Nada é top

Não entendo a palavra top como adjetivo.

Viagem top, dia top, tarde top, noite top, evento top.

Nunca vi nem comi.

Para o ansioso fóbico, top é aquilo que segura o peito, e olhe lá. As coisas, para nós, são sobrevivíveis ou não. Sem mais nem menos nem top.

Viagem fazemos, sim, porém você não poderia imaginar pelo que passamos antes de te enviar aquela foto linda perto daquele ponto turístico, onde sorrimos como se aquilo fosse top.

Não é.

Acho que naquela foto a gente sorri tanto por ainda estar vivo. Por não ter morrido dentro do avião depois de uma crise traumatizante de ansiedade, onde teríamos que mobilizar toda a tripulação e atrapalhar a vida de todo mundo. Também sorrimos porque mesmo depois do avião, não desmaiamos de tanto chorar a falta que a casa e a cama da gente fazem depois de 12 horas longe delas, que são os lugares mais seguros para se estar em qualquer momento da vida. A pressão não baixou, nenhuma pontada no apêndice, tenho um chocolate na bolsa se a hipoglicemia vier dar um oi. Também sorrimos pois ainda não tivemos nenhuma infecção alimentar depois de ingerir alimentos locais, e isso é uma questão importantíssima.

Sorrimos a sobrevivência.

Viagens são bonitas, são interessantes, são engrandecedoras. Agora top, para o ansioso fóbico, não são.

Eventos sociais são sobrevivíveis até um certo horário, depois disso não são mais. O fóbico normalmente não sabe como agir. A gente aguenta firme até a hora em que: ou ficam todos bêbados nos lembrando que nunca mais saberemos o que é essa sensação (pois temos medo de perder o controle e qualquer droga nos assusta), e assim vamos embora de mansinho do lugar nos culpando por não ter dado tchau pra todo mundo; ou não aguentamos mais sorrir, tentar fazer todos gostarem da gente, e pedir desculpas das mais diversas formas depois que percebemos que sempre falamos alguma besteira, e só pensamos em conseguir cavar um buraco que dê diretamente no nosso quarto.

Normalmente, quando chegamos em casa depois de um evento considerado top, somos soterrados pelas perguntas: a fulana estava falando de mim? Ciclana achou que eu engordei? Por que eu falei aquilo pra mãe do beltrano? Por que razão eu teria nascido? E a gente só reza pra conseguir pegar no sono depois de tantos erros cometidos naquele evento que tem de tudo, menos de top.

Lugares lotados – shows, concertos, bloquinhos de rua, passeatas, feiras livres, eventos em parques, avenidas, ciclovias, praias, palestras cheias de gente ou qualquer outro tipo de lugar onde não tem como ficar perto da saída se qualquer coisa acontecer – são o mesmo que o inferno em formato de lugares lotados. Eles costumam nos lembrar que a nossa pressão é baixa, sim, que temos hipoglicemia, sim, que muito CO2 junto dá tontura, sim, e que não queremos dar um gole da sua bebida, não, vai saber o que pode ter dentro dela? Você ficou prestando atenção o tempo todo pra ver se não botaram boa noite cinderela dentro? Você não teria sem querer deixado alguma boca infectada encostar no lugar onde você sugere que eu coloque a minha boca? A bebida não tem álcool mesmo? E energético, você botou ali dentro? Quem garante? Isso vai me dar um revertério, eu vou lembrar dessa noite pra sempre, não vou conseguir dormir quando chegar em casa, e posso ter um troço de olhos abertos pois não vou pegar no sono nunca mais, e nada poderia ser pior do que isso.

É tudo menos top.

Outra coisa que o ansioso e fóbico não entende muito bem é esse negócio de usar o “festa open bar” como argumento para um evento top. Top mesmo seria “festa com hospital”, porque nunca se sabe, e qualquer coisa, já teria médico por perto. Muitas situações são possíveis num evento com mais de 03 pessoas, além de mim, meu pai e minha mãe, e eu não conseguiria e nem gostaria de listar todos aqui porque pode me dar muito, mas muito enjoo.

O que tem a ver com a personalidade do ansioso fóbico não dá medo, não causa ansiedade, e libera um hormônio que só a gente sabe qual é, que deve ter o nome de algo como “alivium”. Não estou na multidão – alivium; me responderam o e-mail e não encontrei a palavra louca nele – alivium; o médico disse que isso é normal e não quer dizer morte – alivium; a amiga me respondeu a mensagem de forma dócil, dando a entender que eu não saí da lista de amigos dela – alivium; consegui achar uma desculpa pra dormir abraçada com o meu urso de pelúcia em vez de ir numa balada open bar – alivium.

