o seu aniversário e o meu ventilador

Margarida
você sempre foi minha
única amiga
pena que está
morta
agora não tenho com quem
conversar

eu teria uma montanha
de nadas pra contar, mas
nada
é um termo já tão batido
todo o poeta usa como
última moda, é um
desalento para mim
pois é a única palavra que
diz
o que eu tenho
pra falar

minha filha já vai fazer
trinta anos
e acha que sabe de
coisas
coitada, outro dia me disse
mãe, acho que estou entendendo
de alguns assuntos
pobre ignorante, Margarida,
deixei ela achar
nem teria recursos
para curar sua
frustração

o Arnélio é um grande
Idiota
sabe que eu o amo e sabe
me azedar os
sentidos
daquele jeito que eu quero
desistir de mim
mas não
dele
tem gente que nasceu
pra assombrar, minha amiga
fico feliz que você
mesmo Mortinha
não me faça dessas
coisas

a minha companhia,
se te interessa saber,
é meu ventilador
eu saio de casa e só penso
na hora de voltar pra
comer algo fácil
tomar banho e pôr minha
camisola de quem ainda não
é avó mas
será
olhando o ventilador
girar
da minha cama de casal
pela metade

ouvi dizer um dia
que o barulho que o ventilador
faz quando gira
assim como das ondas do mar
quando batem
é algo semelhante ao barulho
de dentro do ventre da mãe
quando ainda não temos contato
com o que nos faz hipócritas
por isso
acalma e
é Bom

não sei se acredito
nisso e não
conheço nenhum médico
pra
perguntar

mas quando o ventilador
gira
venta minhas saudades
e eu até imagino
novidades
que só você era capaz
de me contar

tentei fazer amizade com a cleide
mas eu a detesto, Margarida
acho ela burra
não tem assunto que
Preste
entre nós
acredite você, outro dia
ela me disse “mas a Margarida também
não era flor que se cheirasse”
levantei da Mesa de Chá naquele
instante
e disse que ela que fosse
usar o Tempo dela pra
outras coisas que não
falar dos Mortos

sou muito
contraditória
porque tudo o que eu faço é
pensar na sua falta
e falar sozinha com
Você através de recursos
incompreendidos
por quem nunca passou
tardes laranjas
no nosso banco de ferro
comentando sobre
gentes que
fazem a gente pensar

lembrei, aliás, como todos
os santos anos
que hoje é seu
aniversário

nós nos perfumaríamos
caminharíamos na rua
de terra até
o bar de azulejos finos
e toalhas de
linho
com vista pra
coisa nenhuma
e falaríamos mal do mundo
inteiro
com uma bondade
que só melhores amigas
têm

você pediria pelo amor
de jesus Cristinho
para eu não cantar parabéns,

e eu cantaria

pena que está Morta,
margarida

mas saiba que fiz um
bolo mesmo assim
e apaguei a vela por você
comi um pedaço
e o resto
eu vou dar para a cleide amanhã
na Casa de Chá depois da
chuva

me perdoe
é que me sinto

muito

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Partes Pessoais

Joana viu aquela pomba esmagada com suas tripas, penas e poucas cores expostas ao mundo, no asfalto da rua de cima. A infeliz da ave nem teve tempo de virar de costas e esconder a cara e o peito, partes tão pessoais. Era tão nojento e verdadeiro que não dava pra não olhar. Era como passar por um acidente na rua, que quanto mais trágico, mais todo mundo para por mais tempo pra contemplar a sorte que é não estar no lugar dos que se ferraram naquele dia. Daí o papai começava a chamar por uma tal de Cacilda, que não se sabia quem era, Joana já tinha perguntado, e ele não respondia: “Cacilda! Vagabundos que não trabalham. Não têm que chegar no trabalho, não, inúteis? Ê, bando de esquerdistas vagais! Cacilda!”.

Os olhos da ave azarada pulavam pra fora, tentando entender se tinham morrido ou se era só mais um pesadelo. Joana sabia bem como era ter os olhos assim no meio da noite. Já tinha acontecido no dia em que sonhou que estava pelada na frente da classe e menstruava pelo chão de madeira, enquanto todos, inclusive o Felipe, riam e apontavam.

