Quando é que tinha sido

Foi na hora em que eu desci a rua em Vanves, e passei pelo bar português de fachada vermelha: homens e mulheres dançavam e riam alto, não pensavam tanto assim. Lixo orgânico jogado por engano na lixeira de descartáveis não parecia ser algo que dominava toda a sua culpa e os últimos trinta minutos; resposta estranha recebida de um alguém sem nenhuma importância não era questionamento sobre seu valor como ser humano. Crianças pulavam segurando batatinhas fritas nas mãos, elas sabiam que aquele momento era o início de uma brincadeira que duraria a eternidade de uma sexta-feira azul de metileno.

Ou talvez tenha sido quando eu vi aquele casalzinho adolescente que escolheu sentar num degrau gelado na frente do prédio de gente rica, eles fumavam algo que parecia cigarro, bebiam cervejas certamente quentes, eles sabiam bem no que ia dar, eu também, então os três sorriram.

Foi talvez quando eu pendurei luzinhas de natal pelo meu apartamento novo, no momento em que decidi que os dias vividos merecem ser comemorados. Foi quando eu achei que agora eu não queria mais, talvez amanhã eu quisesse, talvez não, passarinhos cantaram, ou eu que imaginei, meu celular tocou, eu não respondi, olhei as pernas de uma moça que passou apressada – e pensei que é bonito ser diferente –, escrevi uma cartinha pra minha sobrinha, cuidei da minha pele, e deitei no chão de casa olhando pra cima, buscando risquinhos no teto: um dos momentos mais revolucionários já inventados.

Foi no dia em que decorei um poema sobre cerejeiras que nunca existiu, ou quando peguei a linha 6 que sempre fará de mim turista. Foi quando visitei os jardins de Monet sozinha, quando me questionei sobre a minha solidão e sobre uma imagem que eu já não sabia mais se existia. Foi quando sonhei com pessoas que nunca foram o que eu sonhava, quando pensei sobre quanta gente existia no mundo, e qual o objetivo de se expor tanto, de tentar contar tanta vantagem: tive a certeza de que a cada dia nos idiotizamos mais para tentar comprar e vender algo que antes não era matéria.

Amor.

Pensei que o mundo adoecia, e depois pensei que não, que não queria mais pensar em nada, quando vi um girassol.

Foi quando ele passou pra jantar na casa das meninas, ou quando dormi de mãos dadas com a minha melhor amiga numa noite difícil, ela na cama de cima, eu no colchão de baixo, e foi a primeira vez que adormeci de mãos dadas com alguém. Foi quando chorei de rir na periferia de Paris, foi uma comida indiana que de tão estranha, acho que a minha preferida.

Foi talvez no dia em que ele aprendeu a escrever dormeu bem?, e eu decidi que queria me dividir, sabendo que eu poderia mudar de ideia por medo, e que quinta-feira eu poderia falar sobre isso na terapia. Foi quando eu achei que era pressão baixa, hipoglicemia, alerta de um repertório que cai como uma cascata sem aviso prévio de cima de algum lugar, e me derruba pra dentro de mim – porque desta vez pode ser -, mas quando me dei conta de que ele chegaria no meu apartamento em 15 minutos, entendi: não era morte, era vida.

Foram pequenos grandes acontecimentos, foram dúvidas e conclusões e mais alguns questionamentos sobre infância, plantas, política, hábitos, enfrentamento, resiliência, e sobre como eu não entendo quem não se importa e nunca se importou. Foram muitas idas e vindas no metrô, da cama pro caderno, pra cima e pra baixo em Boulogne, Bobigny, Paris, Neuilly, Ivry, Villejuif, Alfortville e agora em Vanves. Agora no meu canto.

E no bar dos portugueses homens e mulheres comiam, bebiam e aproveitavam, apenas, como os momentos têm que ser vividos, as crianças ainda habitavam um mundo onde o fim é o começo e para tudo tem resposta, e eu pensei que a nossa língua era a mesma em um país onde se fala outra: o português pode unir a distância de um oceano, mas o samba da minha terra – eu sorri de lado – ninguém tem igual.

E segui descendo a rua para um lugar qualquer que eu queria ir, calçando Havaianas, com o sol forte das 20h me esquentando e secando meu cabelo recém-lavado, me perguntando quando é que tinha sido, pensando que estava faltando leite em casa, e que talvez eu deveria ler Balzac.

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