Dia e noite para o ansioso fóbico não são top, eles são passageiros, o que para nós é uma benção. Ufa, passou. Tô vivo(a), tô bem, vou tomar um chá de camomila pra comemorar. Então estamos bem felizes pois nos comportamos normalmente durante o dia, não chamamos a atenção de ninguém durante a noite, tudo parece bem civilizado, até entrarmos nas redes sociais e percebermos que a nossa vida é tão morna e sem graça perto da sua, que você teria dó se soubesse.

Aí ficamos tristes.

Choramos.

Abraçamos o travesseiro da nossa caminha na nossa casinha lendo nosso livrinho com nosso chazinho, e, de repente, sentimos uma coisa boa por nada daquilo ser top, mas ter a ver com a gente. Não saberíamos dizer, na verdade, se gostaríamos de estar no seu lugar naquela situação top ou não, pois agora estamos ok, e isso pra gente é a coisa mais top que poderia existir.

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escolha

escolha
dura
para uma vida
mais suave
sem o grande entrave
que agora vai existir
somente dentro de um passado
um tanto amargo
onde a escolha
não podia ser feita
por imaturidade do medo
que parecia maior
que a escolha –
e esta, antes de ser feita,
seguia abrindo ainda mais
a ferida
a cada lembrança
da iminência da mudança
que podia alterar uma vida
que nem sei se era vivida
ou se era a espera
de uma escolha decidida.
e a escolha
que depois de feita,
absorvida,
faz as horas mais leves
assim como minha costas
suaves e prontas
para a próxima
escolha

Juventude

Um enjoo que aperta até os órgãos que nunca me ensinaram os nomes. Uma cobrança que não se descreve, pois palavras não são tão maldosas. Uma dor que ainda não dói, é a iminência dela, é saber que ela vem. É a vida que está sendo vivida por todos, menos por mim. É o vento que só sopra a favor da moça bonita que cruza o meu caminho. É essa modernidade que transforma a minha essência em uma tela de vidro para eu me enquadrar na realidade e não me sentir tão só. É a incoerência da imaturidade, da falta de familiaridade, de ser nova demais pra não sentir vergonha. É o suco doce que depois de engolir deixa um gosto amargo na boca, assim como as pessoas que vão embora. É a sabedoria dos quatro elementos, de enfiar a linha na agulha, caminhar até o correio, falar com a boca, olhar nos olhos, e tudo aquilo que não entra mais neste mundo de meu Deus – mundo este que eu habito em busca da minha outra parte, que deve estar em algum lugar de uma mata fechada se protegendo de tudo o que emite onda e que tem língua grande pra falar de mim. É o pôr do sol que eu não sei se me esforço para achar só e simplesmente bonito, ou se me rendo para quem me moldou antes de eu entrar nesta dimensão, e admito que aquele fim de dia gera uma enorme guerra entre o que eu sou e o que eu quero ser (sem saber o que querer significa).
.
É olhar pra garota que faz o meu chá atrás do balcão, e me perguntar se eu estou sendo injusta, se ela me entenderia, e se ela, por acaso, também se sente assim.

Praia

Assim de repente, sem mais nem menos, existe vida.
Existe uma mãe fazendo cafuné no cabelinho fino e ingênuo do filho que usa óculos gigantes, criatura mais amável da praia com toda a sua doçura própria de quem não sabe ler as horas. Existe a moça gorducha fumando o seu cigarro direitinho, sem quebrar a rotina, e tomando a sua coca-zero para não engordar ainda mais – de certa forma aliviando a sua consciência, que se compara compulsivamente aos corpos (que ela julga) esculturais da areia. Existe o grupo de meninas adolescentes que ainda não sabem de nada da vida, como lhes diriam as suas mães, e que arrumam os cabelos, encolhem e empinam tudo o que é possível, e tiram fotos delas mesmas para esfregarem na cara de todos a beleza da juventude e a de, justamente, não saberem de nada da vida – causando inveja a muitos. Existe o casal que passou a noite anterior brigando, e que agora se beija e se agarra sem pudores em cima da canga dela, como quem quer provar aos outros que sabe lidar muito bem com uma dor crônica – a de quem acredita que não é capaz de viver sozinho. Existe o senhor que não acha que tenha nada de senhor, mas sim de velho, e que com certa ansiedade e desespero expõe seu corpo ao sol, para ver se consegue um tom de pele um pouco mais despretensioso para a reunião de segunda. Existe o mar, que acalenta e transforma as memórias de todos, as que já existem e as que estão por vir, levando com ele as dores, pavores, suores, tremores, papéis, contas e excesso de razão para o fundo do oceano, e trazendo de volta, com toda a força, uma onda incontrolável de não sei o quê, que as crianças transformam em baldes cheios de areia e lágrimas delas mesmas quando adultas, e os adultos pedem pra misturar com dose extra de vodka e muito gelo pra ver se desce mais fácil.
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E nesse mundinho particular da praia que nem está desenhada no mapa, tamanha a sua insignificância econômica, estou eu, que sentei nesta cadeira de madeira pra escrever uma história de amor, mas, assim como o mar vai e vem, mudei de ideia, e resolvi falar do que existe.