As asas da falecida não tinham mais nenhuma utilidade. Estavam cortadas, que nem as vontades de Joana, quando era proibida, por exemplo, de sair na chuva pra dançar e sentir a roupa toda grudando e escorrendo por suas formas cada dia mais evidentes. O bico da ave que havia aceitado tanta migalha até hoje, estava boquiaberto com a novidade.

Morrer saciava.

Que nem a boca do vô José aos domingos, quando tirava soneca depois da feijoada e de uns copos de água benta que fazia ele ficar vermelho e falar enrolado. Ele também parecia morto dormindo. Joana não queria que o avô morresse, mas o tio Carlos queria – ouviu a avó dizendo outro dia, parece que assim tio Carlos raparia tudo. O que era “rapar”, Joana não sabia. Tio Carlos era o homem mais feio que Joana já tinha visto. Mas ao contar esse segredo pra Clarinha, sua melhor amiga, Clarinha disse que achava que todo mundo tem um tio feio que só pensa em rapar tudo. Clarinha era sempre muito sábia, mesmo sem saber de tudo.

Acabou para a pomba.

Para Joana também acabaria. Para o avô também, e para a mãe também. Para a Clarinha e para o Felipe, com quem Joana casaria, também. Para o pai também. E até para o tio Carlos, que parecia não saber. Para a sua árvore preferida, cheia de limões pequenos e bondosos, e para a tia Teca, que não entendia ser possível sobreviver sem um homem ao lado, também. Para o Seu João da pipoca, Valdemira da limpeza, para o cachorro pulguento e cheio de sarna da praia da areia boa, também. Para a gata Caramelo e para as mulheres peladas que o irmão via na televisão à noite, acabaria. Para o primo débil que não largava o vídeo game, e só sabia falar disso, também acabaria. Acabaria para a professora Georgina e para o garçom magrelo da pizzaria, que sempre convencia Joana a comer também os legumes, e não só o queijo da pizza. Acabaria até para o mar e para o céu e para o sorveteiro Bebeto. Para Gigi, a sua prima mais linda do mundo que dava raiva e vontade mesmo que ela morresse, assim paravam um pouco de elogiá-la, também. E acabaria para a chuva, para as tardes de chuva, para as manhãs ardidas antes das tardes de chuva. Para o asfalto que exalava um cheiro de chuva antes mesmo da chuva.

Daria saudades do ódio da chuva naqueles dias de verão. Joana entendia daquele ódio. Era o ódio daqueles que querem expor suas razões e não são ouvidos pois não têm idade suficiente – de repente, eles ficam tão bravos de serem impedidos, que não se seguram e descem destruindo tudo o que veem pela frente.

Chover era vingança, e um dia Joana choveria.

Acabaria para aquele porteiro novo que procurava algo nas suas pernas de criança, algo que ela não sabia o que era, e fazia ela se envergonhar. Acabaria para a velha do terceiro andar que apertava a sua bochecha forte, de tanta inveja por ser velha e baforenta, enquanto Joana era nova e escovava os dentes. Acabaria para o elevador, seria o fim do apartamento onde morava, e do peixe betta que ganhou de lembrancinha numa festa, e que matou todos os outros peixes do aquário, achando ser possível, assim, evitar a própria morte. Ele que se enganava. Acabaria para ele também.

– Ué, Joana, cadê o pão?

– Não trouxe ainda. Vim buscar uma capa antes de ir à padaria.

– Capa? Mas já está chovendo, filha?

– Não. Mas quero esconder as minhas partes pessoais.

