Vestido

Ela passou como borrifada de perfume bom, rápida e marcando presença.
Mas, mais que a sua presença, a presença era do vestido.
O pano voava sem compromisso, e era levado com doçura pelo vento molhado que vinha da água quando batia no quebra-mar.
Ele não era de algodão e nem de seda, e muito menos de algo sintético, que pudesse incomodar, virar assunto. Ele era apenas ele na sua humilde tarefa. Que não tinha nome nem porquê. Tinha personalidade, sim, e parecia saber para o que veio aos olhos dos que o viam.
Mas ainda não sabia.
A cor era de fim de tarde: vermelho que chora a perda do azul, que teme o escuro, que sabe que não é culpa dele, mas que ainda não tem certeza se deveria ter sido assim.
Mas um dia teria.
Era vestido de verão, alça tão fina quanto possível, costas abertas – o passado ainda existia-, solto como um adolescente que pulou o portão, maligno como o que pode acontecer, benigno como o que há de ser.
Longo, escondia o que ainda seria mostrado, talvez, um dia.
O tecido relampejava a cada passo que ela dava, e, de repente, com um simples impulso, era sanfona de peão, arraia dançante, baiana de tudo, beijo na boca, briga fervorosa, vento no varal, onda de arrepio que só um amor de verão, e nada mais.
Fantasia que nem um homem conhecia.
Ele era vida e abatimento, era morte e movimento, era fim, era começo, era cor e ausência dela, era nada nisso tudo, fim de tarde em pleno dia, existência na apatia.
Era noite, o encontro da insegurança com o conhecido, e a certeza de que um dia isso tudo já teria sido.
E o que era ela ou o vestido,
isso ninguém, jamais, havia sabido.

Anúncios

Mortal

acordei mortal
e tudo podia acabar
se o deus do céu da terra do mar
quisesse que assim fosse

se a lua cansasse
e caísse
se o sol sofresse uma desilusão
e congelasse
se todas as pedras do espaço
virassem uma
e viessem de encontro à Terra

como se as horas fossem mentira –
um conto de pai pra filho

acordei mortal
e o planeta girava
enquanto eu envelhecia
e os cientistas encontravam
respostas plausíveis
curavam doenças
compreendiam a miséria
faziam papel de deus do céu da terra do mar
e tudo podia acabar

como uma bomba que podia ser acionada
pra matar
não por mal
mas por vida
da qual os mortais não abriam mão
já que um dia morreriam

acordei mortal
como se a vida me gritasse
pra eu ir pra rua
pra eu dançar dentro da fonte
dos meus desejos inconfessáveis
pra eu beber dos meus erros
que aquilo havia de acabar

como se um dia
eu não fosse mais ter vinte e sete anos
como se a vida fosse um sopro
e eu junção de poeira de nada
que tem sorte de sentir
enquanto outros tantos já nem existem mais

ou como se eu fosse-
como num sonho-
apenas mortal

Poema bom

poema bom
se encarrega do tempo
e da mente longa
desenvolve suas rimas
soltando cordas às mãos famintas
e concretiza o que nunca aconteceria
na cabeça dos que não podem
com o agora
 
poema bom
sopra ar fresco no suor da solidão
transforma a madrugada em um sonho doce
beija a pele queimada de elucubrar
e puxa o indivíduo do fundo
de onde quer que seja
para ele respirar
na beira de onde tenha nome
 
poema que presta
arranca a casca e deixa sangrar
até o corpo decidir estancar a dor
por si só;
ele abre a janela
para o presente entrar
e espera acordado
a dor condensar, os olhos cansarem,
e o passado, confortavelmente, dormir
 
poema que é poema
é gente do bem
ombro amigo
colo de alguém
desejo que surge
em meio à repressão:
o poeta se orgulha
e aceita, nem que só enquanto o poema,
que a tristeza vale a pena
 
poema bom
escreve com ele
toda a história do tal momento
e escreve aquilo tão bem escrito
que as horas o reverenciam
e correm rápido, o mais rápido possível
para contar às outras
a notícia que vem:
calma, que o futuro vai bem
 

Fuga

vou me mudar
pegar roupas e coisas velhas
bater tudo na janela
e ver o pó dançando
como quem quer esquecer
de que viver exige força

decidi uma hora
quando li a palavra fuga
alguém falava dela
como planejo o meu almoço
e vivia aquele filme
como eu enfrento as horas iguais

a iminência do abismo que nunca suga o meu melhor
e me deixa esperando de esmalte fresco

oras, pensei,
quem é que me pode me impedir?
na hora do almoço
também posso fugir

escrevi uma carta de adeus
borrada de choro
porque fuga sem drama
não vende ingresso

me preparei como José
quando sai pra vadiar
ou como Maria
quando o espera no quarto
de camisola e um resto de esperança

se for covardia
covardia será
porque não há maior covardia
do que a luz do dia
que diz no ouvido bem baixinho
que será de novo o dia
que nunca virá

vou me mudar
me livrar de roupas e coisas velhas
jogar tudo pela janela
e ver de cima meu passado
completamente desmantelado
implorando para eu esquecê-lo

– dizendo para eu dar meia volta
chutar aquela porta
e me abrir –

enfiar a camisola na mala
e me mudar daqui

Sapatos

Julia dirigia bem, até os machistas concordavam. Mesmo sendo estabanada com as coisas do dia a dia, quando pegava no volante e sentia que a direção era toda dela, Julia sabia bem o que fazer com aquilo. Só ela ainda não tinha entendido a metáfora, mas uma hora entenderia.

