Fim de ano

Era fim de ano, e eu tinha 15 anos:
– Existem estudos.
– Quais?
Tudo o que é pesquisa, estatística e números altos sempre me atraiu neste quesito, como ar jogado com força na asma da minha estranheza.
– Tá sentindo esse choquinho?
– Não.
Eu sentava naquela maca alta de consultório médico, com as pernas pra fora, balançando-as no ar como criança, enquanto ela fazia alguns testes neurológicos comigo através de um aparelhinho, para poder bater o martelo no diagnóstico: há semanas eu não sentia as pernas, e minha ansiedade era tanta que quando eu levantava achava que desmaiaria, quando sentava também, porque ficava com medo de levantar e desmaiar. Além disso, a adrenalina que corria no meu sangue era tamanha, que meus músculos do corpo todo movimentavam-se aleatoriamente em determinados momentos do dia, o que me assustava e me dava falta de ar e consequentemente falta de oxigenação no cérebro, levando à sensação de morte, que quando eu sentava pra passar não passava, porque como você já sabe, eu tinha medo de levantar e desmaiar e morrer. Isso sem contar o zumbido constante no meu ouvido, formigamento nas bochechas e língua, e a sensação de tremor interno, que eu nunca soube explicar, mas sei que tem horas em que tremo por dentro. Você não vê, mas eu sinto.
– E aqui? Aqui você sente esse choquinho?
– Eu deveria sentir?
– Sim.
– Mas não só não sinto nada, como estou passando mal. Minha mãe pode entrar na sala?
– Abre os braços na altura dos ombros, paralelamente ao chão, como se você fosse voar. Assim. Fecha os olhos. Isso. E agora põe o indicador da mão direita no nariz, mas deixa o braço esquerdo estendido. Não, sem abrir os olhos. Os olhos. Agora volta esse braço para onde ele estava, e coloca o indicador da mão esquerda no nariz, mantendo o braço direito estendido. E vai alternando.
– Doutora, não sei onde está o nariz, é assim? Doutora, é assim, ou não? O que você está escrevendo? Eu tô com algum problema?
Mãe!
MANHÊ!
– Calma. Você não pode se assustar assim! Precisa tentar controlar mais esse nervoso, Adriana. Isso é coisa da sua cabeça, sabia? Por enquanto, segundo os testes, está tudo bem.
– Me fala mais sobre os estudos? Por favor?
Aparentemente, para uma grande parcela da população mundial, o final de ano pode ser uma época de muita angústia, agonia e mal-estar, ao contrário do que se espera de dias decorados de guirlandas, bolas brilhantes e musiquinhas.
O que para alguns é viagem de ano novo e fantasia branca parceladas até o próximo ano novo, para outros é ir ao centro espírita do Campo Belo virado(a) em diarréia e vertigem para tomar passe só de pensar na meia-noite do dia 31, e na obrigação de estar feliz de branco e mais bonito(a) que todos. Não basta estar feliz. Tem que dar cãibra nas bochechas. E não basta estar bonito(a). Tem que ser o(a) MAIS bonito(a) sarado(a) pegador(a) estiloso(a) bêbado(a) amado(a) drogado(a) e curtizeiro(a) dessa época em que gastamos todo o dinheiro que jamais teremos. Pra foto, né, amor.
Importante.
Fim de ano, na minha concepção, é achar que eu não fiz o suficiente, é ter certeza de que eu sou imatura demais para uma mulher de agora trinta anos, é me dar conta de que não fui nem metade dos dias que eu tinha planejado à academia, não parei de me comparar com os outros, continuo com muita raiva daquela pessoa que me fez um mal avassalador – e talvez eterno – mesmo fingindo que sou super bem resolvida. Não li mais de 50 livros como determinado no Réveillon passado, e fiquei no vermelho quase o ano inteiro, dizendo para o meu pai que estava “tranquila de grana, não se preocupa com isso, pai, tá tudo bem”. Não voltei a fumar só porque é caro, e ainda é difícil me manter na postura do cachorro inspirando e expirando lentamente durante o curso de yoga sem achar que é dali para uma uma pior.
Natal, para mim, é a casa com cheiro de tender e cravo desde o fim de novembro, disputa por ventilador entre os membros da família, e luzinhas que me acalentam, docilmente, em noites de silêncio e insônia (mas luzinhas quebradas, claro, porque sempre uma quebra, e depois quebra a outra, e depois sua mãe xinga o mundo todo falando que essa era nova, caramba, puxa vida, todo o ano é a mesma coisa, e “ai, estúpida, agora que acabei de enrolar essas luzinhas na árvore inteira vi que enrolei as quebradas, mas, que inferno, será que alguém pode me ajudar aqui? Será que é problema elétrico? Tem alguém que pode, por favor, tirar a cara desse celular, dessa doença de celular, dessa demência de celular, e vir me ajudar aqui? Acho que foi o hómi da Net, que ficou passando aqui com aquelas tralhas, ele deve ter esbarrado nas minhas luzinhas!”).
Ano novo é respirar fundo, olhar pela janela (piscando sem pausa, com a boca semiaberta por causa de sustos nada ritmados com os barulhos dos fogos), e apenas agradecer por estar viva depois de tudo. E também me sentir culpada por não saber e nunca ter sabido aproveitar a virada de outra forma. Nem quando eu me esforçava muito pra gostar de tudo isso eu gostava de verdade. Sempre foi mentira pra fingir ser um desses que gostam.
Lembrei dessa história toda na semana passada, quando descia a escadaria do metrô, e não senti minhas pernas. Cartazes de Natal para todos os lados, vários trabalhos a serem entregues na universidade, mais um ano longe do meu país, questões burocráticas a serem resolvidas, contas a serem pagas, a faxina que eu não fiz, os e-mails que eu precisava responder, a academia que eu estava adiando, a mensagem que eu não sabia se respondia ou não, aulas a serem preparadas e textos inacabados. Segurei no corrimão do metrô, quis chorar, mas não dava tempo, estava atrasada para uma reunião de fim de ano, em que eu deveria me mostrar muito profissionalmente bem decidida, lúcida e intestinalmente ok.
Talvez eu quisesse saber me comportar de outra forma. Talvez não. Talvez eu goste de me sentir diferente. Talvez não. Talvez três taças de champagne não vão me matar. Talvez vão. Talvez eu fale tudo isso porque eu queria, sim, ser tudo aquilo que eu abomino. Talvez não. Talvez você nunca vá entender. Talvez vá. Talvez dane-se o que você pensa.
Talvez não.
E talvez nenhum dos anteriores, mas o que importa é que talvez você só chegou até aqui porque está com medo, vertigem, e, mais do que isso, não sente suas pernas. E ocorre que é difícil mesmo conseguir uma consulta médica nesta época do ano (e disso eu entendo muito bem), para se certificar de que você não vai morrer na virada acabando com a felicidade histérica de todos à sua volta, e então você jogou “desespero” no Google, e me conheceu.
Se for este o caso, obrigada pela companhia, e não se preocupe, pois diante de todas essas regras e pressões sociais, você não tem problema nenhum. Só está sofrendo muito por ser
Normal.

6 comentários

  1. Que texto lindo! Desde que vi um texto seu, por acaso, no Facebook, sempre leio seus textos. Acho sempre algo com o qual me identifico. Desejo um ano novo de desejos e realizações! ❤️😘

  2. Amei o texto ! Drica desejo à você um 2019 com muito otimismo e esperança, pode acreditar, você inspira muitas pessoas, a mim particularmente. Não dá pra ser feliz o tempo todo, mas o tempo que der seja muuuito feliz e sem culpa ! Te adoro !!!!

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