Inferno

Hoje é domingo,  meia-noite, e eu sei que não vou dormir cedo. Acontecimentos, leituras perturbadoras e conversas profundas demais vão tagarelar com o meu ego, minha vontade de auto-preservação e meus medos a noite toda. Dizem que não podemos afirmar algo negativo com tanta devoção – se o fizermos, atraímos definitivamente o conteúdo para nós e o concretizamos na realidade – mais uma regra que busco seguir a cada dia que levanto da cama: me agarro nas palavras boas e empurro com o meu consciente as ruins. Mais dos “tenho que(s)”. Mais vertigem. E mesmo assim acho que não durmo fácil hoje.

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Lembrei das redes sociais com o livro. Uma sala clara, olhos que não piscam (meus e os de meus companheiros de cela) determinando a falta de pausa para o descanso, a eternidade, a não existência da morte – isso sim é o inferno. O inferno é, também, a dependência do julgamento de outrem para eu decidir quem eu sou ou quem serei da próxima vez: quero agradar os olhos de quem me vê. Quero a perfeição, mas não a desejo simplesmente para o meu bem, eu a desejo para provar para os outros que sou perfeita. Eu vou a lugares para dizer que fui. Eu me pinto pra esconder as marcas, olheiras, cicatrizes e as dores que eu não quero que vejam – eu sei quem eu sou, e eu sei que tenho tudo isso dentro de mim. Tomo banho e me maquio todos os dias para não me tornar insuportável à sociedade. Abro uma ferramenta para ver o quão aceita eu sou, o quão amada permaneço, o quanto existo. Sem a ferramenta eu não me sinto viva. Sem os outros eu não me vejo no espelho, eu não sei quem eu sou. Sartre enfiou agulhas em baixo de cada uma das minhas unhas pintadas de vermelho-sangue: “O inferno são os outros”. E eles são.

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Me chicoteio a cada sinal de contrariedade. Cutuco minha pele a cada sinal de falha, até me ferir para substituir a dor emocional pela física. Anseio pela felicidade, e, quando acordo feliz, não sei como lidar com a plenitude: com ela se vão a minha inspiração e os questionamentos – eu não quero ter tudo, eu quero lágrimas, eu quero a cólera, pois eu quero ter objetivos. Eu odeio precisar querer tudo isso. Odeio precisar de qualquer coisa.

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Quantas pessoas estão conectadas agora? Quantas pessoas vão ler estas palavras? Quantas pessoas agora pensam, fumam, dançam, bebem, medicam-se, choram, riem, suicidam-se? O que é o mundo? Quem sou eu a não ser um perfil falso na tela reluzente de uma máquina irreal tentando mostrar o melhor de mim? A mentira dentro da mentira?

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Ando em direção à cama pedindo a Deus que me acorde quando eu souber quem eu sou, e quando eu consiga lidar com dias felizes sem me sentir vazia por isso. Eu quero me amar, mas será que é possível? Aquele cara olharia bem nos meus olhos e me encheria de porrada com as suas palavras ferventes de tão geladas: “Não. Você se conhece demais para isso”.

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E enquanto os outros não me conhecem bem, eu finjo ser quem não sou, quem sabe assim me amam mais, e eu finjo que encontrei a perfeição.

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Mais um dia

Dou a volta ao mundo sem sair do lugar, toco o fundo do oceano da beira da praia, conheço o oriente ocidentalizando o meu jeito de ser. Norte e sul se misturam dentro de mim e a bússola gira em descompasso. Ninguém sabe onde eu estou, e eu sei que me perco nas profundezas de mim mesma a cada tentativa de pegar ar do lado de fora. Quando foi que isso aconteceu? O relógio também está desregulado, e não me aponta mais as horas, apenas os medos. Por que raios isso se deu? Astrólogos explicariam com base na posição dos planetas; cartomantes tirariam valetes e damas para dançar; médicos usariam bases científicas e investigariam meu código genético. A verdade é que nasci pra enfrentar a vida e me dar conta de que o tudo não passa do nada. A curiosidade corre solta dentro de cada célula daquilo que eu sou – mais um ser que habita o mundo dos sobreviventes – e me leva pra passear todo o dia pela Via Láctea me devolvendo em casa para a hora do jantar. A minha mente gira nos anéis de Saturno e volta pra minha alma em questão de milésimos de inseguranças, sem dar tempo de eu me preparar. Outro dia peguei carona na cauda de um dragão e fui entregue do inferno ao céu através de um impulso que a fera deu ao me ver chorar – os monstros nunca são tão maus quanto parecem ser.