Um dia, Julia dirigia – bem, como sempre – e viu Gabriel de longe, numa banca de morangos. Desde quando aquele desgraçado parava pra comprar morangos? E o pior é que ele estava bonito, o cara de pau. Cabelo arrumado, camisa ajeitada, calça da moda. E os sapatos. Que sapatos lindos, que ódio. Sapatos que ela tinha dado de presente pra ele, gastando todo o seu salário mínimo pra ver um sorriso na cara do playboy que a largou pra ser do mundo, de tudo, de todas, menos dela.

Que dor. Que soco no estômago, que chute de sapato que ela mesma comprou na sua própria bunda. Julia queria de volta. Ela queria porque queria. Não Gabriel, que ela já tinha umas conversinhas com rapazes que a distraíam muito bem. Ela queria os sapatos. Ela queria revender aquela porcaria, e reaver pelo menos metade do seu salário mínimo, que a gasolina andava muito cara, a inflação não permitia comprar chia no supermercado, e como ela emagreceria se não conseguia pagar a academia? Aliás, como é que ele tinha dinheiro pra comprar morangos, que andavam tão caros? Ele nem gostava daquela fruta pra gastar com aquilo, e de certo estava comprando pra alguma mulher, só pra fazer charme.

Isso, querida, cai mesmo na dele, assim como eu fiz nos últimos dois anos, mas esquece seu salário, viu? Que o gosto desse infeliz é de rico, e depois que você estiver pobre e louca de amor por ele, o homem te chuta com a ponta do sapato caro que você mesma comprou, e ainda esfrega na sua cara que tem grana pra bancar morango pra outra azarada – que sorte só teve de nascer bonitinha aos olhos dele. Bom, esse aí, também, pega qualquer uma quando está solteiro. Espero-que-só-quando-solteiro.

Acontece que Julia pensou em tudo isso enquanto o carro estava em movimento. Por alguns segundos, o volante deixou de ser dela e passou para Gabriel, de tanto que o mesmo estava presente naquele carro – e ele nunca dirigiu bem. Essa troca não prevista causou um grande desastre, e fez a frente do carro desgovernado se enfiar na traseira de um outro que parou no farol vermelho despercebido pelas mãos do ex-namorado barbeiro – que além de tirar o sálario mínimo de Julia com os sapatos que usava naquele momento, tiraria mais alguns mil reais para consertar aquele estrago.

O barulho da pancada foi ainda mais feio do que a batida em si, daquele jeito que sai gente até pela janela do prédio de outro quarteirão pra arranjar assunto, diante de mais um dia tão monótono no escritório. E se os futriqueiros do outro quarteirão ouviram, que dirá Gabriel, que agora estava tão perto do ocorrido, praticamente ao lado, na banca de morangos.

Começou a choradeira. Julia se pôs a berrar e se descabelar pela batida, dando socos homéricos no volante, quase que estourando este também – pelos morangos, pelos sapatos, pelo salário que não tinha, pela avó que estava doente, pelo seu peso que não baixava por nada na balança, por ser mal amada, por não ter amigos de verdade, pela bronca que levaria dos pais diante da batida… “Oi, tudo bem com você? Você se machucou?”.

A vítima do carro à frente veio checar como Julia estava. Ele não veio brigar, falar que o ex dela era um barbeiro – e que ela era burra por ter ficado com aquele cara durante dois anos -, apontar o dedo na fuça, convencê-la de comprar um sapato caro para ser perdoada pela batida, nada disso. E ele era alto. Demonstrava preocupação. Devia ser bem humorado e inteligente. Era lindo demais. Ele agachou na frente da janela do carro pra ficar na mesma altura de Julia: “Não chora, está tudo bem”.

Julia olhou nos olhos dele, e se viu em uma viagem a Paris com aquele homem maravilhoso, depois do casamento dos dois, que seria na praia. Ela estava chorando, pois tinha levado um tombo de bicicleta na frente do Louvre, e o marido preocupado, bem humorado, inteligente e charmoso estava agachado olhando-a nos olhos, abraçando-a, e até achando graça do jeito sempre dramático da esposa, tentando acalmá-la: “Jajá passa, meu amor”. Será que ela convidaria Maria Eduarda pro casamento?

“Dá licença? Licença, eu conheço ela”. De repente, Gabriel estava na janela do carro batido por ele mesmo, depois de empurrar o futuro marido de Julia pro lado. Ele segurava uma sacola com apenas uma caixa de morango dentro – o playboy sempre foi mão de vaca, mesmo – com um olhar de dó e superioridade, dizendo: “Djulis – que apelido ridículo, ele não se convencia de que ela odiava esse apelido? – eu vi que era você de longe! Precisa prestar atenção! Quer ajuda?”.

