Minha mãe, uma figura

Minha mãe é dessas pessoas que são engraçadas por natureza. Não que ela saiba contar piadas, porque isso ela não sabe muito: “Aí o português falou…não! Peraí… ops, gente, errei, não foi isso que ele disse, errei mesmo, peraí… quem que falou mesmo? Não tá me vindo na memória, agora… ai, que coisa…ah! Lembrei, quem disse isso foi o cachorro!” – Ahn?

Mas o importante aqui, é que ela é um indivíduo engraçado pelo jeito mesmo. Perdida, esquecida, atrapalhada e nervosa. Mas quando ela fica BEM nervosa mesmo, aí sim… aí sim é engraçado.

Algumas coisas a tiram do sério – o meu quarto, uma delas:

– Mãe, entra aqui, não tô ouvindo nada do que você tá falando daí!

– Eu não entro nessa maloca. MA-LO-CA! Eu tenho medo de enfartar entrando nesse quarto, nessa… nessa… nessa coisa, nessa BAl-BÚR-DIA! Eu não sei como vocês não têm vergonha disso aí. Quanto desleixo! Eu DU-VI-DO que o quarto da Mari, da Xec… Xenz…

– Xexé.

– … Que o quarto da Xexé é assim. Vocês duas! Você e sua irmã… DES-LEI-XA-DAS. É tão bom entrar num quarto limpo, bonito, arrumadinho… quarto de menina! Não… Mas, imagina!… O das minhas filhas, não! É essa coisa, esse… esse desleixo, esse… esse… desleixo, essa coisa… esse… des…

E as palavras somem.

Outra coisa que mata minha mãe de raiva é equipamento eletrônico que não funciona:

– TOOOOOONIIIIIIIII! (meu pai) Ah, Toni, “PELÁMORDEDEUS”! Faz alguma coisa com essa internet, Toni. Chama o “homi” da Net, chama o eletricista (?), dá um jeito nessa porcaria! Eu não sei porquê, mas nessa casa NADA funciona. Já repararam? Do secador de cabelo ao… ao… à tudo! É filtro que não funciona, é a internet que não presta pra nada, eu tenho vontade de jogar tudo no lixo! Eu vou jogar tudo fora, e aí eu quero ver… ah… aí eu quero ver se vocês vão se mexer e fazer alguma coisa! Puxa vida… Se não sou eu pra ligar, correr atrás, vocês deixam apodrecer! Ah, PÔR FA-VÔR, sabe? – O “por favor” sempre tem uma entonação especial.

Agora, se você tá afim de CHO-RAR de rir… Aí você tem que ouvir minha mãe falando com atendente de telemarketing. Ela não tem paciência pra aguenta-los, mas também não deixa de expressar o que ela acha daqueles discursos decorados. Ela odeia os gerúndios, “entendo(s)”, e “no caso(s)”. Outro dia eu estava de longe ouvindo:

– Meu nome é Janete Muscat.

– Janete o quê? – A pergunta de sempre.

– Muscat! “EME, U, ESSE, CÊ, A, TÊ”.

– Ah, entendo.

– Entende o quê, minha filha? Esse é meu nome, não tem o que entender.

– É verdade…Entendo. A senhora é, no caso, portadora do plano X – qualquer que seja ele – da NET?

– Plano o quê? Olha, moça, NO CASO, eu não sei o nome do meu plano. Não sei pra quê usar tanto “no caso”, nesta frase não teria necessida…

– …O plano X. Que a senhora tem em conjunto com o seu marido, seu Antônio. Ele é seu marido, não é?

– Olha moça, eu não sei, eu tô atrapalhada aqui, não sei.

– Ah, entendo. Não sabe se o Sr. Antônio ainda é seu marido?

– NÃO! EU NÃO SEI O NOME DO PLANO!

– Ahhh, sim… Entendo. No caso, a senhora pode ir estar vendo o nome n….

– Não, eu não “POSSO IR ESTAR FAZENDO” nada, “NO CASO”! Eu tô ocupada, moça! Eu tenho mais o que fazer. E não tem o que entender!

– Entendo. É que no caso, dona Janete Bussate, nós, aqui da NET, estamos com uma promoção…

– Moça, eu acho que você não “entendeu” como insiste em dizer. Eu não quero saber. Não – es – tou – in – te – res – sa – da! E é MUSCAT! EME, U, ESSE…

– …Entendo. Bussaf. Dona Janete Bussaf, nós, aqui da NET, vamos estar tendo um plano que c…

– MUSCAT! MUUSSCCAATT! Com “CÊ”! Eu não quero saber, moça! Eu não quero! Bota aí no sistema, escreve num sei onde, “desses” negócios que vocês usam pra botar o nome e telefone da gente: NÃO QUERO! Tira o meu número da lista! Mas que coisa! Ahhh…chateação, sabe…!

– Sei… entendo. Mas, dona Janete Bussaf, no caso…

E é sempre a mesma coisa. Eu adoro quando ligam do lado de lá dessas empresas e a mamãe atende. Paro o que quer que eu esteja fazendo pra ouvir e me deliciar.

Dizem que mãe é tudo igual.

Entendo.

Mas a minha, no caso, é especial.

 

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