Cada um na sua velocidade

Eu imaginei o nosso encontro de várias formas.

Eu treinei. Eu decorei. Eu me corrigi. Falava comigo mesma, sozinha na rua, em alto e bom som, para que mesmo na hora do pânico, do pavor, do branco, saísse alguma coisa.

Estou bem, e você. Estou bem, apenas. Sem você. Estou atrasada, desculpa. Sem desculpa, nem você, apenas estou atrasada, ou então, olá, estou indo para a universidade, pois passei. Ou, talvez, oi, estou indo para o meu trabalho que você sempre duvidou que eu arranjaria, pois aprendi francês sozinha e ganho meu dinheiro e passei na universidade, e me apaixonei de novo e você não morreu, nossa, eu teria morrido no seu lugar, parabéns. Ou então, desculpa, é que o meu casamento é em 2h, estou atrasada, o amor da minha vida, que no caso não fugiu, ou não ainda, e se fugir um dia me avisará com antecedência para eu me organizar, me espera. Ou então, prazer, Margot, tudo bem? É você, então? Só toma cuidado, tá, não engravide e não aceite casar porque pode ser que ele suma e te deixe no dia do parto ou plantada no altar à espera dele, e não te dê apoio, ajuda, satisfação, porra nenhuma. Ou, então, oi, tudo bem? Ah, não sei se você conhece, mas esse é o Benjamin, um cara que me ofereceu a casa dele pra eu ficar logo que cheguei aqui sem chão sem casa sem dinheiro sem saúde, e me amou tanto por eu ser maravilhosa exatamente do jeito que sou, que nunca mais me largou, e você é quem, mesmo? O cara que arrumou nossa maçaneta outro dia, é isso?

Enfim. Tudo bem decoradinho.

E eu saí do trem. Botei o primeiro All Star na plataforma, já pronta pra botar o outro, continuar a falar com a Nina sobre as vantagens de aderir à mensalidade do Body’Minute.

Nina, espera – peguei em seu braço e o esmaguei, finquei cada uma das cinco unhas da minha mão direita em sua pele, como se fosse a minha única chance de me vingar de todos que me maltrataram nos meus quase 30 anos de existência – é meu ex.

Você me viu e fugiu para o lado oposto, e eu lembrei do dia em que te conheci no aeroporto, quando não senti minhas pernas, e fui andando em sua direção como um espantalho tentando arrastar suas partes moles pelo chão. Como se eu já soubesse. Foi a primeira vez em que me apaixonei assim, feito raio que vem de lugar algum. Lembrei do dia seguinte àquele voo, em que enviamos mensagens ao mesmo tempo um para o outro, e você me escreveu “encontro de almas”. Lembrei do dia em que fui te visitar no sul e fizemos uma trilha contra a minha vontade, porque quem ama faz, e tomamos um vinho à noite juntos, naquela casa. Lembrei de você fumando naquele sofá, olhando para algo que só você via, e a gente ouvindo “Comme des Enfants”, pensando em como ia fazer. Era longe. Mas a gente daria um jeito.

Lembrei de mim parada no trânsito de São Paulo te ligando para confessar meus medos inconfessáveis, e de mim, a pessoa que mais detestava passeios ecológicos pernilongos temperaturas altas plantas roçando nas canelas e bichos ainda não estudados mordiscando os braços mesmo com 40 camadas de repelente, te levando pra conhecer cachoeiras e praias desertas num verão de 60 graus, dando graças a Deus por você ter entrado na minha vida causando aquela revolução.

Lembrei da gente discutindo possíveis nomes, países, objetivos. Lembrei da gente imergido no mar dias antes de você ir embora pela última vez, e os olhos ardidos dizendo em silêncio que a gente tinha sorte. Sorte grande.

Lembrei do primeiro All Star dentro do avião, agora sem ninguém pra me esperar do lado de fora, quando eu chegasse ao meu destino.

É meu ex, Nina.

Mas, correndo?

Sem querer saber como eu ainda estava viva e forte numa cidade assim tão difícil de viver, tendo chegado aqui sem lenço nem documento, e sem a vida que você tinha me prometido e insistido tanto para eu viver? Sem querer me perguntar se eu não estava cansada, se eu não queria ajuda, um abraço, o meu casaco preto que ficou em cima da sua cadeira de volta? Sem querer saber se eu tinha voltado a acreditar nos outros?

