhei pra cima achando aquilo muito romântico, mas não vi nada além de um morcego numa árvore, e me perguntei se morcegos passavam algum tipo de doença para humanos. Tentei achar algo no céu depois de focar no morcego, mas lá não achei nada além de medo.

O garoto disse que tinha visto um disco-voador, que aquilo era sem dúvidas um óvni, como eu não conseguia enxergar? Ele sabia desde o início que discos-voadores existiam, e agora estava confirmando sua hipótese. Ele teria filmado o suposto objeto voador se existisse smartphone na época, mas isso faz tempo. Naquele tempo a gente imaginava.

Fiquei com receio de ter beijado alguém que tivesse usado drogas, e falei pra ele que minha mãe tinha chegado pra me buscar. Saí correndo.

De volta à escola, na segunda-feira, o menino falou que comentou com outro colega sobre o disco-voador na festa, e que o outro também não conseguiu enxergá-lo, mas que por outro lado jurava de pés juntos que viu no céu o contorno do seu tio que já tinha morrido.

Fiquei implicada com aquilo, e não dormi naquela noite, pensando que se eu via o medo onde uma pessoa via disco-voador e outra via o tio falecido, será que alguém no mundo era capaz de ver naquela escuridão toda o que seria da minha vida? Eu teria filhos, ou subiria num cavalo branco para fugir pra sempre de todas as provas de matemática da vida inteira?

Isso tudo veio assim na minha mente enquanto fazia a camomila de bailarina, bem perto da hora de ir pra cama, e então eu não dormi.

No ápice da briga corpo-lençol-travesseiro-ventilador-barulho-falta dele-pássaros-exaustão-sono-delírio, cheguei à seguinte conclusão: se toda a pessoa enxerga o céu de uma forma diferente, fazendo com que ele tenha infinitas formas e naturezas, ele, na verdade, é só da cor dos olhos de quem vê. Ele não existe.

Portanto, quem garante que eu também não seja quem eu acho que sou, e, seja, na realidade, apenas milhares de reflexos de pessoas que olham pra mim e me julgam de formas diferentes?

Neste caso, eu não existo.

Ou então, nada aqui neste mundo faria de mim uma pessoa.

Pra ser muito honesta com você, acho que não passo de uma chaleira na dúvida se esquento mais água, resignadamente, ou se continuo berrando pela atenção de algo que possa me salvar.

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escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

O meu melhor

o meu pior é aquilo

que desperta e mobiliza

o que há do meu melhor

.