Modernidades

“Insira o seu cartão ou ticket, e obrigada”.

.

Ai, não.

Não, não, não.

Púúútaqueopariu. Cadê?

Cadê, cadê, cadê?

Gente, cadê essa droga? O homem de trás me mata.

De novo, caramba. Eu não aprendo, não tem jeito.

Bolsa, carteira, bolso interno 1, bolso interno 2, bolsinho interno menor 1, bolsinho interno menor 2, 3, 4, 5. Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, buraco embaixo do rádio, bolso da calça, do casaco, bate-peito-perna-cintura, embaixo do banco, ai minha costeeeela, caceta! Peraí, moço, segura aí, não buzina, por favor, eu sei que estava por aqui, eu paguei por isso, e não foi pouco.

Já sei! Ai, ai, ai… deixei no caixa.

Abre a cancela pra mim, por favor?

Não, não vou “estar parando” no meio do caminho, vou parar ali – pode, não pode? Beleza.

Bom, podia ser pior. Pensa sempre assim.

Moço, deixei aqui, não foi? O ticket! Não? Como, não? Eu paguei, moço! Não, não passei em lugar nenhum depois. Aiii, caramba, passei sim. Passei mesmo, não lembrava. Obrigada, moço. Desculpa. Tá, vou sim, valeu.

Quem é ele pra me mandar prestar atenção? Folgado!

Oi moça, tudo bem? Pois é, voltei! Não! Não vou levar a bolsa, sabe o que é, moça? Não, não, eu sei, ela é linda!

5 vezes sem juros?

Bom, já ajudaria, ela é maravilhosa. Tem naquela outra cor? Ai, tentação! Peraí, deixa eu ver.

Amiga, vc viu a foto q eu te mandei? Não baixou? Vou mandar de novo. Sim, tem a preta também, o q vc acha? Sim, tbm acho. É, mereço mesmo. Sim, é hoje. Não, não tenho nenhuma q combine com a roupa, vc tá certa, vou levar.

Moça, vou levar. Tá bom. Não, o presente é pra mim. Sim, CPF na nota, por favor. Quanto, mesmo? Ok.

Ok, ok, ok…. peraí, rapidinho, tô procurando a carteira. Gente, cadê a carteira? Ai, não é possível. Posso colocar tudo aqui? Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, chave do carro, ticket do estacionamento…

Ticket! Achei!

Moça, achei o ticket! Sim, eu estava procurando que nem doida. Mas a carteira ficou no banco do carro, eu estava na procura, tirei tudo da bolsa, e deixei lá! Já volto, moça, peraí. Volto, claro, segura aí, dois palitos.

Nem sei se precisava mesmo daquela bolsa, deve ser um sinal. A vida sempre dá esses sinais, muito cara. Gente, onde eu estava com a cabeça, não era mesmo pra levar a bolsa. Obrigada, Deus, pelo sinal.

Calma.

Parei no F1, ou F11?

Não, foi F1, certeza, eu até fiz a associação com a Fórmula 1 pra lembrar depois.

Mas, então, cadê? Cadê, cadê, cadê…? Ai, merda, era segundo subsolo! Esse é qual? Puts, tá errado.

Elevador, elevador…

Gente, esse negócio não chega, né? Pois é, parou no terceiro e nunca mais se mexeu. Nossa, muito frio, mudou do nada. Ai, deixa, vou pela escada rolante, mesmo. Tchau! Até mais!

Ok, pronto. Agora F1… Cadê, cadê, cadê…?

Uuuufa! Louvado seja. Carrinho lindo, te amo.

Ué… Bolso do casaco, não. Bolso da calça, não. Bate-peito-perna-cintura. Cadê? Gente, onde enfiei a chave do carro? Ah, vou por no capô mesmo, dane-se. Nécessaire de maquiagem, celular, estojinho sem nada dentro, bolsinha de coisinhas, óculos escuros, panfleto 1, panfleto 2, ticket do estacionamento…

Não, tem que estar aqui.

Bolsos internos, bolsinhos internos 1, 2, 3, 4, 5… Não.

Piada. Pi-a-da.

