Entre conhecimentos e fumaças

Vasinhos floridos e bem instalados em janelas de casas que nunca deixaram de existir; portinhas de madeira simples, meio descascadas mas bem acabadas, escondendo por trás delas restaurantes não muito conhecidos por pura injustiça; cachorros grisalhos e órfãos, muito mais empáticos do que grande parte daqueles que se julgavam analistas; e alguns cafés e comércios necessários para dar charme e vontade de gastar um pouco. A largura da rua era do mesmo tamanho do que era possível aguentar naquele momento, e daí a conexão. Era tudo bem minimalista, bem detalhado, bem desenhado. Não mais. E a cidade moldava, a cada passo, uma cena que coubesse nas costas. As formas se confundiam com risos de crianças de todas as cores, e com a harpa de uma estudante que precisava pagar o aluguel e algumas dívidas a mais, que acabou fazendo com aquele tal de Bernard. Os espaços entre cada um dos paralelepípedos entregavam muita história. Ricos e pobres se trombavam por graça da rua, que ria escondida. O melhor da solidão era observar o barulho do banal em um silêncio raro. No terraço estreito de um daqueles cafés sem pretensão de ser nada mais do que um lugar de encontros – contanto que fossem consumíveis, claro –, uma velha magricela e uma adolescente gorda conversavam por trás de uma boa garrafa vinho e de um prato de queijos, cujo cheiro quase saciava a fome do mendigo sentado do outro lado da rua.

Vó, ouviu-se a adolescente perguntar, hesitante, incerta das suas palavras e do corpo que as proferiam: será que um dia meu pai vai querer me ver? A avó, tão grande em sua miudeza de gente que sabe mas não se exibe, respondeu com a propriedade de todos os seus anos de perdas dolorosas, mas igualmente determinantes: querida – começou a argumentar, e deu uma pausa para tragar o seu cigarro, voltando ao raciocínio logo depois, entre conhecimentos e fumaças – na vida existem dois tipos de pessoas: as que tomam vinho, e as que não prestam. E seu pai, nós sabemos bem, sempre foi de beber Coca-Cola.

Um ar leve lambeu a ruazinha, onde quase ouviu-se barulho de palmeira no verão da Bahia. Mas não deu tempo, Notre Dame observava tudo lá de trás.

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4 comentários sobre “Entre conhecimentos e fumaças

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