Mortal

acordei mortal
e tudo podia acabar
se o deus do céu da terra do mar
quisesse que assim fosse

se a lua cansasse
e caísse
se o sol sofresse uma desilusão
e congelasse
se todas as pedras do espaço
virassem uma
e viessem de encontro à Terra

como se as horas fossem mentira –
um conto de pai pra filho

acordei mortal
e o planeta girava
enquanto eu envelhecia
e os cientistas encontravam
respostas plausíveis
curavam doenças
compreendiam a miséria
faziam papel de deus do céu da terra do mar
e tudo podia acabar

como uma bomba que podia ser acionada
pra matar
não por mal
mas por vida
da qual os mortais não abriam mão
já que um dia morreriam

acordei mortal
como se a vida me gritasse
pra eu ir pra rua
pra eu dançar dentro da fonte
dos meus desejos inconfessáveis
pra eu beber dos meus erros
que aquilo havia de acabar

como se um dia
eu não fosse mais ter vinte e sete anos
como se a vida fosse um sopro
e eu junção de poeira de nada
que tem sorte de sentir
enquanto outros tantos já nem existem mais

ou como se eu fosse-
como num sonho-
apenas mortal

Depois daquela conversa

Depois daquela nossa conversa longa, tão longa que me fez perder a noção das horas, fiquei pensando muito no que foi falado. Se você acredita em mim, estou pensando em tudo aquilo até agora.

E se eu te disser que já sofri pelos exatos mesmos motivos que você, e já senti cada descrição que saiu da sua boca naquela noite cheia de trovoadas e obscuridades que só nós sabemos? Acho que o nosso maior defeito – se é que defeitos existem, e não são apenas invenções nossas para aceitarmos as coisas que julgamos erradas – é o de vivermos além e fora do nosso tempo (se é que este também existe).

O não aceitar o passado e querer desesperadamente agarrar o futuro com as mãos, arrancar-lhe o embrulho que não nos permite contemplá-lo, como se fosse o presente, e devorá-lo como se fosse doce nas mãos de criança, é o que causa nossa inquietude e desespero. Por que simplesmente não aceitamos? Por que não conseguimos viver o agora, a nossa era, a nossa carne e nosso hoje, e por que queremos tanto o que não é possível pegar nas mãos e ser controlado? Seria esta uma forma de nos enganarmos pelo medo da morte?

Dizem que quando a missão do ser – qualquer que seja este – acaba, então a morte o leva embora. Talvez não aceitemos isso, e preferimos não sermos felizes, continuarmos nos enganando, com medo de que a felicidade nos traga a morte… como te soa esta teoria? Plausível?

Mas olha só como somos maldosos com nós mesmos: queremos ser infelizes pelo medo do que a felicidade pode nos trazer de bom, e, depois, de ruim (que seria, neste caso, a morte). Acreditamos que não temos sangue frio suficiente para lidar com a plenitude, e, assim, buscamos nos boicotar ao máximo para não morrermos, e continuarmos vivendo infelizes, mas ao menos vivendo.

Ao menos viver…  mas, isso é vida? Então é isso o que chamam de viver? É a vida, ou morremos e não estamos sabendo?

Hoje, deitada no sofá e olhando o céu pela janela, resolvi que quero ser feliz, mesmo que isso me traga a morte. Você não acha que vale mais a pena tentar encontrar logo o que nos faz plenos, e morrer sorrindo depois – como uma bela flor branca deitada no jardim depois de uma missão cumprida – do que viver feito erva daninha, cabisbaixa e venenosa, obscura e triste, e não morrer nunca mais? De que adiantaria? Pense nisto e me dê uma resposta.

.

Naquele dia depois da nossa conversa, voltando a pé na chuva em direção ao meu carro, vi pessoas indo e vindo, vi gente sorrir, vi gente chorar, vi gente correndo, gente parada, luzes acesas, conversas ao vento, pingos gelados no meu rosto. Vi vida, como há muito não via. Eu arrisco dizer que vi o ar que entrava e saía dos meus pulmões – tanto o vi que me senti apaixonada por ele assim que entramos em contato um com o outro. Há quanto tempo eu não via uma cena tão bonita… naturalmente bonita, sem banho, sem perfume, sem batom. Apenas a cena do jeito que ela nasceu e depois morreu. Acho que, naquele momento, meus olhos resolveram parar de olhar o futuro e o passado, e deixaram o presente lá, na frente deles, com embrulho e tudo, só para ser contemplado e sentido. Devagarzinho, sem pressa… Essa é a graça da vida, afinal, não é?

Reflita sobre isso tudo e me diga o que acha. Esta é a minha teoria, quero saber da sua.

Com amor.