Não, não, não.

Não, não pode ser. Merda. MER-DA!

Não, moço, não precisa, tá tudo bem. Vai passar. Não, é meu rímel que borrou, não me machuquei, não, obrigada. Não quero ajuda, eu quero a chave, eu não tenho como entrar. Moço, continua a sua ronda aí, olha, aquele cara tá na contramão, fala lá com ele, e me deixa aqui? Jajá passa. Obrigada.

Escada rolante 1, escada rolante 2, loja da bolsa.

Oi, voltei! Não, moça, então, eu deixei a chave do carro aqui, não deixei? Sim, depois eu volto pra bolsa! Ok, não, é rapidinho. Eu preciso abrir o carro pra pegar a carteira, entendeu? Sim, sim. Eu sei, moça, é linda mesmo. Aham. Sem juros, lembro. Não, eu sei. Sim, sem dúvidas, o tecido é ótimo. Moça, eu realmente preciso ir lá, mas já volto. Imagina, sem problemas, eu entendo. Não me machuquei, não, é o rímel que borrou, achei que tinha tirado, esqueci. Bom deixa eu ir lá, moça, já venho, tá bom? Ok, tá bom. Sim, jajá.

Afff, já sim, a-ham. Espera sentada, mulher chata.

Ai, tadinha. Pensamento horrível, judiação, só está fazendo o trabalho dela. Trabalhar em loja é tão difícil, como eu posso falar assim? Que maldosa, eu. Desculpa por telepatia, moça.

Segundo subsolo, F1, cheguei.

Há, de primeira.

Chegueeei! Nem acredito!

Céus, que benção.

Eu tenho a chave do carro, tenho ticket do estacionamento, tenho carteira, não tenho bolsa que eu pagaria pro resto da minha vida.

Gente, que felicidade. Sou privilegiada.

Celular, Waze: ca-sa.

Ca-sa.

CA-SA.

Não tem asa, é CASA!

Não tá rolando, tem que escrever pra essa droga funcionar.

Estamos prontos? Sim! Vamos. Vamos!

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“Este cartão ou ticket venceu o tempo limite de pagamento. Por favor, dirija-se ao caixa mais próximo, e obrigada”.

Uma vida

Não era uma ressaca prevista, daquelas de quando, na juventude, acordava depois de uma noite de cachaça e cigarros sem filtro.

Era uma ressaca sem sentido. Da vida.

Um cansaço profundo, que de tão profundo, fazia com que ele virasse de um lado para o outro na cama, ajeitando o travesseiro das mais diversas formas para se sentir acomodado, mas que não era o suficiente para ele se entregar ao sono. As frestinhas de luz que passavam pelos cantos laterais da persiana diziam que ainda era noite, mas logo seria dia. Um pesadelo a olhos nus.

Ele não queria e não deveria estar tão preocupado com aquelas planilhas e com a apresentação do dia seguinte. Ele nem gostava daquele trabalho e daquelas pessoas. Aquilo fazia mal pra ele. Mas o dia seguinte poderia ser definitivo para uma promoção e um aumento de salário, e isso sim era importante.

Um dia ele se mudaria daquele lugar. Ele moraria perto da natureza, longe do stress da cidade grande. Ele se dedicaria mais ao livro que queria publicar, e voltaria a correr. Não sairia do trabalho depois das 18h. Namoraria. Teria filhos. Sorriria um sorriso sincero.

Adormeceu.

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Dois anos se passaram desde aquela noite praticamente em claro, e da apresentação do dia seguinte – ele calculou enquanto fazia a barba. Ele foi promovido e o aumento salarial consequentemente veio, rendendo a ele um carro novo, uma TV maior, e o sonhado reconhecimento da sua família e amigos.

Mesmo assim, a ressaca ainda existia. Visitava ele sem avisar, dizendo através do mais dolorido silêncio que nada daquilo fazia sentido, fazendo com que ele caísse num buraco sem fim, feito de nada. Ele estava aprendendo a viver com a companhia daquele sentimento, cada vez mais frequente.

Mas um dia ele ainda se mudaria daquele lugar. Moraria perto da natureza, longe do stress da cidade grande. Ele escreveria o seu livro e voltaria a correr. Não sairia do trabalho depois das 18h, e namoraria. Teria filhos. Sorriria um sorriso sincero.

Olhou no relógio e começou a se apressar. Pegou sua mochila com a mão direita e jogou em um ombro, com a mão esquerda pegou o computador e o colocou embaixo do braço. Bateu a porta de casa pois já estava atrasado para mais uma apresentação que poderia ser determinante na sua carreira.

Um dia as coisas seriam diferentes.