Inconsistência

“Você é consistente na sua inconsistência”.
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Quando eu cheguei na ala de Picasso, senti um calor estranho e muito forte. Era como uma onda que toma conta da gente segundos antes de encontrar aquela pessoa. Você quer e não quer. Quer que passe rápido, que não acabe nunca mais. Imagens perfeitas na sua desconstrução. Não era sede. Uma vida linearmente organizada em todas as suas curvas e desvios de percurso. Não era fome. Olhar para dentro dói e faz bem. Não era angústia. Era eu. Era a minha inconsistência através da arte.
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Sinto que quanto mais o tempo passa, menos as horas correm. Porque aceitei que envelhecer é o melhor processo pelo qual eu já passei desde que nasci, e porque me enxergar com carinho só foi possível através das pazes que eu fiz com o meu sofrimento. Ele machuca, mas é um ótimo conselheiro. Dá tapas na cara sem dó, e me faz enxergar coisas que sozinha eu não conseguiria. Às vezes demora para acharmos alguém bonito, e quando nos damos conta, já perdemos o controle, e estamos apaixonados – esse alguém sempre foi lindo, mas as regras não nos permitiam enxergar.
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Fiquei encarando o pôr do sol como quem pede para ele dar mais explicações sobre o que é capaz de me fazer sentir. Brincamos de quem piscava primeiro, e quando a noite chegou, entendi que ele é um bom amigo, e me deixou ganhar. Olhei para o céu escuro e fui tomada por tanta coisa dentro de mim, que um velho sábio demoraria anos para conseguir descrever. Um vento muito forte quis me atravessar por dentro, quase chorei, mas parei para pensar, e lembrei que tudo bem. Se eu quiser chorar, o problema é meu.
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Estou neste lugar sem nome, cercada pelas minhas dúvidas, medos, insônias, e coberta pela minha sempre companheira inconsistência. Um lugar sem códigos de conduta, doce de tão amargo, branco em toda a sua escuridão. Leve de tão denso. Amável de tão assustador. Com gosto de eterna pausa para o café. Onde eu sempre precisei estar.
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Me senti abraçada pela mulher que estou me tornando. Não há ninguém tão inconsistentemente única como ela, em todos os seus defeitos e graças. A vida é uma questão de empatia com quem a gente é. O resto e os outros… Estes não nos cabem.

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