Julia, ainda aos prantos, descabelada, sentindo o rosto quente de raiva – mas com um pouquinho de esperança de se casar e não ter que chamar Maria Eduarda pra festa – respirou fundo, juntou o furacão de sentimentos que chacoalhavam todos os seus órgãos por dentro, encheu a boca como se tivesse virado a caixa de morangos dentro dela, e cuspiu tudo de volta, morango por morango, na cara de Gabriel: “Eu quero os sapatos”.

Cidade grande

Não tinha o que fazer, não tinha pra onde ir.

Um mar de carros desesperados por seus objetivos perdidos com o tempo, e buzinas que berravam por calma que remédio algum era capaz de trazer.

Talvez se ele estivesse em outro lugar, com outras pessoas, uma outra hora.

Hábitos que voaram com as folhas do outono.

Ela, definitivamente, havia sido um grande amor. Mas passou, assim como o pedinte que percebe quando não há mais nada dentro daquele carro que estejam dispostos a lhe dar – ele sabe a hora de recolher a mão para si mesmo, e seguir seu caminho rumo ao próximo automóvel.

Por que pensava nisso?

Mudar de emprego, viajar para longe, mandar uma mensagem para aquela garota bonita, pedir um salário melhor – será que adiantaria?

Gritos de trabalhadores que perderam o ônibus e a hora de dar um beijo de boa noite.

Aumentar o rádio foi uma tentativa, mas era como potencializar a dor de cabeça de não viver. Não abafava o caos lá de fora, só lembrava às suas mãos suadas da morte que era acordar todos os dias sabendo exatamente o que aconteceria nos momentos seguintes. A vida não era pra ser lógica, mas a dele havia perdido toda a poesia e as cores da realidade.

Talvez se ele ligasse pra ela mais tarde, no final de semana seria legal ir ao cinema, a conta do banco estava atrasada? Ele deveria se permitir enlouquecer de vez.

Os outros que cuidassem da vida deles.

Quando ele era jovem, deveria ter fugido com aquela delinquente, assim como sua mãe a chamava, e tentado um caminho de aventuras ao lado dela. E que o resto fosse pro inferno. Será que ouviram, na quinta série, quando ele chorou no banheiro?

Mas isso tanto fazia agora.

Se ele pudesse, resgataria sonhos perdidos, que agora afundavam num mar onde pescador algum gostaria de estar. Quando ainda havia vontade, brilho, inocência. Quando tudo era amanhã. Quando o amanhã não era o eterno hoje.

Checou o celular, nenhuma notificação, de nada, de ninguém.

O que será que ela fazia agora?

Deixa pra lá, era resquício de um tempo perdido.

Quando o fim não existia.

.

Acendeu um cigarro, deu três longos tragos tentando suprir a bolha de nada que havia nos pulmões, e, soltando a fumaça vagarosamente pela boca, com o braço para fora da janela, deixou com que a sua válvula de escape escorregasse pelos dedos cansados, tremidos e sem força, até cair no cimento exausto de tanta mesmice que carregava todos os dias.

As faíscas explodiam e brilhavam em câmera lenta, enquanto o cigarro abandonado tentava uma posição para ficar pra sempre, e morrer confortável.

Ele não viu, mas sentiu.

Precisava acelerar.

 

primavera

eu disse coisas que não saberia dizer a mim mesma. na hora em que olhei pra trás já não dava mais tempo, o ano tinha passado, e naquela rua já era dia. eu vejo a luz daquelas estrelas negras toda a vez que a razão sem sentido se transforma em imaginação fértil no formato de arco e flecha. o escudo, que a princípio deveria me proteger, entra na pele junto com todas as modernidades, e sangra na mesma intensidade de um sorriso dado para fingir que sou igual àqueles que nasceram em outra vida. às 4h da manhã o sol está ardendo tanto, que a minha pele virou escuridão, assim como os olhos que fecham em busca de um quarto onde possam chorar, gritar ou simplesmente descansar em paz, sem ninguém para poder julgá-los. eu me emaranho no cabelo que deixei crescer pra me sentir mais mulher, me perguntando se os cientistas que me observam dentro dessa caixa de vidro conseguem notar algo diferente em mim. provavelmente não, porque eles não tem piedade alguma. as minhas unhas arranharam a parede enquanto a minha boca beijava uma flor, e senti muita dor quando precisava ouvir de alguém que aquilo fazia algum sentido, e o meu amor me disse que eu era alguém incoerente. quando estava pronta pra sair, com batom vermelho e tudo, me elogiaram, falaram que eu estava bonita para me incentivar, mas não adiantou, porque o espelho nunca foi o meu retrato; a profundeza, sim. os outros nunca souberam de nada da gente, e então eu resolvi ficar em casa, porque só a solidão entenderia.
.
hoje é dia de primavera, de botar um vestido, mostrar os dentes para a foto, tomar uma cerveja e dar risada do sol da chuva da noite e da desgraça alheia.
e eu, que sempre odiei as regras.