o meu pior

é a melhor parte de mim

Uma noite, uma vida

Queria dar um descanso pra minha loucura, emprestar um tempo um mínimo eterno para ela dormir em paz, reconsiderar tudo o que pensa, e talvez mudar de ideia sobre suas inquietações.
Enquanto todo mundo espera uma vida melhor, ela só espera uma vida de verdade. Ela me pergunta se é pedir demais, e eu não sei responder, nem sei se um dia eu vou saber. Ninguém sabe o que é a verdade.
As pessoas fingem que sabem pra doer menos o levantar da cama pela manhã.
Costumamos falar sobre o futuro, e toda a vez nos arrependemos alguns minutos depois por termos perdido o presente. Nos culpamos por isso, e mudamos de assunto, tentando achar respostas eficazes para o fato de nos questionarmos tanto sobre tudo. Pensamos nas horas, na solidão, nos julgamentos, nas dores que nunca chegamos a sentir. Buscamos respostas, mas como a verdade não existe, continuamos nas perguntas.
Será que a vida é uma mentira?
Dorme, dorme em paz, eu digo. Ela não consegue, tem medo de perder o controle. Eu compreendo penalizada, e compreendo bem até demais. Resolvemos, então, jogar palavras na noite à dentro. Quando a madrugada te observa rolar na cama, sem rumo nem proteção, o melhor é conversar sobre isso com quem te ouve sem te julgar.
Freud dizia que a fala cura.
Assim, conversando com a minha loucura, é possível que as horas se percam nas palavras, e, cansadas de tentar entender, vão embora deixando minhas pálpebras pesadas.
Falamos sobre o sol, sobre as coisas que giram, sobre o universo, sobre cartomantes, sobre a Verdade e a Mentira. Vi cenas coloridas e presenciei diálogos que foram cortados por impulsos de razão e lucidez.
Ou mentiras.
Tenho interesse pelos opostos, então o assunto caiu sobre a chuva, sobre o tempo, sobre o peso da mesmice e da falta de luz em vidas que gastaram toda a sua energia com aquilo que não faz sentido. Aqueles homens dentro do elevador, cada um olhando o seu relógio, checando e-mails nos respectivos celulares, talvez pensando em uma forma de fugir do trânsito, do país, ou da vida.
Ou da verdade.
Ou da mentira.
Pude ver um deles chorando escondido, gente grande não chora, mas a dor não respeita esta verdade. Ele estaria acordado agora? Que horas eram?
Contei pra loucura que não me sentia bem de não me sentir bem, já que eu tenho tudo o que muitos não têm. A culpa aumenta, e junto com ela, as batidas do coração e o tamanho das horas.
Eu sou uma farsa?
Eu deveria ajoelhar e agradecer a Deus toda a hora por eu ser eu – digo à loucura, já pedindo desculpas pra quem quer que seja, e deixando claro que me importo, pra não ser castigada. Mas isso tudo dói ainda mais – o fato de ser injusto sofrer pela minha vida, e não pela dos outros, que agora passam frio ou calor na rua – já perdi a noção da temperatura também, assim como das horas.
Choramos juntas, eu e a loucura, até darmos risada. Sempre fomos assim: diante do desespero e dos pensamentos que soltam quilômetros de cordas à nossa criatividade e angústia, rimos.
Pensamos nas pessoas que conhecemos, e nos comparamos a cada um deles – um por um. Todos felizes? Aparentemente, sim. Sabemos que não é verdade? Sabemos. Mas eles podem mostrar? Não. E nós, podemos? Claro que não.
Ou isso é tudo mentira?
Estão todos doentes, ou as doentes somos nós?
O que é ser doente?
Estou inventando tudo isso?
Essa noite vai acabar, eu digo à minha loucura. Não somos onipotentes a ponto de acabarmos com o mundo por causa da nossa insônia. Ainda não alcançamos esse status.
Será que um dia eu vou ser tão poderosa sobre alguma coisa? Não importa. Se eu tiver poder sobre a minha mente, já estou muito satisfeita.
Estávamos falando há umas duas horas sem parar, resolvemos calcular. Chegamos a, inclusive, questionar sobre a felicidade e a estratégia da indústria farmacêutica para conseguirmos alcançá-la. Nos culpamos novamente. Fomos até Vênus e voltamos.
Mas a vista não dava pro mar.
Combinamos que amanhã passaríamos menos tempo na internet. Ligaríamos para o Dr. Rubens e finalmente marcaríamos a consulta – nossa saúde deveria vir em primeiro lugar (é o que dizem, mas no fundo no fundo, o capitalismo nos ensinou que isso é o que vem por último, na verdade. Ou na mentira). Pagaríamos a conta do banco, e contamos quantas horas teríamos para descansar se pegássemos no sono em cinco minutos. Tudo calculado, como a vida tem que ser.
Como o sistema injusto nos ensinou.
Ou injusta sou eu?
Esquece tudo isso, respeita as regras, foca na respiração, e dorme.
A loucura sabe que vai passar, como todas as outras noites, mas ela sempre precisa ouvir de novo. E tem que ser de mim, mesmo que eu esteja querendo dormir – o que é querer? É desejar, ou seguir as regras?
Ela me sacode para eu poder consolá-la, e, como quem não quer nada, deita de bruços ao meu lado na cama, apoia o rosto nos braços e me pergunta de um jeito travesso sobre quem eu sou e o que quero de tudo isso.
Acho essa pergunta muito impertinente para às 3 da manhã – chequei o horário no celular – mas não posso deixar ninguém sem resposta (e ela sabe disso), senão minhas entranhas começam a engolir umas às outras, o coração bate tão forte quanto a chuva na janela (esse barulho é de chuva, eu penso, ou já comecei a delirar, preciso ligar pro Dr. Rubens), o suor escorre nas costas como depois de uma maratona trás do tempo perdido, e penso que o mundo vai desmoronar por minha causa se eu não fizer algo que tenho condições de fazer naquele momento.
Falamos sobre ansiedade também. Precisamos levar a sério a nossa ideia de ajudar pessoas como nós.
Será que existe alguém como eu?
Eu não sei quem eu sou, e eu não sei o que eu quero, respondo.
Brigo com o choro, ele não pode vir de novo, por favor, vai prejudicar a respiração, o sono, minha vida inteira.
A noite é sempre dramática.
Olhamos uma para a outra com certa autopiedade, mas também com cumplicidade, sempre presente entre nós. Porque apesar de nada fazer sentido, ainda assim existe uma empatia grande que nos permeia, e isso não é a solução da questão Verdade X Mentira, mas nos basta naquela hora.
É bom saber que mesmo embaixo de horas muito sofridas ainda temos uma à outra e o nosso repertório para qualquer 3 da manhã que forem precisos – até pegarmos no sono juntas, quando as horas perderem o interesse na conversa, as pálpebras pesarem como disseram que deveria ser depois de um dia de trabalho, e acordarmos abraçadas uma à outra –
torcendo para o mundo ter amanhecido um pouco menos louco, ou, pelo menos, não tão injusto.