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Hoje a noite está linda, o céu lotado de estrelas, e esperanças voltam a habitar meu corpo. Não há explicação astrológica, cartomante ou médica. Ligo o rádio e viajo pra longe daqui: amanhã é um novo dia.

Mas não é

Ela ama ele, ele ama ela. Seria simples… mas não é.

Eles eram um e agora reaprendem a ser dois.

Dois corpos separados, a distância, a vida, os acontecimentos, as circuntâncias.

Ela vira pro lado e não tem mais quem abraçar. Ele se diverte até sentir saudades da mão dela. Ela vai ao mercado e compraria um doce que ele gosta. Ele vê uma criança e sabe que ela sorriria. Ela corre a imensidão de dentro dela tentando fugir do sentimento. Ele se estabelece e abafa com seus rabiscos a falta que ela faz. Ela diz que não. Ele diz que o tempo sabe. Ela não quer. Ele quer. Ela também. Ele não quer. Ela não sabe. Ele também. Eles dois. Ela deita nos braços de outro e imagina o que ele está fazendo. Ele leva outra pra casa e pensa que podia ser ela. Eles tentam. Eles não podem. Ela lembra daquele dia. Ele não pensa até ver uma foto. Ela apaga tudo pra não lembrar. Ele sonha e não tem como não pensar. Ela tenta não dormir pra não sonhar. Ele sai com os amigos pra beber. Ela assiste a um filme pra chorar. Ele não quer sair de casa se não tiver ela. Ela sai pra aliviar. Ele vira a esquina esperando encontrar. Ela não tem vontade de acordar. Ele corta o cabelo e imagina o que ela falaria. Ela se arruma de um jeito que ele gostaria. Ele queria o carinho e o peito dela pra deitar. Ela queria o cafuné e o corpo dele pra abraçar. Ele busca a doçura do cheiro dela dentro dele. Ela respira fundo e sente o perfume que ele deixou no ar. Ele lê e sente falta. Ela romantiza uma volta.

Eles eram um e agora reaprendem a ser dois.

Dois corpos separados, a distância, a vida, os acontecimentos, as circuntâncias.

Ele ama ela, ela ama ele. Seria simples…

Mas não é.

Lembranças no Egito

Precisava de consolo. Eu, que sempre tinha sido tão forte, que julgava não precisar de ninguém, buscava agora, sentado naquela cadeira de madeira no Cairo, com as mãos esfregando a parte de cima das minhas coxas, um consolo. Lembrei então daquele dia na minha infância, quando, também sentado em uma cadeirinha de madeira na cozinha da casa em que morava, esfregando minhas pequenas mãos na parte de cima das minhas coxas, minha mãe se aproximou de mim e ajoelhou-se na minha frente para deixar seus olhos na altura dos meus.  Ela limpou suas mãos sujas de bolo no avental respingado que estava usando, e colocou-as no meu rosto – cada mão de um lado da minha face. Passou seus dedos contra as lágrimas que escorriam dos meus olhos, e ficou um tempo olhando pra mim sem dizer nada, em pleno silêncio. Naquela hora, diante daquela cena, fiquei com pena de mim mesmo, e senti um soluço de choro querendo atravessar minha garganta e chegar aos ouvidos da mamãe. Meus olhos vermelhos se encheram de lágrimas novamente, e ela, tirando agora as mãos do meu rosto e colocando-as sobre as minhas mãos inquietas em cima das minhas coxas, acalmando-as, soprou um vento bom no meu rosto. Ela não disse nada, não precisou. Soprando em mim, a minha mãe, como mágica, secou a dor dos meus olhos e desemaranhou minha garganta. Sentado agora na cadeira de madeira há tantos anos e quilômetros daquela cadeirinha em que me sentava quando pequeno, senti de repente um vento bom no meu rosto. Fechei os olhos. Entendi que minha mãe percebeu a minha necessidade de consolo, e veio me visitar.

