Cidade grande

Não tinha o que fazer, não tinha pra onde ir.

Um mar de carros desesperados por seus objetivos perdidos com o tempo, e buzinas que berravam por calma que remédio algum era capaz de trazer.

Talvez se ele estivesse em outro lugar, com outras pessoas, uma outra hora.

Hábitos que voaram com as folhas do outono.

Ela, definitivamente, havia sido um grande amor. Mas passou, assim como o pedinte que percebe quando não há mais nada dentro daquele carro que estejam dispostos a lhe dar – ele sabe a hora de recolher a mão para si mesmo, e seguir seu caminho rumo ao próximo automóvel.

Por que pensava nisso?

Mudar de emprego, viajar para longe, mandar uma mensagem para aquela garota bonita, pedir um salário melhor – será que adiantaria?

Gritos de trabalhadores que perderam o ônibus e a hora de dar um beijo de boa noite.

Aumentar o rádio foi uma tentativa, mas era como potencializar a dor de cabeça de não viver. Não abafava o caos lá de fora, só lembrava às suas mãos suadas da morte que era acordar todos os dias sabendo exatamente o que aconteceria nos momentos seguintes. A vida não era pra ser lógica, mas a dele havia perdido toda a poesia e as cores da realidade.

Talvez se ele ligasse pra ela mais tarde, no final de semana seria legal ir ao cinema, a conta do banco estava atrasada? Ele deveria se permitir enlouquecer de vez.

Os outros que cuidassem da vida deles.

Quando ele era jovem, deveria ter fugido com aquela delinquente, assim como sua mãe a chamava, e tentado um caminho de aventuras ao lado dela. E que o resto fosse pro inferno. Será que ouviram, na quinta série, quando ele chorou no banheiro?

Mas isso tanto fazia agora.

Se ele pudesse, resgataria sonhos perdidos, que agora afundavam num mar onde pescador algum gostaria de estar. Quando ainda havia vontade, brilho, inocência. Quando tudo era amanhã. Quando o amanhã não era o eterno hoje.

Checou o celular, nenhuma notificação, de nada, de ninguém.

O que será que ela fazia agora?

Deixa pra lá, era resquício de um tempo perdido.

Quando o fim não existia.

.

Acendeu um cigarro, deu três longos tragos tentando suprir a bolha de nada que havia nos pulmões, e, soltando a fumaça vagarosamente pela boca, com o braço para fora da janela, deixou com que a sua válvula de escape escorregasse pelos dedos cansados, tremidos e sem força, até cair no cimento exausto de tanta mesmice que carregava todos os dias.

As faíscas explodiam e brilhavam em câmera lenta, enquanto o cigarro abandonado tentava uma posição para ficar pra sempre, e morrer confortável.

Ele não viu, mas sentiu.

Precisava acelerar.

 

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2 comentários sobre “Cidade grande

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