Calma

Você já conhece

E sabe que passa.

Tudo faz sentido

(você há de entender um dia)

E é aí

Que está a graça.

Anúncios

Sopro

Deixa eu sonhar em paz

Que quem sonha é feliz

Nem que seja

Por um triz

Céu

Ela respira fundo, e dá o primeiro passo. O primeiro pulo. De criança a mulher. Ela cava um buraco bem fundo, o mais fundo que pode cavar, e ao se deparar com o inferno, joga nele tudo o que lhe aperta o peito. Mais leve, começa a perambular pelo universo com as asas da imaginação, em direção às constelações de campos de jasmim. Ela vai de um ponto a outro do mundo com seus próprios pés. Voa alto, alto, e ninguém pode segurar. Ela pula obstáculos, livra-se de armadilhas, empurra pessoas que a querem deter, e beija sem pudores os que torcem pela sua chegada. Ela se lambuza do que gosta, ela divide o que tem com a natureza, ela conversa com as estrelas – lampiões que contam histórias de pais para filhos. Ela brinca na areia, ela lambe o vento, ela abraça o sol com força – o amigo que sempre acalenta suas dores. Ela gira com os demais pássaros que a acompanham em sua jornada, ela tira fotografias com os olhos, ela filma com a sua memória.                                                    
Ela decide, ela luta, ela vive…

.

E no fim da amarelinha desbotada e pintada no chão da velha rua sem saída, a jovem mulher – contra o que todos imaginaram um dia – chega, finalmente, ao céu.

Sala de espera

Calma,

que o sofrimento

é o intervalo

entre dois momentos bons.

Se não fosse assim,

o nome deste sentimento

seria existir.

Lava a alma e leva a sombra que lava o que

Há de bom.

Leva a vida e atente à lava que leva o que

Há de bom.

Leva a lava, e deixe que a brisa leve ao que

Há de bom.

Lava o corpo e desbrava em ti o que leva ao que

Há de bom.

Descobre o que há, lava e leva daqui a dor que há de não ser o que

Há de bom.

Que há.

Depois daquela conversa

Depois daquela nossa conversa longa, tão longa que me fez perder a noção das horas, fiquei pensando muito no que foi falado. Se você acredita em mim, estou pensando em tudo aquilo até agora.

E se eu te disser que já sofri pelos exatos mesmos motivos que você, e já senti cada descrição que saiu da sua boca naquela noite cheia de trovoadas e obscuridades que só nós sabemos? Acho que o nosso maior defeito – se é que defeitos existem, e não são apenas invenções nossas para aceitarmos as coisas que julgamos erradas – é o de vivermos além e fora do nosso tempo (se é que este também existe).

O não aceitar o passado e querer desesperadamente agarrar o futuro com as mãos, arrancar-lhe o embrulho que não nos permite contemplá-lo, como se fosse o presente, e devorá-lo como se fosse doce nas mãos de criança, é o que causa nossa inquietude e desespero. Por que simplesmente não aceitamos? Por que não conseguimos viver o agora, a nossa era, a nossa carne e nosso hoje, e por que queremos tanto o que não é possível pegar nas mãos e ser controlado? Seria esta uma forma de nos enganarmos pelo medo da morte?

Dizem que quando a missão do ser – qualquer que seja este – acaba, então a morte o leva embora. Talvez não aceitemos isso, e preferimos não sermos felizes, continuarmos nos enganando, com medo de que a felicidade nos traga a morte… como te soa esta teoria? Plausível?

Mas olha só como somos maldosos com nós mesmos: queremos ser infelizes pelo medo do que a felicidade pode nos trazer de bom, e, depois, de ruim (que seria, neste caso, a morte). Acreditamos que não temos sangue frio suficiente para lidar com a plenitude, e, assim, buscamos nos boicotar ao máximo para não morrermos, e continuarmos vivendo infelizes, mas ao menos vivendo.

Ao menos viver…  mas, isso é vida? Então é isso o que chamam de viver? É a vida, ou morremos e não estamos sabendo?

Hoje, deitada no sofá e olhando o céu pela janela, resolvi que quero ser feliz, mesmo que isso me traga a morte. Você não acha que vale mais a pena tentar encontrar logo o que nos faz plenos, e morrer sorrindo depois – como uma bela flor branca deitada no jardim depois de uma missão cumprida – do que viver feito erva daninha, cabisbaixa e venenosa, obscura e triste, e não morrer nunca mais? De que adiantaria? Pense nisto e me dê uma resposta.