Sentei.

De saia, de maduro, de repente, no chão. Nina sentou também. Pegou minha mão, e transeuntes seguiam a vida. E você seguiu correndo. Ficamos em silêncio. Ela me olhava, esperava alguma reação. Eu também. E, então, pela primeira vez, eu me permiti. Tremi. Dos pés aos cabelos, que você dizia amar. Abaixei a cabeça, e, finalmente, chorei. Chorei pelo ano em que engoli tudo, porque não tinha dado tempo. Chorei pelo tempo em que eu estava ocupada sobrevivendo e tentando achar um lugar pra morar. Chorei por todas as dificuldades e pela briga que eu tive na semana passada com um cara, dizendo pra ele ser mais gentil com estrangeiros, porque ele não conhecia a história de cada um de nós. Chorei o que não havia chorado pois estava ocupada tentando aprender a sua língua, estava ocupada tentando dormir, acordar, levantar, cozinhar, continuar, e, por isso, não tinha dado tempo de chorar. Chorei as promessas, a minha dedicação, os meus enfrentamentos, o abandono, a minha dificuldade de acreditar nos outros.

Mas, correndo?

Sem me perguntar sobre a dor, sem me perguntar se eu me orgulhava agora que comia de quase tudo, não lavava mais as mãos com tanta frequência, me expunha mais à vida? Sem me oferecer pagar o último jantar nos Jardins que eu tive que te bancar? Sem me agradecer por eu ter te ensinado termos gentis em português, e ter te apresentado as pessoas mais maravilhosas que você já conheceu na vida? Sem olhar no meu olho e, como um homem, me pedir desculpas?

Nina pegou minha mão como você devia ter pegado. Nina pediu perdão por não saber o que fazer, como você deveria ter pedido. Nina me falou 15 vezes e meia que eu era muito forte, e parou no meio da décima sexta, porque chorou comigo. Nina limpou minhas lágrimas e disse que ia dar tudo certo, e que nós ficaríamos exatamente lá até passar, como você deveria ter dito. Nina perguntou, com sua voz doce e carinhosa, como você deveria ter me perguntado, se eu precisava de companhia naquela noite. E assim que eu me acalmei, que eu já não tinha mais o que sofrer pelo que não merecia, Nina pegou meus dois braços, me levantou da plataforma junto com ela, e, assim, abraçada com alguém que se importava comigo, segui em direção a uma vida que eu construí sozinha – sem nenhuma base, nenhuma ajuda, nenhuma das promessas que você havia feito, e com a força que você, provavelmente, achava que eu não tinha.

Mas, diferente de você, segui andando, e não correndo.

Não tinha pressa, e nunca tive nada a esconder.

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Partes Pessoais

Joana viu aquela pomba esmagada com suas tripas, penas e poucas cores expostas ao mundo, no asfalto da rua de cima. A infeliz da ave nem teve tempo de virar de costas e esconder a cara e o peito, partes tão pessoais. Era tão nojento e verdadeiro que não dava pra não olhar. Era como passar por um acidente na rua, que quanto mais trágico, mais todo mundo para por mais tempo pra contemplar a sorte que é não estar no lugar dos que se ferraram naquele dia. Daí o papai começava a chamar por uma tal de Cacilda, que não se sabia quem era, Joana já tinha perguntado, e ele não respondia: “Cacilda! Vagabundos que não trabalham. Não têm que chegar no trabalho, não, inúteis? Ê, bando de esquerdistas vagais! Cacilda!”.

Os olhos da ave azarada pulavam pra fora, tentando entender se tinham morrido ou se era só mais um pesadelo. Joana sabia bem como era ter os olhos assim no meio da noite. Já tinha acontecido no dia em que sonhou que estava pelada na frente da classe e menstruava pelo chão de madeira, enquanto todos, inclusive o Felipe, riam e apontavam.

As asas da falecida não tinham mais nenhuma utilidade. Estavam cortadas, que nem as vontades de Joana, quando era proibida, por exemplo, de sair na chuva pra dançar e sentir a roupa toda grudando e escorrendo por suas formas cada dia mais evidentes. O bico da ave que havia aceitado tanta migalha até hoje, estava boquiaberto com a novidade.

Morrer saciava.