primavera

eu disse coisas que não saberia dizer a mim mesma. na hora em que olhei pra trás já não dava mais tempo, o ano tinha passado, e naquela rua já era dia. eu vejo a luz daquelas estrelas negras toda a vez que a razão sem sentido se transforma em imaginação fértil no formato de arco e flecha. o escudo, que a princípio deveria me proteger, entra na pele junto com todas as modernidades, e sangra na mesma intensidade de um sorriso dado para fingir que sou igual àqueles que nasceram em outra vida. às 4h da manhã o sol está ardendo tanto, que a minha pele virou escuridão, assim como os olhos que fecham em busca de um quarto onde possam chorar, gritar ou simplesmente descansar em paz, sem ninguém para poder julgá-los. eu me emaranho no cabelo que deixei crescer pra me sentir mais mulher, me perguntando se os cientistas que me observam dentro dessa caixa de vidro conseguem notar algo diferente em mim. provavelmente não, porque eles não tem piedade alguma. as minhas unhas arranharam a parede enquanto a minha boca beijava uma flor, e senti muita dor quando precisava ouvir de alguém que aquilo fazia algum sentido, e o meu amor me disse que eu era alguém incoerente. quando estava pronta pra sair, com batom vermelho e tudo, me elogiaram, falaram que eu estava bonita para me incentivar, mas não adiantou, porque o espelho nunca foi o meu retrato; a profundeza, sim. os outros nunca souberam de nada da gente, e então eu resolvi ficar em casa, porque só a solidão entenderia.
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hoje é dia de primavera, de botar um vestido, mostrar os dentes para a foto, tomar uma cerveja e dar risada do sol da chuva da noite e da desgraça alheia.
e eu, que sempre odiei as regras.

Juventude

Um enjoo que aperta até os órgãos que nunca me ensinaram os nomes. Uma cobrança que não se descreve, pois palavras não são tão maldosas. Uma dor que ainda não dói, é a iminência dela, é saber que ela vem. É a vida que está sendo vivida por todos, menos por mim. É o vento que só sopra a favor da moça bonita que cruza o meu caminho. É essa modernidade que transforma a minha essência em uma tela de vidro para eu me enquadrar na realidade e não me sentir tão só. É a incoerência da imaturidade, da falta de familiaridade, de ser nova demais pra não sentir vergonha. É o suco doce que depois de engolir deixa um gosto amargo na boca, assim como as pessoas que vão embora. É a sabedoria dos quatro elementos, de enfiar a linha na agulha, caminhar até o correio, falar com a boca, olhar nos olhos, e tudo aquilo que não entra mais neste mundo de meu Deus – mundo este que eu habito em busca da minha outra parte, que deve estar em algum lugar de uma mata fechada se protegendo de tudo o que emite onda e que tem língua grande pra falar de mim. É o pôr do sol que eu não sei se me esforço para achar só e simplesmente bonito, ou se me rendo para quem me moldou antes de eu entrar nesta dimensão, e admito que aquele fim de dia gera uma enorme guerra entre o que eu sou e o que eu quero ser (sem saber o que querer significa).
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É olhar pra garota que faz o meu chá atrás do balcão, e me perguntar se eu estou sendo injusta, se ela me entenderia, e se ela, por acaso, também se sente assim.