Maria

Maria que nasceu da dor e do suor e da força. Maria que anda descalça na roça com seus pés rachados de tanto sonhar. Maria que tira o leite da vaca de manhãzinha pra dar pros seus dois filhos, João e Maria, por falta de criatividade e de inspiração. Maria que vai pro tanque limpar e perfumar as roupas com a sua persistência e rusticidade, é a mesma que, como uma fada, cura as feridas abertas das duas crianças que caem no chão de terra quando brincam de parar o tempo. Maria que canta sem letra, sem melodia, quase sem voz. Maria que mata bicho na raça, sem dó nem piedade, é a mesma que faz carinho no cachorro pulguento. Maria que conta as estrelas do céu sem nem mesmo entender dos números, é a mesma que reza pra Nossa Senhora cem vezes sem parar. Maria que espera um dia diferente do outro e se encanta quando o céu chove de surpresa. Maria que faz a janta com as mãos calejadas de tanto esperar, é a mesma que beija seu marido recém-chegado do pão-de-cada-dia, e que, ao fazer isso, sente seu corpo se inovar.

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Janelinha

Algumas horas antes da missa, eu ajoelhei e pedi, com toda a minha fé, uma luz. Não sei bem pra quem, mas na hora pensava: “Pra quem estiver me ouvindo”. Pedi também força, proteção e paz, mas, acima de tudo, pedi luz. Um sinal, um aviso, alguma coisa não sei de onde e nem em formato de quê, mas que me dissesse que a vida melhoraria, e que a dor emocional e o sofrimento que eu estava sentindo teriam um fim.

A voz do padre chegava abafada no meu ouvido. Ele falava, as pessoas contribuíam com alguns versos, e a minha mente estava longe… será que algum dia aquilo ia passar? – a pergunta que não saía da minha cabeça.

Estava sentada no banco da primeira fileira, na frente do altar: “Quem sabe, assim, não fico mais perto de Deus…”. Que besteira. Era o desespero. Era tudo pela ânsia de aliviar a dor o mais rápido possível.

Corria o olhar pela capela buscando me situar, e tentando descobrir se as pessoas que sentavam lá, assim como eu, também tinham problemas tão angustiantes. Se tinham, quais seriam eles? Será que elas tinham esperança? Será que queriam conversar?

Durante esse passeio que meus olhos faziam em volta do ambiente em que eu estava, olhei bem para o lado, e vi uma janelinha. No diminutivo, não porque ela era pequena, ela era de um tamanho médio, mas porque era muito amável.

Era uma janelinha de madeira “meio-triangular”: “triangular”, porque tinha três pontas; e “meio”, porque não era formada por três retas, como um triângulo. A base era reta, e os outros dois lados eram como arcos, que saíam, cada um deles, de uma das pontas da base, e se encontravam no alto, apontando para o céu – arquitetos chamam este forma de arco ogival. O fato é que a janelinha me lembrou, não sei dizer o porquê, aquelas janelas de chalés que ficam no alto das montanhas, como nos filmes, onde só há a pequena casa, com uma portinha, uma chaminé no telhado – com fumaça saindo dela, necessariamente – a tal da linda janelinha na lateral, e a natureza em volta. Só.

Aquele dia era um sábado frio e cinzento, e tempos assim já me deixam angustiada normalmente – imagina naquele dia, daquela semana, em que a única coisa que circulava por mim era aquela dor corrosiva.

Mas o engraçado foi que quando olhei para a janelinha e para o que havia através dela, minha mente apagou, sem mesmo eu perceber, todos os pensamentos ruins que rondavam minha cabeça. Foi rápido. Eu nem vi acontecer.

Através do “meio-triângulo” de madeira, eu vi as árvores e as suas folhas dançando com o vento, eu vi os passarinhos dando piruetas no ar, e vi o céu, mesmo cinzento, fazendo o máximo que podia para aliviar a dor. Ao mesmo tempo em que olhava para aquela imagem tão libertadora, sentia o vento no meu rosto que vinha do lado de fora da janelinha, o cheiro das velas acesas pela capela, e ouvia as palavras, não importa quais, das pessoas ao meu lado, que no fundo, no fundo, queriam me dizer que ia passar, mesmo sem me conhecerem.

Os pássaros, as árvores, o vento, as pessoas, as palavras, as velas… a janelinha.

Foi aí que eu, com os olhos cheios de lágrimas, sentindo aquele vento bom em mim, respirei fundo e entendi: aquilo que eu havia pedido com tanta fé há algumas horas – a luz – para quem quer que fosse, da forma que fosse, me foram enviados através da janelinha e daquilo que ela, aberta pra mim, queria que eu entendesse.

“Calma, vai passar”- O vento disse no meu ouvido.

E assim que eu fui embora da capela, senti que apesar de todos os sentimentos estranhos – e talvez ainda bem ruins – dentro de mim, havia um agora que falava mais alto que os outros:

agora havia esperança.