Que nem a boca do vô José aos domingos, quando tirava soneca depois da feijoada e de uns copos de água benta que fazia ele ficar vermelho e falar enrolado. Ele também parecia morto dormindo. Joana não queria que o avô morresse, mas o tio Carlos queria – ouviu a avó dizendo outro dia, parece que assim tio Carlos raparia tudo. O que era “rapar”, Joana não sabia. Tio Carlos era o homem mais feio que Joana já tinha visto. Mas ao contar esse segredo pra Clarinha, sua melhor amiga, Clarinha disse que achava que todo mundo tem um tio feio que só pensa em rapar tudo. Clarinha era sempre muito sábia, mesmo sem saber de tudo.

Acabou para a pomba.

Para Joana também acabaria. Para o avô também, e para a mãe também. Para a Clarinha e para o Felipe, com quem Joana casaria, também. Para o pai também. E até para o tio Carlos, que parecia não saber. Para a sua árvore preferida, cheia de limões pequenos e bondosos, e para a tia Teca, que não entendia ser possível sobreviver sem um homem ao lado, também. Para o Seu João da pipoca, Valdemira da limpeza, para o cachorro pulguento e cheio de sarna da praia da areia boa, também. Para a gata Caramelo e para as mulheres peladas que o irmão via na televisão à noite, acabaria. Para o primo débil que não largava o vídeo game, e só sabia falar disso, também acabaria. Acabaria para a professora Georgina e para o garçom magrelo da pizzaria, que sempre convencia Joana a comer também os legumes, e não só o queijo da pizza. Acabaria até para o mar e para o céu e para o sorveteiro Bebeto. Para Gigi, a sua prima mais linda do mundo que dava raiva e vontade mesmo que ela morresse, assim paravam um pouco de elogiá-la, também. E acabaria para a chuva, para as tardes de chuva, para as manhãs ardidas antes das tardes de chuva. Para o asfalto que exalava um cheiro de chuva antes mesmo da chuva.

Daria saudades do ódio da chuva naqueles dias de verão. Joana entendia daquele ódio. Era o ódio daqueles que querem expor suas razões e não são ouvidos pois não têm idade suficiente – de repente, eles ficam tão bravos de serem impedidos, que não se seguram e descem destruindo tudo o que veem pela frente.

Chover era vingança, e um dia Joana choveria.

Acabaria para aquele porteiro novo que procurava algo nas suas pernas de criança, algo que ela não sabia o que era, e fazia ela se envergonhar. Acabaria para a velha do terceiro andar que apertava a sua bochecha forte, de tanta inveja por ser velha e baforenta, enquanto Joana era nova e escovava os dentes. Acabaria para o elevador, seria o fim do apartamento onde morava, e do peixe betta que ganhou de lembrancinha numa festa, e que matou todos os outros peixes do aquário, achando ser possível, assim, evitar a própria morte. Ele que se enganava. Acabaria para ele também.

– Ué, Joana, cadê o pão?

– Não trouxe ainda. Vim buscar uma capa antes de ir à padaria.

– Capa? Mas já está chovendo, filha?

– Não. Mas quero esconder as minhas partes pessoais.

Bondosa e frágil

Os peitos já doíam e a criança nem 1 mês tinha. E no vaivém do trem a pele ardia ainda mais, mas era a hora que a pequena Marie mais gostava de mamar: dentro do metrô. Ao menos tinham dinheiro para o mês. Voltavam pra casa com a carteira mais gorda, depois de finalmente conseguirem retirar o dinheiro referente à ajuda da assistência social.

O marido Thomas tentava dançar de um jeito que só ele achava engraçado para, ao que parecia, fazer o filho mais velho parar de berrar por olhares que babam, antes dirigidos só a ele, e agora só à Marie. Quanto mais o pai dançava, mais a criança berrava. Mas Thomas balançava o corpo no embalo de uma música imaginária não para agradar a criança. Na realidade, isso era só felicidade consequente de ter o bolso mais pesado – mas que ninguém soubesse. Passageiros dentro do trem olhavam pro garoto como quem procura, no meio da madrugada, o mosquito que faz de tudo pela morte. Em seguida olhavam para o pai querendo ter dó da sua dança lamentável, mas ficando com raiva logo depois, por ele ter colocado o pirralho no mundo, e não ser capaz de calar a sua boca.

