Epifania

Entrou no seu lugar preferido.
Quis se dar um presente diante daquele dia, ela merecia.
Pediu aquilo que mais gostava de comer, junto com a bebida mais próxima de um abraço.
Arrancou uma caneta da bolsa, pegou um guardanapo da mesa:

“Alma, sou eu de novo.
Achei pertinente te escrever, não só pelas saudades, mas pela novidade.
Eu sei que você sabe.
E que você sempre soube.
Não sei direito o que fazer com isso nas mãos. Eu sempre quis, mas agora que tenho, me parece tão inadequado.
Entregaram outro dia pra mim, tudo aquilo embrulhado pra presente. Desfiz o laço, descolei a fita adesiva, e abri o papel com cuidado para não rasgar, como sempre fiz.
Imagina, eu nunca adivinharia.
Quando abri, ela estava lá.
Olhando pra mim daquele jeito que você deve saber desde sempre, mas queria que eu descobrisse sozinha – como não poderia deixar de ser.
Na hora em que a vi me deu medo, não senti alívio e nem leveza, dá pra acreditar?
Eu parecia vazia, porque agora podia fazer o que quisesse – mas quem disse que era isso o que eu queria, Alma? A gente banca querer o que insiste em dizer que quer?
De onde eu vou buscar inspiração se não me apertar por dentro? Como melhora se eu não for chorar, e, se eu não chorar mais, é porque não dá vontade?
Isso é tão incabível pra mim.
Eu vou passar o dia todo sorrindo? Não dá cãibra? Não dói?
E os outros, Alma? Eu conto pro mundo todo, tiro foto, jogo na cara, esfrego nos seus olhos esbugalhados de insônia no meio da noite?
Mas isso não seria maldade?
Mais uma vez fui pega de surpresa. A vida dá dessas, né? A gente pede, implora, suplica. Quando temos, aí é outra história, não era bem assim, ainda não estou satisfeita, e tudo aquilo que você sabe melhor que ninguém, principalmente quando diz respeito a mim.
Alma, me responde:
Onde já se viu? Te darem a liberdade nas mãos, e você continuar se sentindo presa por você mesma?”
.
Foi embora pra casa entendendo da vida muito mais do que sabia antes de entrar no seu lugar preferido.
Diferente de muitos, as palavras sempre estiveram lá para ela.

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Poucas palavras

não me venha com
poucas palavras

não quero
meio-saber
meio-sentir
meio-sofrer

ou me puxa do quase
ou me empurra pro nunca

com isso eu saberia lidar
e acho que até me acalmaria
com uma maturidade
que os meus vinte e poucos
duvidariam

eu só não posso com o morno
que é convidativo
aconchegante
e corrói com toda a sua estupidez
disfarçada de bem-querer

eu não quero me acomodar
nessa dor que vicia
e que quer mais
que não descansa
e, quando cede ao cansaço, sonha
pra se alimentar
e me arrancar de mim –
como uma agulha
que sabe exatamente onde está entrando

uma onda que
quase-molha
uma migalha
do que eu mais gosto
uma hora
que nunca chega
um horizonte
que não diz nada

com isso não posso

se for pro meu bem
seja
ou deixe de ser

sem quase, sem meio, sem morno

e não me venha
com as suas
poucas palavras

Depois daquela conversa

Depois daquela nossa conversa longa, tão longa que me fez perder a noção das horas, fiquei pensando muito no que foi falado. Se você acredita em mim, estou pensando em tudo aquilo até agora.

E se eu te disser que já sofri pelos exatos mesmos motivos que você, e já senti cada descrição que saiu da sua boca naquela noite cheia de trovoadas e obscuridades que só nós sabemos? Acho que o nosso maior defeito – se é que defeitos existem, e não são apenas invenções nossas para aceitarmos as coisas que julgamos erradas – é o de vivermos além e fora do nosso tempo (se é que este também existe).

O não aceitar o passado e querer desesperadamente agarrar o futuro com as mãos, arrancar-lhe o embrulho que não nos permite contemplá-lo, como se fosse o presente, e devorá-lo como se fosse doce nas mãos de criança, é o que causa nossa inquietude e desespero. Por que simplesmente não aceitamos? Por que não conseguimos viver o agora, a nossa era, a nossa carne e nosso hoje, e por que queremos tanto o que não é possível pegar nas mãos e ser controlado? Seria esta uma forma de nos enganarmos pelo medo da morte?

Dizem que quando a missão do ser – qualquer que seja este – acaba, então a morte o leva embora. Talvez não aceitemos isso, e preferimos não sermos felizes, continuarmos nos enganando, com medo de que a felicidade nos traga a morte… como te soa esta teoria? Plausível?

Mas olha só como somos maldosos com nós mesmos: queremos ser infelizes pelo medo do que a felicidade pode nos trazer de bom, e, depois, de ruim (que seria, neste caso, a morte). Acreditamos que não temos sangue frio suficiente para lidar com a plenitude, e, assim, buscamos nos boicotar ao máximo para não morrermos, e continuarmos vivendo infelizes, mas ao menos vivendo.

Ao menos viver…  mas, isso é vida? Então é isso o que chamam de viver? É a vida, ou morremos e não estamos sabendo?

Hoje, deitada no sofá e olhando o céu pela janela, resolvi que quero ser feliz, mesmo que isso me traga a morte. Você não acha que vale mais a pena tentar encontrar logo o que nos faz plenos, e morrer sorrindo depois – como uma bela flor branca deitada no jardim depois de uma missão cumprida – do que viver feito erva daninha, cabisbaixa e venenosa, obscura e triste, e não morrer nunca mais? De que adiantaria? Pense nisto e me dê uma resposta.

.

Naquele dia depois da nossa conversa, voltando a pé na chuva em direção ao meu carro, vi pessoas indo e vindo, vi gente sorrir, vi gente chorar, vi gente correndo, gente parada, luzes acesas, conversas ao vento, pingos gelados no meu rosto. Vi vida, como há muito não via. Eu arrisco dizer que vi o ar que entrava e saía dos meus pulmões – tanto o vi que me senti apaixonada por ele assim que entramos em contato um com o outro. Há quanto tempo eu não via uma cena tão bonita… naturalmente bonita, sem banho, sem perfume, sem batom. Apenas a cena do jeito que ela nasceu e depois morreu. Acho que, naquele momento, meus olhos resolveram parar de olhar o futuro e o passado, e deixaram o presente lá, na frente deles, com embrulho e tudo, só para ser contemplado e sentido. Devagarzinho, sem pressa… Essa é a graça da vida, afinal, não é?

Reflita sobre isso tudo e me diga o que acha. Esta é a minha teoria, quero saber da sua.

Com amor.