Meu pai em um Adidas Roxo

Eu estava querendo um tênis Adidas. Mas não qualquer Adidas, eu queria o que tem um detalhezinho roxo atrás e dos lados, eu adoro roxo. E o meu novo Adidas combinaria com a minha saia da Farm que tem flores roxas (agora para o verão seria ótimo), e com calça jeans também daria certo, ficaria lindo, descompromissado, e eu pareceria pontual. Até vestididinho de verão iria com o novo tênis, tudo funcionaria, os meus cachos seriam mais cacheados, emagreceria sem ir à academia, meus exames de sangue estariam sempre em ordem – daqui até a eternindade -, e a vida teria outro tom. Um tom roxo. Compraria um Adidas roxo.

Passei em frente à loja de calçados, e vi o preço do tênis. Nem entrei. Preciso ser realista vivendo em euros e capengando pra pagar as contas. Muito triste e meio brava, não me movi da frente da vitrine. Ao invés disso, fiquei olhando para as pessoas dentro da loja, por trás do (não mais meu) Adidas roxo.

Tinha uma moça que, já no caixa, separava três pares de tênis para pagar, e um deles era um Adidas, mas não era o meu Adidas roxo, era um verde. Era dela, ela tinha razão de escolher a cor que ela gostava. Tinha também um senhor sentadinho e experimentando um sapato horrível. Ele precisava da mulher dele lá, gente, onde estava a mulher dele? Ele tinha mulher? Alguma mulher precisava avisá-lo. Queria ir lá eu e dizer: Senhor, oi, prazer, então, este sapato é horrível. Não compre, senhor. Compre o Adidas roxo pra sua neta. Não tem neta? Não tinha, agora tem! Bom, mas se ele podia comprar o sapato feio dele. Quem era eu pra dizer qualquer coisa que fosse.

Comecei a fazer umas contas – eu não sou, assim, a expert das contas – e no meio dos meus cálculos complexos, pensei no meu pai.  Papai é o cara mais inteligente que conheço. Gênio das exatas. Ele sempre fez o que pôde para eu tirar mais de 4,5 nas provas de matemática da escola e passar sem recuperação. Tentávamos de tudo: acordar mais cedo para estudar pois minha cabeça não era boa com números à noite; estudar à noite pois meu cérebro não era tão rápido pra números na manhã; ligava pra ele durante a tarde em semana de prova, aos prantos e virada na Trakinas de morango, perguntando quem foi o mal amado que havia inventado aquela merda de log, dizendo que eu preferia a morte à estudar aquilo – chegamos à conclusão de que à tarde meu raciocínio era um pouco mais tombado pro emocional do que pro lógico, portanto não tinha muito jeito, filhinha, você é boa pra outras coisas.

Pensando no meu pai e nos números, fiz um questionamento que achei bem relevante de ser feito naquela hora, e queria divir aqui com vocês: se eu acordasse um dia afim de comprar 1 milhão de Adidas Roxos, e tivesse dinheiro para tal, quanto seria necessário gastar?

Comecemos a regra de três (pra ficar mais didático para todos nós): se um Adidas roxo é 100 euros, um milhão é X. Uma vez X é X. Até aqui OK. Agora vem a parte mais difícil, que nos levará ao resultado, mas chegaremos lá. Inspira, e fica comigo. 100 vezes 1 milhão é assim – a gente corta os zeros do 100 (dica pra ficar mais fácil), e aí fica 1, OK? OK. Agora faremos 1 vez 1 milhão, e chegaremos ao resultado de 1 milhão (pai, é isso?). Agora acresentaremos 2 zeros ao final (lembra que eu tinha cortado dois zeros no início, ou não?) para obtermos o valor de X, mas não se preocupe, nada que você não consiga fazer. 2 zeros do 100 somados aos 6 zeros do milhão é igual a 8 zeros. Logo, o resultado da conta é 100 milhões de euros! Pai, tá ok? Ou seja, se eu tivesse dinheiro hoje, e acordasse afim de comprar um milhão de Adidas Roxos, eu utilizaria meus 100 milhões de euros, e compraria, ué. Eu poderia, mesmo, faria o que quisesse com meu dinheiro, queria ver alguém me impedir.

Mas aí eu pensei que se hoje eu tivesse 100 milhões de euros, o que eu ia querer mesmo, seria dar um presente pro meu pai. Por todos os anos de paciência. Por todos os anos acordando às 5h30 da manhã pra me ensinar algo que eu não aprenderia, me falando depois “mantenha a calma, filha” porque quem devia estar nervoso e preocupado era ele.