Pessoas entravam e saiam do trem, trocando de sexo, cor, cabelo, crença. O cenário mudava a cada estação, mas a dor permanecia.

Agora que a questão do dinheiro estava relativamente resolvida, e se o leite secasse? E se a menina adoecesse? E se o irmão pirasse? O marido pegou o filho no colo: vem com o papai. O menino começou a puxar a barba do pai como quem tenta se vingar por amor, e a bebê mordia o peito da mãe com os dentes que não tinha, por todos os anos de luta que viriam, consequentes do seu rastafári e turbantes de todas as cores.

Calma, filha. Calma, filho.

Uma senhora branca, bondosa e frágil passou estendendo a mão aos viajantes, por comida, por piedade, por amor, pelo que quer que fosse, não precisava ser dinheiro caso não tivessem. O pai jogou o filho para o braço esquerdo, e com a mão direita apalpou o bolso para pegar a carteira. Queria ser um bom exemplo pras crianças. A mãe olhou o seu marido dolorida, mas orgulhosa. Não tinham muito, mas o pouco que tinham gostavam de dividir. Por isso se apaixonaram: valores semelhantes. Ver seu homem tão viril e generoso, deu ciúmes instantâneos da adolescente sentada no banco ao lado, que até agora não era ameaça. Ela vestia minissaia, e devia ter a barriga inteira, não dividida em dois, como a dela depois do parto. Seus peitos não caíam sem sutiã, e ela tinha algumas tatuagens pelo corpo, entre elas o nome “Camille” no pescoço, ao lado de uma flor vermelha.

E como bolsa que estoura prematuramente, assim aconteceu. A pele negra e antes reluzente de Thomas foi emudecendo; sua boca, de tão cega, abriu por conta própria; os olhos esqueceram como se ria; e o seu filho foi escorregando do seu braço, antes tão amedrontador.

“A minha carteira”, foi o que ele conseguiu falar. A essa altura, a bondosa senhora já não estava mais no trem, o filho agora adormecia pendurado no seu corpo mole, e o leite da mãe, sem nenhuma consideração, secou.

Meu pai em um Adidas Roxo

Eu estava querendo um tênis Adidas. Mas não qualquer Adidas, eu queria o que tem um detalhezinho roxo atrás e dos lados, eu adoro roxo. E o meu novo Adidas combinaria com a minha saia da Farm que tem flores roxas (agora para o verão seria ótimo), e com calça jeans também daria certo, ficaria lindo, descompromissado, e eu pareceria pontual. Até vestididinho de verão iria com o novo tênis, tudo funcionaria, os meus cachos seriam mais cacheados, emagreceria sem ir à academia, meus exames de sangue estariam sempre em ordem – daqui até a eternindade -, e a vida teria outro tom. Um tom roxo. Compraria um Adidas roxo.

Passei em frente à loja de calçados, e vi o preço do tênis. Nem entrei. Preciso ser realista vivendo em euros e capengando pra pagar as contas. Muito triste e meio brava, não me movi da frente da vitrine. Ao invés disso, fiquei olhando para as pessoas dentro da loja, por trás do (não mais meu) Adidas roxo.

Tinha uma moça que, já no caixa, separava três pares de tênis para pagar, e um deles era um Adidas, mas não era o meu Adidas roxo, era um verde. Era dela, ela tinha razão de escolher a cor que ela gostava. Tinha também um senhor sentadinho e experimentando um sapato horrível. Ele precisava da mulher dele lá, gente, onde estava a mulher dele? Ele tinha mulher? Alguma mulher precisava avisá-lo. Queria ir lá eu e dizer: Senhor, oi, prazer, então, este sapato é horrível. Não compre, senhor. Compre o Adidas roxo pra sua neta. Não tem neta? Não tinha, agora tem! Bom, mas se ele podia comprar o sapato feio dele. Quem era eu pra dizer qualquer coisa que fosse.

Comecei a fazer umas contas – eu não sou, assim, a expert das contas – e no meio dos meus cálculos complexos, pensei no meu pai.  Papai é o cara mais inteligente que conheço. Gênio das exatas. Ele sempre fez o que pôde para eu tirar mais de 4,5 nas provas de matemática da escola e passar sem recuperação. Tentávamos de tudo: acordar mais cedo para estudar pois minha cabeça não era boa com números à noite; estudar à noite pois meu cérebro não era tão rápido pra números na manhã; ligava pra ele durante a tarde em semana de prova, aos prantos e virada na Trakinas de morango, perguntando quem foi o mal amado que havia inventado aquela merda de log, dizendo que eu preferia a morte à estudar aquilo – chegamos à conclusão de que à tarde meu raciocínio era um pouco mais tombado pro emocional do que pro lógico, portanto não tinha muito jeito, filhinha, você é boa pra outras coisas.