Maria

Maria que nasceu da dor e do suor e da força. Maria que anda descalça na roça com seus pés rachados de tanto sonhar. Maria que tira o leite da vaca de manhãzinha pra dar pros seus dois filhos, João e Maria, por falta de criatividade e de inspiração. Maria que vai pro tanque limpar e perfumar as roupas com a sua persistência e rusticidade, é a mesma que, como uma fada, cura as feridas abertas das duas crianças que caem no chão de terra quando brincam de parar o tempo. Maria que canta sem letra, sem melodia, quase sem voz. Maria que mata bicho na raça, sem dó nem piedade, é a mesma que faz carinho no cachorro pulguento. Maria que conta as estrelas do céu sem nem mesmo entender dos números, é a mesma que reza pra Nossa Senhora cem vezes sem parar. Maria que espera um dia diferente do outro e se encanta quando o céu chove de surpresa. Maria que faz a janta com as mãos calejadas de tanto esperar, é a mesma que beija seu marido recém-chegado do pão-de-cada-dia, e que, ao fazer isso, sente seu corpo se inovar.

Liberdade

–  Imagina a gente lá…

–  Lá é muito longe, eu nem sei onde fica.

–  É perto do Alasca, eu acho.

–  Deve ser muito frio, isso sim.

–  Deixa de ser chata e imagina!

–  Tá bom…

–  A gente podia acordar cedo todo o dia, pescar e fazer o almoço à tarde com a pesca da manhã.

–  Eu não sei cozinhar…

–  A gente ligava pra minha mãe pra perguntar.

–  Hmm…

–  A gente podia construir uma rede na frente da nossa casa pra relaxar e ver a paisagem. Lá devem ter muitos pássaros diferentes, tucanos… acho que devem passar elefantes de vez em quando!

–  Tenho medo de elefantes! Muito medo…

–  Mas esses são diferentes. Eles são amigos e gostam de carinho. Eles brincam de jogar água na gente nos dias de muito calor pela tromba que eles têm.

–  Eles são legais, então…?

–  Muito! E lá tem praia de areia boa que não machuca o pé e que é boa de fazer castelo.

–  Você nem sabe fazer castelinho direito. E você não sabe o que está dizendo, se minha mãe souber dessa conversa ela vai ficar brava.

–  Ela não precisa saber. Olha ela lá! Ela tá longe, não dá pra ouvir…

–  Vamos no balanço? Eu gosto de balançar…

–  … e então eu iria até o fim do arco-íris, porque ele é perto de onde nós vamos morar.

–  Nós vamos?

–  Sim, vamos. E eu vou pegar o pote de ouro que fica no fim dele pra dar pra você. Você vai poder comprar quantas bonecas quiser.

–  Legal! Seria bem legal mesmo… obrigada.

–  E eu vou pegar a lã de todas as ovelhinhas que estiverem no quintal da nossa casa pra fazer um casaco bem quentinho pra você.

–  Lá deve ser muito frio…

–  Você já disse isso. Por isso teremos ovelhas. E teremos também um parquinho dentro de casa, assim não precisamos nem sair lá fora pra brincar nos dias de neve!

–  Nossa! Eu nunca vi neve!

–  Lá neva. Podemos construir bonecos de neve no quintal.

–  Legal! Mas… eu não durmo à noite sem minha mãe na casa. Tenho medo.

–  Tudo bem, porque lá o céu é baixo, e eu vou pegar a minha escada de madeira,  que o meu pai construiu pra mim quando eu era bem pequeno, esticar minha mão e pegar uma estrela bem brilhante no céu, a mais brilhante, pra colocar no seu quarto. Assim você não fica com medo, e tem bons sonhos.

–  Nossa…  queria que fosse verdade.

–  E vai ser.

–  Como você sabe? Criança não sabe de nada, minha mãe sempre diz.

–  Eu sei porque somos livres. Quem é livre faz o que quer.

–  Que história é essa?

–  Uma que meu pai me contou.

–  Me conta, então.

–  Eu não lembro direito, ele tava no pé da minha cama, eu estava adormecendo. E ele falava da mamãe que foi embora com um outro pai que eu tenho, mas que eu não conheço, pra ser feliz. Ela foi pra outra casa.

–  Outro pai?

–  Acho que é… mas eu não gosto de saber. Gosto de ter um pai só. A mamãe me visita às vezes. E eu perguntei pro papai se ele não fica bravo por causa de tudo isso…

–  E ele disse o quê?

–  Disse que não… que ele dá a liberdade pra mamãe fazer o que quiser, se for pra ela ser feliz. Então eu posso te dar a liberdade de viver todas essas coisas comigo.