.

Naquele dia depois da nossa conversa, voltando a pé na chuva em direção ao meu carro, vi pessoas indo e vindo, vi gente sorrir, vi gente chorar, vi gente correndo, gente parada, luzes acesas, conversas ao vento, pingos gelados no meu rosto. Vi vida, como há muito não via. Eu arrisco dizer que vi o ar que entrava e saía dos meus pulmões – tanto o vi que me senti apaixonada por ele assim que entramos em contato um com o outro. Há quanto tempo eu não via uma cena tão bonita… naturalmente bonita, sem banho, sem perfume, sem batom. Apenas a cena do jeito que ela nasceu e depois morreu. Acho que, naquele momento, meus olhos resolveram parar de olhar o futuro e o passado, e deixaram o presente lá, na frente deles, com embrulho e tudo, só para ser contemplado e sentido. Devagarzinho, sem pressa… Essa é a graça da vida, afinal, não é?

Reflita sobre isso tudo e me diga o que acha. Esta é a minha teoria, quero saber da sua.

Com amor.

Inferno

Hoje é domingo,  meia-noite, e eu sei que não vou dormir cedo. Acontecimentos, leituras perturbadoras e conversas profundas demais vão tagarelar com o meu ego, minha vontade de auto-preservação e meus medos a noite toda. Dizem que não podemos afirmar algo negativo com tanta devoção – se o fizermos, atraímos definitivamente o conteúdo para nós e o concretizamos na realidade – mais uma regra que busco seguir a cada dia que levanto da cama: me agarro nas palavras boas e empurro com o meu consciente as ruins. Mais dos “tenho que(s)”. Mais vertigem. E mesmo assim acho que não durmo fácil hoje.

.

Lembrei das redes sociais com o livro. Uma sala clara, olhos que não piscam (meus e os de meus companheiros de cela) determinando a falta de pausa para o descanso, a eternidade, a não existência da morte – isso sim é o inferno. O inferno é, também, a dependência do julgamento de outrem para eu decidir quem eu sou ou quem serei da próxima vez: quero agradar os olhos de quem me vê. Quero a perfeição, mas não a desejo simplesmente para o meu bem, eu a desejo para provar para os outros que sou perfeita. Eu vou a lugares para dizer que fui. Eu me pinto pra esconder as marcas, olheiras, cicatrizes e as dores que eu não quero que vejam – eu sei quem eu sou, e eu sei que tenho tudo isso dentro de mim. Tomo banho e me maquio todos os dias para não me tornar insuportável à sociedade. Abro uma ferramenta para ver o quão aceita eu sou, o quão amada permaneço, o quanto existo. Sem a ferramenta eu não me sinto viva. Sem os outros eu não me vejo no espelho, eu não sei quem eu sou. Sartre enfiou agulhas em baixo de cada uma das minhas unhas pintadas de vermelho-sangue: “O inferno são os outros”. E eles são.

.

Me chicoteio a cada sinal de contrariedade. Cutuco minha pele a cada sinal de falha, até me ferir para substituir a dor emocional pela física. Anseio pela felicidade, e, quando acordo feliz, não sei como lidar com a plenitude: com ela se vão a minha inspiração e os questionamentos – eu não quero ter tudo, eu quero lágrimas, eu quero a cólera, pois eu quero ter objetivos. Eu odeio precisar querer tudo isso. Odeio precisar de qualquer coisa.

.

Quantas pessoas estão conectadas agora? Quantas pessoas vão ler estas palavras? Quantas pessoas agora pensam, fumam, dançam, bebem, medicam-se, choram, riem, suicidam-se? O que é o mundo? Quem sou eu a não ser um perfil falso na tela reluzente de uma máquina irreal tentando mostrar o melhor de mim? A mentira dentro da mentira?

.

Ando em direção à cama pedindo a Deus que me acorde quando eu souber quem eu sou, e quando eu consiga lidar com dias felizes sem me sentir vazia por isso. Eu quero me amar, mas será que é possível? Aquele cara olharia bem nos meus olhos e me encheria de porrada com as suas palavras ferventes de tão geladas: “Não. Você se conhece demais para isso”.

.

E enquanto os outros não me conhecem bem, eu finjo ser quem não sou, quem sabe assim me amam mais, e eu finjo que encontrei a perfeição.