Pensando no meu pai e nos números, fiz um questionamento que achei bem relevante de ser feito naquela hora, e queria divir aqui com vocês: se eu acordasse um dia afim de comprar 1 milhão de Adidas Roxos, e tivesse dinheiro para tal, quanto seria necessário gastar?

Comecemos a regra de três (pra ficar mais didático para todos nós): se um Adidas roxo é 100 euros, um milhão é X. Uma vez X é X. Até aqui OK. Agora vem a parte mais difícil, que nos levará ao resultado, mas chegaremos lá. Inspira, e fica comigo. 100 vezes 1 milhão é assim – a gente corta os zeros do 100 (dica pra ficar mais fácil), e aí fica 1, OK? OK. Agora faremos 1 vez 1 milhão, e chegaremos ao resultado de 1 milhão (pai, é isso?). Agora acresentaremos 2 zeros ao final (lembra que eu tinha cortado dois zeros no início, ou não?) para obtermos o valor de X, mas não se preocupe, nada que você não consiga fazer. 2 zeros do 100 somados aos 6 zeros do milhão é igual a 8 zeros. Logo, o resultado da conta é 100 milhões de euros! Pai, tá ok? Ou seja, se eu tivesse dinheiro hoje, e acordasse afim de comprar um milhão de Adidas Roxos, eu utilizaria meus 100 milhões de euros, e compraria, ué. Eu poderia, mesmo, faria o que quisesse com meu dinheiro, queria ver alguém me impedir.

Mas aí eu pensei que se hoje eu tivesse 100 milhões de euros, o que eu ia querer mesmo, seria dar um presente pro meu pai. Por todos os anos de paciência. Por todos os anos acordando às 5h30 da manhã pra me ensinar algo que eu não aprenderia, me falando depois “mantenha a calma, filha” porque quem devia estar nervoso e preocupado era ele.

Por todas as vezes que ele foi me buscar em festinha decadente às 2 da manhã: “Paizinho, vamos negociar? Dá pra ser às 2h27? Estamos aqui discutindo sobre a última prova de biologia”; “Pai, estou aqui com a Amanda, uma amiga ótima que está indo morar na Coreia do Sul amanhã, é importante eu ficar mais, você poderia chegar às 3h05?”. Ou por todas as vezes que meu pai abriu o Google comigo em busca das possíveis causas de alguma dor nova perto do dedo mindinho da mão esquerda. O que aquilo poderia significar? Pancreatite? Febre amarela? Tuberculose? Papai sempre me auxiliou em minhas pesquisas. Ou então, por todos os shows de Sandy & Júnior que ele aceitou bancar para que eu ficasse mais ou menos próxima das narinas do Júnior. Ou ainda por todas as vezes que ele respondeu delicada e cuidadosamente à mensagens como: “Pai, não estou me sentindo bem. Você pode fazer uma lista das minhas características positivas para eu lembrar que eu valho à pena?”, papai sempre listou sem nem titubear.

Daria pro meu pai um barco. Para ele navegar pra onde quisesse ir, e me mandar em seguida as fotos tremidas e totalmente mal enquadradas dele com a legenda “pôr-do-sol”, sem nenhum emoticon, nenhuma pontuação, bem direto e de um jeito que me parece que ele está me dando bronca. Mas como o papai tem meio que receio do mar, acho que compraria uma pessoa que dirigiria o barco pra onde ele quisesse ir. Não, mãe, você iria na carona, com essa sua labirintite quer dirigir o barco? Ou ia dar vômito ou quebra-pau, compraria alguém, sim. Daria pro papai uma máquina de café profissional. Não, não daria não, porque daí ele não faria mais o melhor café de filtro do mundo, pura alquimia do paraíso, não quero dar esse presente. Daria um sapato bonito pro papai, e daria também um foguete. Não deve ter sido fácil morar com 4 mulheres de TPM ao mesmo tempo, e foguete me parece algo de menino, você gostaria de um foguete, pai? Eu te daria.

