Bondosa e frágil

Os peitos já doíam e a criança nem 1 mês tinha. E no vaivém do trem a pele ardia ainda mais, mas era a hora que a pequena Marie mais gostava de mamar: dentro do metrô. Ao menos tinham dinheiro para o mês. Voltavam pra casa com a carteira mais gorda, depois de finalmente conseguirem retirar o dinheiro referente à ajuda da assistência social.

O marido Thomas tentava dançar de um jeito que só ele achava engraçado para, ao que parecia, fazer o filho mais velho parar de berrar por olhares que babam, antes dirigidos só a ele, e agora só à Marie. Quanto mais o pai dançava, mais a criança berrava. Mas Thomas balançava o corpo no embalo de uma música imaginária não para agradar a criança. Na realidade, isso era só felicidade consequente de ter o bolso mais pesado – mas que ninguém soubesse. Passageiros dentro do trem olhavam pro garoto como quem procura, no meio da madrugada, o mosquito que faz de tudo pela morte. Em seguida olhavam para o pai querendo ter dó da sua dança lamentável, mas ficando com raiva logo depois, por ele ter colocado o pirralho no mundo, e não ser capaz de calar a sua boca.

Pessoas entravam e saiam do trem, trocando de sexo, cor, cabelo, crença. O cenário mudava a cada estação, mas a dor permanecia.

Agora que a questão do dinheiro estava relativamente resolvida, e se o leite secasse? E se a menina adoecesse? E se o irmão pirasse? O marido pegou o filho no colo: vem com o papai. O menino começou a puxar a barba do pai como quem tenta se vingar por amor, e a bebê mordia o peito da mãe com os dentes que não tinha, por todos os anos de luta que viriam, consequentes do seu rastafári e turbantes de todas as cores.

Calma, filha. Calma, filho.

Uma senhora branca, bondosa e frágil passou estendendo a mão aos viajantes, por comida, por piedade, por amor, pelo que quer que fosse, não precisava ser dinheiro caso não tivessem. O pai jogou o filho para o braço esquerdo, e com a mão direita apalpou o bolso para pegar a carteira. Queria ser um bom exemplo pras crianças. A mãe olhou o seu marido dolorida, mas orgulhosa. Não tinham muito, mas o pouco que tinham gostavam de dividir. Por isso se apaixonaram: valores semelhantes. Ver seu homem tão viril e generoso, deu ciúmes instantâneos da adolescente sentada no banco ao lado, que até agora não era ameaça. Ela vestia minissaia, e devia ter a barriga inteira, não dividida em dois, como a dela depois do parto. Seus peitos não caíam sem sutiã, e ela tinha algumas tatuagens pelo corpo, entre elas o nome “Camille” no pescoço, ao lado de uma flor vermelha.

E como bolsa que estoura prematuramente, assim aconteceu. A pele negra e antes reluzente de Thomas foi emudecendo; sua boca, de tão cega, abriu por conta própria; os olhos esqueceram como se ria; e o seu filho foi escorregando do seu braço, antes tão amedrontador.

“A minha carteira”, foi o que ele conseguiu falar. A essa altura, a bondosa senhora já não estava mais no trem, o filho agora adormecia pendurado no seu corpo mole, e o leite da mãe, sem nenhuma consideração, secou.

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