–  E por que isso? Não entendi direito…

–  Porque o papai me contou, antes de me dar um beijo na testa de boa noite, que o amor é isso… que o amor é liberdade.

Cuida dele

Garota, cuida bem dele.
Diz pra ele não ficar até tão tarde acordado, manda mensagem antes de dormir pedindo pra ele descansar, diz que se preocupa com ele, e, se puder, diz que eu ainda me preocupo também.
Manda ele comer menos bobagem, garota, diz pra ele experimentar peixe, e pede pra ele não misturar cerveja com vodka – mas diz pra ele que se ele o fizer, que faça perto de você: na hora ele vai te falar coisas engraçadas e deliciosas de ouvir; vai fazer você querer ficar com ele pra sempre, e ir embora dali pra casa de um dos dois. Eu lembro de como eu me sentia… fala pra ele que eu sinto falta disso.
Faz cafuné nele enquanto estiverem no cinema e você tiver encostada em seu ombro. Enche ele de beijinhos na bochecha, que eu sei que ele gosta, e diz pra ele no ouvido, bem baixinho, que você o ama, ele gosta de ouvir. Coloca suas pernas em cima das dele e abraça ele forte, sente que ele é só seu, e fala pra ele, se der, que ainda é difícil pra mim saber que ele não é mais só meu.
Diz pra ele usar óculos, que ele fica lindo com eles, e assim não precisa lidar com os olhos secos e vermelhos de quando ele usa lente.
Fala pra ele que não há ninguém melhor que ele pra conversar a noite toda, entre beijos, goles de cerveja e risadas, e aproveita pra, quando ele tirar os óculos na hora de te beijar, olhar bem fundo nos olhos dele: curta esse momento porque ele passa, garota. Uma hora você vai sentir falta disso.
Fala pra ele que ele fica bem de preto, e que os olhos fechadinhos dele, na hora em que ele dá risada, são deliciosos de se ver.
Conta pra ele o quanto você adora o cheiro que ele tem, e não hesite em beijar o pescoço dele só porque você sente o gosto do perfume que ele usa: um dia você pode sentir falta desse gosto na sua boca – do cheiro do perfume, então, nem se fala… diz pra ele que eu o senti outro dia na rua, e meus olhos se encheram de lágrimas. Senta no colo dele quando ele estiver na frente do computador, e manda ele esquecer daquilo tudo um pouco, garota. Ele fica irresistível quando está concentrado, eu sei, então aproveita pra aproveitar ele – ele não liga, não, ele vai gostar se você fizer isso. Fala pra ele que a carinha de sono que ele tem é incomparável, e que nos meus sonhos eu ainda acordo ele me jogando em cima do seu corpo e beijando ele com todo o meu amor.
Ouve o que ele tem a dizer sobre os filmes. Ele sabe muito, ele entende demais, e vai te ensinar bastante coisa. Enquanto ele te explicar, feche os olhos e pegue as suas mãos por mim… beije elas com toda a saudade que eu sinto. Elas são quentes e macias, eu não esqueço delas. Ame-as assim como eu as amava, e não reclame que de vez em quando elas ficam suadas – em vez disso, coloque elas no seu rosto e aperte elas contra você pra você saber que ele está lá de verdade, e que dessa vez não é só sonho. Quando vocês estiverem juntos, aproveita pra deitar sua cabeça no peito dele, e sente o coração dele bater forte por você. Se puder, se afasta um pouquinho, apoia sua cabeça nas suas mãos e fica olhando pra ele – deixa uma mechinha do seu cabelo cair no seu rosto, que ele vai gostar de brincar com ela colocando-a atrás da sua orelha e mudando de ideia depois, deixando ela solta de novo: fala pra ele, se der, que eu não esqueço dessa cena.
Cuida bem dele, garota.
Pede pra ele se acalmar quando tiver crise de rinite, que isso passa logo, e que ele de nariz vermelho é a coisa mais linda do mundo.
Diz pra ele que se ele precisar eu ainda estou pronta pra ouvir o que quer que seja da sua boca; e, por último, quando for se despedir dele no aeroporto, diga que o ama pra sempre, não importando o que aconteça no futuro… e aí, garota, não precisa dizer mais nada: ele vai lembrar de mim.

Inspirado no texto de Daniel Bovolento – Cuida Dela.