Te daria, também, passagens para todos os lugares do mundo em primeira classe, gente assim tão boa, e do coração tão puro e correto (até demais, né, pai, mas depois falamos sobre isso), não vai nem de executiva e nem de econômica, e eu não economizaria meus 100 milhões de euros com você. Acho que eu te compraria também o Dr. José Carlos porque sei bem que fobiquinho do jeito que é, adoraria ter ele perto a cada dúvida que você tem (eu também ia usar um pouco, tá, você me emprestaria esse presente? Tô cansada do Google, ele não é dócil comigo, ele me matrata).

Te daria um jantar romântico com a mamãe em qualquer lugar/país/planeta que vocês quisessem ir, e que, finalmente, não seria nada romântico, porque eu, a Dedi e a Caxu resolveríamos ir também, faz tanto tempo que não jantamos os 4 juntos, digo, 5, e eu poderia pagar tudo, mesmo, dane-se. Chamaria a Beyoncé pra ir também. Pagaria.

Pai, lembra que quando eu tinha 5 anos e era seu dia de me levar na escolinha do clube, você me balançava no parquinho até eu parar de chorar por medo de você ir embora, me comprava Cebolitos no Bar do Tênis pra eu comer de café da manhã sem a mamãe saber (naquela época não fazia mal, e agora a mamãe vai ficar sabendo), e depois íamos juntos tomar um copo de água antes de você ir pro trabalho e eu, bem alimentada, pra aula? Eu nunca esqueci. Ou quando, em uma noite em Ilhabela, eu não conseguia dormir de horror do barulho dos trovões, e ficamos os dois assustados olhando pela janela a revolta da natureza até de madrugada? (Sim, porque você admitiu que daquela vez estava “meio forte, mesmo”, e pulava mais alto que eu a cada trovoada). Ou, então, todas as vezes que eu te liguei perguntando se tinha farmácia no seu caminho pra casa, e você, sem nenhuma opção, dizia que sim, e aí saía em busca do meu absorvente que até você sabe melhor do que eu qual é? E ainda era obrigado a ouvir um “E , pai, por favor, voa”. E você sempre voou pra me salvar.

Então, olhando pela vitrine aquela moça e aquele senhor por trás do Adidas Roxo, e fazendo todos os meus cálculos, até perdi a vontade de comprar meu tênis que combinaria com minha saia da Farm, minha calça jeans de mulher moderna e pontual, meu vestidinho de verão, e que, ainda por cima, me emagreceria e me daria a eterninade. Não queria mais.

Porque se eu pudesse, pai, e se eu tivesse dinheiro pra comprar 1 milhão de Adidas Roxos, eu não compraria nenhum. Eu compraria o mundo. Mas eu daria ele todo pra você.

Entre conhecimentos e fumaças

Vasinhos floridos e bem instalados em janelas de casas que nunca deixaram de existir; portinhas de madeira simples, meio descascadas mas bem acabadas, escondendo por trás delas restaurantes não muito conhecidos por pura injustiça; cachorros grisalhos e órfãos, muito mais empáticos do que grande parte daqueles que se julgavam analistas; e alguns cafés e comércios necessários para dar charme e vontade de gastar um pouco. A largura da rua era do mesmo tamanho do que era possível aguentar naquele momento, e daí a conexão. Era tudo bem minimalista, bem detalhado, bem desenhado. Não mais. E a cidade moldava, a cada passo, uma cena que coubesse nas costas. As formas se confundiam com risos de crianças de todas as cores, e com a harpa de uma estudante que precisava pagar o aluguel e algumas dívidas a mais, que acabou fazendo com aquele tal de Bernard. Os espaços entre cada um dos paralelepípedos entregavam muita história. Ricos e pobres se trombavam por graça da rua, que ria escondida. O melhor da solidão era observar o barulho do banal em um silêncio raro. No terraço estreito de um daqueles cafés sem pretensão de ser nada mais do que um lugar de encontros – contanto que fossem consumíveis, claro –, uma velha magricela e uma adolescente gorda conversavam por trás de uma boa garrafa vinho e de um prato de queijos, cujo cheiro quase saciava a fome do mendigo sentado do outro lado da rua.