Por todas as vezes que ele foi me buscar em festinha decadente às 2 da manhã: “Paizinho, vamos negociar? Dá pra ser às 2h27? Estamos aqui discutindo sobre a última prova de biologia”; “Pai, estou aqui com a Amanda, uma amiga ótima que está indo morar na Coreia do Sul amanhã, é importante eu ficar mais, você poderia chegar às 3h05?”. Ou por todas as vezes que meu pai abriu o Google comigo em busca das possíveis causas de alguma dor nova perto do dedo mindinho da mão esquerda. O que aquilo poderia significar? Pancreatite? Febre amarela? Tuberculose? Papai sempre me auxiliou em minhas pesquisas. Ou então, por todos os shows de Sandy & Júnior que ele aceitou bancar para que eu ficasse mais ou menos próxima das narinas do Júnior. Ou ainda por todas as vezes que ele respondeu delicada e cuidadosamente à mensagens como: “Pai, não estou me sentindo bem. Você pode fazer uma lista das minhas características positivas para eu lembrar que eu valho à pena?”, papai sempre listou sem nem titubear.

Daria pro meu pai um barco. Para ele navegar pra onde quisesse ir, e me mandar em seguida as fotos tremidas e totalmente mal enquadradas dele com a legenda “pôr-do-sol”, sem nenhum emoticon, nenhuma pontuação, bem direto e de um jeito que me parece que ele está me dando bronca. Mas como o papai tem meio que receio do mar, acho que compraria uma pessoa que dirigiria o barco pra onde ele quisesse ir. Não, mãe, você iria na carona, com essa sua labirintite quer dirigir o barco? Ou ia dar vômito ou quebra-pau, compraria alguém, sim. Daria pro papai uma máquina de café profissional. Não, não daria não, porque daí ele não faria mais o melhor café de filtro do mundo, pura alquimia do paraíso, não quero dar esse presente. Daria um sapato bonito pro papai, e daria também um foguete. Não deve ter sido fácil morar com 4 mulheres de TPM ao mesmo tempo, e foguete me parece algo de menino, você gostaria de um foguete, pai? Eu te daria.

Te daria, também, passagens para todos os lugares do mundo em primeira classe, gente assim tão boa, e do coração tão puro e correto (até demais, né, pai, mas depois falamos sobre isso), não vai nem de executiva e nem de econômica, e eu não economizaria meus 100 milhões de euros com você. Acho que eu te compraria também o Dr. José Carlos porque sei bem que fobiquinho do jeito que é, adoraria ter ele perto a cada dúvida que você tem (eu também ia usar um pouco, tá, você me emprestaria esse presente? Tô cansada do Google, ele não é dócil comigo, ele me matrata).

Te daria um jantar romântico com a mamãe em qualquer lugar/país/planeta que vocês quisessem ir, e que, finalmente, não seria nada romântico, porque eu, a Dedi e a Caxu resolveríamos ir também, faz tanto tempo que não jantamos os 4 juntos, digo, 5, e eu poderia pagar tudo, mesmo, dane-se. Chamaria a Beyoncé pra ir também. Pagaria.

Pai, lembra que quando eu tinha 5 anos e era seu dia de me levar na escolinha do clube, você me balançava no parquinho até eu parar de chorar por medo de você ir embora, me comprava Cebolitos no Bar do Tênis pra eu comer de café da manhã sem a mamãe saber (naquela época não fazia mal, e agora a mamãe vai ficar sabendo), e depois íamos juntos tomar um copo de água antes de você ir pro trabalho e eu, bem alimentada, pra aula? Eu nunca esqueci. Ou quando, em uma noite em Ilhabela, eu não conseguia dormir de horror do barulho dos trovões, e ficamos os dois assustados olhando pela janela a revolta da natureza até de madrugada? (Sim, porque você admitiu que daquela vez estava “meio forte, mesmo”, e pulava mais alto que eu a cada trovoada). Ou, então, todas as vezes que eu te liguei perguntando se tinha farmácia no seu caminho pra casa, e você, sem nenhuma opção, dizia que sim, e aí saía em busca do meu absorvente que até você sabe melhor do que eu qual é? E ainda era obrigado a ouvir um “E , pai, por favor, voa”. E você sempre voou pra me salvar.

Então, olhando pela vitrine aquela moça e aquele senhor por trás do Adidas Roxo, e fazendo todos os meus cálculos, até perdi a vontade de comprar meu tênis que combinaria com minha saia da Farm, minha calça jeans de mulher moderna e pontual, meu vestidinho de verão, e que, ainda por cima, me emagreceria e me daria a eterninade. Não queria mais.

Porque se eu pudesse, pai, e se eu tivesse dinheiro pra comprar 1 milhão de Adidas Roxos, eu não compraria nenhum. Eu compraria o mundo. Mas eu daria ele todo pra você.

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