Vó, ouviu-se a adolescente perguntar, hesitante, incerta das suas palavras e do corpo que as proferiam: será que um dia meu pai vai querer me ver? A avó, tão grande em sua miudeza de gente que sabe mas não se exibe, respondeu com a propriedade de todos os seus anos de perdas dolorosas, mas igualmente determinantes: querida – começou a argumentar, e deu uma pausa para tragar o seu cigarro, voltando ao raciocínio logo depois, entre conhecimentos e fumaças – na vida existem dois tipos de pessoas: as que tomam vinho, e as que não prestam. E seu pai, nós sabemos bem, sempre foi de beber Coca-Cola.

Um ar leve lambeu a ruazinha, onde quase ouviu-se barulho de palmeira no verão da Bahia. Mas não deu tempo, Notre Dame observava tudo lá de trás.

feijões dentro de um pote branco

adoraria ser mais gente
e menos poeta

começaria o dia acordando
e não me deitando
sobre assuntos que nem
para serem assuntos servem
mexeria ovos sem calcular
verdades de galinhas

caminharia na areia
como os que caminham, apenas
e não refletiria sobre quantos grãos
ainda terei que engolir
se não fosse o que eu disse, o que eu fiz
como eu disse, como eu fiz
para quem eu disse, para que fiz

(mas por que teria dito e feito?)

tomaria um café
bem preto e bem forte
que não passaria de um café
bem preto e bem forte
e nele colocaria açúcar se eu quisesse
caso isso não tivesse consequências
de amplitude colossal

talvez eu tivesse uma dor de cabeça
como as que as gentes têm
mas tudo bem
isso não passaria de uma dor de cabeça
a humanidade não teria nada a ver
com a minha cabeça

ser gente é ter problemas que se resolvem
ser poeta é inventar problemas
sem solução

ou então, que lindo seria,
ver uma flor sem questioná-la
sobre quantos segundos faltam
para a morte me lamber da cabeça aos pés
que nem água de cachoeira, que chega forte
como mulher, e afoga
como o primeiro encontro

coitada da flor,
que azar teve ela de tombar com um poeta

porque poeta que é poeta
é insuportável
questiona mas não quer resposta
pergunta com a certeza
de que ninguém vai responder
aos seus questionamentos idiotas

ô, individuozinho mais indeglutível

adoraria ser mais gente
e menos poeta

ser gente é amar alguém
ser poeta é inventar alguém
para não amar
na tentativa de não pensar em quem ele ama
porque o amor para o poeta
é só uma estratégia para mais uma poesia
e quando quem ele ama, ama o poeta de volta
pode até ser amor, mas
poesia não é

e as gentices que as gentes fazem:
elas tragam um bom cigarro
compram cenouras e detergentes
matam baratas, se preciso
varrem um pouco a calçada, quando dá
bebem uma cachaça, quando deu
infringem umas regras, sempre dá
viram noites e saciam desejos, nunca meus
e até alugam uma bicicleta
para rolarem, tão engentalhados,
sobre meus medos paralíticos

e nada disso os faz questionar
nem por um segundo
sobre o que faríamos
se fôssemos feijões dentro de um pote branco
e uma mão gigante descesse do céu
enfiasse seus dedos em nós
escolhendo aqueles que são meio
poetas
tacando-nos, depois, bem longe
para onde ninguém iria

ou, ainda mais catastrófico,
para a próxima
poesia

Minha mãe em uma nectarina

Eu não tenho certeza, porque nem de mim sei cuidar.
Para ser mãe tem que saber se esquecer. Eu, egoísta, penso o tempo todo em mim. E a dor de barriga que vem junto de não saber. Barriga essa que nunca carregou ninguém.
Mãe tem olhos de amêndoa doce, que refletem bondade até o momento em que mexem com sua cria. A partir daí, a bondade vira ordem, e a doçura, justiça.
O que era mulher vira bicho.
Mãe não olha – mãe enxerga de frente, costas, através.
Mãe, de todos os seres que existem, é o único que vê o infinito na forma de uma criança.
Eu, enquanto isso, enxergo o meu umbigo, e acho que poderia perder uns 5 quilos.
Um dia minha mãe entrou com o carro na favela, e disse: agora desce com todos esses brinquedos, e dá na mão dessas crianças que não têm metade do que você tem. Um dia minha mãe me deixou de castigo, e me pediu desculpas depois. Um dia minha mãe estava chorando, eu perguntei por que, ela disse que tinha se emocionado com qualquer coisa que não importava muito. Um dia minha mãe usou todo o dinheiro que não tinha para me dar uma boneca que eu sonhava em ter. Um dia eu fiz alguma barbaridade, minha mãe levantou a mão pra me dar um bom tapa, e, ao olhar pra minha cara de pelo amor de Deus, me abraçou e me beijou tão forte, que eu ainda sinto.
Minha mãe fez todas as lembrancinhas das minhas festas de aniversário com as próprias mãos, testou incontáveis receitas para açucarar a minha infância, e escondeu com seu próprio corpo perigos que poderiam me assustar. Minha mãe botou minhas roupas brancas para quarar, e me ensinou a nunca trazer pra casa “nada, nem uma agulha” que não fosse minha. Minha mãe me ensinou a colher flores e arranjar vasos para dias importantes. Meu olho foi pintado pela primeira vez pela minha mãe, e, neste mesmo dia, ela me encorajou a ir num bailinho da escola que eu não queria ir, pois achava que eu era feia demais pra sair de casa.
Mãe mente pelo bem, se culpa pelo bem, abre mão de tudo pelo bem, e vive pelo filho, mesmo nas horas em que queria morrer só um pouquinho, pra descansar de ser mãe.
Eu vivo para conseguir ser reconhecida de alguma forma, por alguma coisa, por mim mesma. Por egocentrismo, ou talvez até por um futuro filho, que eu não saberia cuidar tão bem como a minha mãe cuidou de mim.
Eu tenho medo de não ser amada, e mãe faz tudo o que pode sem esperar nada de volta. Aliás, mãe espera, sim – espera, sem nenhum espanto, choros e berros já tão quotidianos, de filhos que não aceitam serem cuidados, mas não viveriam sem os mesmos cuidados. Mas a mãe aceita. Mãe não pensa duas vezes: ser mãe foi a sua mais lunática e mais certeira decisão.
Ontem eu estava na seção de frutas do supermercado, e peguei uma nectarina na mão. Senti o cheiro da minha mãe. Minha mãe tem cheiro de fruta madura, frutas secas, especiarias, poção mágica. Minha mãe tem cheiro de roupa bem passada, batom em dia de festa, laço de fita, porcelana escolhida a dedo. Minha mãe tem cheiro de dia de chuva e nós duas em casa, catando palavras pra distrair o tempo, segurando uma xícara de café. Minha mãe tem cheiro de protetor solar, sala de espera, material escolar, beijo na testa, xarope cor-de-rosa, sopa de letrinhas, esmalte meio nude.
Fui me curvando em mim mesma, segurando a nectarina contra meu ventre, com os olhos e a garganta ardendo, sedenta pelo colo da minha mãe, pelas mãos dela tirando meus fios de cabelo encharcados e enroscados nas lágrimas do meu rosto, me dizendo: filha, isso é passageiro. Não tem nada como um dia depois de uma noite.
E, aí, como todas as mães, minha mãe diria para eu levantar e secar o cabelo para não ficar resfriada, mandaria eu trocar a camisola por algo mais quente em pleno verão, e passaria às três da manhã no meu quarto para saber se eu dormia (ela com certeza não, mas ela não se importaria).
Mãe tem astúcia de avó, formato de lobo, dente de leão.
Eu passo creme anti-acne sem nem saber o que é não cuidar da minha pele para passar Hipoglós em um outro alguém.
Mãe vive a culpa, a dor, o sono, a exaustão, a confusão, a falta dela mesma por ter dado tanto de si para um ser que ninguém sabe no que vai dar – a mãe sabe: se não der em nada, ela dá tudo o que tem.
Eu não tenho certeza, continuo refletindo, enquanto encaro a mim mesma no espelho, de cabelo molhado, camisola tão curta que arrepiaria todos os poros da minha mãe, e a alma tão imatura sobre quem eu sou e o que eu quero.
Mas mãe, Adriana, nem sabe o que é questionar. Mãe não sabe de nada dessas coisas para as quais se demanda tempo.
Mãe só sabe adivinhar o que aconteceu, acontece e vai acontecer com o filho sem que ninguém precise falar nada, e, a partir disso, usar toda a feitiçaria que só mãe sabe fazer, para proteger a cria que nunca vai saber se cuidar.
Até virar mãe.